Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
30/04/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
Arthur Soffiati
 
André Martins da Palma saiu do Rio de Janeiro em direção a Campos na segunda metade do século XVII por motivo de castigo. Durante sua permanência, ele procurou conhecer as terras da baixada e escrever um projeto para promover o seu desenvolvimento. Que se saiba, é o primeiro documento em que figura a palavra “desenvolvimento”. O título do projeto é “Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos campos dos Goitacazes em 1657”, publicado na “Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil” tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884.
O autor observou o ambiente natural da região e notou a fertilidade da terra: “... pela muita fertilidade da terra há nela muitos canaviais de canas de açúcar e a terra em si com tanto assento para engenhos de água que todos se meterão no emprego delas...”. O rio Paraíba do Sul não podia lhe passar despercebido: “... rio tão grandioso que poderá mover mil engenhos sem lhes fazer falta água, carnes, lenhas, por tudo ser em tanta abundância, e a terra tão fecunda que para tudo há sem detrimento...”
A lagoa Feia o impressionou: “Há uma alagoa muito grande para a comunicação dos povos vizinhos, que, sendo de água doce, se não vê terra, navegando-se por muitos dias, e é tão dilatada que por um mês e mais se não corre. Nesta pode V. Majestade mandar, que fazendo-se povoações, se cultivem, podendo-se pôr nela grandes moinhos, com o que haja dilatadas searas de trigo pela terra e dar em muita abundância, e crescendo os moradores nela importarão muita fazenda à real coroa de V. Majestade pela brevidade do comércio, em razão de ser por mar e vir sair duas léguas de sítio, em que advirto a V. Majestade se faça a cidade, além de muitos currais que crescerão com as ditas povoações, importando só o dízimo deles em grande número de dinheiro...” Parece que Palma não navegou a lagoa. Ela era, de fato, enorme, com mais de 400 km², mas não exigia um mês para ser cruzada. É curioso que o autor proponha o cultivo de trigo em terras ocupadas por cana e gado.
Ele também registra a existência de florestas, provavelmente na margem esquerda do grande rio: “tem V. Majestade grandes e dilatados matos de pau de jacarandá, a que chamam pau del rei, que só de direitos, havendo navegação, importará em muitos mil cruzados.” E de índios, que viviam ainda em Campos: “... primeiro que tudo, se celebre e só se catequizem os pagãos gentios, para que, alumiados com o leite da santa fé, fique fácil o poder de domá-los à vista dos reduzidos a ela...”
Colonos de origem europeia e mestiços já ocupavam a região com plantação de cana e criação de gado. Já existia a vila de Campos. Entre 1632, primeira viagem dos Sete Capitães, e 1657, data da representação de Palma, o crescimento foi rápido. Já havia vários engenhos de açúcar e de aguardente instalados.
O estrangeiro propunha ao rei de Portugal auferir “... grandes lucros, que sua real fazenda pode tirar com pouco cabedal e dispêndios nestes campos dos Goitacazes.” Era preciso, antes de tudo, dominar os índios. Palma revela que “...treze anos (...) gastei no propagamento do gentio indômito, que senhoreava estes campos (...) domei a maior parte de todo ele (que) vêm hoje ao resgate, trazendo suas mercancias de cera, mel e mais lavouras da terra, a que sua indústria chega para com elas lavrar a terra e fazer roçarias, que é o pão da terra.”
Embora definitivamente expulsos do Brasil, os holandeses ainda eram vistos como ameaça. Daí o conselho: “V. Majestade deve mandar obrar por provisões suas, pondo ministro de sua real fazenda (...) na barra deste rio (Paraíba do Sul) se faça uma fortaleza real com sua artilharia, que resguarde dela e do inimigo holandês que infecciona esta costa, e não vir a entrar por ela a ser senhor de um tão grande tesouro”.
A necessidade de um forte na foz do rio era completada com o erguimento de um núcleo urbano: “à boca da barra se faça uma vila com suas justiças para as entradas de embarcações (...)” Ao parecer de Palma, Campos já merecia ser elevada à condição de cidade: “onde hoje temos ainda povoação, seja cidade com superioridade de jurisdição sobre a dita vila por ser distante dela mais de 8 léguas, com capitão major independente do governo do Rio de Janeiro.” No fim do século XVIII, Campos não havia alcançado ainda o estatuto de cidade, mas era o centro do Distrito dos Campos Goitacazes.
A preocupação de André Martins da Palma era ganhar muito dinheiro gastando pouco, preocupação da Coroa Portuguesa desde o início da colonização do Brasil: “Os moradores da dita vila ou cidade, aonde há grande número de criadores de gado vacum, concorrerão todos na obra da grande fortaleza à vista do grande interesse que estas terras prometem pela abundância de sua fertilidade e só com V. Majestade mandar um navio carregado de ferro e artilharia bastante para a dita fortaleza, na qual mandará V. Majestade pôr capitão maior com seu soldo sem que a fazenda de V. Majestade diminua de coisa alguma, antes maiores acrescentamentos dela.”
Comentar
Compartilhe
Vida perigosa
25/04/2017 | 09h34
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 24 de abril de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
“Vida”
Vida perigosa
Edgar Vianna de Andrade
 
Ainda hoje, é muito comum a vitória dos humanos contra a natureza e as máquinas em filmes provenientes dos Estados Unidos. Há um caráter triunfalista, já superado, mostrando que, apesar das batalhas colossais, o ser humano sempre encontra, no fundo da sua Inteligência, um recurso para derrotar a vida e as máquinas que o ameaçam.
“Vida”, com direção de Daniel Espinosa e roteiro de Rhett Reese e Paulo Wernick, alerta para os limites dos projetos humanos. Uma equipe internacional de astronautas trabalha numa estação espacial com material colhido em Marte. Impressionante o fascínio que Marte ainda exerce na imaginação humana. Por mais que os cientistas tenham descoberto planetas extrassolares com possíveis condições de habitabilidade humana, os astros do nosso sistema solar continuam espicaçando nossa imaginação.
Na verdade, não é preciso ir muito longe para encontrar limites. A equipe multidisciplinar de astronautas encontra vida no material colhido em marte. Um simples organismo unicelular, um protozoário, para gerar uma distopia. Muita alegria da equipe com o achado. Informações enviadas à Terra. Participação de crianças e adolescentes na descoberta. O ser vivo é batizado de Calvin. Um ser microscópico, lindo e inofensivo aos poucos se transforma numa espécies de polvo, matando com seus tentáculos a tripulação da estação.
Pareceu um pouco exagerada a capacidade de sobrevivência de um ser vivo a condições extremas. Ele é mesmo um extremófilo, um organismo com resistência superior preparado para enfrentar as mais ingentes vicissitudes, como um tardígrado, por exemplo.
Quanto ao gênero do filme, não há muitas novidades. Um grupo de pessoas escolhidas para a missão. Muita tecnologia dentro da estação e na produção do filme. Um grupo pequeno de atores, representando Estados Unidos, Rússia e China. Uma equipe só concebível em missões científicas, sobretudo fora da Terra. Há muito dos filmes do gênero. Calvin é uma espécie do monstro de “Alien”, que rendeu uma franquia e que está de volta em breve.
Há algo mais, porém, algo ecológico, algo alertando quanto ao perigo de introdução de espécies de um ecossistema em outro. Algo alertando quanto ao risco das doenças transmissíveis. Algo chamando a atenção sobre o processo de globalização que, depois de engolfar a Terra com seus tentáculos, parte para o espaço. Já existem filmes abordando os perigos, mas também as maravilhas de levar a globalização a outros planetas. Este é o tema central de “Passageiros”, lançado neste ano de 2017. Contudo, apesar das agruras vividas por um casal dentro de uma fabulosa nave, “Passageiros” tem um final feliz. “Vida” é pessimista. Na nave, há tripulantes que amam a Terra, a despeito dos problemas que os humanos criaram para si e para ela. Há tripulantes que não desejam retorno.
E o final não é feliz. Na verdade, o que impera é o erro. Morin já alertou para o erro de subestimar o erro dentro da complexidade. O fim de “Vida” enfatiza o erro como algo humano, como algo intrínseco à própria vida. O erro do fim parece uma piada. Mas uma piada trágica.
Comentar
Compartilhe
No olho do furacão
23/04/2017 | 11h09
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 23 de abril de 2017
No olho do furacão
Arthur Soffiati
 
Suponhamos que os Estados Unidos pressionem tanto a Coreia do Norte que ela, irresponsavelmente, lance seus poucos mísseis com ogivas nucleares em direção à costa oeste do grande país americano. Suponhamos que os Estados Unidos revide o ataque com bombas mães do tipo da lançada sobre o Afeganistão numa demonstração de força para o mundo. Imaginemos ainda que os mísseis norte-coreanos sejam interceptados pelos antimísseis dos Estados Unidos. Tudo explodiria no ar.
Não se trata de um exercício fútil de imaginação, mas sim de realidade. Nenhum governante queria começar a Primeira Guerra Mundial, mas ela foi deflagrada. No caso de uma guerra iniciada por Estados Unidos e Coreia do Norte, outros países, como China a Rússia, poderiam ser arrastados para ela. O mundo esteve perto de uma terceira guerra mundial com a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. Está perto de outra com a crise da Coreia do Norte.
O mundo não acabaria nem a humanidade seria extinta com uma guerra nuclear entre um grande e um pequeno país, mas todos sofreriam muito. Assuntos em primeiro plano, como a Operação Lava Jato, o avanço da direita na Europa, a guerra na Síria, o conflito entre Israel e Palestina, a sultanização da Turquia, o drama dos refugiados passariam para segundo ou terceiro plano. Os próprios loucos Donald Trump e Kim Jong-un perderiam importância. As súplicas do Papa e de outros líderes religiosos tornar-se-iam inúteis.
E pensar que o mundo em que vivemos começou a ser construído há seiscentos anos, na Europa Ocidental com a expansão marítima... As armas usadas então eram insignificantes perto das atuais. Basicamente, os europeus contavam com a caravela e a pólvora, nada tão diferente do que tinham outras civilizações. O que impulsionava os europeus era algo inédito na história: um sistema de produção objetivando o lucro. Os textos dos séculos XV e XVI já estão recheados de temas que nos são muito comuns atualmente: dinheiro, lucro, desigualdade social, corrupção...
A caravela, a pólvora e o capitalismo foram se aprimorando com o avançar do tempo. Hoje, contamos com caravelas super-velozes, com caravelas que navegam em baixo d’água, com caravelas que voam, com caravelas que transportam aeroportos. Também com armas altamente letais. E também com grandes organizações voltadas para o lucro. Podemos nos indignar com escândalos, mas não devemos nos surpreender. As delações de diretores da Odebrecht mostram que o capitalismo usa de todos os meios para alcançar lucros. Mesmo que uma empresa não recorra à propina, a tendência para tal está embutida nela. É muito difícil, senão impossível, conciliar economia de mercado com ética.
Apesar de tudo, uma guerra entre um grande e um pequeno país poderiam arrastar todas as atenções para ela e mostrar que, a partir do século XV, começou uma rota de colisão entre países, entre culturas e com a natureza. Tal rota é irracional. Uma guerra no século XVIII matava muitas pessoas, arrasava campos e cidades, mas não acabava com um país, com a natureza. Naquele tempo, uma guerra gerava lucros com a destruição e com a reconstrução, como acontece com as guerras da atualidade. Uma guerra nuclear nos dias de hoje será também lucrativa em se tratando da venda de armamentos. Será lucrativa na reconstrução? Se for, ela gerará muitos lucros, mas será demorada e causará um estrago bem próximo do ponto de não retorno. Os entusiastas do desenvolvimentismo e do progresso não gostam ou não conseguem enxergar que o desenvolvimento e o progresso tão defendidos por países, empresas e pessoas não trazem o bem geral, mas beneficiam empresas e políticos, além de serem contra produtivos.
O uso bélico de armas nucleares atualmente seria mais arrasador que as duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945. Explodindo no solo ou na atmosfera, bombas atômicas afetariam o mundo todo e agravariam mais ainda os problemas que nos afligem.
Se minhas palavras foram entendidas pelo possível leitor, pense-se agora que uma destruição pior está em marcha desde o século XV. Ela não mata apenas humanos, mas também outros seres e os componentes da Terra. Ela é lenta. Destrói em doses homeopáticas, até mesmo imperceptíveis, ao longo de centenas de anos. Seus efeitos estão sobre nossas cabeças, mas não consideramos que sejam significativos. No final das contas, os ricos ficam mais ricos com essa eclosão de pequenas bombas nucleares. Os pobres acabam também sendo lançados no campo de batalha como soldados.
Uma longuíssima guerra de seis séculos foi deflagrada no século XV, atravessa todas as guerras registradas na história e se avoluma cada vez mais. Apesar dos sinais, não acreditamos nesse tão grave conflito.
Comentar
Compartilhe
Fera ferida
18/04/2017 | 09h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 18 de abril de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
A bela e a fera
Fera ferida
Edgar Vianna de Andrade
 
Não faz muito tempo, pesquisas concluíram que a história da bela e da fera é uma das mais antigas do mundo. Ela teria sido criada pelas tradições populares. Faz sentido. Uma moça bela que se apaixona por uma fera sem saber que, outrora, ela foi um lindo e rico príncipe. O componente da história tem alta voltagem erótica, como outras histórias populares. Mas todas elas foram domesticadas por razões morais pouco antes e durante o movimento romântico.
Gabrielle-Suzanne Barbot e Jeanne-Marie le Prince de Beaumnot incumbiram-se de domesticá-la e deixá-la para o estúdio da Disney/Buena Vista, que colocou à disposição de Bill Condon, seu diretor, todos seus recursos técnicos e financeiros para realizar uma superprodução que superasse a animação de mesmo título e mesmo estúdio lançada em 1991.
Creio que Emma Watson não foi a melhor escolha para representar a Bela. Ela não tem perfil para tanto. É baixa, magra e tem rostinho de buldogue. É bem verdade que a Bela não é uma princesa de sangue. Começou como filha de mercador e se transformou em filha de nobre no século XVIII. Na animação e no filme, volta a ser uma moça pobre, bela, intelectual, sonhadora e filha de um inventor considerado maluco. Gaston (Luke Evans), um homem rude, é apaixonado por ela e se considera irresistível por ser forte e másculo. Bela o recusa. Tanto o pai quanto a filha acabam no estranho palácio habitado por um animal amaldiçoado, desempenhado por Dan Stevens.
A fera da animação em estilo tradicional é mais coerente. Todo seu corpo caracteriza um carnívoro. No filme, ela é um carnívoro com chifres de herbívoro. Mas na fantasia cabe tudo. No desenho, Lumière é um candelabro francês galante e conquistador que não poupa nem mulher casada. No filme, o roteiro foi mantido, mas o conquistador foi substituído por um homossexual bajulador de Gaston. Trata-se de LeFou (Jash Gad), também bajulador no desenho, mas não gay.
O filme escala ainda Kevin Kline, Ewan McGregor, Emma Thompson e Audra McDonald. O roteiro de Evan Spiliotopoulos e Stepehn Chbosky é prudente. Quase não destoa do desenho. Idem para a trilha sonora. Em time que está vencendo, não se mexe. A produção rivaliza com a animação. Muita riqueza, muito luxo e muita alegria. A Bela do conto está entre as princesas da primeira geração e as da terceira. As da primeira representam a mulher que era criada para o casamento, que vivia em função de um homem, sempre desejado como príncipe. As da terceira, não procuram por homens que possam amar. A geração intermediária não está atrás de casamento, mas não está fechada para o amor.
Comentar
Compartilhe
Meu mal-estar na globalização
16/04/2017 | 10h10
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 16 de abril de 2017
Meu mal-estar na globalização
Arthur Soffiati
 
Nasci em 1947, no quinto século da globalização. É preciso explicar o que entendo por esta palavra. A globalização não é um projeto nascido de um acordo entre as culturas existentes no mundo no século XV. Se houvesse um acordo dessa natureza, talvez o chinês ou japonês, uma língua indiana, o árabe ou o iraniano, o russo, o mexicano e o quéchua tivessem a mesma importância que o inglês.
A globalização não foi promovida pelo Japão, China, Índia, mundo árabe, Rússia, Peru ou México, mas pela Europa ocidental. Daí, o conteúdo da globalização ser europeu ocidental. Também não nasceu por aceitação das demais culturas, mas por imposição de uma cultura sobre as outras. E essa cultura que se impôs ao mundo era e continua sendo impulsionada pelo lucro. No seu alvorecer, ela contou com o forte apelo da conversão de outros povos ao catolicismo romano. Mas não era esse o seu caráter mais profundo. Tanto assim, que a religião não é mais usada como motivação para conquistas e guerras. Portanto, a globalização equivale à ocidentalização do mundo e esta tem como elemento propulsor a economia de mercado.
Nasci num ano não muito feliz. Em 1947, o Fundo Monetário Internacional iniciou suas operações. Também Truman, presidente dos Estados Unidos, anunciou a doutrina que leva seu nome, dando início à guerra fria. Registrou-se também a independência da Índia em relação ao Reino Unido, tendo como líder Mahatma Gandhi, que percebeu como poucos o sentido da ocidentalização do mundo. Ele sonhava em libertar a Índia não apenas do jugo político britânico, mas também da cultura ocidental. Ele queria o retorno da Índia às suas tradições. Seu sonho era a contra aculturação. Não deu certo. Hoje, a Índia profunda ainda é hinduísta, mas as elites são ocidentalizadas.
Nasci no Brasil, periferia do ocidente. Nasci, cresci e me aproximo da morte numa Europa mestiça. Sinto um desconforto muito grande no meu lugar e tempo. Creio que gostaria do lugar onde nasci se fosse antes do século XV. Eu viveria num grupo indígena e talvez praticasse o canibalismo ritual. Acreditaria que humanos e animais têm alma e que todas as almas sobrevivem à morte. Talvez eu fosse abatido em guerra e tivesse minha carne devorada pelos inimigos. Talvez eu morresse jovem ainda para os padrões ocidentais, que prolongam cada vez mais a expectativa de vida das pessoas. Eu não me importaria, pois desconheceria outros modos de viver.
Mas eu seria íntegro de corpo e alma. O ocidente invocou muito o cristianismo para justificar suas conquistas, mas dessacralizou o mundo. Hoje, a ocidentalização continua, mas não se invocam mais motivos religiosos para justificá-la. Nem mesmo o marxismo, uma forma laica de cristianismo, tem mais apelo. Agora, o que está valendo é o liberalismo na sua forma líquida quase gasosa. Não gosto desse mundo. Nasci nele por acidente. Eu queria nascer numa época pré-ocidentalização. Mas não posso negar que sou fruto da ocidentalização. Eu gostaria de ter uma crença religiosa e de viver religiosamente. De ter certezas, mas só tenho dúvidas. Nem ateu eu consigo ser, pois o ateu tem certeza da inexistência de Deus.
Eu gostaria de crer numa outra vida e de morrer com essa crença. Mas eu não gostaria de nascer em qualquer lugar antes da ocidentalização do mundo. Acho que, por motivos muito íntimos, sou tolerante. Por isso, eu não gostaria de ser judaísta, cristão ou muçulmano num tempo em que as civilizações eram íntegras. Eu abominaria matar ou aplaudir a morte de alguém por ter convicções diferentes das minhas. Eu queria crer e deixar que os outros tivessem suas crenças. Quando externo minhas inquietações a alguém, recebo como resposta que devo crer em Deus com fé, como se bastasse o meu desejo para uma conversão na reta final da minha vida. Ou então os entusiastas da modernidade me dizem que eu devia ficar contente com meu tempo, já que não existem mais preconceitos e perseguição religiosa. Será? Que eu devia me alegrar com as conquistas da ciência. Não sinto a mínima falta de saber que o Universo tem um começo e uma história, assim como a vida é fruto da evolução. Esses conhecimentos em nada me ajudam a viver, mas, se vivo, atualmente, num mundo laicizado, não posso prescindir de tais conhecimentos.
Creio que eu gostaria de viver na China antes da globalização, sendo um taoísta convicto. Eu acreditaria que o ser humano é o terceiro elemento, o responsável pelo equilíbrio da natureza. Eu teria uma vida recolhida, uma vida de sábio. Mas ainda assim não teria certezas absolutas que afastassem minhas dúvidas sobre o metafísico. Mas seria melhor viver nesse mundo do que no nosso, que não é o melhor dos mundos, como diria Dr. Pangloss, o célebre personagem de Voltaire, otimista incorrigível. Nosso mundo está povoado de Pangloss, o que muito me atemoriza. Tenho um sonho impossível: voltar ao passado como Woody Allen em “Meia-noite em Paris”, mas não a qualquer passado, e não ser fragmentado como sou. Ansioso como sou.
Comentar
Compartilhe
Vinte e quatro
11/04/2017 | 09h12
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de abril de 2017
TRÊS ESTRELINHAS
(Fragmentado)
Vinte e quatro
Edgar Vianna de Andrade
 
Percebo um traço comum aos filmes de M. Night Shyamalan: o caráter infanto-juvenil. Mesmo que crianças e adolescentes não figurem como atores, o caráter está presente. O diretor indiano radicado nos Estados Unidos se declara admirador de Alfred Hitchcock. Acredito. Acho mesmo que ele é tão fã do cineasta britânico que imita a assinatura dos seus filmes. O genial Hitchcock costumava aparecer rapidamente em suas produções. Shyamalan, mais vaidoso que o mestre, costuma desempenhar papel temporário nas suas produções.
Mas, voltando ao caráter infanto-juvenil do diretor, podemos notar essa caraterística mesmo nos filmes mais adultos dele. Em “O sexto sentido”, Bruce Willis contracena com um menino detentor de sabedoria maior que o adulto. Em “Corpo fechado”, não aparecem crianças. No meu entendimento, esses dois filmes traziam a promessa de um diretor criativo. Mas, bastou lhe dar corda para que ele expressasse sua imaturidade. Steven Spielberg também revela tendência ao infantilismo, mas sabe sair dela quando necessário. Aliás, a imaturidade de Spielberg se torna mesmo indispensável quando seus filmes se voltam para público infanto-juvenil. Shyamalan só fez filmes voltados para adultos, sempre os tratando como crianças. “O último mestre da água” continua insuperável neste aspecto.
“A visita”, de 2016, é um drama com suspense imediatamente anterior a “Fragmentado”. Este, lançado em 2017, é um “thriller” com três núcleos narrativos que se relacionam. No principal, um psicopata sequestra três adolescentes e as mantém prisioneiras num porão. No segundo, o psicopata conversa com sua analista. Ele sofre de transtorno dissociativo de identidade. Tem 23 personalidades numa só pessoa e anuncia a aproximação da vigésima quarta.
O terceiro núcleo gira em torno de Anya Taylor-Joy (Casey Cooke), uma das adolescentes sequestradas em mantidas em cativeiro. Ela tem um passado traumático por ter sido estuprada pelo tio. É das três, portanto, a mais madura e mais fria para lidar com o psicopata. Ela será a principal interlocutora dos 23 personagens e vítima do 24°. Até aí, Shyamalan se esforça para ser adulto. Uma das personalidades é infantil e talvez represente melhor o diretor.
Não é o final inesperado que assusta os espectadores. Todos os filmes do diretor, costumeiramente também roteirista, têm final inesperado. Creio que, sabendo introduzir o inesperado, o filme ganha interesse. Mas depende de que tipo de inesperado se trata. A nova personalidade de Kevin, o psicopata com muitas personalidades muito bem representadas por James McAvoy, é uma fera. Pode-se esperar que seja uma faceta violenta de Kevin ainda oculta. Mas é uma espécie de Hulk que sobe pelas paredes. Nesse momento, o final inesperado vem carregado da única personalidade do autor: a infanto-juvenil.
A crítica, porém, está elogiando o filme. Argumenta-se que, depois de “A vila”, o diretor caiu muito. Com “A visita”, ele começa a se erguer. Com “Fragmentado”, mais ainda. Um autor sempre amadurece. Rápido ou lentamente. Shyamalan é lento.


Comentar
Compartilhe
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (III)
09/04/2017 | 10h33
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (III)
Arthur Soffiati
 
Quando os primeiros europeus chegaram ao futuro norte fluminense, nos séculos XVI e XVII, a ecofisionomia da região era muito diferente. Havia então um mundo caótico de água doce em torno de dois eixos. O rio Paraíba do Sul era o mais importante. Ele ainda é. Por sua margem direita, as águas de transbordamento das cheias vertiam em direção à lagoa Feia, a maior de um universo infinito de lagoas, alimentando distributários e lagoas. O outro era representado por um conjunto misto de rios e lagoas. Podemos situar esse eixo como tendo início no rio Imbé, coletor dos pequenos rios que ainda descem da Serra do Mar por sua vertente atlântica, formador da lagoa de Cima com o rio Urubu. Essa lagoa escoa suas águas pelo rio Ururaí que, por sua vez, dilata-se na lagoa Feia, também alimentada pelo rio Macabu. Por uma infinidade de canais naturais, a grande lagoa vertia suas águas até a lagoa do Lagamar. A partir de então, saía do Lagamar um canal denominado rio Iguaçu, que recebia vários distributários do rio Paraíba do Sul, alargava-se no banhado da Boa Vista e chegava ao mar.
Pero e Gil de Gois não deixaram nenhum relato desse aranhol de ecossistemas hídricos. A umidade era tanta que a vegetação não adquiria porte arbóreo, com raras exceções, como a tabebuia, por exemplo. Apenas nos pontos mais altos e nas restingas, formavam-se matas. Nos estuários, os manguezais formavam bosques expressivos, como no caso de todos os rios da área baixa: Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul, Iguaçu e Macaé, entre eles, pequenos córregos também formavam estuários favoráveis ao desenvolvimento de manguezais.
Não contamos com documentação robusta para demonstrar que pescadores de Cabo Frio chegaram em 1622, instalando-se na atual praia de Atafona e fundando posteriormente a vila de São João da Praia, depois São João da Barra. Eles teriam iniciado a colonização contínua da região dez anos antes dos sete capitães, que empreenderam expedições em 1632, 33 e 34 para tomar posse efetiva de terras requeridas à Coroa Portuguesa como sesmarias, a fim de criar gado para atender à cidade do Rio de Janeiro. A colonização pelo gado e logo a seguir pela agricultura foi rápida. Em 50 anos, Campos já se destacava como polo significativo da colonização e da globalização europeias.
O século XVII coloca uma opção de desenvolvimento econômico para os colonos estrangeiros. Os grupos indígenas que viviam no futuro norte fluminense sustentavam-se com uma economia de subsistência baseada na coleta, na pesca e na caça, com uma agricultura rudimentar e complementar. O mais completo estudo sobre o modo de vida dos povos nativos da região foi redigido pelas arqueólogas Tania Andrade Lima e Regina Coeli Pinheiro da Silva sobre o arquipélago de Santana, defronte a foz do rio Macaé (Zoo-arqueologia: alguns resultados para a pré-história da ilha de Santana. Revista de Arqueologia 2(2). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1984).
A pesca seria um caminho a seguir? Hoje, existem países com forte economia pesqueira. Podemos mencionar Dinamarca, Japão e Taiwan. Inseridos num contexto capitalista, a pesca, nesses países, visa o mercado. Trata-se de uma atividade industrial sobre organismos aquáticos. Tendo a extração um caráter de progressão geométrica sobre animais que se reproduzem em progressão aritmética, o resultado é a extinção de espécies. Além do mais, nesses países, a pesca é praticada no mar, não em águas interiores.
Como seria a baixada dos Goytacazes se, em vez da agropecuária, a colonização fosse promovida pela pesca? É de se esperar que não fosse praticada nos moldes da economia de subsistência dos povos nativos, mas em moldes de uma economia de mercado. Isso significa que a atividade pesqueira exigiria transformações no sistema hídrico original, a introdução de espécies exóticas e o extrativismo acima de seus limites. De certa forma, a pesca interior e marítima praticada no norte fluminense ainda não pode ser considerada industrial. Mesmo assim, produz danos aos ecossistemas e à fauna extraída, com desrespeito aos períodos defesos e tantas irregularidades mais. A pesca que se pratica nas lagoas, rios e mares, aqui, não é exemplo de uma atividade ecologicamente sustentável.
Além do mais, no século XVII, este dilema não se colocava aos colonizadores. Certamente, os sete capitães, seus descendentes, jesuítas, beneditinos e Assecas não estavam imbuídos de motivações ambientais. O interesse de todos era o ganho fácil e rápido. Não era de peixes que careciam o Rio de Janeiro e a Europa. A planície do Rio de Janeiro não tem área grande e foi ocupada pela agroindústria açucareira, com campos plantados e engenhos. Aconteceu no Rio de Janeiro o que aconteceu com o Brasil litorâneo: o gado foi empurrado para o interior para que a cana fosse cultivada na zona costeira. No Rio de Janeiro, o gado foi expulso para o norte fluminense.
Para a criação de gado numa zona extremamente úmida, seria necessário a sua conversão em terras apropriadas para a agropecuária. Como não houvesse tecnologia para grandes obras de drenagem, os colonos se conformaram a plantar e a criar nas terras mais altas, não completamente sujeitas às águas. A umidade foi um fator limitante à agropecuária por séculos. Comparada à que se prática atualmente, ela era pífia. E observe-se que a região não tem peso expressivo na produção nacional. As demandas também não eram tão grandes no século XVII como hoje, em que o mundo está cada vez mais globalizado pelo capitalismo nascido no ocidente.
Comentar
Compartilhe
Futuro sombrio - A vigilante do amanhã: ghost in the Shell
04/04/2017 | 09h09
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 04 de abril de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A vigilante do amanhã: ghost in the Shell
Edgar Vianna de Andrade
Futuro sombrio
 
“A vigilante do amanhã” é mais um filme visando bilheteria. Creio que Rupert Sanders, seu diretor não percebeu o que eu percebi no filme, adaptação de um famoso jogo japonês. A partir da obra original criada por Shirow Masamune, também visando lucros, William Wheeler e Ehren Kruger redigiram o roteiro. Para garantir bilheteria, Scarlet Johansson foi escalada para o papel principal. Ela representa Major Mira Killian, a princípio uma refugiada quase totalmente mutilada por terroristas. O filme procura se situar numa realidade conhecida nos dias atuais, embora se passe num futuro concebido em 1989.
A cidade em que ele é ambientado parece ser Hong-Kong ou em qualquer grande cidade do mundo. Edifícios altíssimos com hologramas de pessoas fazendo propaganda de produtos. As pessoas que circulam pelas ruas se vestem à moda ocidental e oriental. A tridimensionalidade, realçada pelos óculos 3D, é tributária do antigo “Metropolis”, de Fritz Lang, datado de 1927. Também Lang envereda por um caminho que revela a natureza mais profunda do capitalismo, mas desiste em nome do humanismo.
Depois de atacada por terroristas, de Killian só resta o cérebro. Ele ganha o belo corpo de Johansson, que não continuou o flerte com Woody Allen, voltando aos filmes sem expressão, mas que rendem dinheiro. Como vigilante do amanhã, ela se vale de vários artifícios conferidos pela ciência futura. Aliás, não se sabe que é humano, cyborg ou mecânico. Ela é a primeira criatura cibernética, mesclando humano e robô e podendo ser regenerada se sofrer lesões no corpo que não comprometam o cérebro.
Eu não estranharia que a economia de mercado globalizada chegasse a um ponto em que até mesmo patrões e empregados não sejam mais humanos. Um mundo assim mostra mesmo o aspecto irracional do capitalismo: a máquina de gerar lucros continha funcionando mesmo sem pessoas.
O filme caminha para esta direção, mas não se pode criar um game ou um filme arrasa quarteirão sem uma mensagem ética. Assim é que o lucro a qualquer custo por uma empresa representa o mal. Os valores de um Estado regulador com um ministro, a percepção de que matar é eticamente condenável e os dramas pessoais representam o bem. Killian, Batou (Pilou Asbaek), Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), Dra. Oulet (Juliette Binoche) e Kuze (Michal Pitt) representam o bem numa infindável luta contra o mal. Killian sai à procura de sua história pessoal, deletada ao ser reconstruída.
De todos os atores, destaco o excelente desempenho de Takeshi Kitano, de longe o melhor de todos no filme. Bastaria ele para restaurar a humanidade e o senso de humor perdidos. Quanto três assassinos tentam matá-lo, ele reverte o confronto e mata os três. “Desde quando mandam coelhos para matar uma raposa”, exclama. Parece que se está a ver novamente o excelente diretor e ator de Zatoiche. Foi a melhor escolha para o elenco.
Nesse mundo em que as pessoas se tornam supérfluas diante das grandes corporações econômicas, é preciso introduzir alguma humanidade. A cidade fria comporta uma periferia sem lei. O crime comum foi enclausurado. Só o crime de colarinho branco domina a sociedade. Mas esse futuro sombrio, frio e a-humano precisa de vida, de princípios, de valores morais. É por isso que Johansson procura lutar. Como dirigida por um piloto automático, ela empreende uma guerra hercúlea e talvez inútil na vida real contra o avanço do capital.
Comentar
Compartilhe
História das doenças
03/04/2017 | 15h32
Saúde Press ano 7, n° 84, Campos dos Goytacazes, março de 2017
História das doenças
Arthur Soffiati
 
Nossa primeira impressão é a de que as doenças sempre existiram, antes mesmo que os seres humanos tenham habitado a Terra. Impressão enganosa. As doenças dependem do meio. Se mais pessoas se concentram nesse meio, mais facilmente as doenças se desenvolverão. Entre os povos nativos da América, por exemplo, a incidência de doenças era menor, apesar da escassez de remédios, de médicos, de postos de saúde e de hospitais. O tempo de vida era menor, contudo, e os riscos corridos pelo ser humano eram grandes. A longevidade natural das pessoas não era aumentada com remédios. E havia a ameaça de acidentes, de guerras e de caçadas.
Nas regiões mais povoadas do planeta, no século XV, por exemplo, a destruição do meio já avançava vertiginosamente. As doenças transmissíveis dos europeus não funcionaram como arma de extermínio entre os muçulmanos do Oriente Médio por ocasião das Cruzadas entre os séculos XI e XIII. No Oriente Médio também havia aglomerações e destruição do ambiente natural. Havia, portanto, muitas doenças que os europeus trouxeram para a Europa.
A famosa Peste Negra, que causou a morte quatro milhões de pessoas numa população de dez milhões veio do oriente. Ela prosperou por encontrar uma população sem defesas naturais e debilitada pela grande fome do século XIV. Os europeus foram desenvolvendo anticorpos para muitos micróbios. Todavia, eles não eram extintos e sim controlados pelo organismo. Eles continuavam nos corpos das pessoas esperando oportunidades de se manifestar em corpos ainda virgens de doenças.
Foi o que aconteceu com a expansão da Europa pelos oceanos. Mais perigosa que um canhão era uma caravela. Dentro dela, havia homens infectados que resistiam às doenças. Eles usavam armas brancas e armas de fogo desconhecidas pelos povos nativos da América. Além do mais, eles transportavam cachorros, cavalos, bois, cabras e outros animais também carregados de micróbios. Vinham também plantas e sementes nessas embarcações. Por fim, até mesmo animais indesejados pelos navegantes, como ratos e insetos.
Os nativos estavam acostumados a doenças e a traumas causados por caçadas e guerras. Seus remédios vinham diretamente da natureza, sem manipulação da indústria farmacêutica. Os xamãs eram os médicos. As crenças religiosas ajudavam consideravelmente nas curas feitas normalmente com ervas. Usando um sistema semelhante ao de vacinas, os nativos inoculavam em seus corpos, em doses homeopáticas, venenos mortais, como o de cobras, desenvolvendo resistência a eles.
A chegada dos europeus à América e à Oceania representou uma catástrofe para os povos indígenas. Eles não tinham anticorpos para as doenças transmissíveis dos europeus. Essas doenças foram mais letais aos nativos que as armas. Na Nova Zelândia, os nativos entravam em pânico ao verem a mosca europeia porque ela indicava a presença de europeus.
Na América, uma das doenças europeias mais temidas era a varíola. Os europeus já eram resistentes a ela, mas os nativos americanos não. Quando, num grupo indígena, ela se manifestava, as pessoas aparentemente sãs fugiam com medo de contraí-la. Tais pessoas não sabiam que já estavam contaminadas e que a doença iria se manifestar mais tarde, quando ela já estava em outro grupo humano, julgando-se salva.
As chamadas doenças tropicais são, na verdade, doenças da pobreza e da miséria. A maioria esmagadora delas desenvolveu-se no “Velho Mundo” depois do Neolítico e da revolução urbana, em função da sedentarização de algumas sociedades. No Paleolítico, os grupos humanos eram atacados por ecto e endoparasitos, como piolho, sarna e vermes, além de algumas doenças contagiosas. Contudo, seu modo de vida não acarretava a produção de esgoto e lixo, o que limitava a proliferação de organismos vetores de enfermidades. A sedentarização acarretada pelo Neolítico e pelas primeiras cidades trouxe o problema do lixo, do esgoto e da poluição da água para consumo. A concentração demográfica favoreceu a disseminação de morbidades.
Vários grupos nativos da América já haviam se sedentarizado. Mas, além dos remédios domésticos, havia o controle de transmissores de doenças pelas florestas principalmente. Além do mais, as concentrações populacionais não apresentavam grande densidade. Com os europeus, desembarcaram na América o sarampo, a rubéola, a disenteria, a icterícia catarral, a coqueluche, a caxumba, a amigdalite, a meningite meningocócica, a gripe, a difteria, a varíola, o tracoma, a catapora, a peste bubônica, a malária, o tifo, a cólera, a febre amarela, a dengue, a escarlatina, a amebíase, as doenças venéreas e muitas outras.
Comentar
Compartilhe
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (II)
02/04/2017 | 10h22
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (II)
Arthur Soffiati
 
Depois que Gil de Gois devolveu oficialmente a Capitania de São Tomé à Coroa portuguesa, terras suas foram requeridas a título de sesmarias. Uma sesmaria era uma gleba de terra doada gratuitamente a quem já tivesse posses. Ela não conferia poder político a seu detentor, apenas poder econômico. Nas terras da capitania, Pero e Gil de Gois deixaram apenas arranhões da cultura europeia que se autorregeneraram. Restaram apenas ruínas do porto e engenho em Limeira, que podem ser vistos ainda hoje.
Os jesuítas e sete fidalgos requereram sesmarias na antiga capitania em 1627. Os fidalgos chegaram primeiro. Eles partiram da baía do Rio de Janeiro, hoje Guanabara, passando por Cabo Frio. Onde hoje fica a cidade de Macaé, já existia um arraial bastante precário. Numa embarcação de tipo sumaca, a expedição rumou para o cabo de São Tomé. O guia da expedição jogou-se no mar e conseguiu chegar à costa num mar bravio. A sumaca voltou a Macaé e, de lá, a expedição rumou a pé para tomar posse de suas terras, que se estendiam da foz do rio Iguaçu, hoje reduzido à lagoa do Açu, ao rio Macaé.
A expedição contava com um escrivão. Ela fez contato com um grupo indígena às margens da lagoa Feia. Quando a conheceram, os membros da expedição ficaram pasmos com o “mar interior de água doce”. Recebeu o nome de Feia por ser conhecida em dia de condições climáticas feias, ou seja, de forte temporal. Daí o seu nome.
Seguindo viagem, a expedição dirigiu-se ao cabo de São Tomé. Todos foram com os dedos nos gatilhos de suas armas, temendo a ferocidade dos índios goitacás. Não foi necessária violência explícita. As sentinelas avançadas da civilização europeia na sua versão portuguesa foram bem recebidas pelos índios. Entre eles, viviam náufragos e foragidos da justiça. Havia, inclusive, um negro que os capitães julgaram ser um escravo foragido.
O guia foi reencontrado e os índios receberam a expedição muito bem, com grande fartura de peixes e animais caçados. Os capitães foram informados que os “maus” goitacás se transferiram para a margem esquerda do rio Paraíba do Sul. O imaginário, o fantasioso, o perigo foram sempre deslocados para mais distante, mas eles existiam.
Consta que, em 1622, dez anos antes dos capitães, portanto, pescadores de Cabo Frio liderados por Lourenço do Espírito Santo instalaram-se no local que futuramente corresponderia a Atafona e deram origem a São João da Barra. Precisamos de mais fontes para confirmar essa outra forma de colonização. Os sete capitães tomaram posse de suas terras para a criação de gado, com o fim de fornecê-lo ao Rio de Janeiro. Seja como for, parece que a colonização contínua do norte fluminense em moldes europeus foi iniciada por pescadores e pecuaristas.
A planície deltaica apresentava condições mais apropriadas para a pesca que para a agropecuária, mas esta suplantou aquela. Os capitães tomaram as primeiras providências para dividir a sesmaria em sete lotes. Reflitamos sobre a incorporação definitiva da região à globalização: criação de gado para abastecimento do Rio de Janeiro, povoação portuguesa que já nasceu com o estatuto de cidade ligada à corte portuguesa, por sua vez integrada à Europa nos primórdios de sua expansão pelo mundo. O futuro norte fluminense não apenas começava a ocidentalizar-se e a incorporar-se à economia capitalista.
Na segunda expedição, os capitães batizaram os acidentes geográficos que foram encontrando na região com nomes de origem tupi e portuguesa. Foi, das três expedições, a que mais permitiu o reconhecimento das terras. Nessa segunda viagem, foi erguido o primeiro curral, na localidade correspondente a Campo Limpo, confiado aos cuidados do índio mestiço e cristianizado Valério da Cursunga. Também um oratório em louvor a São Miguel foi erguido em terras da atual Quissamã. A terceira e última expedição foi promovida em 1634. Os capitães não se se fixaram em suas terras. Coube a seus herdeiros promover a colonização. Logo depois, sabedores da fertilidade delas, embora a maior parte estivesse no fundo de lagoas, os Jesuítas também ocuparam as glebas reivindicadas.
Salvador Correia de Sá e Benevides, governador da Capitania do Rio de Janeiro, requereu a Capitania de São Tomé para sua família. Ela passou a ser conhecida como Capitania de Paraíba do Sul. Campos começou a se erguer. A região dividiu-se em quatro grandes domínios rurais: morgado de Capivari, Jesuítas, Beneditinos e Assecas. Estes eram os descendentes dos Sá e Benevides. Um conflito secular instalou-se entre os herdeiros dos Sete Capitães e os Sá é Benevides. A região avançava na globalização.
O texto que melhor registra os primeiros momentos da colonização contínua é o “Roteiro dos Sete Capitães”, na versão de Adelmo Henrique Daumas Gabriel e Margareth da Luz (Orgs.); Carlos Roberto B. Freitas; Fabiano Vilaça dos Santos; Paulo Knaus; Arthur Soffiati (notas explicativas) e Marcelo Abreu Gomes. Macaé: Funemac Livros, 2012.
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Aristides Soffiati

[email protected]