Ossos do (gigante) ofício
15/05/2015 | 10h56
Estive no mês passado na Galeria Scenarium, Rio de Janeiro. Fica em um sobrado, daqueles antigos de um Rio passado: provavelmente erguido em 1874. Faz parte, com orgulho, dos bens protegidos da cidade. Este prédio encantador com fachada azul de ladrilhos esmaltados foi restaurado e fica na Rua do Lavradio. Queria ver a exposição " TRAÇO LIVRE do Limite do Humor à Liberdade de Expressão". Lindo espaço, impecável no cuidado e apresentação dos trabalhos. Exposição concisa, finamente disposta por todo o piso térreo. Dá gosto ver a arte tratada de forma profissional. No final, nós da assistência nos sentimos respeitados e valorizados. Bom, trago uma primeira seleção do que vi para vocês. É do genial humorista brasileiro Miguel Paiva. Nos desenhos,  a dificuldade histórica que o humor enfrenta para existir e cumprir o seu quinhão na criação, ao não se curvar aos poderes e poderosos, sejam eles quais foram. São corajosos os que desafiam o status quo. Em mim, despertam profunda admiração. Nos ensinam. FullSizeRender(21) FullSizeRender(22) FullSizeRender(23) FullSizeRender(24) FullSizeRender(25) FullSizeRender(26) FullSizeRender(27)          
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Acolhimento
29/04/2014 | 11h57

No poeta o desalento encontra refúgio.

[caption id="attachment_7969" align="aligncenter" width="400" caption="Fotografia: João Machado"][/caption]
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RECEITA DE TRAGÉDIA
19/10/2013 | 10h53

Receita de Tragédia

LUCIANA PORTINHO [caption id="attachment_7026" align="aligncenter" width="600" caption="Ft.Google"][/caption]

 

No dia do nosso poetinha, amantes que somos da vida, uma história real e crua não me sai da cabeça. Pensei dela construir personagens fictícios, mas, tão dura que é de tosca crônica não passará. Quem me contou o drama foi uma mulher forte que acorda todos os dias em Campo Grande, zona oeste da capital, as três e 45 horas da matina, para chegar às 7 horas em seu posto de trabalho. Janine é manicure em um cabeleireiro do Posto VI, no Rio de Janeiro. Escuto seu relato, primeiro me transportando à dureza de vida dessa senhora que diariamente se desloca do subúrbio e, para ser pontual, prefere se despencar em três conduções na madrugada e “fugir” da maralha que é o tráfego de gente, ao vir e voltar todos os dias da casa para o emprego, do emprego para casa. Não me perguntem como da história da vida de Janine pulamos para, aí sim, a absoluta desgraça em que vive parcela considerável da população deste meu querido país.  Sei que conversávamos sobre as manifestações, os black bocks, sobre o Cabral, de lá fomos para as UPPs, o Amarildo e finalmente sobre o tráfico na Rocinha. Era hora do almoço, mesmo assim, Janine abriu espaço em sua agenda, quis me atender. De marmita em punho, ela baixinho me disse: “Antes deixava minha comida na copa do salão, mas, perdi a confiança nas meninas depois que Maria (ex-colega, moradora da Rocinha) sem mais nem quê confessou ter tentado assassinar seu ex-companheiro”. Tinha levado mais uma coça dele, o ódio a dominou, decidiu mata-lo. Morreria lentamente com doses mínimas de chumbinho misturadas na janta. O homem um dia baixou hospital, uma gastrite horrorosa o corroía. Lá,  os exames desmascararam o envenenamento. Chegando à casa, sem palavra alguma, ele deu surra ainda maior. Maria pediu ajuda ao comando do tráfico. Comeram o homem na porrada; expulso de casa, na favela proibido de pisar. Obrigado está a pagar o aluguel de Maria até o fim dos dias. Maria estava grávida, terceiro filho que deixou com a mãe no Ceará para criar. Nesta mesma noite, eu e minha prima refletimos sobre a ausência do Estado, os Tribunais e as Leis. Ainda assim sei que do nada, do abaixo do nada, é preciso que brote a poesia.  
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Quebra-quebra, Rio, guerrilha
18/07/2013 | 05h13
Como em guerra de guerrilha as manifestações, em suas espinhas dorsais, se movem nas redes sociais de modo a confundir a força repressiva do Estado. Somos de fato diferentes de muitas sociedades. Em algumas, os protestos sociais tomam as ruas e para isso pedem garantia à polícia afim de que percorram o trajeto escolhido sem incidentes maiores. [caption id="attachment_6698" align="aligncenter" width="619" caption="Fts.Daniel Ramalho, Terra"][/caption]

No Rio de Janeiro, evidente que para além da exaltação popular com políticos, política e autoridades públicas em geral, há uma organização articulada e inteligente por dentro dos últimos episódios na Zona Sul. Não me parece mais uma manifestação espontânea. Não nego que existam tantos de boa fé política,  que sobrem  motivos para uma implosão social, mas, lá o eixo se inverteu. Alguns aspectos do que acontece no Rio de Janeiro intrigam. Um deles é o despreparo da inteligência policial.

O secretario de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou que o governo está adotando medidas flexíveis para conter o vandalismo nas manifestações, procurando um caminho intermediário entre a ausência e a austeridade, numa situação caótica. “Estamos aprendendo com o processo”, afirmou Beltrame. Segundo o secretário, a polícia agiu com tolerância e discernimento no policiamento desta madrugada, apesar de ter sido atacada pelos manifestantes radicais. “Não temos um planejamento fixo. Vamos manter a postura flexível e, a cada protesto, fazer avaliações e ajustes necessários”, afirmou Beltrame, acrescentando que não existe um protocolo para situações de turbas ou conflitos. Tá bom, que como disse o Beltrame não exista um manual de procedimentos. Em táticas novas virtuais um manual seria rígido e velozmente fadado ao fracasso. Mas, como não percebem quando esses mascarados chegam, de onde eles vêm e para onde vão ao final do quebra-quebra? Porque não os prendem em flagrante quando as câmeras das TVs os filmam jogando pedras nas fachadas dos estabelecimentos? Porque não baixam, uma determinação que proíba o uso de máscaras, por tempo necessário como fará a segurança do Papa? Bom lembrar que o crime organizado há muito, facilmente, se organiza e se comunica de dentro dos presídios, com total desenvoltura. Não penso em grande conspiração, nem tese de golpe militar. Claro que também podem ter adversários políticos do Cabral, de olho em 2014, tirando casquinha do inferno astral que se abateu sobre o governador desde as primeiras manifestações de junho. Tudo bem estranho, turvo, de difícil compreensão.  
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NENHUM DELES
01/07/2013 | 07h10
A presidente Dilma Rousseff e o governador paulista Geraldo Alckmin, candidatos à reeleição; o governador Cabral, no Rio, e os prefeitos Fernando Haddad, em São Paulo, e o carioca Eduardo Paes, todos despencaram nas pesquisas de avaliação dos governos e/ou intenções de voto do Datafolha para as próximas eleições. Governantes de diferentes níveis ficaram na poeira depois do tsunami das manifestações de protesto em junho contra tudo e contra todos. Todos perderam pontos. O curioso é que quem mais ganhou foi o candidato "nenhum deles", o mais votado pelos eleitores do Rio. Nos dois cenários apresentados, o índice de branco, nulo, nenhum e não sabe oscilou na faixa entre 30% e 39%, bem acima daquele dos principais pré-candidatos apresentados pelos partidos, que variaram entre 17% (Lindbergh Farias) e 20% (Cesar Maia, empatado com Garotinho, quando o candidato do PT não está na lista). A aprovação do governador Sergio Cabral caiu 30 pontos e bateu nos 25%, e seu candidato, o vice Pezão, patina entre 8% e 12% na pesquisa. O prefeito carioca Eduardo Paes, que chegou a 50% de aprovação no ano passado, caiu para 30%. Em São Paulo, a intenção de votos no governador Geraldo Alckmin caiu de 52% para 40%, e o candidato Paulo Skaf, do PMDB, subiu apenas de 16 para 19 pontos. Mas quem mais cresceu também aqui foi o índice de eleitores que declararam votar em branco, nulo, nenhum ou não souberam indicar um nome na lista apresentada pela pesquisa estimulada. Nos quatro cenários apresentados, os votos em "nenhum deles" ficaram entre 31% e 23%, enquanto os que escolheriam um candidato do PT ficaram entre 4% (Alexandre Padilha) e 10%(Aloizio Mercadante). O prefeito Fernando Haddad tem a rejeição de 40% dos eleitores apenas seis meses após a posse. O mesmo se observa na pesquisa de intenções de votos para as eleições presidenciais de 2014. Dilma Rousseff despencou de 51% para 30% (índice igual ao da avaliação do seu governo), mas nenhum candidato da oposição subiu a ponto de ameaçar a ainda liderança da presidente. Marina foi a que mais ganhou, passando de 16 para 23 pontos; Aécio subiu de 14 para 17, Joaquim Barbosa apareceu com 15 e Eduardo Campos cresceu apenas um ponto, de 6 para 7%. O maior crescimento porém, mais uma vez, foi dos que declararam não votar em "nenhum deles": passou 12 para 24%, ou seja, dobrou em apenas três semanas, entre uma pesquisa e outra, mostrando a crescente descrença generalizada nos partidos e nos políticos. O que isso quer dizer? A meu ver, as últimas pesquisas zeraram o jogo, não há mais favoritos absolutos e as eleições do ano que vem estão absolutamente em aberto. Claro que os atuais governantes candidatos à reeleição têm ainda 15 meses pela frente para recuperar seus índices anteriores, o que não vai ser fácil, mas não acredito no surgimento de alguma "zebra" capaz de alterar a atual lista de postulantes com chances de vitória, como aconteceu com o outsider Fernando Collor, em 1989, e deu no que deu. Para aumentar as incertezas do cenário de 2014, há que se acrescentar que o ministro Joaquim Barbosa, do STF, que não tem partido, já garantiu várias vezes que não quer ser candidato, uma posição que, evidentemente, pode mudar, a depender dos apoios que receberá, especialmente na grande mídia. De outro lado, Marina Silva, que já está em campanha, ainda não conseguiu criar o seu próprio partido. Pelo que vi no noticiário desta segunda-feira chuvosa em São Paulo, não há grandes manifestações previstas para os próximos dias, enquanto se multiplicam os pequenos atos por toda parte, com meia dúzia de protestantes fechando ruas e rodovias, o que só torna mais  infernal a chamada mobilidade urbana nas grandes cidades. Promete ser longo e difícil este inverno de 2013. * do Blog Balaio do Kotscho, ver aqui    
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Indios saem. Prédio fica.
28/01/2013 | 07h55
Uma história de final feliz quanto ao respeito do patrimônio cultural e histórico. Falo do prédio construído em 1862, que abrigou o Museu do Índio, na capital do estado. Notem que o imóvel, ainda não estava tombado, sim listado pelo Conselho de Proteção do Patrimônio Cultural do município do Rio de Janeiro que desde o início se manifestou contrário à demolição. Depois de posicionamentos difusos e controvertidos das autoridades (municipal, estadual e federal), enquanto a sociedade civil enfáticamente defendeu a preservação da memória, venceu o bom senso. [caption id="attachment_5704" align="aligncenter" width="550" caption="Agência Brasil"][/caption] Nota do governo do estado (divulgada na imprensa hoje, 28/01) "O Governo do Rio de Janeiro decidiu preservar o prédio do antigo Museu do Índio, no Maracanã. O Estado ouviu as considerações da sociedade a respeito do prédio histórico, datado de 1862, analisou estudos de dispersão do estádio e concluiu que é possível manter o prédio no local. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes vão agora tomar a iniciativa de fazer o tombamento do imóvel. O Governo está tomando as devidas providências para que o local seja desocupado dos seus invasores. O Governo do Estado comprou em 2012 da Conab o imóvel, composto por esse e outros prédios, pelo preço de RS 60 milhões. O Ministério da Agricultura já está desocupando os demais prédios existentes no local, que serão demolidos para garantir o fluxo de pessoas no entorno do estádio. O restauro do prédio do antigo Museu do Índio ficará a cargo do concessionário vencedor da licitação do Complexo do Maracanã, cujo edital sairá em fevereiro. O destino do prédio, após o tombamento, será discutido conjuntamente entre o Governo do Estado e a Prefeitura do Rio de Janeiro". Breve histórico A área disputada entre o governo e os índios pertenceu ao Duque Luís Augusto de Saxe, marido da princesa Leopoldina, filha mais nova de D. Pedro II.  Ali, entre 1850 e 1890, ficava o Palácio Leopoldina. Em 1915, o marechal Rondon criou, no prédio, o Serviço de Proteção ao Índio, atual Funai. Em abril de 1953 foi criado o Museu do Índio. Em 1977, sob direção de Darcy Ribeiro, o museu foi transferido para Botafogo, zona sul. Os índios ocuparam o espaço, que estava abandonado, em 2006.
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PAPITO
25/01/2013 | 08h18
PAPITO Luciana Portinho Meu pai quando sentia necessidade de sua intervenção, o fazia sem sofreguidão. Esperava o momento e local adequados. Passavamos, naquela época, muitos fins de semana no sítio. Naquele ambiente idílico do Cuiabá, eu o ouviria com atenção redobrada, ele sabia. A família instalada, cada um envolvido em particular distração. Sem mais nem menos, me convidava. "Luciana, vamos dar uma andada"? Nunca disse não ao convite. Ele, então, passava a mão em uma das bengalas e lá iamos os dois para a estrada, a cachorrada atrás. Propositalmente (creio, hoje) a passada era lenta; no ritmo de um passeio. Entre comentários sobre o clima, ou uma página do jornal, ele estancava, eu também. Aí, ele se virava para mim, pousava a sua mão direita no meu ombro direito e gravemente soltava..."Antes ser cabeça de formiga a rabo de elefante". Aos ouvidos de outros, poderia parecer sem nexo. Aos meus cravava certeiro.Quase sempre repetia, já de lado, após me oferecer seu braço de apoio. Andando de braços enlaçados, faziamos meia volta. Concordasse, ou não, com ele, no momento, era o de menos. Me recordaria por toda uma vida. [caption id="attachment_5679" align="aligncenter" width="600" caption="Fotografia de Antonio Cruz"][/caption]

 

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Papais Noéis sem teto
19/10/2012 | 03h04
Parece piada, não é. É só Brasil mesmo e já está de bom tamanho. [caption id="attachment_5041" align="aligncenter" width="500" caption="Ft. Tutura Press"][/caption]

Vamos lá, os pretensos Papais Noéis do Rio de Janeiro estão sem local apropriado para estudar, é que o incêndio de 2011 que atingiu o Edifício Riqueza, no sábado passado (13\10), completou um ano. No edifício, na Praça Tiradentes, Centro, ficava a Escola de Papais Noéis do Brasil, desde quando foi fundada em 1993.

Para chamar a atenção das autoridades e clamar por providências “Papais Noéis” resolveram protestar na rua, em frente ao local e não sem razão. Desde a interdição\explosão do prédio a direção da escola tem sido forçada a formar os interessados nos cursos de ‘Papais Noéis’ e ‘Noeletes’ em bancos da Praça Tiradentes. Situação que se repete, desde terça-feira (16\10) quando nova turma se inicia. [caption id="attachment_5042" align="aligncenter" width="500" caption="Ft. Jornal do Brasil"][/caption]

 

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Eita ponte bonita
18/10/2012 | 02h24
Assim o nome da mais nova ponte, a Ponte do Saber, primeira ponte estaiada da cidade do Rio de Janeiro, no Fundão. Mais um Cartão-postal do Rio de Janeiro. Cidades que se amam manifestam seu amor próprio criando um sem fim de paisagens feitas exclusivamente para o deleite do morador que passa apressado. Inevitável a parada, ainda que interna, para se deslumbrar com a dimensão da boniteza da imagem. [caption id="attachment_5037" align="aligncenter" width="420" caption="Ft. Google"][/caption]

Projeto do maior especialista em luminotécnica do Brasil, Peter Gasper, a iluminação irá ressaltar a obra e o desenho do pilar, inspirado no biguá, um pássaro frequente na região. A ponte – que faz parte do caderno de encargos do Governo do Estado para os Jogos Olímpicos de 2016 – receberá as mesmas cores de outro ponto turístico do Rio, o Cristo Redentor. Eu, olhando para imagem, enxergo nela uma graciosa perna de bailarina, ou então,  daquelas nossas meninas do nado sincronizado

Além de cumprir a função social de embelezar a paisagem carioca, a ponte construída sobre o Canal do Fundão tem 780 metros de extensão e ajuda a desafogar a saída da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, para a Linha Vermelha. Construída em concreto branco, a obra faz parte do plano diretor da UFRJ e do Programa de Revitalização do Canal do Fundão, financiado pela Petrobras, e realizado em parceria com a Secretaria Municipal do Ambiente. Nós aqui em Campos que temos um rio tão especial como o Rio Paraíba do Sul a cortar a cidade em duas bandas,  permanecemos chupando os dedos e na torcida  para que intervenções duradouras e belas também sejam feitas em nosso espaço urbano.
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Homenagem a Luiz Poeta, CREA-RJ
19/09/2012 | 09h10

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=7NW10Swe5fQ[/youtube]
Luiz Carlos Matos Marins
Fundador da ong Verdejar em 1997, quando tomou a iniciativa de plantar árvores numa área verde onde praticava esportes, Luiz Carlos Matos Marins, conhecido como Luiz Poeta, atuou no bairro do Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Teve um histórico de lutas, parcerias, eventos e trabalhos em prol da recuperação socioambiental da Serra da Misericórdia (última área de Mata Atlântica do subúrbio do Rio).
Sempre norteado por princípios agroecológicos, obteve, entre outras conquistas, a decretação da  APARU (Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana) e do parque Municipal da Serra da Misericórdia pela Prefeitura (em 2000 e 2006 respectivamente). Hoje em dia suas ideias estão sendo debatidas pela verdejar com o poder público, para a implementação do parque da serra da misericórdia.
Pessoa super humilde, cedia sua casa na favela da fazendinha, onde se criou, para abrigar as reuniões do grupo, e recebia todos os visitantes com grande amor, inclusive permitindo que os participantes dos mutirões dormissem nela.
Homem de grande coragem, não temia conflitos armados no território, e apesar deles não ficava um dia sem cuidar de sua horta, independente do que estivesse ocorrendo, chegando a ficar sem água para si próprio para manter as plantas vivas. Também liderou o grupo nos fins dos anos 90 contra investidas de grileiros que tentaram lotear a área verde e vender terrenos, acessando autoridades competentes e enfrentando através da ação direta.
Nos anos 2000 abandonou sua profissão de marceneiro para morar na comunidade Sérgio Silva, adjacente a área verde onde o grupo trabalha, inicialmente numa trailler, depois numa barraca de camping, até conseguir comprar uma casa na comunidade, na qual se tornou um líder comunitário respeitado por todos os moradores.
Era um profundo conhecedor da geografia carioca, sabendo e ensinando sobre plantas, animais, nascentes, rios e bacias hidrográficas, sendo um de seus principais trabalhos uma expedição pelos rios da região hidrográfica da serra da misericórdia.
Além de ecologista, agricultor e poeta, era também um atleta vigoroso, praticava corrida, ciclismo e, mesmo enfermo costumava fazer longos trajetos pela cidade de bicicleta, chegando até a pedalar por dias seguidos pelos Andes, numa viagem de intercâmbio.
O grupo que fundou é responsável pela preservação das áreas verdes da Serra da Misericórdia, principalmente entre os Complexos do Alemão e do Juramento, que integram a Serra da Misericórdia. A região da serra possui mais de 2 milhões e 300 mil habitantes, mais de 1/3 da população do município, com a menor quantidade per capita de área verde da cidade do Rio e se encontra bastante devastada pela mineração de granito e ocupações sem planejamento.
Luiz Poeta conseguiu manter de pé áreas verdes da Serra, sensibilizando e mobilizando moradores, ecologistas e estudantes que, voluntariamente, se uniram aos mutirões agroecológicos organizados pelo Verdejar. Dentre os objetivos dos mutirões estão o de manter as matas a salvo de incêndios, reflorestar e produzir alimentos livres de agrotóxicos.
Luiz Poeta foi um militante incansável dos movimentos de agroecologia, participando ativamente das redes de agricultura urbana, economia solidária e articulação de agroecologia do Rio de Janeiro. Propunha um modelo no qual a preservação do meio ambiente fosse articulada com a produção de alimentos saudáveis e a inclusão social, gerando trabalho e renda para as comunidades locais. Segundo ele o primeiro meio ambiente que deveríamos cuidar é o nosso corpo, por isso se dedicava com muito amor aos trabalhos de alimentação alternativa, divulgando/ensinando com muito orgulho a importância de uma alimentação equilibrada, inclusive a alimentação viva e o uso de ervas espontâneas nativas na alimentação, o que se podia ver e degustar nos mutirões e eventos da verdejar.
O Programa de Educação Ambiental e Alimentar realizado por Luiz Poeta na Serra da Misericórdia constitui o que ele denominava de Ecologia Profunda, que alinha a preservação do meio ambiente com a alimentação e as relações interpessoais baseadas na solidariedade e consciência do bem coletivo e o corpo físico, mental e espiritual.
Luiz Carlos Matos Marins faleceu em 26 de novembro de 2011.
Adaptado de: http://www.crea-rj.org.br/blog/premio-crea-rj-de-meio-ambiente-2012/ - divulgação oficial do evento.
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Sobre o autor

Luciana Portinho

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