A política de saúde mental de Campos precisa ter continuidade
03/01/2021 | 13h37
O governo Rafael Diniz foi um fracasso político e administrativo. Mas nem tudo deu errado. A política de saúde mental, por exemplo, deu certo e deveria ser continuada pelo novo governo.
Orientada pelos princípios da reforma psiquiátrica, a gestão municipal da Rede de Atenção Psicossocial (RAPs) priorizou a implantação de alternativas às internações enquanto solução absoluta para problemas de saúde mental. Quem, durante décadas, encheu a burra de dinheiro com a contratação de internações ficou muito chateado com o fechamento de leitos anticiência e especializados na tortura. Mas quem pode se cuidar em liberdade sabe o valor desta política.
Ainda há muito o que ser feito, mas voltar à política de internações, vigente nos governos da família Garotinho, seria um sinal claro de que o novo governo despreza a política pública baseada em evidências científicas e que prioriza compromissos ilegítimos com quem lucra com internações.
Espero que Wladimir não destrua a Rede de Atenção Psicossocial em Campos. Se seguir este caminho, estará cometendo um crime negacionista contra a saúde pública. Se continuar a política será um sinal de que se liberta do negacionismo que sempre marcou o estilo de seu grupo político mais íntimo. 
Política pública de saúde mental não é coisa de grupo vulnerável. Nesta pandemia fica evidente que se trata de uma questão universal de saúde pública. Cabe a todos os democratas pressionar para que o novo prefeito não cometa este negacionismo cruel.
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O papel das pesquisas eleitorais na democracia
03/12/2020 | 16h23
Precisamos discutir o papel das pesquisas eleitorais na democracia. O questionamento das sondagens é costumeiro e esperado por parte de quem se vê em desvantagem e compõe também o cardápio de quem pretende desestabilizar o processo democrático. No pacote “antisistema” da extrema-direita, por exemplo, é típico negar a pesquisa, desqualificar a imprensa e duvidar da lisura do procedimento eleitoral. Mas isso não invalidada todos os questionamentos que se fazem. Ao contrário, é preciso levar a sério a desconfiança com as pesquisas eleitorais, pois esta desconfiança tem significado para o processo democrático. Essa desconfiança não é uma característica exclusiva da extrema-direita e sua difusão representa um problema adicional para a democracia.
Ao observar as eleições de 2020 em diferentes municípios, é impossível não se impressionar com a falta de efetividade da regulação jurídica sobre a produção e divulgação de pesquisas de intenção de voto. A regulação jurídica da pesquisa eleitoral está vinculada a seu papel na construção da opinião pública e na orientação do voto. Pesquisa eleitoral não é mero instrumento de informação ao livre dispor de seus interessados, realizadores e divulgadores. Elas podem se transformar em recursos de poder nas mãos de quem disputa ou deseja influenciar eleições. Em municípios pequenos, como os do noroeste fluminense, a falsificação e a divulgação clandestina de pesquisas (sobretudo via Whatsappp) acontece sem cerimônia e ajuda a alimentar o já rico e intenso fluxo de notícais falsas capazes de influenciar a decisão dos eleitores. Em municípios maiores, como Campos dos Goytacazes, a divulgação clandestina não é eficaz, mas a manipulação de resultados na origem (a relação entre contratante e contratado) continua sendo possível e utilizada como recurso eleitoral.
À medida que a regulação jurídica não é efetiva, as pesquisas vão sendo crescentemente percebidas como instrumentos para influenciar o voto, e não apenas pelos negacionistas de plantão. E ainda que esta percepção possa ser exagerada, não há como negar que o contraste entre o resultado das urnas e as pesquisas de véspera alimentam, com evidências críveis, questionamentos legítimos e incontornáveis. A democracia depende não apenas de procedimentos formais como as eleições, mas também de práticas e expectativas informais construídas na opinião pública, especialmente porque estas práticas e expectativas podem influenciar a dimensão formal do sistema democrático. Ao escapar ou subverter a regulação jurídica, a atividade de pesquisa eleitoral pode exercer influência ilegítima e decisiva sobre o comportamento de eleitor e comprometer a democracia. Este me parece ser o caso quando pesquisas eleitorais, divulgadas há poucos dias das eleições, declaram a disputa encerrada, estimulando a desmobilização na campanha dos supostos perdedores antecipados e contribuindo para agravar o problema da abstenção eleitoral e consequentemente a crise de representação da democracia.
A disputa do segundo turno em Campos dos Goytacazes é um exemplo. Pesquisa do Ibope, divulgada na quarta-feira antes do pleito, apontava uma vitória de Wladimir sobre Caio por 57% a 43% dos votos válidos. O resultado das urnas foi de 52,4% para Wladimir contra 47,6% para Caio. Por mais que a diferença possa ser justificada pela margem de erro, a divulgação dos resultados da sondagem como “vótos válidos” pode ter criado ou alimentado um falso cenário de jogo encerrado capaz de ter efeito desmobilizador sobre parte dos eleitores que pretendia votar em Caio. Pode-se alegar que os erros das pesquisas eleitorais têm a mesma natureza das incertezas de qualquer pesquisa científica. De fato, não cabe a nenhuma norma ou decisão jurídica obrigar a produção de certezas cientificamente inviáveis. Mas é um equívoco tratar os erros das pesquisas eleitorais como sendo da mesma natureza daqueles que podem ser cometidos pela pesquisa cientíica em sua esfera própria de atividade. Em seus efeitos, a pesquisa eleitoral não opera no domínio da ciência, mas sim no da política. Incertezas científicas na ciência produzem questionamentos científicos e mais pesquisa científica para enfrentá-los. Na política, mesmo que as pesquisas sejam honestas, elas podem influenciar o resultado eleitoral e corromper a soberania popular. Mesmo que não possamos contar com estudos conclusivos sobre esta possível influência, sua mera possibilidade já é motivo suficiente para discutir o papel e a regulação da divulgação das songagens no processo democrático e eleitoral. A erosão das crenças que sustentam a adesão ao procedimento eleitoral e à democracia é incremental, embora as vezes dê saltos. Não são apenas as notícias falsas e os ataques explícitos ao processo eleitoral que alimentam esta erosão. Vários fatores contribuem. Entre eles a desconfiança de que instrumentos de informação e pesquisa podem estar a serviço das partes envolvidas na competição eleitoral. A efetividade da regulação jurídica das pesquisas não deve buscar combater apenas a produção e divulgação ilegal de pesquisas. Deve garantir também uma clima de confiança na opinião pública sobre o papel destas pesquisas na democracia. A legalidade precisa ser efetiva também para garantir a legitimidade das pesquias, ou seja, a crença compartilhada por eleitores e candidatos de que elas não servem de recurso ilegitimo de poder nas mãos de uns e outros. Como propõe o jurista Eriko Ferrari Nogueira, em artigo públicado na Revista da Faculdade de Direito da UFMG, “é conveniente que a comunidade jurídica repense a divulgação irrestrita de pesquisas eleitorais sob o manto do direito à informação e à liberdade de expressão, mormente em véspera eleitoral. Tal fundamentação também pode, de outro modo, subsidiar o aperfeiçoamento do processo eleitoral, para que se restrinja as pesquisas eleitorais” (NOGUEIRA, 2012, p. 116).
Referências:
NOGUEIRA, Érico Ferrari. As PESQUISAS ELEITORAIS COMO CONDICIONANTES DO JOGO DEMOCRÁTICO. REVISTA DA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG, [S.l.], n. 60, p. 95-120, jul. 2012. ISSN 1984-1841.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Maradona e a sacralidade transcendente dos mundanos
28/11/2020 | 16h34
Não consigo parar de ver a conversa entre Maradona e Pelé no La Noche del Diez. Não tinha visto antes. E, claro, impulsionado pelo vício de sociólogo, o tempo todo pensando no fenômeno em que estou envolvido. Fixei-me na conhecida tese de que buscamos transcendência e sacralização mesmo sem o pertencimento e o discurso religioso.
Durkheim e José Casanova, e suas reflexóes sociológicas sobre a religião, me vieram à cabeça. De Durkheim, a ideia de que a "efeverscência coletiva" e a "sacralização" de pessoas e coisas sugerem uma afinidade ontológica entre religão e sociedade. Como se toda forma de vida social fosse constituída por crenças de natureza religiosa, ainda que os envolvidos, como eu, no caso de Maradona, não estivessem convencidos a aderir a uma religião, como eu ainda (isso pode mudar...) não estou convencido a entrar na Igreja Maradoniana, onde é possível realizar batismos e casamentos. De Casanova me veio a ideia que corrige uma confusão presente em Durkheim: a mistura entre as dimensões distintas da sacralidade, da transcendência e da religião. Existe sacralidade além da religião e sem transcendência, pois pessoas e coisas mundanas podem ser sagradas, como Maradona e Pelé são.
Existem pessoas e coisas sagradas e transcendentes que não são e nem precisam ser religiosas para serem sagradas e transcendentes. Fiquei pensando que Maradona e Pelé, assim como a conversa entre os dois, são pessoas e coisas sagradas e transcendentes, indepentente se serem pessoas e coisas religiosas. Os dois são religiosos, mas sua sacralidade e transcendência independe disso. O futebol também produz sacralidade e transcendência por sua própria lógica. Maradona e Pelé, cada um a seu modo, representam uma dimensão sagrada e transcendente para Argentina e Brasil, produzida pelo futebol, mas que tem consequências duradouras na identidade nacional de cada país. Não apenas a sociologia da religião, mas também a sociologia do futebol indica que nossa sociedade vai muito além do que a vã sociologia costuma supor. A pessoa não se esgota nos enquadramentos biológicos, culutrais e sociais de seu contexto. Ele os transcende. E o que transcende em Maradona? Seguindo a legião dos fiéis, digo que é a ideia de um ser humano sacralizado não pela sua perfeição, mas pela combinação entre perfeição e imperfeição, que nos remete ao visceral contato entre cristãos e pagãos. O gênio argentino exemplifica a combinação entre o ideal cristão do amor e o ideal pagão da grandeza. Ou seja, o cristianismo real e sincero de toda época, em sua tarefa de sacralizar o homem e humanizar Deus.
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A eleição em Campos não está decidida
20/11/2020 | 10h36
Antes das eleições no primeiro turno, eu disse em entrevista ao Folha no Ar que a desesperança era a marca da campanha para a prefeitura de Campos. De 2016 para 2020 a abstenção eleitoral subiu de 18% para 25%. Além da Covid ter possivelmente contribuído para este aumento, a subida por sí só não pode ser tomada como indicador de desesperança. Mas acho que boa parte desta abstenção cresceu sim correlacionada com este sentimento negativo em relação à política municipal. No segundo turno é diferente, pois o voto motivado como veto tende a aumentar de peso, contrabalanceando o papel que a esperança dacadente não pode desempenhar. Por isso, acredito que a rejeição à "família Garotinho" pode motivar muita gente a ir votar no segundo turno para evitar a volta deste grupo político ao poder. Não acredito que a eleição já esteja decidida.
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Por uma Campos mais rica e menos desigual: o programa do PSB para Campos dos Goytacazes
18/10/2020 | 19h31
Introdução
Os problemas de Campos dos Goytacazes são os problemas brasileiros agravados. Assim como o Brasil, nosso município sofre com a desigualdade social extrema, a deterioração da economia e das oportunidades de vida, a violência e a baixa qualidade dos serviços públicos. Estes e outros problemas estão interligados. E o mesmo vale para suas soluções. Para diminuir as desigualdades é preciso que Campos encontre um novo modelo de produção e distribuição de riqueza. Precisamos ficar menos desiguais e mais ricos ao mesmo tempo. E embora dinheiro não resolva tudo, precisamos ficar mais ricos também para financiar a política social. O acesso a serviços de saúde e educação de qualidade é uma forma direta de redução das desigualdaes, pois torna a qualidade de vida independente da renda. Para isso é preciso construir um projeto focado nas classes médias e populares com ações capazes de unir politicamente os interesses de ambas, como a qualificação dos serviços públicos e a criação de oportunidades econômicas. Política social só para pobres tem um potencial de redução das desigualdades muito menor que políticas que também incluem a classe média. O programa do PSB para Campos entende que é decisivo investir na aproximação política dos interesses da classe média com os interesses das classes baixas. Estas duas classes são a base social para a construção de uma Campos mais rica e menos desigual!
O programa do PSB está estruturado em três eixos fundamentais: política social e redução das desigualdades, desenvolvimento econômico e violência e ordem pública.  
Política social e redução das desigualdades
Fortalecer e ampliar a rede municipal de proteção social para garantir recursos financeiros e institucionais para quebrar o ciclo vicioso de aumento e reprodução da pobreza, que ocorre sobretudo em ambientes familiares precários;
Promover o engajamento das famílias na educação e na saúde dos filhos, seguindo o exemplo bem sucedido do Programa Bolsa Família;
Reformar o sistema de transportes para garantir acesso sustentável das pessoas aos espaços urbanos e aos serviços públicos;
Continuar e ampliar a reforma da rede municipal de ensino básico, aumentando o acesso ao ensino integral e atraindo a classe média para a escola pública por meio do aumento nos investimentos, da racionalização dos recursos materiais e humanos e da qualificação da gestão;
Qualificar e racionalizar a rede municipal de saúde, fortalecendo e promovendo a atenção básica e a saúde da família;
Buscar a reconstrução e qualificação da rede de média e alta complexidade em saúde, superando os cargalos atuais e aproximando Campos da vanguarda do enfrentamento governamental dos desafios que a pandemia da Covid-19 traz para o setor;
Construir uma política municipal de habitação orientada pelo combate à especulação imobiliária desenfreada que expulsa as classes médias e populares dos espaços urbanos de maior e melhor acesso aos serviços públicos e privados. Combinar financiamento público de habitação com a reconstrução do mercado de imóveis, combinando regulação com tributação, para libertá-lo do controle oligárquico de poucos proprietários;
Constuir uma política de recursos humanos para reduzir o peso da folha salárial sobre o orçamento público do município, combater desigualdades e privilégios e promover investimentos na infraestrutura dos serviços públicos.
Desenvolvimento econômico
Promover o desenvolvimento econômico inclusivo para que a distribuição da riqueza já aconteca no momento de sua produção;
Explorar o potencial de industrialização associada com a economia do conhecimento para aumentar a produtividade e o nível de geração de renda em todos os setores da economia;
Construir relação duradoura entre governo, universidades e empresas para desenvolver a economia do conhecimento e a industrialização de vanguarda no município;
Promover o desenvolvimento de um setor industrial da saúde em parceria com a Uenf, a UFF, o IFF e a FMC. A produção de insumos e equipamentos para a saúde agrega valor à economia e sustenta a qualificação do SUS no município, na região e no estado do Rio de Janeiro;
Promover a criação de um setor industrial para o agronegócio que forneça insumos para a produção e comercialização agropecuária, promovendo a competitividade de pequenas e médias propriedades. Superar a dicotomia entre agriculta familiar e empresarial. Construir economia de escala, centrais de abastecimento e parcerias com a reforma agrária para reconstruir um setor agrícola produtivo e inclusivo;
Promover uma política fiscal para incentivar o desenvolvimento de atividades produtivas de vanguarda e inibir atividades especulativas, especialmente no setor imboliário;
Promover a aproximação do ensino tecnológico disponível no município com o desenvolvimento econômico e industrial;
Promover e fortalecer pequenos e médios empreendimentos com crédito, aprendizado empresarial, inovação tecnológica e acesso cooperativo a mercados;
Violência e ordem pública
Promover um pacto municipal de redução de homicídios envolvendo o governo municipal, organizações civis, religiosas e policiais;
Promover política municipal de ocupação do poder público de áreas controladas por facções criminosas;
Reformar a guarda municipal para que ela se torne capaz de implementar o ordenamento público dos espaços urbanos
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Por um Brasil independente e inclusivo
07/09/2020 | 13h36
“Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mais bela e desafiante. Na verdade das coisas, o que somos é a Nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sêlo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sêlo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso autosustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.” (Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, A Formação e o Sentido do Brasil).
Continuo acreditando na nacionalidade brasileira. Acredito em sua vocação "neorromana" em combinar o ideal da grandeza com o ideal da fraternidade na construção de um povo “novo”, como pregou Darcy Ribeiro. Acredito no “novo mundo” nos trópicos de Gilberto Freyre. Acredito que a identidade nacional brasileira sempre teve e conserva potencial antirracista e inclusivo.
É verdade que sempre fomos uma "máquina de moer gente", como Darcy também sempre ressaltou. Fomos e continuamos sendo isso, da escravidão à matança contemporânea de nossos jovens pretos e pardos. Também não superamos nosso subdesenvolvimento. Ao contrário: agravamos nossa posição subordinada no mundo. E o momento atual é desanimador. O desgoverno Bolsonaro aprofunda o que temos de pior. Agrava nossa subcidadania, nosso subdesenvolvimento, incentivando a vergonha de nosso próprio país. Vergonha que deve, sim, ser assumida e trabalhada, mas não tomada como sentimento fatalista.
Sempre fomos mais que nossas tragédias. O sonho e a construção de um Brasil independente e inclusivo começou com José Bonifácio e teve grandes artífices no século XIX e no século XX. Somos a grande nação latino-americana. O Brasil não sucumbiu à balcanização das ex-colônias espanholas. Qualquer projeto de unidade regional latino-americana depende da liderança brasileira. Se este continente algum dia superar sua posição subalterna na sociedade global, só poderá ser por obra liderada pelo Brasil.
Demos um salto econômico, institucional e tecnológico entre 1930 e 1980. Neste período, grandes realizações em todas as esferas sociais nos fizeram ter certeza de nosso futuro como nação inclusiva e grandiosa. Hoje, dominados pelo rentismo financeiro, pelo primitivismo econômico e pela destruição de nossas capacidades estatais, essa certeza virou incerteza.
Certamente é o dia da independência mais triste que já vivemos. Pelo menos o que eu vivi. Mas é nestas horas que devemos olhar para a história e ver que suas possibilidades nunca se fecham por completo. É o momento de lembrar a contingência da vida para fugir do fatalismo. Mas é o momento também de pensar em uma decisão coletiva fundante: a de ter ou não o destino individual ligado ao destino do país. A crença no povo, aquele "elemento irracional" (sacrifício do intelecto?) que Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro partilhavam e confessavam, tinha como fundamento a constatação de que o povo tinha seu destino ligado necessariamente ao destino do país. Não há alternativa para o povo brasileiro ser gente a não ser construindo um país com maior independência em todas as esferas.
O povo brasileiro tem, entre outras características, um pragmatismo antinilista. Não há tempo nem energia para o desânimo duradouro. É nas classes populares e médias baixas que esta atitude prática floresce. É aquilo que Roberto Mangabeira Unger chama de vitalidade, a capacidade de produzir e manter uma energia vital e criativa na cultura cotidiana, mesmo sufocada pelas instituições oficiais do país.
A falta de tempo e energia para a descrença pode ser um sacrifício intelectual, como é o resultado de toda crença na lição de Max Weber. Mas quem vive sem crenças? Acho que já superamos este racionalismo infantil. Weber mesmo acreditava fortemente em um destino grandioso para sua nação, em momento de enorme turbulência.
Eu acredito no Brasil, apesar de tudo. Se a esperança é o resultado da ação, e não o contrário, é porque a acão é criativa e pode mudar o "destino". Ninguem sabe se seremos ou não o que muitos julgam que podemos ser enquanto nação. É a indefinição do tal "destino", que de destino mesmo não tem nada. Sabendo que desconhecemos o futuro, eu ainda não encontrei motivo racional que possa me convencer que a descrença é melhor que a crença. A crença no Brasil e em seu povo é um "sacrifício do intelecto" que eu recomendo para quem não vai ser "cidadão do mundo". Acreditar no "cidadão do mundo" ou sem pátria é o maior de todos os sacrifícios à inteligência.
A tarefa de nossa geração é abraçar a causa nacional, usurpada pelo neofascismo entreguista e desmerecida pela esquerda e pelo liberalismo cosmopolitas. Não sou cidadão do mundo. Não existe cidadão do mundo. O que existe é cidadania nacional. Só ela nos permite ser gente dentro e fora do nosso país. A grandeza nacional é o pressuposto para a projeção e o respeito de seu povo no mundo. A grande maioria do povo brasileiro, incluindo aqueles que sentem vergonha dos símbolos nacionais porque não querem ser confundidos com os neofascistas, só pode ser gente vivendo em um país independente e inclusivo, a ser inventado e construído. Só uma minoria pode sonhar em ser gente apenas pela força de sua riqueza privada em um mundo de servos e pessoas sem dignidade. Ser gente em maioria só é possível como nação independente e inclusiva.
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Cine Darcy: debate sobre a história do cinema em Campos dos Goytacazes
02/09/2020 | 06h11
O Cine Darcy apresenta nesta quarta-feira, dia 02 de setembro, às 19 horas, o debate sobre a história do cinema em Campos dos Goytacazes, com Joilson Bessa e Elis Miranda.
Vamos apresentar a história dos cinemas de rua em Campos dos Goytacazes até a sua atual fase com as salas de exibição dos shopping centers, traçar um panorama da distribuição das salas de exibição por todos os distritos da cidade de Campos dos Goytacazes e evidenciar a importância do registro da memória da história do cinema por parte do poder público.
Convidados:
Joilson Bessa - mestre em Geografia pela UFF Campos com a dissertação “Salas de cinema em Campos dos Goytacazes: lugar, sociabilidade e políticas culturais - da década de 1960 aos anos 2010".
Elis Miranda - Coordenadora do LabCult da UFF Campos. Professora do curso de graduação em Geografia e do programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas, da UFF Campos.
Mediador:
Gustavo Machado - publicitário e mestrando em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas, na UFF Campos.
Realização:
Assessoria de Cultura da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)
Apoio:
Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF
Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UENF
Colaboração:
LabCult - Laboratório Cultura, Planejamento e Representação Espacial
Universidade Federal Fluminense
O Cine Darcy é um cinema universitário fundado em 2020 ligado à Assessoria de Cultura da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF.
Formado por um coletivo interuniversitário, tem como objetivo a pesquisa e a divulgação da produção audiovisual brasileira, focado em fortalecer o desenvolvimento regional por meio de atividades cinematográficas e audiovisuais nos equipamentos culturais da universidade em Campos dos Goytacazes (RJ) e Macaé (RJ).
Este é um projeto coletivo e institucional que envolve a participação da Reitoria da UENF, das Pró-Reitorias de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação e de Graduação e de Programas de Pós-Graduação.
Os organizadores do Cine Darcy: Heitor Benjamim (bolsista recém doutor do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico/CCH da UENF), Gabriel Rabello (bolsista do programa Universidade Aberta / Extensão da UENF) e Gustavo Machado (bolsista Capes do PPGDAP/UFF).
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O pragmatismo de Jorge Jesus e o estruturalismo de Dome
01/09/2020 | 12h20
A concepção de futebol de Jorge Jesus (JJ) está baseada em aproveitar o que cada atleta tem de melhor e os melhores atletas. Há uma ideia de jogo: posse de bola, proposição de jogo, pressão pós-perda forte, criação de espaços pela movimentação etc. Mas a ideia de jogo se adapta aos atores, não o contrário. O próprio JJ sempre ressaltou que sua filosofia de jogo resulta menos do aprendizado de teorias, no qual investe, inclusive em diálogo com outras modalidades esportivas como o basquete, que da experiência prática que mantém com o futebol.
Para Domènec Torrent (Dome) a ideia de jogo é absoluta e os atletas são aproveitados na medida em que se enquadram nela.
Dizem que a ideia de jogo de JJ não tem um nome. A de Dome tem um nome famoso: jogo posicional.
Se fizessem sociologia, Dome seria o que Bourdieu chamou de um "estruturalista feliz" com sua teoria imune à realidade histórica e JJ uma teória da prática, que, assim como Klopp, entende a relação entre ordem e caos, estrutura e prática concreta.
Se fossem ambos hegelianos, Dome seria um hegeliano de direita idealista e JJ um marxista pragmatista.
Diferente do especialista em tática Leonardo Miranda, eu arrisco dizer que não são dois conceitos apenas diferentes. O de JJ é superior. Futebol, como toda prática social, é estrutura, mas também é caos e inovação imprevista pela ideia de jogo.
A visão prática e o bom senso não devem ser desprezados pela teoria. Desmontar o quarteto de ataque com Everton, Arrasca, B.H e Gabigol é injustificável. Não se trata de discutir em termos teóricos se o jogo posicional e o guardiolismo foram superados, mas sim de aprender na prática que o magnífico elenco do Flamengo será desperdiçado se a ideia de ataque posicional for implantada do modo como tem sido.
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Cine Darcy: Debate com o cineasta Vladimir Seixas sobre o filme "A Primeira Pedra"
26/08/2020 | 18h51
O Cine Darcy, o cinema da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), apresenta nesta quinta-feira um debate com o cineasta Vladimir Seixas sobre seu documentário "A Primeira Pedra".
Dia 27/08 - às 19 horas. Link para o debate
"A Primeira Pedra" foi indicado ao Emmy 2019. Link para o documentário
O debate conta com a presença de:
• Vladimir Seixas - Cineasta, diretor do documentário " A Primeira Pedra" .
• Heitor Benjamin - Sociólogo.
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O identitarismo é aliado do bolsonarismo no ataque à liberdade de pensamento na ciência e no ensino.
17/08/2020 | 12h33
Muitos colegas professores universitários insistem em argumentar com os identitários como se fosse possível convencê-los de que “lugar de fala” não deve ser privilégio cognitivo. Continuam ignorando que identitários são fascistoides que se dizem de esquerda e que não há diferença significativa entre eles e os 12% de bolsominions que temos no país. Ambos fazem parte da mesma ameaça ao pensamento livre e à vida pedagógica e científica na universidade: substituem a liberdade de pensar e falar pela lógica moralista da acusação e da suspeita. A novidade recente é que um número crescente de intelectuais decidiu enfrentar abertamente esta ameaça. Quem acha que pode conviver pacificamente com o identitarismo logo vai quebrar a cara. Assim como todos que acham ser possível dialogar com o fascismo.
Um problema da universidade
É sempre bom lembrar que a crítica ao identitarismo não deve ser confundida com a crítica ao conteúdo das lutas dos movimentos sociais. Não se trata de uma crítica aos movimentos negros, feministas ou a qualquer outro movimento, mas sim de uma crítica à forma moralista de construção de identidades entrincheirada na universidade. O identitarismo não é política. É moralismo inconsequente que mais atrapalha que ajuda na busca por justiça social. Ao contrário do bolsonarismo, cujo moralismo serve de meio odiento para manter e ampliar o poder de sua posição política, o identitarismo não luta por protagonismo político, mas sim pela destruição de critérios universais de validação do conhecimento e do aprendizado.
O identitarismo é um problema da universidade porque sua pretensão de recriar a fusão entre pessoa e papel visa tornar inaceitável que se aplique critérios universais de avaliação e conduta para o fazer científico e pedagógico. Aqueles que usam o argumento de identidade reivindicam critérios próprios de acesso e avaliação do conhecimento. Os textos e os autores são lidos – sobretudo não são lidos – a partir de diferenças identitárias carregadas de moralização: o interesse não é científico nem pedagógico, mas meramente moral e acusatório. O que se quer não é compeender e criticar o argumento de um autor em sua lógica interna ou de acordo com sua aderência à realidade, mas sim acusá-lo de reproduzir o racismo, o machismo e outros “ismos”. Há aqui uma curiosa mistura de estruturalismo vulgar com moralismo: parte-se da compreensão de que certas formas de desigualdade constituem uma unidade estrutural incontornável (como o “racismo estrutural”), cuja presença na ação e no pensamento das pessoas se torna condicionada exclusivamente pela identidade e posição moral dos envolvidos: um autor “branco” torna-se potencialmente suspeito de ser racista toda vez que critica o pensamento de um autor “negro”. É como se apenas a identidade etnica ou racial permitisse distanciamento e crítica do racismo. A identidade garante privilégio cognitivo e moral. Na prática, esta mistura de estruturalismo vulgar com moralismo é uma autorização para acusar de racismo qualquer um que tenha argumentos diferentes, que pense diferente. Foi isso que aconteceu com Lilia Schwarcz em maior escala, e em menor escala com todos que criticam a pretensão autoritária e obscurantista do uso que se tem feito da ideia de “lugar de fala”. O cientista político Leonardo Avritzer, por exemplo, em um texto magnífico e de alto nível, foi acusado de reproduzir racismo estrutural pelo mesmo motivo.
É difícil reagir a esta ameaça identitária sem recorrer a sua própria lógica moralista e acusatória. Não podemos ficar presos a esta lógica, mas creio que precisamos, como um dos caminhos para libertar a vida universitária da chantagem identitária, de uma dose de autêntica indignação moral contra a desonestidade intelectual característica da lógica moralista identitária. É preciso abominar a banalização das acusações de racismo, sexismo etc. na vida universitária e intelectual. Não é aceitável que colegas sejam acusados corriqueiramente de reproduzir racismo apenas porque ousam pensar diferente. Não é aceitável o silêncio e a complacência com este tipo de prática que nada tem a ver com luta antiracista. É preciso dar um basta na sanha identitária de sair apontando o dedo para todo mundo. Essa necessária indignação moral tem como referência a defesa dos valores e critérios da vida científica e pedagógica na universidade: os argumentos de identidade têm servido de muleta para os preguiçosos e incompetentes, especialmente para alunos sem disciplina e capacidade de sacrifício para a leitura e debate de textos densos e complexos. A identidade de “oprimido” é usada como barreira moral para a aplicação do rigor e da disciplina indispensáveis em processos pedagógicos e científicos. O professor que ousa fazer isso é imediatamente identificado como um “opressor”.
Estruturalismo vulgar
No entanto, além da indignação moral é preciso desenvolver ou recuperar uma concepção de crítica social das desigualdades que subsititua o estruturalismo vulgar e o moralismo identitário por uma teoria capaz de apreender a complexidade da vida social e política e que considere a existência simultânea de estruturas sociais plurais e contraditórias.
O discurso identitário acredita que estruturas de desigualdade definem a unidade da sociedade. Neste sentido, a sociedade pode ser definida como sendo de classes, patriarcal e racista. Para não ser de classes, sexista e racista, a sociedade teria que ser completamente outra. A identificação da sociedade com a desigualdade obriga a pensar em uma unidade estrutural para a desigualdade, mesmo que estas sejam plurais. Assim, o discurso identitário fala, no singular e não no plural, da estrutura de classes, do racismo estrutural e do patriarcado.
Este discurso não está à altura da ciência social. A sociedade não é uma unidade estrutural, mas uma pluralidade de sistemas nos quais diferentes formas de desigualdade emergem, se reproduzem e se transformam. Desigualdades econômicas, políticas, jurídicas, educacionais, afetivas não seguem a mesma estrutura, embora se influenciem mutuamente. Por isso, classe, raça e gênero podem produzir desigualdades muito distintas em cada uma destas esferas sociais. Um exemplo desta incongruência é a combinação de redução das desigualdades de gênero na educação com sua maior perenidade no mercado de trabalho. Outro exemplo é a diferença entre as estruturas do racismo na economia e no mercado matrimonial: enquanto na economia predomina uma divisão racial binária (negros/brancos) na determinação das chances de vida das pessoas, no mercado matrimonial prevalece uma divisão politômica, na qual a diferença entre pretos e pardos ganha importância que não possui para as desigualdades econômicas.
Não existe apenas um racismo estrutural, mas vários. Não existe também o patriarcado como unidade estrutural, mas sim estruturas sociais sexistas variadas. E ainda: existem estruturas sociais que transcendem o racismo, o sexismo e o classismo. Nem tudo na sociedade é afetado pela desigualdade social. A crítica à desigualdade não deve ter como foco uma estrutura unitária totalizante. A crítica deve ser concreta e plural: quais formas de desigualdade de classe, raça e gênero determinam as chances de vida das pessoas em que sistemas sociais?
A sociedade não é definida pela desigualdade, pois ela também inclui, como parte da vida social, não só a crítica à desigualdade, mas também estruturas de igualdade como a cidadania social etc. A crítica só é possível porque se apoia em normas e valores de igualdade vigentes na sociedade em que vivemos. Uma sociedade não machista, não racista e sem classes não seria inteiramente outra. A sociedade complexa em que vivemos nos disponiliza posições de ação e observação (“lugares de fala”) que nos permitem criticar o racismo e lutar contra ele idenpendente da identidade racial ou etnica que nos são atribuídas por nós mesmos ou pelos outros. O racismo estrutural não constitui uma unidade estrutural onipresente, da qual apenas a identidade de oprimido permite tomar distância. O racismo estrutural não existe no singular, mas apenas no plural, e em concorrência com outras estruturas sociais e padrões normativos, a partir dos quais pessoas podem se distanciar do racismo idenpendente de sua identidade racial ou etnica.
Diferenciação da sociedade e multiplicidade dos lugares de fala
O conceito de “lugar de fala” foi banalizado pela política identitária que hoje domina o discurso progressista sobre as desigualdades sociais. Seu uso atual é predominantemente moral, e isto destrói seu potencial de servir a um discurso mais reflexivo (mais consciente de seus alcances e limites) sobre a desigualdade e suas consequências: as diferentes formas de sofrimento e humilhação de pobres, negros e mulheres. O objetivo dos identitários é demarcar posições de superioridade moral com base em um “campeonato de sofrimento”, no qual somente as “vítimas autênticas” da desigualdade e de suas consequências ganham o direito de falar e discursar sobre o problema.
Isto é uma prática moral, pois sua lógica é justamente construir julgamentos totalizantes sobre pessoas e grupos de pessoas, o que sempre resulta em repetição do binômio bom/mau. Não é uma prática política, pois a lógica da política é construir decisões coletivas, mesmo que seja necessário a ajuda de pessoas moralmente questionáveis. E também não é uma prática de esclarecimento científico crítico da sociedade, pois a diferença moral entre bons e maus, entre oprimidos e opressores, é insuficiente, para não dizer que atrapalha, o entendimento do mundo e por isso mesmo o melhoramento do mundo. Os identitários transformaram o conceito de “lugar de fala” em um mesmo e único “lugar de fala puritano”, que visa catequizar os moralmente inferiores, e não construir uma decisão coletiva (política) ou visão esclarecedora capaz de ajudar na política (ciência). 
No entanto, julgo ser possível recuperar o conceito de “lugar de fala”. Proponho substituir o uso moral da ideia de “lugar de fala” por uma noção sociológica de “lugar de fala”: em vez de ser (moralmente) definido como posição de superioridade moral de quem sofre de forma “original e autêntica” as consequências das desigualdades sociais, defini-lo como posição parcial de observação, com alcances e limites, em determinado sistema social.
Nesta proposição, o elemento moral é relativizado pelo elemento cognitivo: o que define os limites e alcances de um “lugar de fala” são a relevância e as chances comunicativas de quem fala em um determinado sistema social. Na política, o “lugar de fala” é definido pela relevância e repercussão na ação de outros políticos, do público e dos setores politicamente envolvidos e organizados, das falas proferidas, das posições tomadas, das agendas de políticas públicas adotadas, formuladas e implementadas. Na ciência, o “lugar de fala” é definido pela relevância e repercussão na ação de outros cientistas de sentenças de verdade e falsidade sobre os fenômenos. Nesta visão sociológica, não é apenas quem profere a fala, ou seja, o indivíduo ou grupo isolado, que define o “lugar de fala” de quem quer que seja, mas também, e prioritariamente, o modo como a fala ou discurso são entendidos, aceitos ou recusados. O “lugar de fala” é co-produzido, como ensina a sociologia, pelo receptor. O “lugar de fala” é um “endereço social”, uma construção comunicativa e social fixada não apenas pela relevância pretendida pelo falante, mas também e sobretudo pela relevância atribuída pelos ouvintes.
Na sociedade em que vivemos, diferenciada em esferas da valor, todos nós ocupamos não apenas um, mas vários “lugares de fala”. A ideia de que uma única identidade, como a de negro ou de branco, de homem ou de mulher, possa unificar e reduzir os múltiplos “lugares de fala” a um mesmo denominador comum é equivocada, pois ignora a complexidade e a multiposicionalidade dos indivíduos na sociedade. Sem esta diferenciação das posições sociais, que corresponde à diferenciação de esferas sociais com valores e lógicas específicias, a vida científica e pedagógica na unversidade seria impossível como a conhecemos: um lugar onde se espera ser possível que posições e posicionamentos científicos e pedagógicos tenham a ver com critérios concernentes ao fazer científico e ao fazer pedagógico, e não que sejam determinados pelo reconhecimento de identidades préviais à vida universitária.  
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Sobre o autor

Roberto Dutra

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