Arthur Soffiati - Meu território
* Arthur Soffiati 25/07/2026 12:04 - Atualizado em 25/07/2026 12:04
Reporto-me ao historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie (1929-2014), que, entre seus títulos, publicou o livro “O território do historiador”, reunindo artigos sobre livros de historiadores. Ele integrou a famosa Escola dos Annales, conhecida por integrar historiadores como Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel.
Braudel conferiu um grande peso à natureza nos seus livros, mas ainda entendendeo que ela é uma espécie de extensão do ser humano. Em seu livro “As civilizações atuais”, ele escreve que uma civilização é também um espaço natural. Ladurie é bem mais ousado. No livro “História do clima desde o ano mil”, ele estuda as mudanças climáticas naturais na Europa, recorrendo a ciências estranhas ao historiador: glaciologia, dendrologia e palinologia. Foi preciso, para tanto, adquirir rudimentos dessas ciências, como fez Warren Dean ao estudar a destruição da Mata Atlântica em perspectiva histórica.
Ladurie declarou que, em relação às mudanças climáticas, ele recorria também a documentos deixados por pessoas não para traçar as influências do clima sobre as sociedades humanas, mas para obter deles informações sobre o clima. Depois de aposentado, ele continuou a escrever sobre mudanças climáticas, agora não puramente naturais, mas resultantes de ações humanas sobre o clima.
Emmanuel Le Roy Ladurie, Warren Dean e Alfred Crosby exerceram forte influência na minha formação de historiador, se é que posso me considerar um. Primeiramente, eles me tiraram de arquivos e gabinetes e me lançaram no mundo exterior. Ao lado de documentos escritos, mapas e imagens, acrescentei também a própria natureza estudada. Em certos momentos, Ladurie esquece que é historiador e mergulha em outros campos do saber. Procurei manter os pés fincados na história, visitando, de vez em quando, outros domínios do saber, como geologia, hidrologia, biologia e geografia.
Desde o princípio da minha modesta produção historiografia (quase que escrevo ofício), demarquei um território: as regiões norte e noroeste fluminense e o sul capixaba. Percebi que as três apresentavam unidade na diversidade. Que os limites traçados pelos humanos, como fronteiras nacionais, estaduais e municipais, são artificiais e dançam ao longo do tempo.
Efetuei um recorte no bioma Atlântico que denominei de ecorregião de São Tomé. Percebi que a linha costeira entre os rios Itapemirim e Macaé não apresenta nenhuma formação pedregosa, no continente e no mar. A parte mais nova dela é constituída por três restingas, por uma grande planície aluvial, por duas unidades de tabuleiros e por boa porção da zona serrana, chegando a incluir parte da Zona da Mata Mineira.
Este recorte é irrigado pelo grande rio Paraíba do Sul e pelos rios Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba e Macaé e seus afluentes. Conta com um sistema constituído por rios e lagoas em que se destaca a grande lagoa Feia. Nos tabuleiros, na planície aluvial e nas restingas, existiam muitas lagoas. A zona serrana e os tabuleiros eram originalmente cobertos pela Mata Atlântica. A grande umidade das lagoas da planície aluvial não permitia o desenvolvimento de vegetação de grande porte. Já as restingas contavam com árvores na parte mais afastada do mar. A vegetação diminuía de porte progressivamente em direção à linha costeira. Na foz dos rios no mar, a formação de estuários permitiu o desenvolvimento de manguezais.
Demarcado o território de minhas análises, examinei os povos que a colonizaram primeiramente. Foram nações indígenas do grande grupo linguístico macro-jê. Eles desenvolveram modos de vida adaptados à natureza, modos esses que não podem ser classificados como paleolíticos ou neolíticos, conceitos criados para a Europa e para o Oriente Médio. Não os considero também como primitivos e pré-históricos. Eles têm a sua história.
A partir de 1500, aportam os portugueses. Por meio deles, chega à América a civilização ocidental. Seus representantes não se adaptam ao meio natural, mas buscam adaptá-lo a sua economia e ao seu modo de vida. Sustento a hipótese segundo a qual a Ecorregião de São Tomé não apresentou grande interesse para os europeus durante 100 anos pelo excesso de umidade. Só no século XVII, inicia-se uma colonização europeia contínua, que implicou na progressiva drenagem da planície para a agricultura e o gado. Os povos nativos foram sendo exterminados. Ao colonizar os tabuleiros e a serra, as florestas foram abatidas. Os limites das capitanias, províncias, regiões e estados sofreram mudanças.
Escolhi a história local e regional articulada à história da globalização e agora também à história planetária por conta do excesso de exploração da natureza. Não apenas a humanidade conta com história. Também a natureza conta agora com uma história social. E não apenas quanto ao clima, às florestas e aos oceanos. Em plano regional e local, mudanças menores, mas provenientes do mesmo processo, também ocorrem. Esse é o campo de estudo a que me dedico.



*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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