O sagrado e o profano
06/06/2017 | 09h38
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 06 de junho de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Mulher Maravilha
O sagrado e o profano
Edgar Vianna de Andrade
Mircea Eliade definiu que o processo de dessacralização do mundo começou com o judaísmo. Max Weber concluiu que o ocidente desencantou o mundo. Mas a partir de quando? A partir do século XV, quando o ocidente começou a se expandir pelos diversos continentes. O profano processou-se tanto dentro do ocidente quanto nas regiões por ele atingidas. Os mitos celestes, então, transformaram-se em mitos históricos. O lugar de Prometeu foi ocupado por Tiradentes e por tantos outros, dependendo do país. Mas a nostalgia do sagrado refugiou-se nas histórias em quadrinhos e no cinema.
Diana, a Mulher Maravilha, é uma amazona criada entre mulheres para ser uma grande guerreira. Um dia, descobre seus poderes em seus punhos literalmente de aço. Ela saiu de um mundo sagrado, onde a honra, a verdade, a coragem, a liberdade são valores supremos, e entrou no mundo dos humanos ao fim da Primeira Guerra Mundial para combater Ares, deus grego da guerra.
Mulher Maravilha, dirigido por Patty Jenkin, também uma mulher, e roteirizado por Allan Heinberg a partir da ideia original de Zack Snyder, Jason Fuchs e do próprio Heinberg, trabalha muito bem com a oposição entre sagrado e profano. Diana (a bela Gal Gadot, ex-miss Israel) salva o militar norte–americano Steve Trevor (Chris Pine), espião que foge dos alemães. Acolhido com desconfiança pelas amazonas depois de lutarem com bravura contra os soldados alemães, Trevor é surpreendido por Diana durante o banho. Ele não demonstra vergonha e se exibe de frente (seu pênis não aparece na tela) para Diana, que não se assusta. Há, então, um diálogo em que Trevor insinua suas qualidades masculinas. Diana não se vale de metáforas nem de subterfúgios na conversa. Ela desconhece segundas intenções.
Em Londres, ela não consegue se comportar de forma feminina, embora seja muito feminina. Mulher submissa a homem, no entender dela, é escrava. Sua presença é marcante. Afinal, é uma deusa entre mortais. As conversas que ela mantém com humanos profanos parecem diálogos entre surdos e mudos. Sua coragem a todos surpreende e sua atitude divina reduz a complexidade dos humanos. Ela não consegue ser opaca ou translucida. Ela é de uma transparência ingênua diante da dissimulação e das injustiças. A seu ver, a guerra é comandada por Ares, que se oculta ardiloso atrás de humanos. Ela se propõe matá-lo. Entre os homens, só um índio norte-americano aculturado consegue conversar com ela. O entendimento só é possível porque o índio veio de um passado sacralizado.
O filme tem também o mérito de retirar dos alemães o surrado estigma de maus e promotores de guerras injustas e cruéis. Diana mesma se engana ao matar com facilidade o general Ludendorf, que ela acredita ser Ares disfarçado. Ares está presente nas guerras, sejam quantos forem os lados em luta. No caso da Primeira Guerra, Ares é inglês. Diana aturde os homens com suas convicções simplistas, tanto quanto em “A grande muralha”, a nobreza e integridade da comandante chinesa Lin Mei impressiona o mercenário William Garin.
Mas Diana surpreende a todos, vencendo os inimigos com suas ingênuas crenças e sua força. Ela é uma heroína de um mundo que não existe mais. A DC Comics criou muitos heróis super-humanos que vivem entre humanos, fazendo concessões a nosso mundo profano. Já a Marvel cria humanos com superpoderes que levam para sua nova condição seus vícios. Homem de Aço é um exemplo de herói da Marvel. Super-Homem é exemplo da DC Comics. Os heróis da Marvel saem do seio dos humanos. Os da DC entram nele. Pena que este contraste não seja aprofundado nem nos quadrinhos nem no cinema.
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Descendo longa ladeira de skate
04/06/2017 | 11h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 04 de junho de 2017
Descendo longa ladeira de skate
Arthur Soffiati
 
Na minha avaliação, o processo de ocidentalização a que assistimos agora, começou em 1415, quando Portugal tomou a cidade muçulmana de Ceuta, no norte da África. Sei muito bem que, em história, uma tendência ou uma estrutura não muda da noite para o dia. Não é em um ano que se passa de um mundo fechado para um mundo aberto. Não se dorme numa Europa centrada em si mesma e se acorda na Europa disseminada pelo mundo. Estou adotando 1415 como data simbólica, assim como se faz com o sete de setembro de 1822 para a independência do Brasil.
Sugiro um exercício metafórico: transformar os 602 anos decorridos entre 1415 e 2017 em espaço. Em vez de um tempo de 602 anos uma rampa de 602 metros. No alto dela, um skatista incumbido de descer. Ele dá a partida. A velocidade aumenta à medida que ele avança. Logo no início, avisam-no de que existe um precipício no fim da rampa. Ele pode frear o skate por não ter desenvolvido ainda grande velocidade e ter muito espaço na rampa. No entanto, o buraco no fim da pista só é percebido pelos técnicos da corrida quando o skatista está no final dela. A velocidade é muito alta e não é mais possível frear o pequeno veículo.
Esta é uma metáfora que vale para a globalização ocidental. Estamos na ponta mais baixa da rampa, em alta velocidade, e só agora nos avisam do perigo. Os socialistas nos advertiram com ênfase sobre as contradições sociais ampliadas com o avanço do capitalismo. Primeiramente, entre o início da expansão marítima e a revolução industrial, que eles denominam período da acumulação primitiva. Depois da revolução industrial, as contradições se acentuam e caminham para uma revolução proletária. Ela foi deflagrada na Rússia há exatamente um século. Dizem que o socialismo representaria um rompimento com o capitalismo e início de uma nova era da humanidade. Alguns países mais acompanharam a Rússia: Mongólia, China, Europa Oriental, Cuba...
As relações sociais se transformaram, mas não tão profundamente. Prometeu-se uma sociedade sem classes, promessa não cumprida. O projeto socialista era romper com o capitalismo nos planos econômico e social, mas não no tecnológico. A tecnologia predatória que o ocidente desenvolveu seria colocada a serviço de uma sociedade sem classes. Não houve o projeto de uma nova tecnologia. Não houve uma discussão sobre as relações da sociedade com a natureza. Os países socialistas destruíram a natureza tanto quanto o capitalismo. E de forma triunfal. Eles deram significativa contribuição para agravar a crise ambiental da atualidade.
Depois da Segunda Guerra Mundial, começamos a perceber que as alterações nos sistemas naturais estavam nos causando problemas. Durante nove por cento da história da globalização, abusamos da atmosfera, dos mares, da água doce, das florestas, da biodiversidade, de toda a natureza. Não nos demos conta de que não podemos ficar sem respirar por mais de alguns minutos. Não percebemos a importância dos mares para o clima, da água doce para a nossa vida, da biodiversidade para garantir a qualidade da nossa vida.
Acreditamos substituir os sistemas naturais e até mesmo potencializá-los com fertilizantes químicos, agrotóxicos, produção de vegetais e animais em massa. Na perseguição dessa quimera, estamos causando um estrago muito grande no ambiente natural. Com toda a ciência e tecnologia humanas, ainda não conseguimos engenhos que consigam, em larga escala, sustentar uma população de oito bilhões de habitantes, a capacidade de troca catiônica do solo, a produção de fotossíntese, o desempenho dos equilíbrios naturais como a biodiversidade, que mantenham a composição adequada da atmosfera para a vida, que promovam o controle climático das florestas. Bem ao contrário, estamos destruindo essas tecnologias que a natureza construiu em milhões de anos sem pensar em nós, até porque o conjunto da natureza não pensa.
Por outro lado, ainda não inventamos naves espaciais ultra velozes que possam transportar um número considerável de humanos, animais e vegetais para os planetas habitáveis próximos do nosso sistema solar. Tenho atualmente a sensação de que alguém está transtornado: ou os otimistas ou uns poucos realistas entre os quais me incluo. A esmagadora maioria da humanidade não participa dessa discussão, mas também contribui significativamente para a destruição da Terra.
Pela ótica do meu melancólico realismo, examino os entusiastas do chamado progresso. Eles parecem presidiários que destroem o que lhes permite viver dentro de suas celas enquanto que, pelas grades, assestam poderosos telescópios para o espaço. Então, eles ficam eufóricos em delirar que sairão de suas celas e que se transferirão para outro planeta. Depois da destruição do novo lar, perambularão pelo espaço.
Se não temos como sair da prisão, o jeito é cuidar bem dela. Isso custará tempo. Temos o século XXI para frear o skate e mudar seu rumo.
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O quase adeus do pirata
30/05/2017 | 10h08
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de maio de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Piratas do Caribe: A vingança de Salazar
O quase adeus do pirata
Edgar Vianna de Andrade
 
Se o critério para definir um gênero é a recorrência do tema ou o clima que envolve o filme, então existe o gênero “piratas”, assim como o gênero “western”. Talvez até exista o gênero “múmia”, que voltará às telas em 2017 e que foi recentemente frequentado. Pode-se pensar no gênero “zumbi”, bastante rico. No geral, o perfil do pirata é o de um homem que age por conta própria contra os países. Sua pátria é seu navio. Seu povo são seus comandados e sua bandeira é negra com uma caveira. O pirata chefe é indômito, mas também cruel. Sua tripulação lhe é fiel, mas, entre ela, há traidores.
O mais antigo filme do gênero que conheço é “O pirata negro”, com Douglas Fairbanks, de 1926. Depois, ele foi frequentado até por Polanski e Spielberg. De todos, Jack Sparrow foi o pirata que promoveu o retorno ao gênero e que mereceu uma série de cinco filmes até agora. Sparrow, encarnado por Johnny Depp, não se enquadra perfeitamente no perfil do pirata. Ele é meio afeminado. Sua relação com mulheres é obscura. Seu destemor e sua covardia se combinam. Ele é beberrão e desajeitado. Sempre no meio de ações perigosas, ele escapa de todas elas ileso, com sua bússola mágica e seu navio Pérola Negra.
Não apenas isso. É de se esperar que os filmes de piratas sejam filmes de aventura. Mas a série “Piratas do Caribe” mistura ação com comédia e magia. Os piratas são enfocados como histriões sempre envolvidos com o sobrenatural. Os quatro filmes anteriores foram dirigidos por Gore Verbinski. Seja qual for a crítica dirigida a ele, confesso que gosto desse diretor. No filme atual, com subtítulo de “A vingança de Salazar”, a direção passa para as mãos de Joachim Ronning e Espen Sandberg. É difícil notar diferença de direção quando os efeitos especiais quase assumem o lugar do diretor. Recorre-se então ao roteiro. No caso deste filme, ele está a cargo de Jeff Nathanson. Normalmente, os roteiros dos filmes de Jack Sparrow são barrocos e rocambolescos. No caso de “A vingança de Salazar”, o maneirismo atinge seu auge. Há excessos também na música de Geoff Zanelli, muito wagneriana e apoteótica. Juntando tudo, o filme cai no exagero. E só se salva por seu viés cômico.
Johnny Depp parece ter passado da idade para representar um ágil pirata, mas este é um aspecto que pode ser compensado com os efeitos especiais. Sim, porque cenas representadas por jovens seriam impossíveis se fossem reais. Há uma breve aparição de Paul McCartney representando Sparrow quando jovem e jogando na morte o capitão Salazar (Javier Bardem) e sua tripulação. Todos se transformam em zumbis em busca do retorno à vida. Tudo gira em torno do tridente de Posseidon, que permite o controle dos mares.
Um novo casal, representado por Henry Turner (Brenton Thwaites) e Carina Smyth (Kaya Scodelario), substituem Orlando Bloom e Keira Knightley, que ainda fazem uma aparição no filme. A turma original de “Piratas do Caribe” envelheceu. O casal Orlando/Keira já tem um filho. O pirata Barbossa tem uma filha. Será que a Walt Disney Company dará continuidade à série? No final do quinto filme, há uma deixa para continuação, como tem sido comum nos filmes de aventura. Talvez um filho desconhecido de Sparrow dê continuidade às peripécias do pai.
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Os perfis humanos da modernidade
28/05/2017 | 10h21
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 28 de maio de 2017
Os perfis humanos da modernidade
Arthur Soffiati
 
Em 1991, fui convidado a ministrar um minicurso em Rio Branco, Acre. Na primeira aula, a sala estava cheia de pessoas. Eu estava me sentindo em casa até que três índios entraram. Eles estavam vestidos a caráter: corpos pintados, trajes de penas e fibras. Usavam armas. Sentaram-se no fundo da sala. Quem não está acostumado estranha. Não se tratava de preconceito, mas de estranhamento. Falariam eles o português? Estavam matriculados e me fariam perguntas? Eles permaneceram mudos durante toda a aula. Ao término, uma pessoa se aproximou de mim e disse que os índios queriam conversar comigo. Depois das apresentações, o que parecia ser o chefe me convidou a almoçar com eles. Ainda inseguro, aceitei. Eles me levaram para um restaurante muito bom. Senti certo pânico por não saber se tinha dinheiro suficiente para a despesa. Durante a refeição, o que parecia chefe desejava que eu formulasse um projeto para apresentá-lo ao Banco Mundial a fim de obter recursos financeiros para a comunidade indígena. Foi constrangedora a resposta tanto pra mim quanto pra eles: eu não sabia fazer projetos. Nem sequer sei lidar com dinheiro. Eles pagaram o almoço e se despediram com cortesia. Não os vi mais.
Não houve o mínimo indício de ilicitude na nossa conversa. Apenas pensei que os índios estavam inseridos num mundo dominado pelo capitalismo. Hoje, entendo que a globalização ocidental (sinônimo de economia de mercado e de modernidade) dissolve as relações sociais tradicionais. Ela dilui as sociedades pré-capitalistas de forma impiedosa. Marx reconheceu esta capacidade destruidora do capitalismo. Embora eu não seja marxista em seu projeto de futuro, reconheço o valor das análises marxistas.
O mercado detonou as comunidades tradicionais e as substituiu por uma legião de indivíduos. Hoje, os indivíduos vivem em função de si próprios. São individualistas. Vivem em sociedade, mas não vivem por elas. Ao estudar as sociedades tradicionais, concluo que elas eram maiores que os indivíduos que a integravam. Os bens produzidos serviam para o uso, não para a troca. Hoje, com exceção dos bens com valor sentimental, os demais bens devem ter valor de mercado. Num mundo como o nosso, o indivíduo, além de individualista, é também consumista e não se situa mais em contextos históricos. Existe uma história, mas os indivíduos a ignoram, no seu imediatismo. Daí tanta opinião inconsistente até por parte de estudiosos.
Numa análise inicial, identifico três tipos de perfis produzidos: o do alienado, o do reducionista e o do independente. O alienado representa a humanidade em sua profundidade. Ele não se interessa pelo contexto e pelo tempo. Reage apenas a situações de sobrevivência. Não é apenas representado por pobres. A grande maioria da classe média se enquadra nessa categoria. Trata-se de um perfil conservador. Não são assim os que estão abaixo da linha de pobreza. Para a pessoa alienada, a religião está presente, mas não é vivida com intensidade. Trata-se apenas de um conforto existencial, se tanto.
Já o reducionista toma partido com facilidade. Reduzir é excluir e simplificar o mundo para lhe conferir sentido. É mais fácil lidar com poucos elementos que com muitos. As operações reducionistas eliminam os ruídos de uma interpretação. A realidade, assim, resume-se a nós e eles, a nós e os outros. À verdade e à razão, que estão conosco e não com eles. O independente, por sua vez, é aquele que desconfia. A modernidade lhe subtraiu o contexto cultural e o abandonou com seu pensamento. Agora, ele tem de se virar sozinho. As religiões não mais lhe dão as respostas desejadas. As doutrinas e os partidos políticos, sucedâneos das religiões, não conseguem satisfazê-los. As éticas coletivas não mais o contentam.
O independente sofre. É preciso abrir caminho por conta própria. É preciso construir éticas. Ele pode ter opinião e assumir um lado, mas sempre de forma complexa e considerando o lado do outro, pois o contrário de uma verdade não é necessariamente uma mentira. Pode ser outra verdade. Seus julgamentos sempre envolvem múltiplos fatores. Para ele, as éticas religiosas e partidárias foram empobrecidas pela cultura da modernidade.
O independente inveja o alienado e o reducionista, mas de forma salutar. Seria bom não pensar em nada ou simplificar o pensamento. Thomas More, Montaigne, Max Weber, Dostoievski, Umberto Eco e Edgar Morin desenvolveram pensamentos independentes e auto éticas. A atual crise política do Brasil é um desafio para os três tipos, que nunca são puros no sentido weberiano. O alienado reage a ela por questões de sobrevivência. O reducionista assume um lado com facilidade, seja contra ou a favor; a favor ou contra. O independente também assume posições, mas sempre de forma complexa.
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Poesia brasileira em 2016
26/05/2017 | 09h25
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de maio de 2017
Poesia brasileira em 2016 (II)
Arthur Soffiati
Embora eu me considere um leitor aplicado de poesia e ficção, creio não me enganar ao concluir que a poesia brasileira atual não vive um bom momento. Poetas existem muitos. As pessoas julgam que escrever poesia é fácil. Bastam inspiração e empilhamento de versos. De todos, entendo que o momento é do lúcido Paulo Henriques Brito, que segue as pegadas de João Cabral de Melo Neto.
Evidentemente, não li tudo o que se publicou de poesia em 2016, mas li os antigos, dos quais dei notícia no artigo de abril. Agora, detenho-me nos poetas que publicaram livros no ano passado. Uma delas é Ana Martins Marques, com o “O livro das semelhanças” (São Paulo: Companhia das Letras, 2015). A produção poética atual é muito centrada no “eu poético”. Sei que literatura é um fenômeno humano, que não se conhece nenhuma espécie animal além do homem a escrever. No entanto, o individualismo da atualidade está se refletindo em todas as manifestações humanas.
Ana, pelo menos, sai um pouco de si ao tomar apontamentos (“Ideias para um livro”), partes de um livro (“Capa”, “Nome do autor”, “Título”, “Dedicatória”, “Epígrafe”, “Índice remissivo”, “Colofão”, “Contracapa”) como títulos de poemas, mas logo recai no “eu”. Do seu livro, destaco “Mar”, “Sereia” (de nada te serviriam/joelhos ou pés//o que és é também/o que não és), “Uma caminhada noturna” (há um modo cão de existir no dia/um modo águia ou cavalo ou búfalo/e um pássaro está tão à vontade/na noite quanto na floresta). A autora usa imagens inusitadas e a memória.
Já Fabio Weintraub se apresenta com “Treme ainda” (São Paulo: Editora 34, 2015). No poema “Pés”, ele escreve “no espelho os pés refletidos/são de meu pai/que já não caminha. Assinalei também “Manual de instruções”: “cuidado: ágil/contém material sórdido/feche a puta ao sair/este fado para cima.” E nada mais. Nunca endosso palavras escritas nas orelhas dos livros. Elas parecem escritas sob encomenda.
De Ronaldo Polito, veio a lume “Ao abrigo” (Belo Horionte: Scriptum, 2015). O autor foge ao máximo de si mesmo, mas ainda de forma tímida. Parece que sair de si atualmente é perigoso. Talvez um mundo conturbado absorva a inspiração e o trabalho. Parece que também há pressa e a necessidade de mostrar que se está vivo num mundo de alta concorrência. Em “Ponto final”, o poeta escreve: “Qualquer movimento que fizesse, e o horizonte distante/adaptava-se, indiferente, ao novo ponto de partida.” E na forma de hai-kai: “Um relâmpago./ Escuro. Um homem.”
Em nenhuma passagem de “Com os dentes na esquina” (São Paulo: Portal, 2015). Reynaldo Damazio me motivou anotações. Pareceu-me um livro perfeitamente dispensável. Já Alice Sant’Anna volta à cena com “Pé do ouvido” (São Paulo: Companhia das Letras). Com 29 anos, ela já conta com três livros de poemas. Este, o mais recente, consiste num longo poema em duas partes com temas recorrentes. O principal parece ser o Japão. “Estou escrevendo um poema/você aparece bastante/tudo o que disser pode entrar/é um poema tagarela”. A autora também parece ser muito tagarela no livro.
Carlito Azevedo anuncia algo de arriscado em “Livro das postagens” (Rio de Janeiro: Sete Letras), mas a promessa não me pareceu cumprida. O livro se divide em duas partes. Na segunda parte, mistura poema com foto, partitura e prosa. O exercício transtextual não basta para caracterizar boa poesia.
Restou-me Fabrício Corsaletti com os livros “Baladas” (São Paulo: Companhia das Letras), com ilustrações do cartunista Caco Galhardo, e “Quadras paulistanas”, também editado pela Companhia das Letras e ilustrado por Andrés Sandoval. Eu já conhecia crônicas do autor “Ela me dá capim e eu zurro” (São Paulo: Editora 34, 2014) reunindo crônicas sobre o cotidiano da cidade de São Paulo, principalmente. Creio que minha leitura é insuficiente para uma avaliação sopesada do autor. Pelo que li dele em prosa, entendo que o autor ajuda a mantes vivo o gênero crônica, com Milton Hatoum e Cristovão Tezza, que, por sua vez, escrevem crônicas de alto nível.
O que Corsaletti faz em crônica faz também em poesia. Os dois livros mencionados contêm cônicas em forma de poema, abordando o cotidiano paulistano, inclusive valendo-se de gírias que rimam com palavras portuguesas e inglesas. O autor conhece poesia. Ele se vale da forma “balada”, com redondilhas maiores. Suas rimas nem sempre são perfeitas, mas são justificadas pelo senso de humor que o autor deseja transmitir. Trata-se de poesia de circunstância, mas também permanente. Entre os poemas, são inseridas fotografias de São Paulo, mas não como forma de transtextualidade.
Para concluir, a “Balada para Michael Corleone”, apenas como amostra.
 
ninguém escapa ao destino
ninguém evita um ciclone
e quem, em sã consciência
resiste a um saxofone?
há sortilégios no vento
maldições que vêm de longe
sinto um calafrio na espinha
quando toca o telefone
meu Deus, que vida de merda
teve Michael Corleone
 
seu rosto frio (Al Pacino)
branco feito mascarpone
é a muralha de um palácio
vazio, onde nem o clone
do que ele não pôde ser
ou do que foi (esse monte
de mentiras que somadas são a verdade) se esconde-
ria – não há nada por
trás de Michael Corleone
vamos compará-lo ao pai –
Vito, vital, canelone
disseminava chacinas
com a exuberância de um conde
amava a glutonaria
era um grande cicerone
sua morte entre os tomates
é pura como a de um monge
– o filho é estranho e mesquinho
pobre Michael Corleone
 
como foi mesmo que eu fiz
pra acabar assim alone?
às vezes acho que penso
que sou Michael Corleone.
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Terror sem sobrenatural (Corra)
23/05/2017 | 09h38
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 23 de maio de 2017
(CINCO MATEUSINHOS)
Corra
Terror sem sobrenatural
Edgar Vianna de Andrade
 
Para fins do meu próprio entendimento, elegi duas características para classificar um filme no gênero “terror”: suspense e sobrenatural. Pode haver suspense sem sobrenatural e sobrenatural sem suspense. Trata-se de um critério meu apenas. E nesse sentido, “Corra” é um filme de suspense. De forma alguma a falta do elemento sobrenatural reduz a qualidade do enredo. O diretor e roteirista do filme é o negro Jordan Peele, com pouca experiência no cinema. Ele é mais conhecido na televisão. Pode-se dizer que estreia no cinema com o pé direito, ao conceber e dirigir “Corra”.
A leitura do primeiro plano do filme assusta. A loura Rose Armitage (Allison Williams) namora o negro Chris Washington (Daniel Kaluuya). Ela o convida a conhecer seus pais, que moram numa casa de campo. Ele hesita, pois teme a reação dos pais brancos da namorada. Sem problemas, ela o tranquiliza. Seus pais não são racistas. O pai votaria em Obama se fosse possível uma segunda reeleição. Chris cede e acompanha a namorada. Os sinais de perigo começam já no início do filme. Não se tem ideia quanto à natureza deste perigo: sequestro de negros? Atropelamento de cervos? Morte da mãe de Chris por atropelamento?
Na mansão dos pais da moça, coisas estranhas começam a acontecer. O casal de empregados é negro. Ela e ele se comportam como zumbis. O irmão da namorada é alcoólatra. Os pais promovem uma festa a que comparecem brancos ricos, todos eles aceitando perfeitamente o namoro entre uma branca e um negro. À festa, comparece um negro casado com uma mulher branca bem mais velha. Estranho, tudo muito estranho. Missy Armitage (Catherine Keener), a mãe, hipnotiza Chris para que ele abandone o cigarro, apenas com o movimento de uma colher numa xícara de chá. Ele nunca mais será o mesmo.
Na festa, Chis é examinado como um belo animal. As revelações começam a ser feitas. Passa-se, então, para a explicitação de uma grande metáfora ou fábula. Um convidado diz: “negro está na moda”. O não dito é: “mas não deve. Lugar de negro não é aqui, entre brancos. Negro nasceu para ser serviçal. Tiramos dele o que há de melhor e o reduzimos à sua condição inferior”. Estamos diante da Ku-Klux-Klan modernizada. Não é mais necessário matar totalmente os negros. Basta matá-los parcialmente. Seus órgãos e seu trabalho interessam aos brancos.
Toda moda do politicamente correto é uma fina camada de verniz que esconde o racismo ainda existente. O que Peele parece pretender é remover este verniz e mostrar que, por baixo dele, o preconceito continua existindo nos Estados Unidos, apesar de um esforço em sentido contrário pelos progressistas brancos. A mensagem vale para outros países.
Mas Peele não se liberta de alguns clichês dos filmes de terror. Na verdade, ele tenta ultrapassar o suspense recorrendo a movimentos bruscos de pessoas, sons fortes e inesperados. A namorada de Chis é a isca para uma armadilha em que ele cai. Para sair dela, é preciso matar os membros da família e ser salvo por um amigo. Se nos limitarmos ao plano visível do filme, Chis seria preso e condenado à morte pelos assassinatos. No plano metafórico, ele está descortinando a onda do politicamente correto quanto aos negros. No final, Peele ou mostra que o negro vence ou que, pelo menos, se salva. Gosto mais deste segundo sentido.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VI)
21/05/2017 | 10h28
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 21 de maio de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VI)
Arthur Soffiati
 
Até 1688, a geografia da baixada campista era bem diferente da atual e muito mais complexa. No esforço de compreendê-la, consome-se bastante tempo. Para um entendimento básico, ela contava com dois eixos aquáticos. O maior deles era e continua sendo o rio Paraíba do Sul, que nasce na serra da Bocaina, corre quase que inteiramente na região cristalina, entre as Serras do Mar e da Mantiqueira até a borda de Itereré, contribuindo para formar, a partir de então, a maior planície fluviomarinha do estado do Rio de Janeiro.
O segundo eixo apresenta grau de complexidade maior, embora mais diminuto que o do Paraíba do Sul. Ele é formado pelos rios Imbé e Urubu. O Imbé corre junto ao sopé da Serra do Mar pelo seu lado externo, no sentido longitudinal, recebendo dela todos os pequenos rios que a singram no sentido transversal. Ambos, Imbé e Urubu, formam a lagoa de Cima, na verdade uma depressão que se alaga com as águas dos dois rios por uma de suas pontas. Na outra ponta, ela transborda e escorre pelo rio Ururaí, cujo principal afluente é o rio Preto. Descendo da Serra do Mar, esse pequeno rio tinha foz no rio Ururaí na estiagem e criava uma foz alternativa no Paraíba do Sul por ocasião das cheias.
O Ururaí desemboca na grande lagoa Feia, que recebia as águas dos rios Macabu e da Prata, além de outros contribuintes lagunares hoje eliminados por ação humana. Por sua vez, a lagoa Feia contava com inúmeros escoadouros na parte sul que se reuniam na lagoa do Lagamar, onde havia uma saída periódica para o mar no tempo das águas. Os antigos chamavam-na de Barra Velha. Daí em diante, havia um escoadouro paralelo à costa que buscava um ponto com baixa energia oceânica para desaguar no mar. Ele recebia o nome de rio Iguaçu. Entre o Paraíba do Sul e o Iguaçu, havia defluentes que partiam do primeiro para o segundo. Os principais eram os vertedouros de Itereré, Cacumanga, Cula, Cambaíba, São Bento e rio Água Preta. O curioso é que o Paraíba do Sul vertia para o Iguaçu, sobretudo nas cheias. Usando o rio Água Preta ou Doce, o Paraíba do Sul ainda criava dois braços auxiliares para chegar ao mar num grande delta. Esses dois braços eram o Gruçaí e o Iquipari, atualmente transformados em lagoas alongadas.
Por sua vez, antes de chegar ao mar, o rio Iguaçu se alargava num grande banhado que recebeu o nome de Boa Vista. Do Iguaçu, restou o trecho final, com cerca de dez quilômetros, hoje conhecido como lagoa do Açu. A planície deltaica cortada por esses dois sistemas hídricos era pródiga em água acumulada em rios e lagoas. Havia mais água do que terra.
Em 1688, o capitão José de Barcelos Machado, um dos descentes indiretos de um dos capitães, rasgou uma vala num dos defluentes da lagoa Feia, ligando o complexo até o mar. O objetivo era abreviar o escoamento de água doce acumulada no período das chuvas, que escoava lentamente para o mar pelo rio Iguaçu. A Barra Velha não era suficiente. Então, ele concebeu um rasgo aberto manualmente que recebeu o nome de vala do Furado. A sede de sua fazenda, o morgado de Capivari, era uma das quatro grandes propriedades rurais da baixada, ao lado do domínio dos jesuítas, dos beneditinos e dos Assecas (da família de Salvador Correia de Sá e Benevides).
A vala e barra do Furado iniciou o processo de conversão de uma área extremamente úmida em terra adequada à agropecuária. Seu comportamento, todavia, era como o da Barra Velha: só se abria nas cheias, pois a energia oceânica muito forte a fechava quando o excedente vazava para o mar.

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Limites do humano (Alien Covenant)
16/05/2017 | 10h03
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 16 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
Alien Covenant
Edgar Vianna de Andrade
 

Creio que duas linhas principais norteiam o quase octogenário Ridley Scott na direção de “Alien Covenant”: a expansão de um mundo ocidentalizado para além dos limites do planeta Terra e os limites para as ambições humanas. Ambas as orientações estavam presentes na viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães (1519-1522). A viagem agora se localiza no ano de 2104, em direção ao planeta Origae-6. Ela é empreendida com uma enorme e sofisticada nave espacial transportando colonos e tripulantes. Talvez Scott não tenha consciência plena das questões que levanta no seu mais recente filme.
Como as caravelas, a nave espacial enfuna velas que colherão uma tempestade de neutrinos causadora de um erro no sistema da nave. Nunca se deve subestimar o erro. Primeira observação minha, pois foi ele que provocou um acidente mortal para navegantes. O reparo dos danos permite que um dos mecânicos receba uma mensagem que muda o destino da expedição. Mudando a rota para pousar num planeta desconhecido, mas habitável para a vida como a conhecemos na Terra, o capitão Oram (Billy Crudup) fascina-se com ele como substituto ao planeta de destino. Oram é religioso. Para ele, o planeta desconhecido pode ser uma nova Canaã. Outro aspecto, então, a ser observado, é a dicotomia entre fé e razão entre os tripulantes.
Covenant, a nave espacial, muda a trajetória, como se uma gaivota atraísse Vasco da Gama para uma ilha habitada por sereias. Bem cedo, a tripulação descobre que o planeta estranho continha evidências da passagem do ser humano por ali. Havia trigo cultivado, árvores com as copas ceifadas, mas nenhum humano, nem mesmo animal. Logo se descobre a presença da criatura que tanto assustou os telespectadores em 1979, com “Alien, o oitavo passageiro”, o primeiro filme da sequência, que projetou Scott como um grande diretor.
Tanto em “Covenant” quanto em “O oitavo passageiro”, a distopia de Scott se concentra no perigo que representa a inteligência natural humana criar inteligências artificiais, representadas nos filmes por androides do bem e do mal. No tempo das caravelas, esse tipo de inteligência ainda se expressava na forma de toscos instrumentos de navegação. Em 2104, o perigo é representado por androides fabricados por humanos que fogem ao controle deles e passam a ter vontade própria. Trata-se de uma discussão frequente nos dias de hoje.
Michael Fassbender, de fato, é o grande nome do elenco. Ele faz o papel de Walter, o bom robô, e de David, o mau robô. No planeta desconhecido, David revela como a missão “Prometheus”, título de filme anterior de Scott, malogrou e como ele, David, manteve-se íntegro no meio de seres monstruosos que foram engendrados pela liberação de um terrível e mortal vírus. A visão de Scott é pessimista. Nada termina bem. Não há um herói do bem. O mal triunfa com desejo de potência expresso pela música suntuosa de Wagner. Neonazismo? A conferir, pois o filme deixa o final em aberto, talvez para continuação.
Seja como for, tanto “Prometheus” quanto “Covenant” se passam antes de “O oitavo passageiro”, filme que atingiu alta voltagem de suspense pelo mistério que cerca “Alien” e pela luta entre ele e a subtenente Ripley. Também pela forma de reprodução da criatura monstruosa, parasitando o ser humano, e por seu comportamento altamente frenético. Em “Covenant”, a criatura foi banalizada. Perdeu o seu charme gosmento e nervoso. Ela aparece em demasia. Talvez, com o tempo, até possa ser domesticada e se transforme em animal de estimação.
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As globalizações
14/05/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 14 de maio de 2017
As globalizações
Arthur Soffiati

Houve processos de globalização anteriores ao que vivemos. Os mais expressivos foram o persa, o chinês, o macedônico, o romano, o mongol e o islâmico. Nenhum deles, porém, foi tão amplo no espaço e profundo em intensidade. Todas as globalizações anteriores à ocidental foram parciais. Nenhuma delas tinha motivações econômicas tão fortes como a atual. Elas exigiam, necessariamente, a dominação territorial, formando vastos impérios. A ocidental começou com a formação de impérios, mas hoje não necessita mais deles. O que conta é o modo de vida ocidental. Nenhuma delas, nem mesmo a ocidental, conseguiu uniformizar a cultura. Mas todas elas causaram angústias características de processos de aculturação.
As globalizações criam terrenos culturais híbridos, com a dissolução de modos de pensar e viver tradicionais. Essa dissolução desempara as pessoas. Elas têm, então, duas reações básicas: aferrar-se a expressões tradicionais de cada cultura atingida ou criar novas expressões de pensamento. A segunda reação costuma externar a angústia sentida pela aculturação. É bem verdade que, esfacelados os impérios não ocidentais, as formas culturais tendiam a se recompor. No ocidente, contudo, a globalização é profunda e parece não ter fim em tempo previsível.
Não conheço bem os resultados culturais dos impérios persa e mongol, mesmo porque a vida de ambos foi curta. A China que conhecemos é resultado da união de Estados com cultura aparentada. Eles eram independentes e lutaram entre si do século V a. C. a 221 a. C. Lao-tse e Confúcio podem ter vivido antes do período dos Estados combatentes, mas suas doutrinas ganharam sentido durante esse período de incerteza. Não sem razão, os ensinamentos de ambos buscam a paz entre pessoas e sociedades e a união com o universo.
O império macedônico, fundado por Filipe e Alexandre (356 a 323 a, C.), enquanto entidade territorial, esfacelou-se após a morte do segundo. Mas as repercussões culturais emendaram-se com as do império romano. As religiões tradicionais existentes em toda área do império sofreram impactos muito fortes e foram forçadas a se adaptar a eles. Até o budismo sofreu influências gregas difundidas por Alexandre, chegando à China e ao Japão. As filosofias bem estruturadas de Platão e Aristóteles não resistiram ao tranco dos processos aculturativos. A angústia reinante traduziu-se nas filosofias cética (criada por Pirron), epicurista (criada por Epicuro) e estoica (criada por Sêneca). As três aparentam escapismo do mundo, mas traduzem o estado de espírito da época. Buscam caminhos que permitam viver num mundo conturbado.
O império romano é sucessor do império macedônico. O historiador inglês Arnold Toynbee entende Grécia e Roma como partes de uma mesma cultura, que ele denomina de helênica. Dentro do império romano, os processos de aculturação se intensificaram e geraram mais problemas existenciais. As novas doutrinas pululam no seu interior como atualmente com a fundação de diversas igrejas em toda a extensão do mundo ocidentalizado. O culto egípcio a Isis sofreu mudanças profundas e invadiu a Itália, coração do império. O judaísmo foi abalado pela cultura helênica. Nasceu, assim, o Cristianismo. Para um estudioso sereno, o Cristianismo é a mescla perfeita de uma concepção humanista grega com uma concepção monoteísta judaísta. Ele se expressa por um Deus uno e trino. Um dos integrantes da trindade é o filho de Deus, que assume forma humana e é sacrificado para salvar a humanidade. Os santos representam a herança do politeísmo helênico. Falo apenas da antropologia cristã sem qualquer intenção de me intrometer nos aspectos referentes à fé. Como uma religião se dirige a humanos, ela deve se expressar em termos humanos.
Logo nos primeiros séculos do Cristianismo, ele é diferentemente interpretado, dando origem a doutrinas ainda existentes. Seja como for, todas elas cumprem a função de confortar almas aflitas por tanta conturbação política e cultural. Na Idade Média, o Cristianismo na forma apostólica romana tornou-se dominante, sem que expressões menores dele continuassem vigorando na periferia da Europa ocidental.
Esse Cristianismo imperial foi abalado pelo capitalismo e pela expansão europeia. Novamente, a paz cultural é abalada. A expressão cultural desse abalo é a cisão do Cristianismo romano pela reforma luterana, que deu origem a diversas denominações cristãs e a guerras por motivos religiosos em sua superfície. Tais guerras levam à exaustão. Locke, então, redige as famosas “Cartas sobre a tolerância”, propondo que a religião se transforme em questão de foro íntimo.
É preciso sobreviver à dor gerada pela confusão. Os suicídios aumentam a partir do século XV. Alguns pensadores desenvolvem soluções próprias dentro do Cristianismo. No século XVI, os exemplos dessas soluções são Thomas More, Erasmo e Montaigne. Há outros, mas fico apenas com esses três. Deles, Montaigne foi sábio. Ele aparentou catolicismo por fora, mas desenvolveu uma solução própria de vida: viver é aprender a morrer. A dúvida é a marca da sua filosofia. Daí sua tolerância com a diferença. A voz de Montaigne ainda ecoa vigorosa nos nossos dias.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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