"O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM"
20/02/2014 | 06h35
Aqui para o blog, trago um artigo do Fabrício Maciel, Doutor em ciências sociais pela UFJF. Foi feito em cima da reportagem (aqui) sobre o programa De Braços Abertos, realizado pela prefeitura de São Paulo  que obteve nível satisfatório de redução em 70% no consumo de crack, na capital paulista. Todos vocês já leram sobre a tenebrosa "Cracolândia". É mesmo chocante vê-la em contraste com o vizinho edifício da Estrada de Ferro Sorocabana - hoje, abriga a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e uma das mais importantes casas de concertos e eventos do País. É leitura mais longa do que a habitual, no entanto, nos revela possíveis políticas públicas - sérias - na área da saúde pública. Observem os cuidados no planejamento do programa. Depois, abaixo, leiam a análise do Fabrício. Uma luz! O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM Estou extremamente contente com o post que acabo de compartilhar, sobre o combate ao crack. Diferente da política e do senso comum conservadores de nosso tempo, que exatamente agora assumem face explícita no Brasil, assistimos a recuperação gradual de usuários de crack. Pouca gente deve imaginar o sofrimento de um usuário de crack. Na verdade, a sociedade brasileira só lembra de suas questões sociais quando estas incomodam a classe média e a ordem do espaço público. Contrário ao descrédito da maioria e ao preconceito aberto de uma minoria em ascensão, que sustenta a hipótese de se tratar de vagabundos qualquer tipo de gente que vague pelas ruas sem emprego, a lição que tomamos agora é só o contrário. O trabalho dignifica o ser humano, atribui a sua vida sentido, valor pessoal de estar fazendo algo útil por sua sociedade. Para estes nossos "sobrantes", cuja maioria nunca teve chance de exercer alguma atividade reconhecida como digna em sua sociedade, ter a oportunidade de trabalhar está sendo o passo decisivo. Para os que desacreditam da política e para os que a descreditam de propósito o fato manda dois recados: para os primeiros, que acordem e acreditem na mudança social. Para os segundos, que se olhem no espelho e se perguntem até onde são capazes de manter seu conservadorismo. Toda vez que classificamos alguém como vagabundo estamos tentando expurgar de nós mesmos o nosso outro, produzido pela mesma sociedade que atribui méritos diferenciais às suas ocupações, algumas dignas, outras não. Existe saída para o crack, sim. No plano mais abstrato, a prova de que o trabalho atribui sentido combate a construção do estigma do vagabundo, lançado contra aqueles que perderam em nossa mesquinha competição social. No plano mais concreto, imediato, a política que neste caso está acertando em cheio é um tapa com mãos de pelica na cara daqueles que acham que fazer política é só fazer acordos, pensar em dinheiro e defender a bandeira do desenvolvimento, e que no fim cada um tome para si, de acordo com suas capacidades, o seu quinhão. Não. Política é outra coisa. É usar os recursos do Estado em favor da sociedade. Ou melhor, em favor de sua parte mais carente. É o que vemos agora. Viva o trabalho, viva a verdadeira política, e que os conservadores da política e da sociedade acordem enquanto é tempo! [caption id="attachment_7609" align="aligncenter" width="600" caption="Ideia é afastar usuário da área (foto: João Luiz/SECOM.SP)"][/caption]

 

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