Arthur Soffiati - Usos liberdosos da história
* Arthur Soffiati 11/04/2026 08:57 - Atualizado em 11/04/2026 11:18

Muito frequentemente, as pessoas se valem da história como se ela fosse uma entidade com vida própria. Uma entidade que existe desde sempre e para sempre. Que já tem uma trajetória conhecida a priori, mas que pode ser mudada por algum acontecimento inesperado. Ou ainda uma entidade transcendental que olha e julga as pessoas de fora e do alto.
Tomemos alguns exemplos, lembrando sempre que o acontecimento histórico nunca pode ser entendido fora de um contexto maior e mais profundo que o historiador francês Fernand Braudel denominava conjuntura. Parece que a história se repete, pois alguns acontecimentos são semelhantes, mas é preciso examinar as conjunturas em que estão inseridos. Exemplo: a tentativa de golpe de Estado planejada por Jair Bolsonaro e um grupo mais próximo dele fracassou, seja por incompetência, o que parece mais provável, seja por analisar as circunstâncias e concluir que ela era adversa. Essa tentativa pode parecer com os golpes de Mussolini em 1922 (disfarçado, mas que deu certo) e com o de Hitler, de 1923 (que falhou). Na superfície, o segundo se assemelha ao de Bolsonaro, mas as conjunturas eram diferentes, e não haverá espaço aqui para analisá-las.
E as diferenças se acentuam mais quando mergulhamos nas estruturas. A expansão territorial do Império Romano pode se assemelhar à de Napoleão, mas as conjunturas e estruturas de ambas são muito distintas. No imaginário, a mística do Império romano valeu para Carlos Magno, para o Sacro Império Romano-Germânico, para o Império Otomano, para os califados muçulmanos, para Napoleão e para Império Czarista. Até para a URSS. Os contextos, porém, eram muito diferentes.
É comum ouvirmos ou lermos que um acontecimento é histórico, significando que se trata de um acontecimento grandioso. Todo acontecimento é histórico se colocado na sua série. Quem diria que um acidente de bicicleta, um gesto obsceno praticado publicamente ou o nascimento de uma criança são históricos? No entanto, são quando inseridos na sua série. Já existem autores que estudam a história dos acidentes de trânsito, da pornografia e dos nascimentos. Não cabe comparação entre um estupro e a guerra do Irã, mas ambos são acontecimentos históricos.
É muito comum, também, afirmar que um acontecimento mudou a história. O pressuposto, aqui, é que já se conhece o rumo da história do começo ao fim. Na verdade, a concepção ocidental de tempo cronológico favorece a crença num rumo predeterminado da história. Ela é linear, ascendente, expansiva, finalista e teleológica. Começa num ponto baixo e termina num ponto elevado. Alarga-se à medida que avança e chega a um final, dirigida por uma força externa (no caso religioso) ou interna (no caso marxista).
Podemos reconhecer uma tendência no processo histórico, mas não um fim. Se não conhecemos o rumo da história, não podemos afirmar que um acontecimento mudou seu curso. Entendo que as pessoas querem dizer que o acontecimento parece surpreendente diante do esperado. Edgar Morin escreveu que o pacto germano-soviético, em 1939, e a invasão da União Soviética por Hitler, em 1941, eram inesperados e improváveis diante do curso dos acontecimentos.
Fala-se também de uma pessoa ou de um acontecimento hediondo que serão julgados pela história futuramente. Tomemos, mais uma vez o caso de Hitler. O nazismo foi julgado e condenado pelo Tribunal de Nuremberg, mas o neonazismo está se fortalecendo e sendo seguido pelos partidos de ultradireita nos países europeus e fora deles. O genocídio de judeus é um ponto de referência para judeus e outros, mas o Estado sionista de Israel tem promovido o genocídio de palestinos. Como dizia Luiz Fernado Veríssimo, a história não é um tribunal que nos espera no futuro. Quem nos estudará são os historiadores, de tendências diversas. Ilan Peppe é um historiador judeu implacável com o sionismo.
Concluindo, por hoje, é engraçado para mim uma pessoa afirmar que algo não é mais admissível no século XXI. Exemplo: “Em pleno século XXI, não se pode mais admitir tanto assédio sexual. Isso é coisa do tempo das cavernas”. Penso aqui em alguém dizendo que, em pleno século XIV, não era mais admissível uma doença como a Peste Negra. O tempo cronológico não justifica o cometimento de algo ou um evento. O que explica um acontecimento é o contexto histórico. A complexidade criada pelo ocidente no processo de globalização é que explica as bombas atômicas, a dependência dos combustíveis fósseis, as guerras, as epidemias, a agressividade humana acentuada pela internet e tantas coisas mais. Contudo, sei que não mudarei o hábito das pessoas com este artigo. Então, deixa quieto.

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