Arthur Soffiati - O retorno do goitacá
Não sei se é um movimento cíclico ou se alguma novidade traz o goitacá de novo à baila. Acho que, dessa vez, ele voltou pelas artes da inteligência artificial, que está fazendo miséria em termos de erro e de informações equivocadas. Não vislumbro na IA qualquer laivo de reflexão. Ela recolhe informações disparatadas, procede a uma organização elementar e atende ao cliente superficial como ela. E o resultado é passado adiante.
Circulou por esses dias um vídeo em que os goitacases voltam a assombrar os vivos por sua brutalidade. Bem na linha de Jean de Léry e de Simão de Vasconcelos, o primeiro no século XVI e o segundo no século XVII. Para ambos, o goitacá integrava a nação mais bárbara do mundo. Léry nunca pôs os pés no futuro Norte Fluminense. Tudo o que soube sobre o goitacá veio da boca de um marinheiro do navio em que ele estava, o qual, por sua vez, ouviu de outro. A diferença entre Léry e o marinheiro é que Léry escreveu um livro repleto de aspectos maravilhosos. Era tudo o que os europeus desejavam.
E assim, o goitacá ganhou caraterísticas marcantes, como, por exemplo, serem grandes corredores e nadadores nos rios, lagoas e no mar. De untarem seus corpos com gordura e nadarem nus no mar para atrair tubarões, na boca dos quais colocavam paus pontiagudos nas duas pontas. Assim fisgados, eram puxados para a praia onde eram mortos a paulada apenas com o fim de lhes extrair os dentes para fazer pontas de flecha.
Até mesmo Alberto Ribeiro Lamego acreditou nas histórias fabulosas sobre o goitacá. Em “A planície do solar e da senzala” (1934), ele acreditou que os povoadores pré-europeus da planície faziam suas casas sobre troncos de árvores fincados em lagoas. Sendo pequenas, as casinholas só permitiam a ocupação por um homem, uma mulher e filhos. Assim, mesmo antes dos europeus, o goitacá vivia em família celular, e não comunitária, como a arqueologia demonstrou. Daí a identificação entre europeu e goitacá. Mais ainda, o brejo era o elemento que estimulava tanto o nativo quanto o forâneo.
Lamenta-se que não existam representações pictóricas do goitacá como houve com os puris, os coropós e os coroados. Lembremos que os colonos portugueses não eram chegados a prestar informações serenas, tampouco a praticar desenho. Só conheço um português que ilustrou suas informações com desenhos. Foi o Frei Cristóvão de Lisboa em sua “História dos animais e das árvores do Maranhão” (Lisboa: Arquivo Histórico Ultramarino e Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1967).
Os naturalistas estrangeiros só puderam entrar no Brasil com a abertura dos portos por D. João, em 1808. Os que entraram antes usaram da força. Foram franceses e holandeses. Eles deixaram desenhos e pinturas e nenhum andou por aqui no período colonial. Assim, não tivemos um Maximiliano de Wied-Neuwied nem um von Martius para representarem os goitacás em desenhos e pinturas, assim como registrar seu vocabulário.
Em 1785, o capitão-cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis informou que o goitacá não mais existia, mas coroados, puris, saruçus, coropós, todos do grande grupo linguístico macro-jê ainda existiam, embora em franco declínio. Em 1834, Joaquim Norberto de Souza Silva informava que as reduções indígenas em toda a Província do Rio de Janeiro estavam à beira da extinção não pelo sistema adotado pelos europeus, mas pelos padres incompetentes. Há quem diga que os povos indígenas pediram para ser catequizados. Isso nunca ocorreu. Eles foram forçados a aceitar a religião estrangeira e a trabalhar para os invasores. Cito apenas o testemunho do também padre José Joaquim da Cunha de Azevedo Coutinho.
Com a república, os índios selvagens e bárbaros passaram a heróis. Daí o culto que ainda hoje devotamos ao goitacá. Fala-se até em análise de DNA para recuperar sua fisionomia. Ela pode ajudar, mas não revela como o goitacá se ornava e como vivia. Com o pouco que salvou, tenta-se mais descrever enterramentos, ossos, cacos cerâmicos, pontas de flecha, objetos de pedra do que reconstituir parcialmente a vida imaterial desses povos.
Em síntese: os Sete Capitães encontraram o goitacá receptivo em 1632. Entre eles, viviam náufragos, degredados e escravizados fugidos. No final do século XVIII, não viviam mais. Na minha visão, a nação goitacá, com suas divisões, foi exterminada por doenças e armas. Ela sofreu um genocídio etnocida perpetrado pelos europeus portugueses.
Hoje, as pessoas mais sensatas buscam recuperar a imagem do goitacá por descrições, retratos falados e inteligência artificial. A agropecuária e as cidades cresceram sobre sítios arqueológicos, destruindo-os. Os mais fantasiosos creem poder reviver o goitacá em suas próprias pessoas.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.