COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS
29/10/2013 | 02h02

Depois de Hans Staden  (1999, de Luiz Alberto Pereira) filme apresentado no Cineclube Goitacá, na semana passada pelo diretor de redação da Folha da Manhã, Alusyio Abreu Barbosa, chega vez do filme dirigido pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, “Como Era Gostoso o Meu Francês”. Filmado em Paraty (RJ) no ano de 1970, tempos sombrios da ditadura militar no Brasil,  dois anos antes tinha afundado em repressão pesada, com a supressão das liberdades democráticas, consolidada pelo famigerado Ato Institucional baixado, o  AI 5.

O filme enfrentou reação, censura e cortes. Veio ao público em 1972, alcançando um milhão de espectadores para intriga dos burrocratas da tesoura; além de não quererem permitir que as cenas de nudez fossem vistas, desconfiavam que por trás do enredo haveria alguma mensagem política embutida.

Considerado um clássico do cinema nacional, com viés tropicalista - uma visão irônica sobre a colonização brasileira - Como Era Gostoso o Meu Francês recebeu críticas excepcionais nos Estados Unidos –  sendo extremamente bem recebido – participando de célebres Festivais como o de Cannes e Berlim.

Em conversa à Folha On line, a protagonista Ana Maria Magalhães nos disse que é um filme que não envelheceu, “ A sensação que tenho é de que foi feito em outra encarnação distante, sob a perspectiva histórica, o colonialismo está lá.”

O filme, cujos diálogos em tupi-guarani são de Humberto Mauro, segundo Ana Maria “um tupinólogo amador”, é um filme pleno, na linguagem do cineasta Nelson Pereira dos Santos. Talvez o primeiro a trazer para as telas uma visão renovada da antropofagia de Oswald de Andrade.

Na época, o financiamento do cinema nacional provinha dos royalties oriundos da exibição de filmes estrangeiros no país. Como Era Gostoso o Meu Francês, foi produzido pela Condor Filmes em coprodução com Luis Carlos Barreto, também conhecido no meio como Barretão, pela força de sua participação na produção cinematográfica brasileira.

Ana Maria, atriz e diretora carioca, nascida em 1950, tinha na época da filmagem 30 anos. Sua participação se dá o tempo todo nua, “Foi um filme difícil, segurei esta onda. No modo de falar e de andar, minha personagem dava o tom da tribo, meio naturista, mas, consegui impor um respeito, não existiram gracinhas”.

Todo rodado em uma fazenda à beira mar de Paraty, foi construída uma enorme taba indígena.“ A célebre cena da pedra em uma praia linda, que gosto muito, foi cortada. Havia o desejo do canhão, a metáfora do poder da arma.” Mesmo as cenas de nudez frontal tiveram que ser escurecidas, “Na cena mais íntima do casal, meteram a faca”, afirma ela.

Hoje, passados 40 anos, o filme se encontra nas cinematecas o que garante imortalidade ao filme. Está lá disponível a qualquer geração que queira acessar a história do cinema brasileiro. Com ele, em 1972, Ana Maria conquistou o prêmio revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Para minha carreira o filme foi importantíssimo, filmar com Nelson me deu segurança”, diz.

Sinopse:

No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória. É uma adaptação livre de Hans Staden.

Será exibido amanhã, no Cineclube Goitacá, quarta ( 30/10), às 19.30h, no edifício Medical Center, na sala 507. A entrada é franca. Haverá debate após a exibição.

Até lá!

 
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