Matheus Berriel
23/04/2026 13:33 - Atualizado em 23/04/2026 14:06
Marcão Baixada participou do Festival Para Além das Rimas em Campos
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Foto: Marimba Produções/Divulgação
Natural de São João de Meriti e criado em Mesquita, o rapper Marcão Baixada se destaca por um trabalho que tem como principal característica a conexão entre sonoridade e território. Seu próprio nome artístico evidencia a Baixada Fluminense, de onde veio e que também está muito presente nas suas composições e interpretações. Foram elas que o levaram tanto ao título do evento Take Back the Mic, em Miami, no ano de 2015, e ao palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, quanto a diversos festivais independentes. No último sábado (19), por exemplo, ele participou de uma rodada de negócios no Festival Para Além da Rima (PAR), no Palácio da Cultura, em Campos.
Além de cantor e compositor, Marcão Baixada também é produtor musical, exercendo a função de gerente de artistas e repertório (A&R) da distribuidora One Publishing. Confira abaixo a sua entrevista, pontuada em tópicos.
Identificação com o cenário do rap campista
— Não conheço as batalhas (de rimas) de Campos, mas conheço alguns artistas, principalmente o Zabu, que tem um trabalho incrível, e o próprio Suntizil. Me identifico muito. Tive oportunidade de estar em Campos em 2023, participando de uma atividade parecida, e me identifiquei muito com a realidade de onde parte o trabalho artístico. Quando eu falo do Marcão enquanto rapper e produtor musical, por vir da Baixada Fluminense, eu trago muito essa coisa. Apesar de a Baixada estar na Região Metropolitana do Rio geograficamente, próxima da capital, a gente não necessariamente faz parte dela quando se pensa em mercado da música. Então, existe muito essa demanda, essa necessidade de às vezes precisar se deslocar e sair do nosso território de origem para estar na vitrine. Quando vim a Campos, me identifiquei muito com os desafios, o trabalho de formação de plateia, construção de comunidade e construção de cena. Pelo que percebi na troca com os artistas daqui, são desafios bem parecidos com os que eu tive ao longo da minha carreira, sendo da Baixada. Acabou surgindo uma identificação natural. Tenho acompanhado o trabalho da galera aqui do Norte Fluminense, de Campos e Macaé. E tem uma galera que faz o caminho contrário: em vez de ir para a capital, acaba ficando próximo ali, em Niterói, naquele eixo.
Profissionalização e planejamento de carreira
— Eu acho que existe algo a ser superado, mas que parte muito do lugar de formação. O que a gente está vendo hoje são muitos artistas periféricos, de favela, tendo acesso a um mercado e à grana que esse mercado gira. Mas ainda falta uma preocupação legítima com a profissionalização, não só do próprio artista, mas também de quem está no entorno; se cercar de uma equipe profissional. Eu entendo que boa parte das estruturas que têm surgido no rap e no funk tem núcleos familiares ou de ciclos de amigos: o artista conta com um amigo que ajuda fazendo um vídeo no celular, um parente que ajuda na parte da logística, um primo que cuida das finanças... Então, eu sinto muito que falta esse artista conseguir fornecer acesso para que as pessoas que trabalham com ele possam se capacitar, ter um caminho de longevidade nessas carreiras. A gente vê muito o rap sendo associado à ostentação, que faz parte da narrativa da cultura. Mas, eu acho que também é muito importante os artistas pensarem em carreira a longo prazo. Isso vai determinar não só a permanência deles no cenário, mas também a possibilidade de, lá na frente, caso não queiram mais atuar como artistas ou o gênero não esteja mais tão visado comercialmente, pelo menos já ter sido construído um patrimônio, algo com que eles consigam dar continuidade.
Barreiras para divulgação na mídia tradicional
— O grande desafio dos gêneros musicais que a gente coloca na caixa da música urbana se dá muito pelo conteúdo explícito. Existe esse ponto. Nem todos os artistas têm uma preocupação, e acho que nem parte só de um lugar de preocupação. Alguns temas abordados acabam impedindo que se consiga furar a bolha da mídia tradicional. Tem muito artista conhecido na internet, famoso nas redes sociais, com muitos números de ouvintes mensais, mas que não é acessado pelo brasileiro que não assina uma plataforma de streaming ou consome conteúdo de notícia de música através das redes sociais. Ainda existe essa barreira. Às vezes, a música é muito explícita, tem muito palavrão ou uma conotação sexual muito evidente, que dificulta a entrada em uma programação de rádio e tudo mais. A galera do funk já tem um pouco mais desse caminho de fazer uma versão light da música, mas a galera do rap no Brasil acaba não fazendo muito esse caminho. É uma provocação interessante, porque no mercado lá fora, principalmente de quem está estruturado em uma gravadora, os álbuns saem tanto com a versão explícita quanto com a que eles chamam de clean. Aqui no Brasil, a gente ainda não tem tanto essa coisa. Acho que parte muito desse lugar do conteúdo explícito.
Redução na frequência dos festivais de rap
— Não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil como um todo, houve o reflexo da efervescência dos festivais após a pandemia. Na Baixada, a gente lidou muito com as coisas dos festivais de rap; chegou a haver festivais de rock, festivais de flashback revivendo bandas dos anos 1980 e 1990. Pelo menos no contexto da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, isso deu uma saturada, porque estavam acontecendo muitos festivais num período muito curto de tempo. Consequentemente, não havia demanda de público para tantos festivais. Se eu comprei ingressos para dois, três festivais, e ainda tem mais quatro para acontecer, talvez eu não vá ter uma condição financeira para comprar os outros ingressos. Então, acho que as ticketerias e as produtoras sentiram isso. Os artistas, produtores e empresários que tiveram oportunidade de estar performando, tiveram um timingbem certeiro; e quem conseguiu diminuir esse fluxo de eventos evitou o risco de ter prejuízo financeiro, porque, pelo menos no Rio, a gente viu festivais ficando muito vazios de público nos últimos dois anos, com bilheteria baixa. Acho que é mais um comportamento do consumo do que propriamente a performance dos gêneros dentro das line-ups dos eventos.
Construção de identidade
— Eu escolhi ter no meu nome artístico o lugar de onde eu venho, que é a Baixada Fluminense, muito por uma busca de quebrar um estigma de que a Baixada é um lugar que só está relacionado a notícias ruins na mídia, casos de violência e tudo mais. Eu consegui entender (a importância de) falar do meu território explicitamente e implicitamente nas minhas músicas. Nem sempre eu falo propriamente da Baixada, mas falo de algo muito peculiar, como mostrar que eu sei o que é Via Light, sei o que é a Dutra e tal. Acaba se gerando uma conexão pela identificação. Eu penso muito no território como identidade; não só do que eu quero comunicar como artista quando posto uma foto ou um vídeo na rede social, mas também em como a sonoridade da música que eu faço reflete isso de alguma forma. Mesmo sendo artista de rap, sempre busquei muito brincar com a coisa de trazer a estética do funk, fazer referência disso nas letras de alguma forma; falar de bandas da cultura do rock, que também foi algo muito presente na minha juventude. Eu vinha de uma cena do município de Mesquita, a Passarela do Rock, que todos os meus amigos frequentavam. A Baixada tem muito dessa coisa de mistura: as tribos conversam. A galera que curte skate curte rap, mas também ouve rock e, se der mole, estava em uma micareta nos anos 2000. Então, tem muito disso na forma como a gente acaba fazendo música vindo da Baixada.