O primeiro emprego do Homem-Aranha
11/07/2017 | 09h42
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de julho de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Homem-Aranha: de volta ao lar
O primeiro emprego do Homem-Aranha
Edgar Vianna de Andrade
 
Muito dinheiro, grande elenco, tecnologia altamente sofisticada. Estes os fatores exigidos por uma superprodução cinematográfica dos Estados Unidos. Entre arte e entretenimento, o poderoso país da América do Norte optou pelo segundo, o que não significa em absoluto que filmes de arte não sejam produzidos lá. Mas o entretenimento vence. Para tanto, não se exige diretor experiente e esteta. Imprescindíveis são um roteiro claro, alta tecnologia e grande equipe.
Em Campos, estão em cartaz duas superproduções cinematográficas: “Mulher Maravilha” e “Homem-Aranha: de volta ao lar”. O primeiro enfoca uma heroína da DC Comics, integrante da primeira geração de super-heróis. Seu estilo tende para o épico dramático. Já Homem-Aranha, membro da geração de heróis da Marvel, em sua nova versão, enquadra-se numa ação cômica. A direção coube a Jon Watts, que não conta com uma filmografia expressiva. O que conta é o roteiro, que exigiu o concurso de cinco redatores: o próprio diretor, Chris McKenna, Erik Sommers, Jonathan Goldstein e John Francis Daley. E efeitos especiais, muitos efeitos especiais. Eles quase acabam dispensando a direção e quarquer toque de arte.
O Homem-Aranha, nesta versão, é ainda um adolescente. Os roteiristas nos pouparam de mostrar a origem do herói pela terceira vez. Fica pressuposto que ele, representado por Tom Holland, foi picado por uma aranha e ganhou poderes superespeciais endógenos. Ou seja, ele não é como o Homem de Ferro, cujos poderes decorrem da poderosa armadura. E a trama não traz nada de novo: um herói aprendiz de um lado lutando contra um vilão veterano de outro. Michael Keaton desempenha cada vez melhor seus personagens, sejam eles dramáticos ou cômicos. Como vilão, ele é um homem simples, que começou pobre e enriqueceu com muito trabalho e com uma vida criminosa. Com essa carreira invejável, típica de um mafioso dos Estados Unidos ou de um empresário brasileiro, ele se transformou no poderoso Abutre. Ele domina o filme.
Em segundo lugar, está Robert Downey Jr. No papel do Homem de Ferro, ele contrasta com Abutre. É um cientista rico, vaidoso e empresário de muito sucesso. O adolescente Aranha faz estágio na empresa do Homem de Ferro. Ele quer mostrar aos adultos seus dotes. Nesse esforço, ele comete muitos erros. Desastrado, ele faz muitos estragos em suas boas ações. Vez por outra, ele precisa ser socorrido pelo Homem de Ferro. O ambiente frequentado pelo Aranha em seu estado normal está repleto de descendentes de polinésios, chineses, indianos e africanos. Pode ser uma advertência à direita do país, que vive numa saudosa procura de suas origens brancas. O amor de Peter Parker (verdadeira identidade do Aranha) é a mestiça Zendaya, no papel de Michelle.
Agora, Homem-Aranha adquire poderes novos, conferidos por seu novo macacão produzido nas empresas do Homem de Ferro. Mas o que confere caráter singular ao filme é a mensagem do Capitão América no final do filme, depois de quase 15 minutos de créditos. Com esta mensagem, o filme adquire o caráter de metalinguagem. O nerd do Capitão América reclama da incompetência do Homem Aranha e anuncia que outros filmes desastrados dele virão. Enfim, fica o não dito pelo dito: a mensagem nos diz que tudo não passa de ficção, que tudo foi inventado.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IX)
09/07/2017 | 10h34
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de julho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IX)
Arthur Soffiati
Viu-se, no artigo anterior desta série, como os jesuítas desempenharam fundamental papel de serviço público ao manterem limpos os canais naturais da baixada de Campos. Viu-se também como esse serviço ficou a cargo eventual de cada proprietário rural depois que a Ordem dos Jesuítas foi expulsa do império colonial português, em 1759. Vimos também os comentários do capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis sobre a importância dos jesuítas na limpeza dos canais, muito embora ele não simpatizasse com os jesuítas. Couto Reis instava que as câmaras municipais exigissem dos proprietários tal desobstrução ou que elas próprias empreendessem esta limpeza. Couto Reis é um ilustrado, embora sem muita consciência disso.
Antes de ingressarmos no século XIX, detenhamo-nos um pouco mais nas considerações de Couto Reis. Ainda tratando da barra do córrego Furado, ele observa que, “se aquelas águas de tantos córregos e rios tivessem mais expedição, quero dizer, não corressem coadas ou não sofressem o embaraço dos preditos vegetais, parece natural que fosse mais acelerado o seu movimento e mais avultados os volumes expedidos: logo, também, teriam mais peso e consequentemente se multiplicariam suas forças e velocidades. Nestes termos, é fácil de persuadir que, aumentada a força da correnteza das águas na barra, não só se esgotariam mais depressa, como também resistiriam por mais dias os impulsos do mar agitado pelos ventos contrário para não se tapar.”
Continuando, ele registra com acerto: “Além desta barra do Furado, abrem outra no Iguaçu quando entendem ser necessário, o que conseguem com muita facilidade (...) a meu parecer julgo que discorre aquele rio (Iguaçu) por um plano inferior a todos os mais, tanto assim que, estando a barra do Furado tapada, todas as águas pendem para ele.” Algumas observações se impõem. Primeira: a barra do Furado ficaria mais tempo aberta se houvesse mais volume de água doce acumulada a escoar para o mar. Segunda: o grande volume de água doce enfrentaria o mar por mais tempo. Terceira: a barra do Açu, segundo ele, funcionava como escoadouro auxiliar ao Furado.
A informação de Couto Reis quanto à periodicidade da abertura da barra do Iguaçu é contraditada por vários autores. Tomarei apenas o testemunho de Alberto Ribeiro Lamego, talvez o maior conhecedor da região: “Parte dessas águas [da lagoa Feia] junta-se às do Paraíba nos velhos braços do primitivo delta que sulcam a planície da Boa Vista, formando os rios Carapebas, do Viegas, do Furado, Bragança, Quebra-Cangalhas e o córrego da Tapagem (...) Com exceção do Carapebas que se dirige para a barra do Furado, o caminho natural dessa rede labiríntica era o rio Açu (Iguaçu) que também recebe na margem esquerda o rio Novo e vai buscar uma saída para o mar, num tortuoso curso entre restingas (Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955). De acordo com este autor, a barra ficava permanentemente aberta. Couto Reis também não se refere à barra Velha, na lagoa do Lagamar, que abria para o mar naturalmente com a força de águas de cheias. Devemos desculpar o cartógrafo. Ele passou dois anos no Distrito de Campos dos Goytacazes, cuja área corresponde hoje ao que denominamos norte-noroeste fluminense. Para conhecer profundamente esta complexa região, é preciso mais tempo.
Dentre os defluentes que partiam do Paraíba do Sul em direção ao Iguaçu estava o córrego Grande ou do Cula. Relata Couto Reis que os jesuítas pretendiam adaptá-lo à navegação e ao escoamento de águas de cheia em direção ao Paraíba do Sul, mas que o povo se opôs ao projeto, temendo que uma abertura permanente dele junto ao Paraíba do Sul inundaria a vila de Campos durante as cheias. Couto Reis informa que sua ligação com o grande rio foi tapada pelos moradores. O cartógrafo pondera que os jesuítas devem ter feito estudos detalhados para tal proposição, e os apoia quanto à abertura para a navegação e para o escoamento de águas de cheia.
Couto Reis procurou o projeto dos jesuítas na Câmara Municipal, que o rejeitou, e não o encontrou. Ele pergunta por que os jesuítas executariam uma obra que, a acreditar no povo da vila, alagaria as terras da própria ordem religiosa. Além do mais, ele pergunta por que a Lagoa Feia não provoca tamanha inundação. Por experiência, o povo percebia que o terreno da margem direita do Paraíba do Sul é mais baixo que o nível de transbordamento deste rio e que, uma vez extravasadas, corriam para a interligada bacia do Iguaçu pelos defluentes. O próprio Couto Reis reconheceu que “discorre aquele rio (Paraíba do Sul) por um plano inferior a todos os mais...”
Enfim, o povo de Campos estava certo. Os jesuítas e Couto Reis estavam errados. Pesquisadores do futuro iriam dar razão aos primeiros e desacreditar os segundos e o terceiro.
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Sete décadas
02/07/2017 | 10h47
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de julho de 2017
Sete décadas
Arthur Soffiati
Já vivi setenta anos dentro do atual processo de globalização, que estimo em 600 anos. Portanto, vivi mais de 10% desse tempo, embora não pareça. Nasci em 1947, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Há setenta anos, atravesso a era nuclear e eletrônica da globalização. No ano do meu nascimento, Gandhi promoveu a independência da Índia, pretendendo para ela um retorno a um tempo pré-ocidental para o país. Perdeu. Com todos os problemas sociais que o país enfrenta, a Índia é um país nuclear em ascensão econômica. Em 1947 também, a Inglaterra dividiu a Palestina em duas áreas: 56% para os judeus e 44% para os palestinos. No ano seguinte, os judeus proclamariam unilateralmente a criação do Estado de Israel, originando a profunda injustiça que perdura ainda hoje na região. Foi também proclamada a Doutrina Truman, que inicia a guerra fria, e foi criado o Fundo Monetário Internacional. Ano rico em problemas futuros.
Dez anos depois, minha família estava de volta ao Rio de Janeiro. Depois de um ano morando no Cosme Velho, meu pai se transferiu para Padre Miguel, a fim de ficar mais perto da unidade militar em que servia. Com dez anos de idade, eu ainda não acompanhava o que acontecia no Brasil e no mundo. Mais tarde, aprendi que a União Europeia começou em 1957, com o Tratado de Roma. Lembro apenas que eu cursava, com muito atraso, o segundo ano primário, numa escola de cujo nome não lembro. Apenas lembro que ela ficava numa rua sem calçamento muito enlameada quando chovia. Lembro ainda de uma porca com uma ninhada de filhotes formando um semicírculo para enfrentar um cachorro, ao lado de um bambuzal.
Vinte anos mais tarde, meus pais foram morar em São Fidélis. Passei a residir com minha avó materna e um primo em Copacabana quase Ipanema. Rua Bulhões de Carvalho, edifício Santa Basilissa. Depois de duas tentativas frustradas, prestei serviço militar no 8° Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, no Leblon. Hoje, ele não mais existe. Aos finais de semana, eu ia ao Arpoador. Num dia, ao voltar da praia e ensaiar um banho de chuveiro, meu primo pôs para rodar um disco recém-saído. Tratava-se de “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Às primeiras notas, deixei o banheiro e fui me deliciar com as músicas. De imediato, pressenti que aquele disco marcaria época. Em 1967, foi deflagrada também a Guerra dos Seis Dias, entre Israel e países árabes. A injustiça se agravou.
Trinta anos depois de nascer, eu estava já estava morando em Campos, de onde nunca mais saí. Eu já havia casado e tinha um filho. Minha mente estava confusa. Eu era um dentre muitos perturbados pela globalização. Por mais que eu lesse e me esforçasse para compreender o meu tempo, meus esforços eram baldados. Mas, nesse ano, comecei a me encontrar ao participar da fundação do Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza, ONG que marcou época na luta em defesa do ambiente e dos pescadores. Poucos entendiam o movimento, mas eu me descobria no ativismo e no estudo. Esse ano representou um divisor de águas na minha vida. Deixei de ser um mero professor que via o mundo de sua sala para sair às ruas e ao campo.
Aos quarenta anos, eu era professor da Universidade Federal Fluminense e continuava meu ativismo ecologista. As pressões internas para que eu cursasse pós-graduação aumentavam. Ingressei no mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro com uma proposta muito estranha aos professores. Eu queria abordar o norte-noroeste fluminense pela ótica da história ambiental, eco-história como a denomino. Era uma proposta atrevida para pesquisadores que não viam nada além das sociedades humanas. Tive dificuldades, mas concluí o mestrado em 1996. Logo em seguida, ingressei no doutorado da mesma instituição com a mesma proposta. Agora, eu tinha mais confiança em mim, mas a dificuldades aumentaram. Concluí o doutorado com 54 anos.
De volta ao meu cotidiano em Campos, dividi meu tempo entre aulas, pesquisas e ativismo. Por mais que eu me dedicasse a estudar a história do mundo e da região em que vivo, confesso que minha compreensão era pequena. Sempre que eu entendia ter descoberto a chave de ambos os enigmas, eis que eles me atiravam ao chão novamente. Mas me ergui sempre e agradeci os tombos. Eles me ensinavam a penetrar nas frinchas da realidade. Assim, aos 60 anos, eu estava às voltas com a grande enchente de 2007, logo depois seguida pela enchente de 2008. Trabalhei ativamente junto ao Ministério Público, entendendo que ele era meu melhor aliado. De fato, em 2008, tive a oportunidade de participar ativamente da detonação dos diques de invasão da lagoa Feia.
Hoje, em 2017, aos 70 anos, começo a entender o mundo e a região melhor que antes. Sei que aprenderia muito mais se vivesse mais 50 anos com vigor físico e lucidez. Mas a natureza é ingrata. Estou mais perto da morte que do nascimento. Dos 17 aos 40 anos, tive medo de viver. Agora, tenho medo de morrer. Talvez mais pena do que medo.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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