Da Flip 2015, primeiras impressões
02/07/2015 | 11h16
Com 43 autores - 11 são poetas - e o escritor brasileiro modernista Mario de Andrade (1893 - 1945) como homenageado, ontem (01) teve início a 13ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A cidade histórica durante os cinco dias do evento, será aos poucos tomada por uma gente misturada que veio assistir aos debates, encontros e mostras. Ainda que a recessão econômica do presente afete toda e qualquer iniciativa no país, a Flip, logo na abertura, deu mostra da seriedade e qualidade com que é elaborada desde a primeira edição há mais de uma década. O evento cultural, segundo os organizadores (Associação Casa Azul) não é mais um evento “de fora” ao paratiense; está fincado nos quatro cantos do Centro Histórico, movimenta a economia do turismo local, já faz parte do território, mesmo que tenha tido seu orçamento diminuído. Se em 2014 a Flip contou com R$ 8.5 milhões este ano recebeu R$ 7,5 milhões. Não é nada, não é nada – outros talvez cancelassem a festa em total descompromisso com o cativo público -, pois aqui se observa que o fundamental do movimento cultural está assegurado, o supérfluo sofreu cortes e a Flip 2015 acontece firme apesar de. Intitulada “As margens de Mário” foi a mesa da sessão de abertura da Flip 2015. Dela, participaram a crítica literária argentina Beatriz Sarlo, a ensaísta paulista Eliane Robert Moraes e o carioca estudioso do modernismo brasileiro, Eduardo Jardim. Antes, um vídeo com o artista e músico pernambucano Antonio Nóbrega. A proposta é alargar o olhar como o fez Mario de Andrade em suas incursões inquietas pelo Brasil; nas palavras de Nóbrega “O dia que descobrirmos esse olhar seremos um país melhor”, ou como disse Beatriz Sarlo ao fazer paralelo entre os dois países sul-americanos - Argentina e Brasil – trata-se de pensar “carência e conflito” deste país não apenas multicultural, mas, “ricamente multicultural”. "Eu sou trezentos, sou trezentos- e-cinquenta, Mas um dia afinal me encontrarei comigo..." Mário de Andrade FullSizeRender(11) FullSizeRender(12) FullSizeRender(13)  
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"PRA FRENTE BRASIL"
02/09/2014 | 08h00
É o filme que apresento amanhã (quarta-feira - 3/09), às 19h, no Cine Clube Goitacá. O filme é um dos quatro que integram o ciclo intitulado 'Golpe'. Convido a todos, é bem interessante. O Cine Clube fica no  Ed. Medical Center - Rua 13 de Maio,286, sala 507. Nos encontramos por lá!

"Uma viagem desagradável a um passado bem conhecido. Assim foi novamente assistir ao filme “Pra Frente Brasil” de Roberto Farias, Prêmio do Festival de Gramado, em 1982. Com música de Egberto Gismonti e, Reginaldo Faria, Natália do Valle, Antônio Fagundes e Elizabeth Savalla, no elenco. Retornamos à realidade brasileira de 44 anos atrás. Era 1970, anos de chumbo e do milagre econômico. O Brasil eufórico com a Copa do Mundo sendo disputada no México, onde fomos Tricampeões. Tempo do infame bordão “Brasil, ame-o ou deixe-o”, do General Médici, dos 70 milhões em ação, salve a Seleção. Ainda que tenha sido lançado em 1982, ou seja, depois da Anistia, portanto, da “Abertura, Lenta e Gradual” do último milico no poder, o General Figueiredo; nem a volta dos exilados políticos, nem as eleições gerais, nem o fim do imposto bipartidarismo, foram capazes de impedir que no dia seguinte ao seu lançamento, o filme tenha sido proibido de circular em território nacional, curto e grosso: censurado. A trama começa simples. Jofre Godoi da Fonseca é um cidadão apolítico de classe média. É casado com Marta, tem dois filhos. Miguel, seu irmão, também um cidadão comum, apesar de amar Mariana, uma guerrilheira de esquerda. Quando Jofre divide um táxi com um militante de esquerda, é tido como "perigoso subversivo" pelos órgãos de repressão. É ilegalmente preso, desaparece para ser submetido a sucessivas sessões de tortura. Daí em diante, na tentativa de encontrá-lo, Miguel e Marta encaram todo tipo de intimidação; se surpreendem ao descobrir a relação entre a repressão política e empresários que a patrocinam. Para os órgãos de repressão do regime militar, os dois (e todos os que com eles se relacionam) passam a ser ‘colaboradores comunistas’. O final é dramático. Incomoda".  Luciana Portinho
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EM CAMPOS, TOCAR É LUTAR!
30/08/2014 | 12h04
Na quarta-feira passada (27/08) a Ong Orquestrando a Vida, reuniu em sua sede, os pais e alunos, para uma conversa. Mais uma vez, o assunto foi o convênio não renovado com a Prefeitura de Campos, que fez com que a Orquestra Sinfônica Municipal de Campos e o Coro Municipal tivessem suas atividades interrompidas. O ano de 2014 , tem sido até aqui, um tempo de muita aflição e de dificuldades materiais para a entidade. Também tem sido de tristeza. Ao ser alvo de acusação pública pelo poder público municipal local, à direção da Ong não restou outra opção do que se defender, também publicamente. Ao fazê-lo da forma irresponsável como tem feito, a municipalidade usa do expediente surrado de desmerecer a história da Ong, de tentar  em vão incompatibilizá-la com a sociedade campista. Em uma cidade constantemente envolta em imoralidades, em suspeições de todo tipo e espécie, é pura maldade. É aquela tentativa da mentira repetida, mais do que manjada, de jogar pro limbo do descrédito, todo um trabalho social calcado na música erudita, na construção de orquestras de jovens músicos. O que garante, no dia a dia, a sobrevivência da Ong Orquestrando a Vida, é o resultado. É o reconhecimento da sociedade. É a consciência de fazer o certo. É a certeza da importância da sua existência junto aos jovens carentes de Campos. Por isso, são combativos e tem como lema: “Tocar e Lutar”. Não por acaso, sempre que despudoradamente atacada - por aqueles que querem porque querem, em tudo, dividendos políticos de curto prazo – vozes de todos os cantos do mundo se levantam em apoio. Não por acaso, o governo do Estado do Rio de Janeiro, há dois anos, cedeu o imóvel onde foi instalada a linda sede do projeto. Todos que lidam com a Cultura no interior, não com o entretenimento, sabem da situação que é andar de pires na mão, atrás de recursos. Enfim, parece que uma luz se acendeu no horizonte. Vamos torcer!
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Para quem duvidou....
26/06/2014 | 05h24
Vejam o que trago da rede social Facebook, copiei da página do amigo Luis Adriano Silva para todos. Dá bem uma ideia da movimentação internacional para o evento da Copa 2014. Para aqueles que torceram contra, fica o fato: o Brasil sedia um dos maiores eventos esportivos mundiais, todos os olhos se viram para nós. Vamos lá Brasil!! Fluxo de check-ins via Facebook na copa do mundo !!!
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No tempo e no espaço da bola que rola
22/06/2014 | 07h52
Sugiro a leitura do artigo semanal abaixo de Arnaldo Bloch, publicado ontem (21/06), no jornal O Globo. Muito bom!

A Copa do avesso do avesso do avesso...

Povo ordeiro, estádios lotados, turistas felizes, espanha eliminada, seleções latinas dando show... Socorro!

O futebol é uma caixinha de surpresas: a frase mais surrada do “bárbaro esporte bretão” (expressão mais gasta que a reputação do Joseph Blatter) está mais atual do que nunca, nesta que já é a Copa do Mundo menos óbvia jamais vista. Uma “copa do tudo ao contrário”, ou muito pelo contrário e ainda há controvérsias. Segue um pequeno apanhado das evidências e das exceções à regra. 1) Ao contrário do que se previa e até do que muitos desejavam, a Copa está funcionando, não houve nenhuma tragédia aeroportuária, nenhum nó urbano intransponível, nenhum colapso infraestrutural de proporções catastróficas. Os incidentes são pontuais e de pequena escala, alguns, aliás, protagonizados por torcidas estrangeiras e por cambistas nórdicos e americanos. 2) O povo brasileiro, ora ordeiro, ora zoneiro, está contagiando os turistas e até as seleções. Como disse o técnico da Holanda, o melhor do Brasil na Copa são os brasileiros. Os turistas copeiros não estão nem aí para aeroporto (aliás, a aviação mundial já colapsou faz tempo em qualquer país), não ligam para engarrafamento nem desmaiam com uma fila ou outra: eles querem pular, beber em botequim, subir morro, caminhar de cuecas com bandeirões, viver a vida. 3) O pânico de uma grande convulsão social, de uma revolução, o medo burguês de “a favela descer” ou de uma grande onda de manifestações fazer o país e a Copa pararem, por enquanto, demonstra-se completamente infundado. Os grandes movimentos, respeitáveis, necessários e saudáveis, conduzidos pela geração Facebook e pela classe média, e ignorados pelo proletariado que faz marmita e tem que acordar às 5 da manhã para levar o leite das crianças, por ora, ficaram nos anais de 2013. 4) Ao contrário do que se preconizou, todos os estádios sem exceção estão lotados em todos os jogos, as cidades estão cheias de turistas, os hotéis estão estufados. O tal do medo estrangeiro de um Brasil perigoso e letal, na iminência de uma guerra civil generalizada ou de um colosso anárquico, ficou no terreno da ficção. 5) O boicote nacional à Copa deve estar escondido em algum bunker. Os brasileiros aderiram em massa ao Mundial, nos bares e lares, nas fan fests e nas florestas onde até as araras e os quatás estão gritando de entusiasmo. Até porque mesmo os que torcem contra o Brasil têm que ver os jogos para exercer o ofício. 6) A Espanha, que estava entre as quatro favoritas, saiu da Copa na segunda rodada. O tic-tac da irresistível campeã do mundo emperrou, virou um relógio mole de Dalí, um Rolex de camelô, um carrilhão de filme de terror. A Fúria é um escrete de velhinhos cansados com um esquema cansado e manjado e risível. 7) A Holanda, depois de beber todas e receber visitas íntimas e se estatelar na praia (eles podem fazer isso sem pirar, pois vivem numa sociedade livre e já são meio pirados mesmo) goleou a Espanha por 5 x 1 e todo mundo gritou “pintou o campeão”. Que surpresa! Mas... no jogo seguinte, provavelmente depois de beber todas de novo, fazer amor em meio ao labor e tomar chá de erva, levou um esquenta da Austrália e já não é mais aquela. O avesso do avesso. Mas isso pode mudar na próxima rodada. e teremos o avesso do avesso do avesso e assim por diante indefinidamente. 8) As alegres e criativas e aguerridas seleções africanas não estão jogando nada nem surpreendendo ninguém. Na verdade, a grande alegria está vindo... das equipes das Américas do Sul e Central!, que há muito vinham abafadas pelo absolutismo europeu. Mas como esta é a Copa do tudo ao contrário, o Chile está bombando, o Uruguai Hemp está moderno, a Colômbia está voando, a Argentina está fazendo deverzinho de casa, México e Costa Rica estão pimpões e o Brasil... bom, o Brasil é exceção, mas Felipão é pai. 9) Pela primeira vez na história dos mundiais, o estádio de abertura é o estádio mais feio da Copa, quiçá o mais feio do mundo, o mais feio de todos os tempos, e permanecerá o mais feio até o fim dos tempos. A semelhança de seu projeto arquitetônico arrojado e conceitual com o design de uma impressora vagabunda vendida de segunda mão na Saara já é uma evidência atestada nas redes sociais mundo adentro, e afora. 10) Nunca antes numa Copa do Mundo o chefe de Estado não discursa na abertura, nem diz a frase “declaro aberto o Mundial”. 11) Nunca antes uma festa de abertura de Mundial foi tão chata, feia, pobre, patética, sem imaginação, sem a cara do país, sem nada que não seja digno de lamento. 12) Nunca antes uma música oficial da Copa do Mundo foi tão escandalosamente feia. 13) Revogam-se todas as disposições em contrário, ou muito pelo contrário. 14) Para não ficar no 13, adicionamos mais um item. Aliás, um abraço pro Zagallo.
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Calou-se uma voz dos oprimidos
04/05/2014 | 01h41
Calou-se a voz de Tomás Balduíno,                                                                         
nessa noite de 2 de maio.
Uma voz que nunca quis ser sozinha,
sabia, desde os anos de chumbo:
uma voz solitária não suspende a manhã.
Quis ser uma voz entre vozes,
ergueu sua voz dentro do vasto coro dos oprimidos:
os índios, os posseiros, os lavradores,
os retirantes da seca e da cerca
e os que se levantam contra elas,
as mulheres, os negros, os migrantes, os peregrinos
para forçar claridades, para ensinar amanhecer.
Tomás é palavra.
A palavra que banha como bálsamo.
A palavra que fustiga.
Incendeia.
A palavra que perdoa
mas aponta - sempre - o caminho da Justiça.
E o que somos na vida?
Somos os ossos das palavras
que povoam o caminho de pedra ou flores
que sangram os pés dos nossos filhos.
Tomás é sertão.
O sertão e suas armadilhas.
O sertão e suas infinitas contradições.
Tomás é sertão
onde se dobram os ventos de Goiás e Minas,
onde nascem águas
nessa infinita geografia
que alimenta nossas esperanças.
Calou-se a voz de Tomás Balduíno.
Permanecerá sua palavra.
Tomás é sertão:
gesto de fé nessa gente que não se dobra.
Pedro Tierra Brasilia,Manhã de 3 de maio 2014
NOTA DE FALECIMENTO
Dom Tomás Balduino, fundador da CPT, fez a sua páscoa
“Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou...
tempo de lutar e tempo de viver em paz”.
(Eclesiastes 3:1-8)
É com grande pesar e muita tristeza que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunica a todos e todas o falecimento de Dom Tomás Balduino. Fundador da CPT, bispo emérito da cidade de Goiás e frade dominicano, Dom Tomás lutou por toda sua vida pela defesa dos direitos dos pobres da terra, dos indígenas, das demais comunidades tradicionais, e por justiça social. Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital ele deixava de se preocupar com a questão da terra e pedia, em conversas, para saber o que estava acontecendo no mundo.
Aos 91 anos, completados em dezembro passado, Dom Tomás Balduino, o bispo da reforma agrária e dos indígenas, nos deixa seu exemplo de luta, esperança e crença no Deus dos pobres. Ficamos, hoje, todos e todas um pouco órfãos, mas seguimos na certeza de quem Dom Tomás está e estará presente sempre, nos pés que marcham por esse país e nas bandeiras que tremulam por esse mundo em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.
Dom Tomás faleceu em decorrência de uma trombo embolia pulmonar, às 23h30 de ontem, 02 de maio de 2014. Ele permaneceu internado entre os dias 14 e 24 de abril último no hospital Anis Rassi, em Goiânia. Teve alta hospitalar dia 24, e no dia seguinte foi novamente internado, porém desta vez no Hospital Neurológico, também em Goiânia.
O Corpo será velado na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, em Goiânia, até às 10 horas do domingo, dia 4 de maio, momento em que será concelebrada a Eucaristia, e logo em seguida será transladado para a cidade de Goiás (GO), onde será velado na Catedral da cidade até às 9 horas da segunda-feira, 5 de maio, e logo em seguida será sepultado na própria Catedral.
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Modesto da Silveira, em defesa da liberdade
01/04/2014 | 10h09
Modesto da Silveira é uma legenda na defesa dos perseguidos, presos, torturados pelo Golpe de 64. Figura doce, dedicada e amiga. Em 1978, foi eleito deputado federal pelo MDB, com uma vitória retumbante da oposição ao regime militar. Tive a honra e o privilégio de ter convivido na ocasião com este brasileiro. É emocionante vê-lo ativo, fiel aos princípios que nortearam sua carreira e vida. Sugiro a leitura da matéria aqui.
Alessandra Duarte (Email · Facebook · Twitter)
Publicado: 30/03/14 - 8h00
 Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Foto: Pedro Kirilos / Pedro Kirilos 
Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Pedro Kirilos / Pedro Kirilos
RIO - Defensor de agricultores, intelectuais, líderes estudantis e religiosos, Modesto da Silveira viu “os tanques do golpe” na Cinelândia. Seis anos depois, foi sequestrado e levado a uma sala do DOI em que as paredes tinham sangue coagulado. Hoje, guarda mais de 30 agendas daquela época. Algumas encardidas, outras empoeiradas. E, como se de um jogo se tratasse, convida: “Vamos ver a de 68?” O advogado de 87 anos vai então ao dia 13 de dezembro, data da decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5) e na agenda lê: “Prisão Sobral Pinto”. — Esse “prisão” escrevi entre aspas porque foi o sequestro do Sobral, né? — conta ele, lembrando colegas de profissão. Todas as agendas estão em seu apartamento. E, numa época de infiltrados e acusadores, os compromissos anotados viraram álibis e testemunhas de defesa. Até hoje Silveira é considerado, por colegas, como o advogado que mais defendeu brasileiros no regime militar. Ele não sabe dizer quantos clientes teve, mas diz que cuidou de gente “de Belém a Porto Alegre”, de agricultores e operários a nomes como Mário Alves, Ferreira Gullar, David Capistrano e Dom Adriano Hipólito. De muitos, não cobrou nada. E a memória do dia do golpe é nítida: — Naquele dia, quando cheguei à Cinelândia, o povo esperava um comício em apoio a Jango. Mas não apareceram líderes sindicais, estudantis ou intelectuais. Apareceram tanques do Exército. Quando voltaram os canhões para o povo, ficou claro que eles eram do golpe. Então começaram a vaiar. Dois à paisana deram tiros para o alto e entraram no Clube Militar. No meu escritório, gente já pedia socorro. Para o mineiro de Uberaba, “o pior era quando você perdia o cliente”, numa referência à morte. Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodora — citada pela presidente Dilma Rousseff em discurso de 2010, foi um deles. Presa e torturada, suicidou-se no exílio. Em 1970, Silveira foi sequestrado pela repressão e ficou no DOI-Codi do Rio por dois dias. Não sofreu tortura física, mas psicológica. Na sala havia sangue coagulado, e a máquina de choque estava ligada. — Passaram a falar das minhas três filhas: “Sabe aquela? Trago aqui, boto a arma na boca e pow!” Modesto está hoje na Comissão de Ética da Presidência e presta assistência jurídica a antigos clientes. Auxilia a Comissão Nacional da Verdade e pede que ela tenha mais membros, poder de intimação e dê mais atenção à Operação Condor. — É preciso olhar o apoio financeiro e logístico de um regime que fez, no mínimo, meio milhão de vítimas diretas.
 
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No tanto Brasil
18/02/2014 | 08h56
Na margem direita do Rio Muriaé, em uma cidade do noroeste fluminense, lá no fim de uma rua sem saída, eles trabalhavam em pleno sol a pique. Sexto dia da semana e os homens em franca atividade. Uma pequena manufatura de vassoura piaçava logo chamou a atenção. Para quem vive nas grandes cidades brasileiras, quiçá seja uma realidade longínqua. Talvez nem se dê conta de que o interior, também produz objetos tão importantes ao dia a dia de todos. Eram seis trabalhadores dentro da pequena construção de laje. Cada um cumpre uma função singular na simplória linha de montagem. Estavam de bom humor, não evitaram as fotos, não se negaram a conversar e até posaram alegres, não sem antes detalhar os meandros do funcionamento daquelas rudimentares máquinas que com eles compõem a linha de produção. [caption id="attachment_7595" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption] A piaçava vem da Bahia. Chega amarrada em rolos; abertos são, separados em feixes e, com o auxílio de um artefato, excluídas as menores. As maiores assim selecionadas, ficam em molhos nas mãos do operário que com destreza realiza a operação.  Esse é só um dos passos para dar forma final à dura palha, transformada ao fim em vassoura: “Vassoura Itaperuna”. Seu Itamar é o dono da fabriqueta, estava na rua vendendo o produto. Da fabricação do utensílio, sobrevivem sete homens e respectivas famílias, não sabemos quantas bocas dali tiram seu sustento. [caption id="attachment_7596" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

[caption id="attachment_7597" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

Vale o registro. [caption id="attachment_7598" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

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O MAUSOLÉU DO CORONEL
15/01/2014 | 11h30
Conheci o Maranhão na juventude, é um Estado de se apaixonar de primeira. Passava algumas férias, de verão ou de inverno, em um sítio na Praia do Olho D'Água, na capital São Luis. Tudo nela me atraia: a negritude do povo, as praias de água turva e da areia socada pelas enormes marés a perder de vista. A batida do tambor ou da matraca dos Bois, de arrepiar. Apurei o gosto de cozinhar por lá; nas tapiocas, no arroz de cuxá, no preparo do caruru com o camarão salgado vendido a granel em qualquer biboca, nas frigideiras de sururu. Tudo acompanhado por um refrigerante rosa claro "Guaraná Jesus" ou pela saborosa cerveja Cerma, precedida por um gole de Tiquira (feita da mandioca), segundo eles a verdadeira aguardente brasileira . Das frutas, impossível não lembrar do cupuaçu, do carnudo bacuri, dos doces sapotis e dos estranhos abricós. São Luis combinava descaso e desigualdade social, muita pobreza sem memória com história, rico patrimônio material com musicalidade e poesia. Sua gente, se recostava e até dormia nas redes,  isso valia para qualquer classe social. De verdade aprendi com os maranhenses a usar a rede atravessada, como os indígenas. Na primeira noite dormida, caí da cama. Era janeiro - para eles inverno - , época das chuvas, acordei com o céu desabando na cabeça, corpo já no chão. Foram, até hoje, as chuvas mais torrenciais seguidas que já presenciei. Na manhã seguinte? Sol, como se nada tivesse havido. Passávamos as tardes mornas sob a brisa dos babaçus. A São Luis de então, não chegava a 500 mil habitantes. Fora do centro histórico, tinha ares de roça rasgada, longas distâncias a percorrer, meio desabitada. Estar em São Luis sem ir a Alcântara era como não ter completado a viagem. Acho que eram duas horas de enjoo no barco, de mar batido na boca da barra. Lá, era como se tivéssemos aportado pelo túnel do tempo no passado. E ainda tinha a simpática Ribamar e todo o interior. Este, por natureza lindo e humanamente miserável. Foram aulas práticas de Brasil. Dava dó ver fachadas inteiras de azulejos coloniais belíssimos saqueados por uma elite que em troca dos "velhos" azulejos da história acenava, aos moradores, com modernos azulejos "Klabin". Era o que mais se via, tanto na ilha quanto no continente (Alcântara). Tempos depois, em uma dessas revistas de fofoca, li entrevista com a já governadora Roseana Sarney. Ela mostrava, sua casa vasta, repleta de obras de arte sacra, inclusive para meu espanto, um altar?!  Chocante, mesmo. Mais recente voltei a São Luis a trabalho - encontrei tempo de conhecer a maravilha natural que são os Lençóis Maranhenses. Me deparei com uma cidade de 1 milhão de habitantes, frequentada por turistas europeus (franceses em sua maioria), alguns de seus imponentes sobrados restaurados onde foram instalados restaurantes com uma culinária e serviço sofisticados. Pelo centro histórico, intervenções de arte popular e, como não poderia deixar de ser, souvenirs de todos os gostos. O mesmo povo mestiço lascado pela pobreza. E música e poesia declamada. Registro essas lembranças como introdução ao artigo abaixo, do jornalista Sebastião Nery, escrito em 2007 e publicado ontem, 14/01, no site www.jornalpequeno.com.br, ver aqui . A leitura esclarece o tempo presente do Maranhão. SEBASTIÃO NERY O MAUSOLÉU DO CORONEL São Luís (MA) – Fernando Sarney, o filho empresário do senador José Sarney, pegou de manhã o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, no belo São Luis Resort Hotel, na praia do Calhau, aqui em São Luis, e o levou à casa do pai, um majestoso e coronelado quarteirão cheio de árvores e todo cercado de muro branco, bem ao lado do hotel. Quando entraram, Fernando foi logo com Mário Soares para um salão repleto de riquíssima coleção de objetos e imagens sacras de muitos séculos. Fernando mostrando, explicando, e Mário Soares olhando, perguntando, surpreso com tanto santo, de tantos séculos, na coleção de um cristão só. Depois de ver tudo, Mário Soares foi saindo: - Tudo bem, obrigado, já vi o museu, agora me leve à casa do Sarney. Sarney vinha chegando. Só então Mário Soares percebeu que o museu era apenas uma sala do casarão do “Coronel do Calhau”. SARNEY A marca macabra do letrado acadêmico dono da casa está logo na entrada. O portão de ferro do casarão, antigo, esverdeado e patinado, é um secular portal tirado do tombado cemitério de Alcântara. As duas pilastras de granito que sustentam o portão também saíram do cemitério de Alcântara. O mágico e fúnebre sopro da morte não está só aí. Castro Alves, cantando a batalha do “2 de Julho” da Bahia, disse que “o anjo da morte pálido cosia uma vasta mortalha em Pirajá”. A maior batalha de Sarney, aqui no Maranhão, nem foi, como se poderia imaginar, a trágica e acachapante derrota de Roseana na eleição para governador. É a luta por seu mausoléu: - “Num belíssimo jardim, no pátio externo do Convento, cercado de imensas palmeiras imperiais e de um exemplar de pau-brasil, está um retângulo, com três metros de largura por seis de comprimento, isolado por grossas correntes de ferro e coberto de granito preto”. O mausoléu do coronel. OLIGARQUIA É uma história metade Freud metade Odorico Paraguassu. Está contada em dois excelentes livros maranhenses: – “Sob o Signo da Morte: o Poder Oligárquico de Vitorino a Sarney”, do professor Wagner Cabral da Costa, mestre da Unicamp, “uma radiografia do poder oligárquico”: - “Sarney pretende erigir em seu nome um museu-mausoléu em São Luis. Por meio de uma fundação privada e utilizando-se de uma vasta rede de tráfico de influência, que abarca vários governadores do Estado, Assembleia, Justiça, Senado, pretende estabelecer uma espécie de Taj-Mahal maranhense, um monumento à morte, que celebra a dominação política dos vivos”. O outro é “O Caso do Convento das Mercês”, do jovem jornalista, formado em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, Emílio Azevedo. Minuciosamente, documentadamente, ele conta a história de um esperto golpe dado por Sarney e seus amigos para transformar o histórico Convento das Mercês, patrimônio público, em propriedade familiar. CONVENTO 1. – “Poucos dias antes de deixar a Presidência da República em 1990, Sarney vai ao cartório de sua irmã, em São Luis, e cria a Fundação José Sarney, para ter, ilegalmente, a posse, o domínio, a propriedade do histórico Convento das Mercês, onde o Padre Antonio Vieira fez muitos de seus sermões. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com mais de três séculos e meio de história, comprado pelo Estado à Arquidiocese de São Luis em 1905, ocupa uma área de 6.500 m2, integrando um conjunto arquitetônico considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade”. 2. – Em 90, o governador Cafeteira, aliado de Sarney, gastou 9 milhões e meio de dólares na reforma do Convento, propôs e a Assembleia aprovou sua doação para uma “Fundação da Memória Republicana”. Era um disfarce. Logo o nome foi trocado para “Fundação José Sarney”. Assumindo, o vice João Alberto, o “Carcará”, assessor de Sarney, fez um decreto de “uma doação firme e valiosa (sic) transferindo para a Fundação José Sarney todo o domínio, posse, direito e ação sobre o Convento, para que possa usar e gozar livremente como seu”. E pôs a doação em “escritura pública em cartório, em junho de 90?. SENADO E SUPREMO 3. – O deputado Freitas Diniz, dos Autênticos do MDB e fundador do PT, protestou. O Ministério Público denunciou e a Assembleia aprovou projeto do deputado Aderson Lago “anulando a doação” e “assegurando ao acervo privado do Memorial do ex-presidente a permanência no Convento”. Mas o Senado, numa ação de curriola jamais vista, foi ao Supremo Tribunal “em defesa dos direitos de um senador”. E o Supremo, minúsculo, anulou a decisão da Assembleia e garantiu o Convento como propriedade dos Sarney. 4. – Em entrevista à “Carta Capital” de 23 de novembro de 2005, Sarney disse que seu mausoléu “será um atrativo turístico e, no futuro, até ponto de peregrinação” (sic). E começou a faturar o mausoléu. Além dos US$ 9,5 milhões já gastos, a Fundação alugou ao Estado parte do Convento por R$ 80 mil mensais, recebeu mais R$ 1.139.142,72, tomou R$ 1.348,005,00 da Petrobras, tem gordas verbas anuais do Orçamentos Federal e comercializa para casamentos, festas, quermesses, shows. Nunca se viu cova tão rentável.
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LENÇÓIS MARANHENSES
11/01/2014 | 10h55
[caption id="attachment_7435" align="aligncenter" width="460" caption="Charge copiada da rede social Facebook"][/caption]

 

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Sobre o autor

Luciana Portinho

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