Arthur Soffiati - Do local ao global
* Arthur Soffiati 13/06/2026 08:19 - Atualizado em 13/06/2026 08:19
Todos os povos e suas culturas, que existiram e existem, têm, no seu panteão, uma entidade fundadora, geralmente no plano mítico. Elohim, no mundo judaico-cristão-muçulmano. Nüwa, na tradição chinesa, é a deusa-mãe criadora da humanidade. No hinduísmo, o deus Brahma criou os humanos a partir do seu próprio corpo. Os sacerdotes brotaram de sua boca, os guerreiros de seus braços, os agricultores e comerciantes de suas coxas, e os trabalhadores de seus pés. Entre os gregos, Gaia e seu filho Urano se uniram sexualmente para gerar os outros deuses e a humanidade. Entre os povos indígenas de todos os continentes, há entidade divinas fundadoras.
A civilização ocidental cristã abandonou seu mito cósmico fundador. Dessacralizada, ela substituiu o plano celestial pelo plano terreno. Passou-se a buscar uma entidade real, num tempo real, para marcar o início de um lugar. Essa busca nem sempre consegue se desvencilhar de um tempo mítico. De um tempo construído pelo constante presente em relação a um passado em constante mudança.
Em todos os lugares por onde andei e perguntei sobre sua fundação, sempre obtive como resposta que existiu um herói de carne e osso que lançou uma pedra fundamental nos seus primórdios. E a afirmação sempre gera controvérsias. Se existe uma corrente bem fundamentada sobre a origem de um lugar, sempre há contestação. Não basta uma análise do processo que resultou na fundação. É imprescindível uma data precisa e um herói fundador.
Restrinjo-me à região em que vivo: o Norte Fluminense. Cada cidade, vila, aldeia necessita de um marco inicial e de algum acontecimento que lhe confira alguma glória. Ou um religioso que instalou uma pedra fundamental ou um movimento rebelde que lutou contra o poder impositivo ou um ato glorioso.
Pelo prisma da história da globalização, o princípio geral pode situar-se no século XV, quando havia culturas as mais distintas em todos os continentes que podiam ter contatos e até formar impérios limitados. De todas as culturas então existentes, aquela que se formou na Europa Ocidental construiu uma economia em que a produção foi subordinada pelo comércio. As demais desenvolveram a atividade comercial, mas a produção sempre a subordinou. Em outras palavras, o comércio crescia ou diminuía de acordo com o movimento pendular da produção. Nasceu, assim, o modo de produção capitalista que, para continuar existindo, precisava sempre estimular a produção e o comércio.
Foi ele, para o bem ou para o mal, que impulsionou as Cruzadas e a expansão marítima da Europa Ocidental. Foi ele que promoveu a escravização de africanos e de indígenas americanos. Foi ele que impôs seus valores culturais a outros povos, promovendo, pouco a pouco, o que se conhece por globalização. Foi ele que pretendeu ocidentalizar o mundo. Até mesmo um crítico radical do modo de produção capitalista, como Marx, entendeu que era fundamental ocidentalizar o mundo e proletarizar seus habitantes para criar condições que promovessem uma revolução comunista.
Em parte, o processo de ocidentalização do mundo foi bem sucedido. Por mais que a China, o Japão, a Índia, as nações africanas, os povos indígenas da Amazônia e da Oceania conservem traços de suas culturas originais, todas as nações e seus povos vivem sob um mesmo sistema econômico e, em grande medida, cultural. É o sistema ocidental. É o sistema imposto pela Europa aos demais povos.
O historiador vive um dilema. A expansão marítima foi um processo entendido pela maior parte dos europeus como glorioso. Tratava-se de levar aos outros povos a salvação dos corpos e das almas. Poucos foram os seus críticos nos seus primórdios. A revolução industrial foi considerada um grande passo rumo ao “progresso”. Poucos alertaram quanto a seus perigos. Os movimentos políticos de independência das colônias europeias romperam os laços institucionais com suas metrópoles, mas criaram Estados Nacionais europeus fora da Europa com instituições europeias. Hoje, fala-se muito em movimentos decoloniais e pós-coloniais, mas parece muito difícil repudiar todas as instituições europeias fora da Europa.
Assim, o esforço para buscar a origem de cada localidade nasceu na Europa e foi exportado para o mundo dominado pela cultura europeia. A população ou os intelectuais de um lugar, por menor que seja, devem considerar que essa busca e suas contestações fazem parte da herança cultural deixada pelos europeus. Na América, na África, na Ásia, na Oceania, na mais distante ilha do Pacífico. Substituímos o mito sobrenatural pelo mito terrenal, como bem mostraram Raoul Girardet e José Murilo de Carvalho.



*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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