Uma escritora em dois mundos
31/03/2017 | 09h27
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 31 de março de 2017
Uma escritora em dois mundos
Aparício Torres
 
Maria Valéria Rezende lançou dois livros recentemente: “Quarenta dias” (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014) e “Outros cantos”. (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016). Ela não é marinheira de primeira viagem. Não é uma aventureira das letras, que lança um livrinho qualquer em meio a muita festa e a pouca qualidade literária. A literatura mundial está cheia de autores superficiais.
Maria Valéria já fincou pé na literatura brasileira com os romances “O voo da guará vermelha” (2005) e “Vasto Mundo” (2001), assim como com os livros de contos “Modo de apanhar pássaros à mão” (2006) e a “A utilidade da cobra”. Ela participou ativamente da resistência contra o regime militar brasileiro, estudou letras e educação no Brasil e na França. Trabalhou em educação popular. Mora na Paraíba. O que mais surpreende na autora é o fato de ela ser freira. Uma freira ficcionista com grande cultura literária.
É ela que reclama do rótulo de literatura regional para aqueles que escrevem fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. De fato, o regionalismo não tem mais muito sentido hoje no Brasil. Ou ele está no passado ou na memória dos escritores. Ronaldo Correia de Brito talvez seja o autor que mais se aproxime do regionalismo atualmente. Mas o sertão que ele visita em suas obras está em frangalhos. Sua ficção transita entre o sertão descaracterizado e a cidade.
Em “Quarenta dias”, Maria Valéria Rezende sai da sua amada Paraíba na pessoa de Alice e vai transitar em Porto Alegre, já uma grande cidade. Ela mostra que sabe construir personagens. A filha de Alice se casou e foi morar em Porto Alegre. Alice é uma professora aposentada que gosta de ler, embora não tenha uma grande biblioteca. Como mora sozinha, só conta com amigas e com um diário redigido num caderno escolar com Barbie na capa. Em seus apontamentos, ela conversa com Barbie, que deve ter a sua idade, mas permanece sempre jovem e bonita.
De repente, sua filha Norinha monta uma armadilha para a mãe. Ela é praticamente sequestrada por sua filha e seu genro para Porto Alegre a fim de cuidar de um neto planejado pelo casal de universitários. Numa narrativa original, a autora mostra Alice rebelando-se contra os planos traçados para ela. O estilo é rápido, com diálogos inseridos na própria narrativa na primeira pessoa, representada por Alice. Toda intervenção é embutida no texto, à moda de Saramago. Ela se inicia sempre com letra maiúscula. Quando os parágrafos não concluem o pensamento, deixando a suposição para o leitor, não há ponto.
Todo capítulo do diário começa com o pensamento de um autor a guisa de epígrafe. Talvez esse artifício extraia um pouco a condição de diário. Também aparecem notas de compras e anúncios, que bem poderiam ser papeis recolhidos por Alice e guardados no diário. A narradora não apela para o que se considerava há pouco tempo como palavrão nem para erotismo. Ao contrário, quando recorre a algo parecido, acaba exclamando “Ave-Maria, Quanto nome feio acabei de escrever!, eu que nunca fui disso!”
Em Porto Alegre, Alice é acomodada num apartamento confortável, mas que não a agrada por não ser o seu, na Paraíba. Ela consegue uma diarista do Nordeste de quem fica íntima, pois ambas se sentem desterradas na cidade. Num belo dia, sua filha Norinha e seu genro Umberto a convidam para jantar e lhe dão a notícia de que vão viajar para o exterior por quase um ano para continuar os estudos. Alice se sente abandonada e se revolta. Logo em seguida, uma amiga da Paraíba lhe informa que o filho da manicure de ambas foi para Porto Alegre e nunca mais deu notícias. Alice é convocada a procurar Cícero. Essa busca incessante leva Alice a percorrer os bairros, as favelas, os hospitais e as cidades vizinhas à procura de Cícero. A narrativa ganha um segundo fôlego.
Na procura, Alice conhece muitas pessoas. Descobre que há muitos nordestinos morando em Porto Alegre. Aprende o linguajar do sul. Passa a falar duas línguas: a nordestina e a sulista. Várias gafes de Alice são hilariantes. Ela tem humor. Seu diário e suas conversas com Barbie passam a ter um caráter metalinguístico no livro. Os registros não se dirigem a ninguém a não ser a ela própria, mas se trata de um livro para leitura de outros.
Com filha e genro no exterior, a vida de Alice ganha sentido com a procura de Cícero em Porto Alegre. Ela conhecerá a cidade e seus habitantes nessa procura. Enquanto o encontro de Cícero é uma esperança. A narrativa é densa. Mas sua força começa a arrefecer quando a procura não rende o fruto esperado.
Ao longo do romance, Alice compara Porto Alegre a sua terra natal, o presente ao passado. À educação, à medicina de seu tempo com as dos dias atuais. “Agora, até parece não haver mais médicos, só engenheiros de órgãos isolados, muitos nem olham pra cara do paciente nem perguntam nada, passam uma batelada de exames eletro-ultrassônico-cibernéticos, olham pros papéis e pro computador, escrevem em uns e no outro, e a gente mesmo tem de fazer o próprio diagnóstico pra saber em que especialista vai.”
Na sua humanidade, Alice humaniza Barbie. Uma leitura atenta do livro dá a impressão de que o diário de Alice não é escrito no dia a dia, mas no final da grande aventura de sua vida. Lembra de seus avós. Tem uma história antiga atrás de si. Tem memória. Escreve de forma coloquial. Nas suas buscas, acaba se transformando numa moradora de rua quase até o final do romance. Maria Valéria coloca em Alice sua experiência de freira.
Sobre o viciante celular, ela é perspicaz: “Não aguento gente que, mesmo sentada num restaurante com quem lhe fez um convite pra almoçar, se essa coisa tocar, larga você, sozinha, bestando, olhando pras moscas, esperando respeitosamente, a presença eletrônica mais forte e exigente do que a presença de uma criatura de carne e osso.”
Sobre sua ficção: “Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que dá pra fazer meia-volta-volver (...) deixar escorrer tudo do corpo pra caneta e pro papel.” Ela zanza tanto por Porto Alegre e arredores que “Toda a energia que eu tinha exibido atravessando a pé quilômetros daquela cidade pareceu escorrer pro chão pelos meus pés agora doloridos, deixando atrás de si um desânimo enorme.” A grande cidade se transforma para ela num não-lugar. Será que ela conhece o antropólogo Marc Augé?
No premiado “Outros Cantos”, Rezende volta, quarenta anos depois, a Olho d’Água, lugarejo em que iniciou sua vida de professora pelo Mobral. A personagem Maria, que parece ser a autora, parte do leste em direção a oeste. Ela saiu do lugarejo por razões políticas durante a vigência da ditadura militar. Viajou ao México e ao Saara na Argélia, lugares que lhe servirão de referências nas suas comparações com o sertão nordestino. Quarenta anos remete ao título do romance “Quarenta dias” e a um número bíblico, ligando a autora a sua condição de freira.
O romance avança em cortes. Um capítulo narra a viagem com suas paradas e suas andanças num ônibus em direção a Olho d’Água. O capítulo seguinte aborda suas lembranças do lugarejo. “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. As casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d’Água?” Pergunta-se durante a viagem.
Contrastando passado e presente, ela toma o exemplo da música: “... liga uma traquina eletrônica qualquer e me oferece as vozes em terça da agora chamada música sertaneja, inteiramente alheia ao meu antigo sertão. Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro...”
O tempo todo está presente a tensão entre passado e presente, entre o antigo e o moderno. A integridade do sertão, mesmo com suas perversidades, foi estilhaçada. Essas perversidades eram a condição feminina, com maridos tendo o direito de bater nas esposas, a autoflagelação coletiva de homens por motivos religiosos etc. Maria se sentia na Idade Média. Era uma citadina extraviada no sertão. Mas ela não relata como é o novo sertão. Não chega ao lugarejo de seu passado, que está na sua memória. O novo está na sua imaginação. Talvez seja uma técnica ficcional: deixar o lugar em suspenso para o leitor.

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Envelhecimento e morte de super-heróis
29/03/2017 | 12h10
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 28 de março de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
(Logan)
Envelhecimento e morte de super-heróis
Edgar Vianna de Andrade
 
Super-homem nasceu como todos os mamíferos: da barriga de sua mãe. Já nasceu com o corpo de aço. Mesmo assim, cresceu e veio parar na Terra. Ele ama. Será que se casará um dia? Como serão as relações sexuais de um corpo de aço com uma mulher de carne e osso? E o envelhecimento e a morte do herói? No filme “Esquadrão suicida”, anuncia-se que Super-Homem está morto. Deve ter sido por kriptonita, já que ele está condenado a ser sempre jovem e imortal.
Com os heróis da Marvel, o destino é diferente. Eles são trágicos. Nascem com mutações genéticas que lhes conferem poderes. São mutações aleatórias que não apontam para uma tendência da humanidade. Esta – a humanidade – discrimina e teme os novos seres. Eles não queriam nascer com diferenças. Então, procuram se defender. Como tudo o que é produzido nos Estados Unidos, há sempre a polarização bem-mal. Professor Xavier é o líder do bem. Magneto é seu arqui-inimigo.
Outra diferença deles em relação aos super-heróis da primeira geração é que os da Marvel envelhecem e morrem. É o que se assiste em “Logan”, com roteiro de James Mangold, Michael Green e Scott Frank, sendo que Mangold é também seu diretor. Logan/Wolverine (Hugh Jackman) provê com dificuldade o nonagenário Professor Xavier (Patrick Stewaert), com suas perigosas crises de hiperatividade mental, e o albino Caliban (Stephen Merchant). Os três moram precariamente na periferia. Os outros se foram. Não há maiores explicações sobre eles, mais novos que os sobreviventes. Velhice e morte de super-heróis produzem empatia com o público até o momento formado por humanos.
E os heróis da Marvel não foram de todo uma ameaça. As forças armadas dos Estados Unidos começam a produzir mutantes para a guerra. Como sempre, o serviço sujo do país é feito em outro país. Nesse caso, no México. Com a política externa do fanfarrão e retrógrado Donald Trump, talvez eles passem a ser fabricados nos Estados Unidos para gerar empregos.
Essa a vertente política do filme, mostrada em tom de crítica. A vertente filosófica é o acaso, o erro. Nem sempre, os militares e cientistas detêm controle absoluto sobre suas criações. Há mutantes que se rebelam e fogem. O principal é a menina Laura Kinney (Dafne Keen), com muito bom desempenho. Ela é filha de Logan. Seu poder é o mesmo e ela é muito ágil. Na nova geração de mutantes, agora com produção induzida, há também os bons e os maus.
Assim como outras crianças, ela foge e tenta se reunir a elas. As fronteiras nacionais ainda existem, embora estejamos em 2029. Notei que o mundo não mudou muito em 12 anos. Logan ainda mantém um corpo sarado para sua idade. O mundo continua muito o mesmo. Talvez seja uma crítica infundada. Doze anos é pouco para grandes mudanças, mas também é muito. A década de 1990 testemunhou mudanças muito rápidas.
Mas não cobremos o que não nos devem. O filme é o último de Hugh Jackman no papel de Wolverine. Ele fez três e podia fazer mais. A mutilação que o matou não me convenceu em virtude de seu passado de regenerações profundas. Ele podia viver mais. No entanto, talvez o próprio Jackman tenha entendido que já é hora de representar papeis de avô.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (I)
26/03/2017 | 09h49
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de março de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (I)
Arthur Soffiati
 
Para compreender o processo de integração de áreas não europeias a uma economia global, é preciso recordar minha interpretação da Modernidade porque há várias teorias sobre ela. Para mim, toda civilização, ou seja, toda cultura com cidades e divisão social e regional do trabalho, produziu excedentes apropriados por uma atividade comercial. Se o comércio não crescia, o motivo era a produção limitada de excedentes.
A civilização ocidental, na Europa, foi a única em que uma atividade comercial começou a ultrapassar os limites da produção feudal de excedentes, exigindo o aumento dela. Entre os séculos XI e XV, o comércio europeu promoveu as Cruzadas para derrubar o monopólio dos muçulmanos sobre o comércio oriental. Não conseguiu. Então, buscou duas saídas: construir um modo de produção de mercadorias e se expandir pelo oceano Atlântico.
A expansão marítima do século XV representa o início do processo conhecido como globalização. Na verdade, trata-se da ocidentalização do mundo. Entendo também que a modernidade começa com a globalização. Portugal, nessa primeira fase, é um país pioneiro da globalização, embora existissem fortes interesses econômicos de outros países que impulsionavam a expansão lusa.
No que seria o norte-noroeste fluminense, a globalização começou no século XVI. Durante os trinta anos após a chegada de Pedro Álvares Cabral, o Brasil não representou muito interesse para Portugal. O oriente era bem mais interessante. O principal produto do Brasil era o pau-brasil, comercializado com os nativos, que viviam de uma economia de subsistência. Os nativos trocavam pau-brasil por quinquilharias. A costa entre os rios Itapemirim e Macaé não contava com população expressiva dessa planta.
Portugal começou a perceber que o Brasil devia ser colonizado quando o país passou a receber visitas frequentes de estrangeiros, sobretudo franceses, também em busca do pau-brasil. Adotou, então, uma solução bem conhecida atualmente: a terceirização. Dividiu o Brasil em lotes que foram doados a nobres e comerciantes para que eles promovessem a colonização. Tratava-se de uma empresa de risco em que o aquinhoado com um ou mais lote (donatário) tinha direitos, mas muitos deveres.
O sistema recebeu o nome de capitanias hereditárias. Pero de Gois recebeu a capitania de São Tomé, correspondente ao norte-noroeste fluminense e ao sul capixaba atuais. Depois de negociações com o donatário vizinho do norte, a capitania de São Tomé tinha como limites, ao norte, o rio Itapemirim. Ao sul, aproximadamente, o rio Macaé.
Consta que Pero de Gois tentou instalar a sede da capitania numa das margens do rio Paraíba do Sul, mas que teria mudado de ideia por causa do terreno: pantanoso e sujeito a inundações. Decidiu, então, construir a sede na margem direita do rio Itabapoana (chamado então de Managé), junto à foz.
Consta que ele ergueu dois núcleos populacionais. Na foz, a vila da Rainha (homenagem à rainha de Portugal) e, na última queda d’água do rio, um porto e um engenho. Nenhum vestígio restou da Vila da Rainha, onde hoje existe Barra do Itabapoana. Quanto ao porto, as ruínas permanecem lá, em Limeira.
Com Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, a Europa inicia o processo de incorporação da América a uma economia de mercado. Enquanto os nativos trabalhavam apenas para obter sustento próprio, sem projetos para promover o que denominamos “desenvolvimento”, os europeus estavam imbuídos de uma visão de exploração e de acumulação de capital.
Foi esse o espírito que animou a colonização. Pero de Gois ergueu um povoado e dois engenhos de açúcar não com o fim de criar melhores condições de vida para os nativos (eles não precisavam disso), mas para ganhar dinheiro. Sem capital suficiente para “tocar a capitania”, ele se associou ao comerciante português Martim Ferreira. Pelo nome, Gois devia ser judeu convertido ao cristianismo por conveniência (cristão novo). Sua correspondência com Martim Ferreira mostra confiança no futuro da capitania. Claro, ele não podia mostrar as dificuldades enfrentadas ao sócio que detinha o capital. Para o rei de Portugal, todavia, a choradeira era grande. Este estratagema é usado até hoje.
A tentativa de Pero de Gois de incluir a região na Modernidade globalizadora fracassou. A Vila da Rainha viveu entre 1539 e 1546. A capitania de São Tomé foi abandonada. Em 1619, ela foi reativada por Gil de Gois, filho do donatário. Consta que ele teria fundado a Vila de Santa Catarina, na foz do rio Itapemirim. A segunda tentativa também malogrou. A capitania foi devolvida para a Coroa portuguesa até a chegada dos Sete Capitães, em 1632, que iniciarão uma colonização contínua da região. Com eles, a região se integra efetivamente na globalização.
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Agonia das águas no norte-noroeste fluminense
25/03/2017 | 17h50
Agonia das águas no norte-noroeste fluminense
Arthur Soffiati
 
Nos dias 18 e 19 de fevereiro, percorri a bacia da lagoa do Campelo, acompanhando a professora Sandra Cunha, da UFF/Niterói, o professor José Maria Miro e a doutoranda Leidiana Alves. O rio Paraíba do Sul estava com nível para lançar água no canal do Vigário, mas as comportas estavam fechadas, impedindo que o rio abastecesse a lagoa do Campelo. O Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul defende o princípio de que as águas do grande rio só alcancem a lagoa por este canal. Era de se supor, então, que a lagoa estivesse cheia.
Em Mundéus, numa das margens dela, adultos e crianças banhavam-se em suas águas. Moitas de vegetação que cresceu por ocasião da estiagem de 2014-15, estavam à mostra. Como o Departamento Nacional de Obras e Saneamento estabeleceu um nível máximo para a lagoa ao construir um vertedouro na sua ponta norte, lançando a água considerada excedente num canal aberto pelo órgão, só se podia considerar a lagoa cheia vistoriando-a nesse ponto. Chegando lá, verificamos que a água estava muito distante do vertedouro, sinal de que a lagoa não atingiu o nível imposto pelo DNOS.
Outra constatação: dentro da lagoa, à direita do canal, cujo nome é Engenheiro Antônio Resende, um proprietário local, segundo informações de moradores, abriu uma vala dentro do leito para obter terra e erguer um dique. Sua intenção é impedir que a água da lagoa, em caso de cheia, ocupe todo seu leito. É uma prática antiga para apropriação ilícita de terra pública muito praticada na lagoa Feia até 2008, quando quatro diques foram implodidos por liminar da Justiça Federal.
Mais irregularidades foram encontradas. As quatro comportas do córrego da Cataia estavam abertas, permitindo que água preciosa fluísse para o Paraíba do Sul. Mas adiante, no canal de Cacimbas, um absurdo: alguém arrancou as duas comportas. A água acumulada em terra fluía livremente para o Paraíba do Sul. No canal de Cacimbas, bloqueado para atender a interesses de ruralistas da margem esquerda do rio, a remoção de comportas é uma contradição. Caso o rio suba de nível, não será possível evitar a contento a entrada de água pelo canal. Um morador local nos informou que a remoção delas resultou de um desentendimento entre proprietários rurais. O vândalo, como INEA e ruralistas gostam de chamar quem pratica esse tipo de ato, tem nome. É um ruralista, não um pescador.
Visitando a barragem de Funil, no canal Engenheiro Antonio Resende, verificou-se que a pouca água proveniente da lagoa do Campelo está retida ali em ponto muito abaixo do vertedouro. Nas proximidades de sua foz no mar, a água está parada e sua barra em Guaxindiba está assoreada.
No dia 24 de março deste ano (2017), três pesquisadores, eu entre eles, foram ao canal da Flecha e a Retiro, adiante dele. As comportas do canal do Quitingute estão fechadas. Por segurança, foi erguida ainda uma barragem de terra à montante das comportas. Idem para as comportas do canal de São Bento. No canal da Flecha, todas as comportas estão arriadas. Mas adiante, no rio do Espinho ou Furadinho, também as comportas estão fechadas. A água doce está retida a montante de todas as comportas. A água do mar invadiu o canal da Flecha. Comportas abaixadas indicam que a atividade rural precisa de água doce e que a cunha salina deve ser detida no seu avanço superficial (porque considero difícil detê-la no seu avanço subsuperficial).
Indo em direção a Quissamã, para entrar em Retiro, verifica-se que os rios Velho, Novo do Colégio e Barro Vermelho estão secos. Nos seus leitos, as gramíneas tomaram conta. Quem olha do alto, ainda pode se impressionar com os espelhos d’água. As lâminas d’água, porém, estão delgadas.
Barrada a água doce no canal da Flecha, o Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul quer detê-la também no curso do Paraíba do Sul, adiante do canal de São Bento por meio de uma barragem. Objetivo: elevar o nível do rio para que ele forneça água aos canais laterais, aqueles canais que foram abertos para drenagem. Uma tal barragem pode correr a fio d’água, mas afetará a foz. A cunha salina pode penetrar mais longe rio acima, deslocando o estuário e obrigando o manguezal a mudar sua posição. O aumento de salinidade no rio comprometerá o tratamento de água para consumo humano. Uma barragem reterá sedimentos que antes chegariam ao mar e impedir o livro trânsito da fauna aquática, afetando a atividade pesqueira.
Não estou aqui tomando partido dos pescadores contra os ruralistas. Apenas condeno a visão imediatista, pragmática e individualista que domina o Comitê. Os pescadores também se tornaram individualista, imediatistas e predadores. Contudo, o Comitê é rude. A maioria dos seus membros quer soluções imediatas para o curso final. Os culpados pela situação em que nos encontramos são sempre os outros. Eles, os outros, também têm culpa pelo estado geral da bacia. Mas nós não estamos perguntando que estragos causamos ao delta. Não estamos discutindo o que podemos fazer para melhor as condições do rio. Não queremos admitir que também provocamos muitos danos. Não queríamos água porque ela ocupava a terra para plantar e criar. Pedimos drenagem. O DNOS drenou demais. Agora queremos água. Quando os rios Paraíba do Sul e Ururaí enchem, não contam mais com reservatórios naturais para acumulação. E a destruição continua, como verificado na lagoa do Campelo.
E ainda pedimos ajuda ao herói trapalhão Chapolim Colorado. Como dizia Saturnino de Brito, é preciso recomeçar com humildade e paciência. É preciso parar de chorar e fazer a nossa parte. Os escândalos dominam o Brasil. Petrolão, governo federal fraco e golpista, operação Carne Fraca... Tudo isso desvia nossa atenção de mudanças sorrateiras que nos parecem insignificantes e inócuas. São mudanças estruturais e em longo prazo que vão tornar a região ainda mais pobre. As coisas vão mudar, mas para pior.
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Dia Mundial da Água
21/03/2017 | 19h50
Dia Mundial da Água
Arthur Soffiati
 
No dia mundial da água, existe muita hipocrisia, assim como nos outros dias dedicados a outros componentes da indivisível natureza. É hipocrisia porque enaltecemos a água num dia especial para a destruirmos efetivamente durante os outros dias do ano. Na verdade, mesmo no dia consagrado à água, as atividades econômicas que dependem dela, e praticamente todas dependem, deixam de explorá-la em sua homenagem.
Nós, humanos, todos integrantes de uma civilização globalizada, o que significa ocidentalizada, ficamos felizes por existir água doce, pois não vivemos da água salgada. Mas não nos interessa saber que a água doce representa uma ínfima parcela de toda a água do mundo, superficial e subterrânea. A bacia do Amazonas, a maior do mundo, é insignificante se comparada à água dos oceanos.
Além do mais, pelo ciclo da água, a dependência entre água salgada e água doce é íntima. A água doce corre pelos continentes e chega aos mares, tonando-se salgada, mas o calor do sol e os ventos produzem a evaporação da água dos oceanos, que se transforma em nuvens, que se precipitam como chuvas e voltam aos continentes.
Como é bela a natureza! Exclamarão os românticos. Deus a criou perfeita. E nós estamos estragando tudo. O ser humano não é destruidor por natureza. É a economia de mercado, que domina o mundo todo, que o torna imediatista, individualista e consumista. Existe o individualismo, o imediatismo e o consumismo de empresas. O chamado agronegócio consome a maior parte da água doce do mundo enquanto os governantes pedem para cada indivíduo fazer a sua parte. Economia de água é coisa para cachorro pequeno. O consumo de grandes porções dela é para cachorro grande sob o pretexto de produzir alimentos para matar a fome da humanidade. Outra grande mentira. Trata-se de usar a água para produzir alimentos e ganhar dinheiro com eles. Quando não estragados e contaminados.
Por um lado, a água doce se torna um bem natural e coletivo cada vez mais raro. No século XIX era considerado um bem abundante e, portanto, fora do mercado. Hoje, a tendência é cada vez mais transformar a água doce em mercadoria, mesmo em estado bruto. Além do mais, este bem indispensável para toda a forma de vida está sendo impiedosamente poluído. Leiam a história de rios límpidos no passado que se transformaram em valas negras. Hoje, um rio é destino de esgoto e lixo, transporta fertilizantes químicos e agrotóxicos.
Por outro lado, as águas oceânicas também são fundamentais à vida. Os humanos retiram delas muitos bens e serviços. Mas, além de contaminadas, elas estão sendo esvaziadas de vida. Se os rios são conspurcados, todos os dejetos lançados neles terminam no mar, que, por sua vez, recebem resíduos diretamente. Além do mais, estão sendo esvaziados pela acidez cada vez maior e pela sobrepesca.
O drama das águas parece distante de nós, mas ele está bem perto. O que nos falta é interesse pelo que existe ao nosso redor, pela nossa história e geografia. Os naturalistas que passaram pelo norte e noroeste fluminenses há duzentos ou cento e cinquenta ou mesmo há cem anos ficaram deslumbrados com a quantidade e a qualidade das águas continentais, com as florestas e com a fauna nativa.
Na zona serrana e nos tabuleiros, a água estava nos rios e no solo. As florestas a protegiam. Na planície fluviomarinha, ela se acumulava em extensas lagoas. No século XVII, colonos de origem europeia, os Sete Capitães, optaram por converter a imensa planície deltaica em terras para a agropecuária. Era o que o mercado queria. Para isto, contudo, era preciso drenar as lagoas. Só no século XX, foi possível mover uma guerra impiedosa contra as lagoas sob pretexto de combater endemias.
Grandes volumes de água foram lançados ao mar. De extremamente úmida, a planície fluviomarinha tornou-se semiárida. Assim, foram extintos fabulosos ecossistemas aquáticos e a atividade pesqueira foi drasticamente afetada. Se, no passado, o grande problema para a agropecuária e a agroindústria era o excesso de água, agora é escassez dela. O sul capixaba e o norte/noroeste fluminense sofreram uma descomunal hidrorragia.
Mesmo assim, há sinais claros de que continuamos considerando a água como um bem abundante e inesgotável. No entanto, a notícia difusa de que se pretende construir uma barragem no trecho final do Paraíba do Sul para a acumulação de água é sinal de que entramos em outro tempo. A barragem será desastrosa. No nosso imediatismo, queremos resolver um problema criando muitos outros no futuro, sem nenhuma preocupação com eles. Que nossos herdeiros resolvam amanhã os problemas que criamos hoje.
Há como minorar a crise hídrica que assola o norte/noroeste fluminense, o sul capixaba e toda a Região Sudeste, mas os herdeiros daqueles que provocaram a destruição não permitirão que tais medidas, que reduzam os problemas, sejam implementadas.
Portanto, não festejo o dia mundial da água. Pelo contrário, cubro-me com trajes de luto nele.
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Moonlight: sob a luz do luar
21/03/2017 | 09h12
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 21 de março de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Lua negra
(Moonlight: sob a luz do luar)
Edgar Vianna de Andrade
 
Uma boa obra de arte não carece de revelar a variedade fenotípica (chamada de raça antigamente) do seu autor. Já houve intelectual racista declarado sustentando que só o branco puro (isso existe?) cria obras de valor estético. Mas houve também, entre nós, quem defendesse que os mulatos (expressão politicamente incorreta) são criativos por natureza. Exemplos: Aleijadinho, Mestre Valentim, José Maurício, Domingos Caldas Barbosa, Mestre Valentim, Machado de Assis e muitos outros.
O negro mestiço no Brasil não era mais escravo nem era branco livre. Sua situação indefinida o empurrou para as artes. A explicação é social, não racial. No cinema idem. Se é pequeno o número de cineastas negros em todos os países, a situação se deve a questões culturais, não raciais. Spike Lee é um bom exemplo de cineasta. Barry Jenkins é outro. Ele dirigiu “Moonlight”, escolhido como o melhor filme no Oscar de 2017. O roteiro se baseia numa obra do escritor Tarell Alvin McCraney, também negro.
Todo o elenco é negro. Chiron, o personagem central, é mostrado na infância, na adolescência e na fase adulta por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes sucessivamente. Mahershala Ali é coadjuvante e mereceu o Oscar nessa categoria. Janelle Monáe, além desse filme, teve ótimo desempenho em "Estrelas além do tempo", também selecionado para o Oscar de 2017. Além de atriz bela, Janelle é também cantora. Mas quem atravessa o filme de ponta a ponta é a talentosa e experiente Naomie Harris, no papel de mãe de Chiron. Para fazer justiça, mencione-se também Andre Holland.
Notei que os brancos não aparecem no filme. Pareceu-me uma ausência intencional do diretor e roteirista. Atores negros, bairros negros, escolas negras. O branco está presente sem aparecer. Os negros parecem viver numa situação de apartheid disfarçado.
“Moonlight” tem uma fotografia nervosa e invasiva. O branco James Laxton é um corpo estranho no conjunto do filme. A câmara registra os personagens bem de perto, como a mostrar sua intimidade. Mas sugere situações, como a masturbação de um homem em outro, já que Chiron é homossexual. O filme todo enfoca a descoberta do homossexualismo. Mostra também que negro não é herói nem bandido. É comum o tráfico e o consumo de drogas entre eles, tanto como o bullyng de negro contra negro e agressão física praticada por negro em negro.
Embora a Academia tenha procurado demonstrar que não tem ranços racistas no país governado por Trump, ainda penso que “La,la, land” foi o melhor filme, já que dirigido pelo melhor diretor.
Esperemos agora que os descendentes de índios mereçam uma indicação ao Oscar em 2018. Se não merecerem é porque nada produziram.
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De Campos a Santos
19/03/2017 | 10h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 19 de março de 2017
De Campos a Santos
Arthur Soffiati
 
Pela televisão, fiquei sabendo que a cidade de Santos, em São Paulo, está no topo quanto a condições apropriadas para idosos. Mais que rapidamente, escrevi ao meu amigo Gilberto Pessanha Ribeiro, nascido em Campos e atualmente residindo em Santos. Gilberto é cartógrafo. Deu aula na UFF em Niterói e foi aprovado num concurso em Santos.
Ele logo me respondeu, dizendo que já sabia das qualidades de Santos. Embora ainda não tenha ingressado na terceira idade, ele já está se preparando para isto na melhor cidade do Brasil. Santos é menor que São Paulo, mas está mais bem estruturada. É maior e bem melhor do que Campos. Minha mulher e eu conversamos muito a respeito da possibilidade de nos transferirmos para Santos e termos uma velhice saudável. Filhos e netos não gostaram da ideia, mas acabaram concordando.
Alugamos nosso apartamento em Campos e fomos morar em Santos, perto do tríplex que se acredita ser de Lula. Nosso apartamento é pequeno e fica de frente para o mar. Vista panorâmica. Depois de acomodados, procurei logo um geriatra. Santos conta com excelente estrutura de saúde. O médico me examinou da cabeça aos pés e diagnosticou que eu estava bastante estragado nos meus setenta anos. Como de hábito, fez as recomendações clássicas: cortar carne vermelha, gordura, sal, açúcar, álcool e cigarro. Respondi-lhe que nunca fumei, bebia só ocasionalmente e tinha uma dieta rigorosa, além de fazer exercícios físicos. Ele se espantou por examinar um corpo tão envelhecido apesar de todos os cuidados que eu tomava.
Perguntei-lhe se eu podia ter vida sexual. “Na sua idade, o senhor ainda pratica sexo?” “De vez em quando”, respondi. “Pois pode cortar também. Sexo exige muito esforço do corpo e acelera o envelhecimento.” Saí do consultório meio abatido, achando que o geriatra era taoísta.
Comprei duas raquetes de frescobol e uma bola. Passei a frequentar a praia. Enxerido, ofereci-me logo a um grupo de idosos para fazer parte dele e jogar. Eu sempre perdia. Se fosse um esporte coletivo, tenho certeza de que seria excluído. Também nos aproximamos de uma senhora viúva que morava no apartamento do andar superior e fazia muito barulho. Ele vivia apenas na companhia de nove cachorros. Tinha 60 anos e passeava diariamente com aquela cachorrada toda. Foi ela que nos convidou a integrar um clube da melhor idade.
Aceitamos. No clube, uma fisioterapeuta e uma assistente social jovens cuidavam dos velhos. “Sorriam e sempre demonstrem felicidade”, elas nos recomendavam com frequência. Confesso que eu me sentia meio infantilizado com elas. As reuniões ocorriam as terças e quintas-feiras. Um velho (desculpe, idoso) era escalado para levar doces ou salgados a cada encontro. Então, todos riam e demonstravam estar felizes. Depois, todos dançavam. Minha mulher adorava. Eu nem tanto. Nunca aprendi a dançar. A vizinha do andar superior se ofereceu para me ensinar. “Sorria, o mundo é lindo”. Ela me pareceu meio assanhada. Rodava muito comigo. De vez em quando, me soltava e dançava sozinha. Sempre sorrindo, notei que ela usava uma dentadura que se deslocava de um lado para outro. “Sorria, a vida é bela”.
Todos demonstravam alegria e felicidade. Todos comiam e dançavam. Tentei puxar assunto com alguns idosos que me pareciam menos sorridentes. Tentei conversar sobre o século XV, modernidade, globalização e temas correlatos. Ninguém me dava ouvidos. Comecei a perceber que, ali, as pessoas nem sabiam direito em que século vivemos. Fui sendo invadido por um tédio que contrastava com a alegria ao meu redor. “Sorria. Demonstre sempre felicidade, seu Soffiati. Aqui, tristeza é proibida”, repreendiam-me as moças.
Nas manhãs, eu jogava frescobol na praia com idosos. Duas vezes por semana, eu frequentava o clube da melhor idade, sorria, transparecia felicidade, comia e tentava dançar. Passei a andar pela cidade nas tardes em que não havia reunião no clube. Comecei a admirar os canais de drenagem concebidos pelo engenheiro campista Saturnino de Brito. Encontrei numa livraria o projeto que ele traçou para Santos. Comecei a escrever artigos. Procurei os jornais da cidade, oferecendo meus escritos. Fui recusado em todos. Mantive meu blog em Campos, mas ninguém se interessava por assuntos relacionados à baixada de santista.
Comecei a sentir saudades de ambientes periféricos e degradados. Fui a Cubatão. Um dia cheguei em casa com as pernas cobertas de lama negra até os joelhos. Minha mulher logo exclamou: “Não acredito, não posso acreditar que você tenha entrado num manguezal!” Contraí estafilococos e tive que tomar Bezentacil.
Deixei o frescobol e abandonei o clube da melhor idade. Passei a perambular pela cidade. Tive uma conversa demorada com minha mulher. No fundo, ela sentia muita saudade dos filhos e netos. Decidimos voltar para Campos. Valeu a experiência, mas, já que estou aposentado, prefiro excursionar pelas áreas degradadas daqui e escrever meus artigos sobre problemas locais. Meus adversários não gostaram muito do meu retorno. Que me aguentem.
 
 
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Chuva no lugar e no tempo errados
14/03/2017 | 19h23
Chuva no lugar e no tempo errados
Arthur Soffiati
 
Se os insignificantes 10 milímetros de chuva que se abateram sobre Campos hoje (14 de março de 2017) mais cedo, tivessem caído na área rural – sobre a lagoa Feia, por exemplo – eles não causariam a mínima alteração. Pareceriam uma pulga picando um elefante. Se caíssem no século XVII sobre o embrião de Campos, também não se notaria qualquer alteração importante. Caso se precipitassem sobre Campos no início do século XX, também não. Creio que não seriam muito notados nos anos de 1970, quando vim morar nessa cidade.
Agora causam. Toda vez que chove, podem anotar, rapidamente se alagam a descida da ponte Leonel Brizola do lado de Campos, os arredores do mercado, a rua Formosa na altura do 8º BPM, a rua Edmundo Chagas, o entorno do edifício Salete, a Avenida Pelinca, a rua Baronesa da Lagoa Dourada, o novo Jóquei e a rua Tomaz Coelho quase Alberto Torres. É que, nesses pontos, havia lagoas outrora. Na descida da ponte e arredores do Mercado, a lagoa do Osório; nas adjacências do 8º BPM, a lagoa de Santa Ifigênia; na rua Edmundo Chagas e Edifício Salete, a lagoa João Maria; na Avenida Pelinca, um extenso brejo; na Baronesa da Lagoa Dourada e Tomaz Coelho, a lagoa Dourada; no Jóquei, a lagoa do Goiabal.
No século XVII, a Baixada dos Goytacazes de fabuloso pantanal começou a ser convertida em terra para a agropecuária e para os núcleos urbanos. Muitas lagoas foram drenadas a um preço ambiental e econômico muito alto. Já que era para implantar uma cidade das dimensões de Campos, o serviço deveria ser bem feito. Mas não foi. As lagoas cercadas pela cidade foram mal drenadas. As ruas, pontes, praças e edificações se ergueram sobre essas lagoas, soterrando-as ou comprimindo-as. Seus leitos não foram nivelados, mas foram impermeabilizados. O resultado de qualquer chuvinha insignificante é promover a volta dos fantasmas das lagoas. Campos é uma cidade de fato assombrada. Matou as lagoas, mas seu espectro nos assombra.
O engenheiro campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito concebeu um sistema de canais para garantir a drenagem dessas lagoas e não o retorno delas. Um canal sairia do local onde hoje existe o CEPOP, passaria pela rua Formosa e pela Edmundo Maciel, seguindo pela 28 de Março até o Canal Campos-Macaé (Valão). Ele esgotaria as lagoas do Goiabal, Santa Ifigênia e João Maria. Outro começaria na rua Baronesa da Lagoa Dourada, cortaria a Avenida Pelinca e alcançaria o Valão na altura da descida da ponte Leonel Brizola. Ele drenaria a Lagoa Dourada, o brejo da Avenida Pelinca e o que sobrou da lagoa do Osório.
Se esses dois canais tivessem sido construídos pela municipalidade, os problemas de alagamento urbano talvez não ocorressem. Mas Saturnino de Brito era um homem de forte caráter e demasiadamente honesto. Ele entendia que os canais devem ser mantidos sempre abertos e limpos. Caso isso acontecesse, muitas áreas privatizadas pela especulação imobiliária seriam públicas. Contudo, nosso individualismo taparia os canais e construiria prédios sobre eles. Ou badulaques como os que Rosinha ergueu sobre o Valão.
Para os ruralistas, é necessária a limpeza dos canais de Coqueiros e Cambaíba. Para a cidade, nem tanto. É um desafio à administração pública que continua sem resposta. Estamos comprovando que os piscinões não resolvem.
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Angústia à beira-mar
14/03/2017 | 10h00
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 14 de março de 2017
(CINCO MATEUSINHOS)
Angústia à beira-mar
“MANCHESTER À BEIRA-MAR”
Edgar Vianna de Andrade
 
Saí do cinema com a forte impressão de “Manchester à beira-mar” foi escrito e dirigido por Kenneth Lonergan para o desempenho de Casey Affleck no papel de Lee Chandler. Com mais de duas horas de duração, creio que o filme poderia passar por alguns cortes na montagem. De fato, Affleck ocupa o filme todo com excelente interpretação. Ele representa um homem comum, casado e com filhos. Uma tragédia familiar muda radicalmente o rumo da sua vida. Ele se torna solitário, antissocial, agressivo no trabalho e no dia a dia.
Seu único irmão, com problemas cardíacos crônicos e também separado, morre. Lee tem de cuidar de tudo. A morte o colheu num momento inoportuno. Qualquer momento seria inoportuno para um homem com uma dor moral profunda. Mas só ele pode agir. Sua situação fica pior com a abertura do testamento do irmão morto. Ele fica como tutor do seu único sobrinho, com 16 anos.
Ambos se entendem e se desentendem o tempo todo. O tempo de viagem entre a cidade em que mora Lee e a cidade em que mora o sobrinho é de uma hora e meia. A mudança de um ou de outro não seria complicada. A ex-mulher de Lee casou-se novamente. A ex-cunhada também se casou de novo. Está estabelecido o impasse: cuidar do sobrinho e de sua herança até que ele complete 21 anos.
Não sou dos que elegem um ator como o melhor ou como o pior do mundo. Existem bons e maus atores e atrizes no mundo todo. Acontece que a maioria não consegue se desenvolver nem ganhar a notoriedade que Hollywood pode proporcionar. De todos os filmes selecionados para a premiação do Oscar, há atuações esplêndidas. Nos não selecionados, também há. Assim como, em todos, há desempenhos fracos.
“Manchester” é um filme dos Estados Unidos para um público estadunidense. Não é um filme a respeito dos Estados Unidos liderando uma luta para salvar o mundo nem um filme para exaltar o heroísmo dos nativos do país. É muito comum encontrarmos filmes em que os Estados Unidos procuram mostrar que têm de tudo, desde o herói ao anti-herói. Manchester foge aos padrões. Não existe herói nem anti-herói. Apenas um homem comum que padece de uma dor imensa e que não consegue superá-la. Daí a sua angústia profunda. O drama podia acontecer com qualquer pessoa. Por esse motivo, o filme pode ser apreciado por um público não estadunidense.
Os critérios de seleção para recebimento do Oscar não são os meus. Parece que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas procura atender a todos os selecionados a fim de evitar críticas. Em 2016, ela foi alvo de recriminações por não ter indicado nenhum negro. Em 2017, os negros dominaram a cena. É vez agora dos índios protestarem. Com todos os méritos apresentados pelos filmes premiados, não preciso fazer média. Não sei como um filme recebe o Oscar por ser o melhor e o melhor diretor é responsável por outro filme. Por isso, continuo com “La, la, land”.
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Modernidade mestiça
12/03/2017 | 10h55
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 12 de março de 2017
Modernidade mestiça
Arthur Soffiati
 
Meu exame atento da história humana conclui que nunca uma cultura se afastou tanto da natureza como a ocidental. Todas as outras, em níveis distintos de complexidade, sempre mantiveram relações estreitas com o que chamamos de natureza. Os povos nativos de todos os continentes se consideravam parte dela.
Dirão os leitores que os povos não ocidentais desmatavam, caçavam e até eram canibais. Em todas as culturas, não existe natureza intocada. No entanto, os limites de exploração eram respeitados. Claro que algumas passaram dos limites, provocando crises. Mas tais crises eram locais e reversíveis. O ocidente desenvolveu a concepção de que a natureza é uma coisa sem limites para ser explorada em benefício da humanidade. Trata-se, talvez, da maior ideologia já formulada até hoje. A exploração desenfreada tem o lucro por finalidade.
Um dos traços característicos do mundo ocidental e ocidentalizado é o desejo de promover grandes projetos. De certa maneira, o intelectual alemão Goethe demonstrou esse desejo em seu poema Fausto. Um homem faz pacto com o demônio para se tornar imortal e senhor e possuidor de tudo, como preconizou o filósofo francês René Descartes no século XVII.
O desejo de obras grandiosas se universalizou com a dominação ocidental de todos os continentes. O historiador Alfred Crosby explana em “Imperialismo ecológico”, seu mais conhecido livro, que a Europa criou dois tipos de colônia pelo mundo: as neo-Europas, colônias semelhantes à matriz, e as outras, que chamo de neo-Europas mestiças. O Brasil é uma neo-Europa mestiça. Ele foi fundado para ser explorado pela metrópole. Daí o grande contingente africano para trabalho escravo. As riquezas produzidas no país destinavam-se a Portugal. Hoje, a historiografia mostra que grande parte dessas riquezas ficava no Brasil.
Quanto ao pensamento também. Havia quem pensasse na colônia. As ideias circulantes na Europa chegavam em todo mundo. Um dos projetos fáusticos da Modernidade, na primeira metade do século XIX, era abrir canais de navegação. Vários autores escreveram sobre a importância dos canais para transporte de passageiros e de cargas.
No norte fluminense, o hidroviarismo contou com vários entusiastas. Na passagem do século XVIII para o XIX, o bispo campista José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho propôs, sem detalhes, a ligação de Campos a Macaé por um canal. José Carneiro da Silva, logo em seguida, escreveu memórias sobre a importância dos canais para a civilização e sobre a abertura do canal Campos-Macaé. O trabalho mais completo e mais atual sobre esse canal foi escrito por Ana Lucia Nunes Penha. Mais outros três foram construídos na região, embora um deles não fosse concluído.
Graças ao amigo Genilson Paes Soares, tive acesso a uma proposta à altura da megalomania da Modernidade no Brasil. Ela está na “Memória sobre canais e sua utilidade”, de José Silvestre Rebello, publicada no “Auxiliador da Indústria Nacional” de 1840. Depois de passar em revista os grandes canais do mundo (os de Suez e do Panamá ainda não haviam sido construídos). Ele propôs nada menos que a ligação de Porto Alegre a Belém do Pará por uma sequência de canais, batizando o conjunto com o pomposo nome de “Canal Imperial”. Ele escreveu na memória: “sempre me animo a descrever um canal imperial, que comunique a cidade de Porto Alegre no Rio Grande com a cidade de Belém na Província do Pará”.
Daí em diante, ele passa a descrever, em linhas gerais, o traçado dos vários canais que formariam o grande canal. O canal Campos-Macaé ainda não começara a ser aberto, mas ele reforça sua importância. Como originalmente foi concebido, o canal ligaria a baía da Guanabara a Campos. Daí, aproveitaria o canal do Nogueira e de Cacimbas. Se fosse construído, o canal imperial seria o maior e o mais caro do mundo, para, logo em seguida, ser substituído pela ferrovia, que seria substituída pela rodovia.
Por que a Modernidade é tão ambiciosa? Por que abrir um canal dessa magnitude? Bastava um pouco de humildade para perceber que uma tão grandiosa obra era desnecessária. Bastava olhar para o mar e dar-se conta de que existe uma hidrovia dada de graça pela natureza. Era só promover a navegação de cabotagem pelo mar para ligar todos os núcleos urbanos costeiros.
Até hoje, as grandes obras nos impressionam. Continuamos a desejá-las. O regime militar brasileiro construiu a rodovia Transamazônica ao lado do rio Amazonas, a maior via hídrica natural do mundo. Esses projetos e obras suntuosos estão nos arquivos ou sendo consumidos pelo tempo porque tudo que é sólido desmancha no ar.
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Uma vida partida
07/03/2017 | 09h51
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 07 de março de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Uma vida partida
(Lion - Uma jornada para casa)
Edgar Vianna de Andrade
 
Toda criança pobre adotada por ricos num mesmo país ou em país diferente tem um drama de vida que daria um filme. Acontece que a maioria das pessoas que passou por essa experiência não escreveu sua história nem a narrou a alguém que a escrevesse. Saroo Brierley foi um dos poucos a registrar sua trajetória em livro. Ele nasceu na Índia, no seio de uma família pobre em que só aparecem a mãe, um irmão mais velho e uma irmã mais nova. A miséria na Índia é comum. O passado religioso convive com a modernidade sem manutenção. Assim, ao lado de homens e mulheres em seus trajes tradicionais e na prática de seus ritos, aparecem os trens, os famosos trens que transportam pessoas do lado de dentro e de fora, cortando todo o país.
A aldeia de Saroo está perdida dentro do subcontinente. Ele sai de casa para ajudar o irmão mais velho a ajudar na economia doméstica. Ele se perde do irmão e viaja muitos quilômetros de trem, escapando de situações perigosas. É muito comum vender-se crianças nos países pobres. É muito comum comprar-se crianças nos países ricos. Assim, Saroo (Sunny Pawar, quando criança, e Dev Patel, quando adulto) acaba parando na Austrália, adotado por um casal rico constituído por Sue (Nicole Kidman) e John (David Wenham). E lá cresce ao lado de um irmão também adotado e também indiano, mas “desajustado” no comportamento. Saroo também é um desajustado existencial.
Essa a história mostrada no filme dirigido por Gaeth Davis, roteirizado por Luke Davies a partir de relato do próprio Saroo, levado ao público pela luminosa fotografia de Greig Fraser e embebido na mágica música de Dustin O’Halloran. Fica difícil comentar apenas o filme sem descambar para observações sociológicas sobre a adoção. Normalmente, quem cede uma criança para ser adotada não tem condições de criá-la. Muitas famílias, porém, não querem se desfazer dos filhos, mantendo-os junto a si.
Por outro lado, o ocidente, que criou mais miséria que riqueza para pobres de outros continentes, é habitado por casais ricos que se consideram bem intencionados ao se oferecerem para adotar crianças pobres, negras, sujas, subnutridas das antigas colônias ocidentais. A trajetória de Saroo ilustra os dramas dessas crianças, que podem aceitar a adoção como forma de se livrar da vida de miseráveis, viver com serenidade após conhecerem seu destino ou se tornarem dividas como o caso de Saroo. Ele é uma criança nascida num meio de miséria, mas não preterido pela família. Sua sorte, porém, é parar nos braços de um casal australiano rico que lhe proporciona uma vida confortável e uma formação de nível superior.
Nada impedia o casal de ter seus próprios filhos. Mas, por opção política, ele quis ajudar os pobres. Renunciou aos próprios filhos para ajudar os carentes. O filme parece fazer a apologia da adoção, mas a mim me fez pensar sobre o drama deste instituto. O ocidente domina um país com cultura muito diferente da nossa, desmonta a estrutura social dele, aumenta as desigualdades, exacerba a miséria, produz crianças paupérrimas e oferece casais seus para adotá-las. Talvez fosse melhor nunca ter dominado esses países, sempre considerar que levava a desgraça para eles. A dúvida, no mundo ocidental, é uma atitude rara. Mesmo a dúvida sistemática, de Descartes, tem por fim acabar com as dúvidas.
E, no entanto, chama a atenção o contraste entre duas culturas. No ocidente, a vida é asséptica e privada. Na Índia, todas as dimensões da existência são socializadas. O grupo social participa da vida de um casal da fecundação à morte, passando pela criação dos filhos, iniciação religiosa, casamento e novamente o ciclo todo de vida. Talvez a passagem mais emocionante do filme seja a do reencontro da Saroo, com sua família verdadeira, na verdade com sua aldeia e com sua cultura. Alegria, barulho, festa é o que marcam esse encontro.
O filme quase consegue passar ao largo dos padrões hollywoodianos, mostrando uma forma de narrativa distinta da que conhecemos. O herói é um ser angustiado que nos incomoda.
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Carnavalesco tardio
05/03/2017 | 10h42
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 05 de março de 2017
Carnavalesco tardio
Arthur Soffiati
 
Minhas duas tentativas de ser carnavalesco foram desastrosas. Da primeira, não lembro. Tenho dela apenas uma foto. Minha mãe e minha tia me fantasiaram de turco. Dizem que fiquei lindo. Jogaram-me num baile de carnaval em Campinas. Contam que eu fiquei emburrado num canto do salão. Contaram-me também que moças bonitas jogavam confete em mim e mexiam comigo. Minha reação era a de jogar o confete de volta na cara delas.
Na segunda, eu tinha 22 anos. Minha primeira namorada queria ir a um baile carnavalesco. Por dentro recusei, mas por fora consenti simulando alegria. Quando a gente está apaixonado, faz coisas de que até Deus duvida. Na festa, uma moça graciosamente fantasiada aproximou-se de mim e fez mesuras com um leque. Entendi que se tratava de um convite para dançar. Sem hábito de frequentar festas carnavalescas, entendi que deveria retribuir com gentileza o seu convite. Ensaiei uns passos de mestre-sala com ela. O tempo fechou. Minha namorada me pegou pelo braço e me arrastou. Do lado de fora, ela me disse que a moça tinha sido muito assanhada e eu também. Não adiantaram minhas justificativas. No dia seguinte, saí pelas ruas da cidade com meu ex-futuro cunhado, tocando tamborim. Apenas os dois numa demonstração pública ridícula.
Em 2016, pensei: completo 70 anos em 2017. Não custa uma nova tentativa. Quem sabe não passo a gostar de carnaval? Passei o ano juntando dinheiro. Comprei passagens aéreas com antecedência, nos momentos de promoção. O carnaval chegou. Comecei por São Paulo. A cada ano, o carnaval se torna mais sofisticado na cidade que não pode parar. Mas só fiquei assistindo ao desfile de escolas de samba e ao show da onipresente Ivete Sangalo.
Aqueci-me em São Paulo para começar a pular no Rio de Janeiro. Tentei brincar no Cordão do Bola Preta. Para tanto, dei propina ao diretor do bloco. Estava tudo certo para eu participar do Bola, clube outrora muito frequentado pelos meus tios maternos. Quando ensaiei os primeiros passos, Leandra Leal, rainha do bloco, foi desleal comigo. Não me deixou entrar. Desesperado, procurei a Banda de Ipanema. Entrei e levei um soco. Caído no chão, o cara que me bateu disse que o soco não era pra mim, quem mandou eu ficar na frente.
Procurei o Bloco da Facilita, quero dizer da Favorita. Assim que me viu, Juliana Paes me barrou. “Estou cansada de sofrer assédio sexual, ainda mais de velho safado!”, ela exclamou. Corri para o “Bloco das Mulheres Rodadas”. Elas me impuseram uma prova: rodar um bambolê e demonstrar que eu também rodo. Meus problemas lombares não me permitiram. “Não posso perder esse carnaval”, pensei, e fiz uma tentativa no “Bloco Mulheres de Chico”. Fui barrado. Elas disseram que, de homem, só entrava o próprio Chico. Perguntaram-me se, ao menos, eu era parente dele. Falei da minha admiração pelo músico. Tudo inútil.
Já que eu estava no Largo do Machado, tentei o bloco “Balança meu Catete”. Tive de passar por um teste. Examinaram meu Catete e concluíram que era muito pequeno. Aleguei minhas relações afetivas com o bairro, invoquei Machado de Assis. Tudo embalde, como diria o mestre da literatura. Tentei o “Carvalho em pé”. Resposta: “seu carvalho está deitado. Aqui, não, violão”. Busquei os blocos “Confraria do peru sadio”, “Picada de primeira”, “Balanço do pinto”, “Se me der eu como”, “Peru pelado”, “Perereca vadia”, “Perereca sem dono”, “Banda das quengas”, “Broxadão” etc. Podem pensar que é mentira minha, mas esses blocos existem. Todos eles me recusaram por motivo de idade.
Enfim, acabei na Visconde de Sapucaí vendo o desfile. Mais uma vez, me encontrei com Ivete Sangalo e quase fui atingido por um carro alegórico desgovernado. Rumei para Salvador. Tentei brincar, mas fui brincado. Tirei um pé do chão e não pude mais voltar ao solo. Tirei o segundo e fiquei no alto ao balanço dos pulos. Parecia até trem da Central. Só pude ver a Ivete em cima de um trio elétrico. Quando consegui sair da multidão enfurecida, eu estava exausto e suado. Com o suor alheio. Rumei para Pernambuco. O “Galo da madrugada” já havia passado. Ensaie alguns passos de frevo. Meu corpo ficou cheio de distensão muscular. Só pude participar de uma roda de Ciranda, com mulheres idosas. O que salvou minha passagem por Pernambuco foi a apresentação da Ivete Sangalo.
Não me dei por vencido e rumei para Fortaleza, última cidade do meu roteiro. Não entendi nada do que as pessoas falavam. Todos me detestaram. Perguntei a mim mesmo o que eu fazia ali. Por que não fui para Natal brincar no bloco dos Cão, cujos participantes se lambuzam na lama de manguezal?... Familiar para mim, em Fortaleza, só a apresentação da Ivete Sangalo. Decepcionado, voltei para Olinda tentando brincar no “Bacalhau com batata”. Acabei num restaurante comendo bacalhau com batata. De vota à casa, desisti finalmente de ser carnavalesco. Agora estou internado numa clínica, de onde escrevo esta página triste. Os médicos me proibiram de fazer nova tentativa de ser folião.
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A grande mentira
01/03/2017 | 10h40
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 01 de março de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A grande mentira
(A GRANDE MURALHA)
Edgar Vianna de Andrade
 
Esqueça tudo que você aprendeu na escola sobre a Muralha da China, se é que aprendeu e se é que já não esqueceu. Ela não foi construída entre os séculos III a. C. e XV d.C. para deter povos nômades do norte ou para empregar desocupados.
Pesquisas arqueológicas mais recentes descobriram que a grande muralha, única obra humana que pode ser vista do espaço, foi erguida para conter monstros inteligentes que atacavam o império chinês de 60 em 60 anos. Eles eram quadrúpedes e muito ferozes, mas tinham um comportamento semelhante ao das formigas e abelhas: viviam em função de uma rainha, sempre protegida e alimentada por eles.
Na iminência de um novo ataque das feras, um grupo de aventureiros e mercenários ocidentais chega à China em busca de pólvora para ganhar dinheiro. A exemplo de Marco Polo, eles são comerciantes também. Seus líderes são William Garin (Matt Damon) e Pero Tovar (Pedro Pascal). A Europa ainda não havia iniciado a expansão marítima para saquear o mundo, mas a economia de mercado já plasmava o protótipo do negociante sem princípios.
Antes de serem presos, os aventureiros são atacados por sombras estranhas. Todos morrem, mas William e Tovar escapam depois de cortarem a mão de uma fera atacante. Eles não sabem de que se trata, mas aprisionados pelos chineses em pé de guerra, passam a saber. Os exércitos da China Imperial estão preparados para uma nova investida dos monstros. As mulheres também são combatentes. Uma delas é Lin Mei (Jing Tian), bela chinesa que acaba por se tornar a comandante em chefe com a morte do grande general comandante.
Os dois mercenários não sabem falar chinês, mas Lin Mei e outro militar sabem. Como aprenderam? Com Ballard (Willem Defoe), outro espertalhão ocidental, também atrás do pó preto, capturado 25 anos antes. Os chineses dominam fisicamente os ocidentais, mas estes mostram a que vieram. A língua inglesa já é conhecida no extremo oriente, os mercenários sabem usar arco e flecha e outras armas brancas como ninguém. São inteligentes e bons estrategistas. Logo, assumem o controle da situação e ajudam a repelir o ataque dos monstros.
Numa pequena passagem, William e Mei revelam suas diferenças culturais. Ela é regida por princípios éticos. Sua luta visa defender o império e o imperador. A lutadora tem honra. William já lutou como mercenário em várias guerras no ocidente. Ele luta por dinheiro. A Europa já começa a produzir oportunistas como Cortez e Pizarro mais tarde. A China ainda é regida por valores éticos. Foi o melhor momento, em minha opinião. No fim, William se converte à honradez. Só faltou mesmo uma paixão e um beijo hollywoodianos, mas vamos com calma. Não me levem em conta. Sou historiador.
A direção é de Zhang Yimou, cineasta já celebrizado por outros filmes sobre temas chineses. Ang Lee, outro cineasta chinês, já se rendeu ao cinema ocidental. No fundo, o ato de adotar a tecnologia do cinema revela que o oriente se ocidentalizou. No entanto, os cineastas chineses rodavam filmes sobre assuntos chineses. Afinal, Bollywood, nome que mistura Bombaim e Hollywood, é um poderoso centro de produção cinematográfica cujos filmes se voltam para um público indiano.
Afinal, o que pretende Yimou com este filme caríssimo, talvez o mais caro da história? Saí do cinema com a impressão de que a China não se contenta em conquistar o ocidente com seus filmes. A mistura de temas chineses, ocidentais e de ficção científica pretende ir mais longe. Lançar a China verdadeiramente como grande potência cinematográfica.
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O último socialista
01/03/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de fevereiro de 2017
O último socialista
Arthur Soffiati
 
Não acredito que, em pleno ano de 2053, alguém desenterre Hobbes, ainda mais um jovem como você. Esse cara era inglês e viveu em que século mesmo? Século XVII? Foi aquele que disse que o homem é mau por natureza e que, para conter a guerra de todos contra todos, homens e mulheres formularam um contrato social transferindo a violência para o Estado? Ele fala sobre a origem do Estado, não é? Ele só acertou quanto à violência humana. Não precisamos mais de Estado. Se ele existe, é só por uma convenção. Hoje, grandes empresas de administração governam o que restou dos países. Se ainda existem eleições, é só para dar ao povo uma ilusão. Entram e saem presidentes e parlamentares, morrem e são escolhidos juízes, mas as empresas administradoras permanecem. Elas é que garantes a continuidade.
Estado de Bem Estar? O que é isso? Nós, liberais, promovemos tudo o que vocês, socialistas remanescentes, pleitearam. Vocês não defendiam direito ao aborto, a descriminalização de drogas, o direito de orientação sexual, de igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e outras raças? Pois é, hoje o aborto está legalizado. Existem clínicas e médicos especializados, os abortistas, assim como os cardiologistas. As drogas estão liberadas, da mais branda a mais pesada. Hoje, a pessoa pode ser o que quiser. Homo, hétero, trans, tudo. Gerando dinheiro, tudo é permitido.
O liberalismo finalmente triunfou. Aquele descendente de japa, qual era o nome dele? Isso. Francis Fukuyama. Ele devia proclamar o fim da história hoje. Tudo está privatizado. O Estado é apenas um simulacro. Atendemos também aos pós-modernos. Michel Foucault, se não me engano, também defendia o liberalismo anarquista no fim da vida. Gente boa. Forças armadas e polícias são empregados de empresas. Elas consomem armas fabricadas por empresas. Violência? Ordem pública? Tudo balela. As forças armadas e as polícias podem matar à vontade. Elas consomem armas, munições e treinamento. Bandido morto gera renda para funerárias e cemitérios, tudo da iniciativa privada. Bandidos que matam soldados e policiais também geram lucro.
Enfim, chegamos à sociedade perfeita. Enfim o admirável mundo novo. Presídios? Ora, acabamos com as crises do sistema prisional. Ele também não passa de um simulacro. Não temos mais superlotação dos presídios. A maioria dos bandidos está nos cemitérios. Os presídios foram privatizados. Hoje são verdadeiros hotéis. Todos geram lucro. O PIB vai de bom a melhor.
Leis? Sim, elas existem exatamente para serem transgredidas. O povo pensa que advogados, promotores e juízes estão aí para fazer justiça. Tudo farsa. Aliás, a farsa é antiga. Observe bem, hoje o Estado mínimo e mentiroso não tem mais deveres sociais. A saúde foi toda privatizada. Democratizamos o acesso ao serviço de saúde. Todos têm planos de saúde. Não funcionam? A finalidade é essa mesma. Não somos movidos por princípios éticos, mas por interesses econômicos. Hoje, a medicina prolonga a vida humana porque os velhos dão dinheiro. Eles tomam remédios, praticam exercícios físicos, frequentam clubes de terceira idade, são internados, fazem fisioterapia. Tudo pago. Se não podem pagar, morrem. Nesse estado – de mortos – também geram dinheiro.
O direito à casa própria também está garantido. Mas não é mais o governo que cuida disso. São as empreiteiras. Injustiça da sua parte dizer que promovemos a pobreza e a doença. O sistema de saúde privado está aí pra quem pode se beneficiar dele. Aqueles que não podem se dão mal. Deixemos de pieguice. No mundo sempre houve ricos e pobres. Nosso interesse é que as pessoas aumentem sua renda individual e familiar. Assim, é mais gente consumindo. Mas não dá pra ser perfeito. Mesmo assim, acho que vivemos no melhor dos mundos. Alguém já disse isso, não lembro quem. Um personagem de Voltaire? Obrigado pela informação, mas não importa. Esse cara faz parte da pré-história.
Nunca se produziu tanto alimento como hoje. Destruição da natureza? Alimentos contaminados? Vamos ver se você aprendeu matemática. Quanto é 10-10? Zero? Errou. Dá 20. Dez pra destruir e dez pra consertar. Mudamos o clima, poluímos os oceanos, as águas dos rios, o solo. Desmatamos, extinguimos espécies. Tudo isso gera riqueza. Depois despoluímos, reflorestamos e recriamos espécies extintas graças aos avanços da genética. Tudo isso também gera lucro. Saneamento básico? Tudo resolvido. Não por razões éticas, mas por geração de dinheiro. Veja as religiões. Elas defenderam princípios éticos num contexto que a ética podia existir verdadeiramente. Agora não pode. Elas se renderam ao lucro. Abraão, Buda, Jesus, Maomé propuseram caminhos éticos para a salvação da alma ou coisa que o valha. Hoje, não dá mais. Todas as religiões estão vendendo ilusões.
Enfim, rapaz, não quero convencê-lo de nada. Você é uma andorinha apenas. Você não faz verão. Então, vamos encerrar esse papo. Vai ao shopping hoje?
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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