Pra pensar 3
19/01/2015 | 08h14
É tentador ceder a pressões ainda mais quando feitas pelo senso comum (maioria). Pode ser cômodo ao profissional que não deseja se expor, mas, é um desserviço ao exercício da profissão. Dito isto, trazemos outra análise sobre as repercussões dos atos terroristas de extremistas islâmicos  (fanáticos) que levaram a República Francesa ao dilema do momento: lutar pela defesa intransigente dos valores universais do livre pensar e da livre expressão - dois direitos fundamentais da laicidade, um não existe sem o outro,  esboçados na quebrada do século 18, confirmados pela lei de imprensa francesa, em 29 de julho de 1881. Para simples esclarecimento, na França, diferentemente que em outros países europeus, como na Alemanha e Grécia, não existe o delito (crime) de blasfêmia. Lá, pode-se criticar tudo, inclusive religiões, resguardado ofender pessoas que professam suas religiões. Paradoxalmente, o que garante o direito à livre associação religiosa e a todas as convicções é justamente a laicidade. [caption id="attachment_8667" align="aligncenter" width="400"] Paris, Praça da República, 11 janeiro 2015. Ft. Joel Saget AFP[/caption]  

Charlie Hebdo: Ironia e tragédia

Aqueles que promovem a guerra contra o terror e os que semearam o terrorismo por todos os cantos do mundo estão tentando se apropriar dos ataques.


Alejandro Nadal (La Jornada)
A luta para se apropriar de um duelo político tem longa trajetória, sobretudo quando o luto tem origem em um crime. Plutarco narra, em Vidas paralelas, como, depois do assassinato de César, no Senado romano, as distintas facções batalharam para ocupar o vazio que engendra o desolamento público para se consolidar no poder. Cássio e Brutus disputam a aflição popular com Antônio, mas este conseguiu com sua elegia fúnebre colocar o povo de Roma contra os assassinos de César e desencadear uma guerra civil.

Um paralelismo pode ser traçado com os esforços para recuperar espaços públicos após o ataque contra a Charlie Hebdo. Esta sempre foi uma revista irreverente com o poder, militar ou econômico, iconoclasta com todos os símbolos de hierarquias, laicas ou religiosas. É e foi inimiga do racismo e da discriminação em todas suas manifestações. Sempre lutou contra as ditaduras e a arbitrariedade, o poderio militar e o intervencionismo neocolonial. Mas agora, em pleno duelo social, buscam de todas as formas se apropriar dos símbolos e bandeiras que acompanharam a Charlie em sua luta. Estão buscando instrumentalizar a tragédia para promover o terrorismo de Estado. Hoje, corre-se o risco de transformar tudo isto em um episódio mais da luta contra o terror e do suposto choque entre civilizações.

A concentração em Paris, no domingo passado, teve dois públicos. No primeiro, o povo e suas organizações, sindicatos, associações civis, manifestando repúdio ao covarde assassinato dos redatores da Charlie Hebdo e dos reféns do metrô de Paris. Muitos deles seguiram de perto a épica luta do semanário e de seu predecessor, Hebdo HaraKiri, desde 1969. Luta a partir da esquerda contra o despotismo, exploração, engano e intimidação. Mas, naquele dia, marcharam em Paris também chefes de Estado e líderes políticos de partidos e organizações que sempre abriram as portas para a guerra, para o comércio de armas e para o capital financeiro. Marcharam lado a lado Merkel, Rajoy e Renzi, chefes da austeridade neoliberal que atualmente destrói a Europa. Não faltaram Netanyahu e outros amigos do militarismo. Também se somaram a eles alguns notáveis como guardiões da ordem moral burguesa e da obesa hipocrisia dos bons costumes, amigos do racismo e da descriminação. Faltaram somente Marine Le Pen e os neonazistas para completar o quadro. Outros, nem sequer tiveram que viajar a Paris para explorar o momento. Em Atenas, o primeiro-ministro aproveitou a oportunidade para fazer investidas contra o Syriza por sua postura sobre a imigração. Do México, o governo manifestou seu pesar: deve saber que isso não anula sua grave responsabilidade nos assassinatos (Tlatlaya) e desaparecimentos (Ayotzinapa). A ironia é brutal: os inimigos da Charlie Hebdo estão lutando para disputar o duelo, os que promovem a guerra contra o terror e os que semearam esta praga por todos os cantos do mundo. Criticou-se a imprudência dos caricaturistas da Charlie Hebdo. Mas é preciso responder com uma reflexão política, porque é disso que estamos falando, de política, não de bons costumes ou de etiqueta. Por que é tão importante a liberdade de expressão? A resposta é clara: a liberdade de expressão é irmã gêmea da liberdade de consciência, e as demais liberdades carecem de sentido sem elas. Em particular, sem liberdade de expressão, a liberdade de associação política fica sem sentido. Não é exagero afirmar que a liberdade de consciência e a liberdade de expressão são as mais importantes do catálogo de liberdades republicanas. Por isso, os limites da liberdade de expressão são apenas três: a não incitação à violência ou um crime e a difamação. A blasfêmia não é uma das restrições, como deixa claro a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Na imprensa internacional, sobretudo no mundo anglo-saxão, a Charlie Hebdo tem sido apresentada como um veículo obstinado em ridicularizar o fundamentalismo islâmico, como se este tivesse sido seu único trabalho. Nada mais afastado da verdade. Os primeiros inimigos da Charlie foram o fascismo, o racismo, o neocolonialismo, o militarismo e a pena de morte. O fanatismo religioso e seu apoio hipócrita a estruturas de exploração esteve sempre em seu catálogo de inimigos a vencer, mas não é o único nesta lista. O luto público é a parteira de uma análise política fraca porque a dor e a sede de vingança escurecem o raciocínio e tornam a racionalização difícil. Por isso, o oportunismo encontra nas lamentações um terreno fértil para suas estratagemas. Hoje, mais do que nunca, é necessária uma análise política cuidadosa. A tragédia em Charlie Hebdo não é parte dessa farsa chamada guerra contra o terror, nem de um suposto choque de civilizações. Fonte: Carta Maior Tradução de Daniella Cambauva
       
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Pra pensar
10/01/2015 | 07h55
Os últimos acontecimentos na França, colocam sérias questões para os futuros possíveis que estão por vir (já se anunciaram) e que, de algum modo, repercutirão em todo o mundo. Amanhã, domingo (11/01), assistiremos a uma mega manifestação na capital francesa (Paris), cidade oprimida pelos atos terroristas recentes. Dela participarão, primeiro a população indignada, fiel às liberdades democráticas, aos ideais que fizeram daquela república um baluarte da convivência entre os diferentes, do estado laico, da garantia aos direitos civis. Em segundo, líderes e representantes governamentais de meio planeta, muito deles - por ação ou omissão - corresponsáveis pela radicalização crescente entre Oriente e Ocidente.
As redes sociais foram tomadas por dois virais: "Eu sou Charlie" e "Eu não sou Charlie". Não há como ignorar os acontecimentos. Declararei-me, desde o início da carnificina: Eu sou Charlie, porque no momento trata-se de defender o direito à livre expressão do pensar. O momento é de unidade na defesa da democracia que a duríssimas penas foi conquistada, aqui como lá. Trago o artigo abaixo como uma contribuição, sugiro que leiam.

O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo é apenas a ponta do iceberg. A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio.

 

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior, é apenas a ponta de um iceberg.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antanho. De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa. Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas. Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem “à la cria”, como se dizia, em ações que parecem “espontâneas” e até “amalucadas”, mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaïda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo. Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira do anti-islamismo também fanático como meio de arregimentar “as massas” em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas. No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudamente universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes. Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos). Na Itália este fascismo latente se organiza com o nome de “Liga Norte”, mobilizando o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações. Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida. O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido. Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos. Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da exprema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”. Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a “defesa da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os assassinos do Charlie Hebdo gritavam – segundo testemunhas – estarem “vingando o profeta”, referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale, também no ano passado,  recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em “seus territórios”, não na Europa agora dita “judaico-cristã”, puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio. Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin. Durante mais de uma década as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães. No momento o “grande terror” que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade. Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica. Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será, nem para a Europa, nem para o mundo. (*) Originalmente publicado no Blogue do Velho Mundo, na Rede Brasil Atual. Fonte: aqui
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Cidadania tomou conta de Itaperuna
14/04/2014 | 03h57
Na sexta passada (11/04), a “Caravana da Cidadania” ocupou o noticiário do noroeste fluminense com a presença do senador Lindbergh Farias (PT). Com o plenário da Câmara Municipal lotado de populares e representantes de organizações sociais da região que compareceram para postular suas reivindicações setoriais, a caravana que tem como método “ver, ouvir, falar e fazer” e como propósito “assumir compromissos com os municípios” abriu espaço político para a insatisfação popular se fazer ouvir e de comum acordo modelar um programa de governo democrático e popular para o estado do Rio de Janeiro. Na plenária-seminário o destaque ficou por conta da manifestação de Olliver Barros, Márcio Yvis e Ellias Leão, três combativas lideranças jovens, suas falas levantaram o plenário de forma uníssona. Deram um banho de determinação e convicção em suas bandeiras políticas de oposição ao modo coronelista como são conduzidos os governos municipais da região noroeste. De Campos, compareceram o presidente do diretório municipal do PT Makhoul Moussallem (pré-candidato a deputado federal) e o vereador Marcão. Na presença nada ocasional de Lurian da Silva, filha do ex-presidente Lula, Lindbergh - sem não antes agradecer a Lula o irrestrito apoio e confiança em sua decisão de concorrer ao Palácio Guanabara  - afirmou que passada a fase de indecisões, fofocas e intrigas contra a sua pré-candidatura ao governo do estado do Rio de Janeiro, é mais do que hora de “ouvir e assumir compromissos” e avisa, “faremos uma campanha de pé no chão e de mutirão”. Mais detalhes ver também aqui no blog Opiniões, do jornalista Aluysio Abreu Barbosa. [caption id="attachment_7849" align="aligncenter" width="600" caption="Makhoul e Lindbergh"][/caption]

 

[caption id="attachment_7853" align="aligncenter" width="600" caption="Olliver Barros discursando, à direita o vereador Marcão"][/caption] [caption id="attachment_7861" align="aligncenter" width="600" caption="Márcio Yvis na tribuna"][/caption] [caption id="attachment_7862" align="aligncenter" width="600" caption="Ellias Leão representante do movimento estudantil"][/caption]

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"O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM"
20/02/2014 | 06h35
Aqui para o blog, trago um artigo do Fabrício Maciel, Doutor em ciências sociais pela UFJF. Foi feito em cima da reportagem (aqui) sobre o programa De Braços Abertos, realizado pela prefeitura de São Paulo  que obteve nível satisfatório de redução em 70% no consumo de crack, na capital paulista. Todos vocês já leram sobre a tenebrosa "Cracolândia". É mesmo chocante vê-la em contraste com o vizinho edifício da Estrada de Ferro Sorocabana - hoje, abriga a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e uma das mais importantes casas de concertos e eventos do País. É leitura mais longa do que a habitual, no entanto, nos revela possíveis políticas públicas - sérias - na área da saúde pública. Observem os cuidados no planejamento do programa. Depois, abaixo, leiam a análise do Fabrício. Uma luz! O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM Estou extremamente contente com o post que acabo de compartilhar, sobre o combate ao crack. Diferente da política e do senso comum conservadores de nosso tempo, que exatamente agora assumem face explícita no Brasil, assistimos a recuperação gradual de usuários de crack. Pouca gente deve imaginar o sofrimento de um usuário de crack. Na verdade, a sociedade brasileira só lembra de suas questões sociais quando estas incomodam a classe média e a ordem do espaço público. Contrário ao descrédito da maioria e ao preconceito aberto de uma minoria em ascensão, que sustenta a hipótese de se tratar de vagabundos qualquer tipo de gente que vague pelas ruas sem emprego, a lição que tomamos agora é só o contrário. O trabalho dignifica o ser humano, atribui a sua vida sentido, valor pessoal de estar fazendo algo útil por sua sociedade. Para estes nossos "sobrantes", cuja maioria nunca teve chance de exercer alguma atividade reconhecida como digna em sua sociedade, ter a oportunidade de trabalhar está sendo o passo decisivo. Para os que desacreditam da política e para os que a descreditam de propósito o fato manda dois recados: para os primeiros, que acordem e acreditem na mudança social. Para os segundos, que se olhem no espelho e se perguntem até onde são capazes de manter seu conservadorismo. Toda vez que classificamos alguém como vagabundo estamos tentando expurgar de nós mesmos o nosso outro, produzido pela mesma sociedade que atribui méritos diferenciais às suas ocupações, algumas dignas, outras não. Existe saída para o crack, sim. No plano mais abstrato, a prova de que o trabalho atribui sentido combate a construção do estigma do vagabundo, lançado contra aqueles que perderam em nossa mesquinha competição social. No plano mais concreto, imediato, a política que neste caso está acertando em cheio é um tapa com mãos de pelica na cara daqueles que acham que fazer política é só fazer acordos, pensar em dinheiro e defender a bandeira do desenvolvimento, e que no fim cada um tome para si, de acordo com suas capacidades, o seu quinhão. Não. Política é outra coisa. É usar os recursos do Estado em favor da sociedade. Ou melhor, em favor de sua parte mais carente. É o que vemos agora. Viva o trabalho, viva a verdadeira política, e que os conservadores da política e da sociedade acordem enquanto é tempo! [caption id="attachment_7609" align="aligncenter" width="600" caption="Ideia é afastar usuário da área (foto: João Luiz/SECOM.SP)"][/caption]

 

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No horizonte, uma nova classe média
09/01/2014 | 10h31
Reproduzo do sítio jornalggn.com.br, entrevista com o sociólogo Jessé de Souza, ver aqui. sab, 04/01/2014 - 09:42 Enviado por Gunter Zibell - SP do Estadão Direto da Fonte / Sonia Racy

‘A classe trabalhadora precarizada e super explorada vai decidir a eleição’

Jessé de Souza (Foto: Marcelo Carnaval/Agência O Globo)
Após revelar a ‘ralé e os batalhadores’ brasileiros, o sociólogo Jessé de Souza prepara imersão nos ‘endinheirados’. “A busca é a interpretação crítica da sociedade contemporânea.” Ele estuda as classes sociais há vinte anos. Mas foi em meados de 2009, já no final do governo Lula, que mergulhou em uma pesquisa sociológica – empírica e teórica, por todo o Brasil – para confrontar a tese de que havia surgido uma “nova classe média” no País. O resultado? O livro Os Batalhadores Brasileiros. Nele, Jessé de Souza, doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, defende que a tão reverenciada nova classe média é, na verdade, uma “classe trabalhadora precarizada, super explorada e, em grande parte, informal. É aquela que trabalha muito e ganha pouco”. Em conversa com a coluna, por e-mail, diz que tal classe – “que chamo de batalhadores” – “funcionará como o fiel da balança” na disputa eleitoral de 2014. “Ela oscila entre apoiar a classe abaixo dela e assumir um discurso atrelado aos interesses dos privilegiados. Quem conseguir conquistá-la, provavelmente ganha a eleição.” A seguir, os melhores momentos. Como a questão de classes estará nas eleições de 2014? A eleição será, sem dúvida, dominada pela luta e pela aliança entre as classes. O Brasil, como outras sociedades modernas desiguais, é dividido entre classes sociais que reproduzem privilégios injustos. De um lado, os endinheirados e a classe média, que ocupam todos os empregos de prestígio. De outro, as classes condenadas a reproduzir sua exclusão e humilhação cotidianas, como a classe trabalhadora precária, chamada erroneamente de nova classe média; e os excluídos, que chamo provocativamente de ralé. O problema é que as relações entre as classes nunca são percebidas. Como assim? Se as relações fossem notadas, estariam arruinadas as chances de os privilégios se reproduzirem. Para parecer legítimo, o privilégio tem de ser mascarado como de interesse geral. E é justamente por isso que a ideologia de grande parte da classe média brasileira mais conservadora é o combate à corrupção no Estado – como se não houvesse corrupção no mercado – onde, cotidianamente, a classe média explora o trabalho barato da ralé e a condena à humilhação eterna. Eduardo Campos tem falado de sua preocupação em conquistar a classe média de Lula e Dilma. É o caminho? Do ponto de vista do pragmatismo político, ele está mais do que certo. O Brasil é hoje dividido entre uma classe de excluídos – que chega a 30% da população e foi alvo dos programas assistenciais do lulismo (que reduzem o sofrimento, mas que não resgatam essa classe da exclusão) – e uma classe média verdadeira, que é cativa da mensagem moralista dos partidos mais conservadores. A recente classe trabalhadora precária – super explorada, que trabalha muito e ganha pouco, mas que ascendeu socialmente comparativamente com o padrão de vida anterior – funcionará como fiel da balança. Para qual lado? Essa classe – que chamo de batalhadores – oscila entre apoiar e se solidarizar com a classe abaixo dela, os excluídos da ralé, e assumir um discurso mais mercantil e atrelado aos interesses das classes privilegiadas. Quem conseguir conquistar essa classe provavelmente ganha a eleição. E qual é o olhar para compreender as diferentes realidades? Somos formados por estímulos afetivos, emocionais, morais e cognitivos. Cada classe forma pessoas com disposições e capacidades distintas para a competição social – e não só na busca pelos bens materiais, mas também pelos simbólicos, como prestígio e reconhecimento. De que maneira? São as capacidades emocional e cognitiva de autocontrole e concentração que fazem com que, por exemplo, os filhos da classe média cheguem à escola como vencedores aos cinco anos de idade. E com que os filhos dos excluídos, pela carência dos mesmos estímulos, chegam à escola e depois no mercado de trabalho como perdedores. Acabam em trabalhos domésticos, pesados e mal pagos. Quais são as classes no Brasil? Vislumbramos quatro classes sociais, com suas subdivisões internas. No topo da hierarquia, temos as pessoas com muito dinheiro e um estilo de vida e compreensão de mundo marcado pelo consumo material. São aqueles que chamamos de endinheirados. Eles somam menos de 1% da população, mas controlam mais de 50% do PIB nacional, sob a forma de juros, lucros e renda de terras. Logo em seguida, vem outra classe privilegiada: a média. Caracterizada por se apropriar de outro capital decisivo na competição social: o cultural. E do outro lado da balança? Na parte de baixo da hierarquia social – onde está a maioria da população brasileira – temos uma grande classe trabalhadora. Hoje, em sua maioria, precária, super explorada e, em grande parte, informal. Sem a segurança e estabilidade da antiga classe trabalhadora tradicional. Ainda mais embaixo, estão os excluídos. Como elas se relacionam? Os endinheirados dominam a economia, a mídia, o poder judiciário, financiam a política e controlam os recursos naturais. É um capitalismo selvagem, desumano e altamente concentrador em proveito de meia dúzia de pessoas. Quase 70% do PIB brasileiro está com os poucos privilegiados. Ou seja, o que sobra é distribuído entre os outros milhões de brasileiros. Este é o retrato da nossa verdadeira miséria e iniquidade. É por isso que a existência da corrupção estatal é tão boa para os interesses dessa minoria privilegiada. Em qual sentido? É uma maneira de desviar a atenção da tão absurda concentração de riquezas e enfraquecer o Estado. Demonizá-lo como ineficiente e corrupto faz com que apenas o mercado – e quem o domina – apareça como materialização de todas as virtudes. Enquanto a ralé está condenada à humilhação eterna, a classe média poupa seu tempo e consegue se dedicar ao estudo e à qualificação. É um privilégio social poder estudar sem ter de trabalhar ao mesmo tempo. Já que o tempo é um recurso valioso, é possível afirmar que as manifestações foram protagonizadas pela classe média? Sem dúvida. As manifestações começaram com reivindicações tipicamente populares por melhores serviços públicos. Lá estavam os filhos da classe trabalhadora, que passaram a estudar em universidades e a acreditar que são mesmo de classe média. Exigiam, portanto, serviços de classe média. Mas, pouco tempo depois, o movimento foi apropriado pela fração da classe média mais conservadora e tradicional, com suas bandeiras típicas do moralismo – que reduz a política ao nível das telenovelas, entre o bem e o mal. Como cada classe se relaciona com a religião? Como existe grande quantidade de excluídos, abre-se espaço para a mensagem religiosa. É ela que tenta transformar a humilhação cotidiana em autoconfiança. Pela promessa de que ninguém menos do que Jesus está do seu lado. Mas o lado sombrio deste fenômeno é o conservadorismo cultural e a homofobia absurda. Os batalhadores estarão nos jogos da Copa? Certamente não. O futebol está produzindo um fenômeno estranho e o povo está sendo obrigado a ver de fora sua maior paixão. A Copa é um retrato do Brasil: quem ganha são os endinheirados. Quem paga a festa é a classe média explorada por serviços de preço exorbitante. E o povo apenas assiste de fora a festa alheia. /THAIS ARBEX
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Da história oculta
12/12/2013 | 08h54
Compartilho um artigo publicado no extinto jornal campista A Cidade. Escrito pelo advogado e também articulista da Folha da Manhã, Geraldo Machado. Outros tempos, vencidos nas lutas populares das ruas, pressionando os aparatos do poder federal, buscando apoio internacional... Sempre interessante, nesse deserto campista de registros históricos. Eu mesma desconhecia que Geraldo Machado tivesse sido procurador da prefeitura, antes do Golpe de 64. Vale a leitura. lp O QUIXOTE SANJOANENSE A gente se conheceu em 1961. Tempos difíceis. Posse de Jango ameaçada, tropas em movimento, o Sul em postura de luta... Estávamos, em campos opostos: eu, como Procurador da Prefeitura, ele liderando greve de servidores municipais por aumento salarial. Contrariando as ponderações dos que estavam (aspones, chefetes de todos os tipos, capangada, etc.) no gabinete do Prefeito, desci à rua, fui lá – encontrar com o grupo de grevistas. E dialogamos - conversa franca, direta, respeitosa, em que mais procurei ouvir. Dele ouvi, em nome dos grevistas, o agradecimento, de pronto reconhecido como sincero, tanto quanto reiterava o caráter da parede, que era – e foi – mesmo pra valer. Tempos depois, voltamos a nos encontrar. Era agosto de 64. Fui à casa de minha mãe, certa manhã, e dela ouvi um apelo para ir à Cadeia Pública, daqui de Campos, pois estavam precisando de mim. Um certo senhor Jorge, a mãe não guardou o sobrenome. Ainda tentei não ir, sob o argumento de que não era dado à advocacia criminal, ao que d. Ilde opôs o fato de que empenhara, na conversa ao telefone, sua palavra no sentido de que eu ir, sim. Afinal, o moço estava em aflição - e dizia só confiar no filho dela... Chegado ao presídio, lá estava ele, da mesma forma - inquieto. Só que com algumas marcas de porrada... Melhor definindo – cara inchada, olho quase fechado, marca da dor mais que física. Informado de que a prisão se dera, sem mandado, da parte de policiais de Niterói, redigi, ali mesmo, um pedido de habeas corpus, de logo levado a conhecimento do dr. Juiz Criminal, que, após as informações que requisitou no prazo de meia hora, concedeu a ordem e determinou a expedição de alvará de soltura. Levei o Alvará, entreguei a cópia própria ao carcereiro, recebi o preso e saímos pela porta da frente. Fui com ele, no meu carro, até as proximidades da casa de umas primas campistas dele. Ali o deixei, com recomendação expressa de sumir por algum tempo, deixar que os motivos da prisão fossem aclarados, enfim – dar tempo ao tempo ... Ao que soube, depois, os esbirros voltaram de uma farra num dos prostíbulos locais, deram pela falta do preso e, ao saberem do sucedido, comunicaram aos superiores. O Secretário de Segurança do antigo Estado do Rio, notório major do Exército, ao ser cientificado, deu um murro na mesa e mandou : “prendam todo mundo – o juiz, o carcereiro, o advogado, o escrevente – essa gentalha toda.....porra !” O juiz não foi preso (o pai, Desembargador...), o carcereiro tinha padrinho forte num dos líderes locais da “redentora”, e, finalmente, restou um mandado de busca e prisão do advogado ... Meireles morreu, não fiquei sabendo. Não pude render as homenagens a que fazia jus. Meu primeiro cliente por prática de “crime político”, no período que teve início numa manhã cinzenta de 1° abril de 1964. O que me leva a lhe render o tributo simples, mas de significado de quem conheceu o lado sonhador de um homem modesto. Só queria fazer História... [caption id="attachment_7315" align="alignright" width="200" caption="Ft. Facebook"][/caption] Advogado
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Consciência em debate
26/11/2013 | 02h38
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Mais lenha para pensar
25/11/2013 | 08h34
O blog traz outra linha de pensamento, sobre a Ação Penal 470, custo político para a manutenção do governo no poder, reforma política sempre adiada, avanços e recuos da democracia brasileira. lp

Entrevista: Luiz Werneck Vianna - O poder, esse sedutor

Para cientista político, a volúpia pela eternização no governo desarma a sociedade, impede mudanças e imobiliza o País
Juliana Sayuri
Após oito anos, revelados mais de R$ 100 milhões movimentados fora das regras do jogo, foram compiladas 50 mil páginas nos autos, 600 testemunhas on the record, 38 réus julgados, 25 condenados e muitas, muitas páginas impressas sobre a Ação Penal 470, o mensalão. No simbólico 15 de novembro, dia da proclamação de nossa República, José Dirceu, José Genoino e outros oito condenados se entregaram à polícia federal. "Viva o PT", bradou, de punho cerrado, o ex-presidente do partido.
De 2005 para cá, diversas críticas austeras e duelos intelectuais sobre os meandros da AP470 ocuparam o Aliás. Entre as primeiríssimas delas, uma entrevista marcante com o cientista político Luiz Werneck Vianna, professor da PUC-Rio e autor de A Modernização sem o Moderno: Análises de Conjuntura na Era Lula (Fundação Astrojildo Pereira, Contraponto, 2011), no dia 31/7/2005, às vésperas do depoimento de José Dirceu no Conselho de Ética, um dos momentos-chave dessa história.
A convite do Aliás, Werneck Vianna voltou para discutir os rumos políticos deste Brasil pós-mensalão. O diabo, diz, é "essa volúpia pela eternização no poder" – presente nos tempos de Lula, mas também em Collor e em Fernando Henrique, ressalva. "A ideia de ganhar tudo e todos fez parte desse projeto megalômano do PT, que pretendia permanecer no poder até o fim dos tempos", diz o intelectual, com palavras pausadas, por vezes hesitante. "Mas a história está aberta, sempre esteve", ressalva mais uma vez. E como Dirceu e Genoino serão lembrados, professor? "Alguém sempre pode dizer ‘a história me absolverá’. Bem, absolve alguns e outros não. A ver".
Que dimensão tem a figura do ex-ministro José Dirceu hoje? Em entrevista ao Aliás, em 2005, o sr. o dizia ‘o homem com faro e instinto de vida partidária. Não ligado aos movimentos sociais, mas um especialista na política – o Maquiavel do Príncipe’. Ainda o vê assim?
Certamente. José Dirceu ficou ausente do poder imediato, mas atuou nos bastidores. Esse tipo de atuação obviamente não lhe permitiu o exercício de uma influência maior. Mas, ainda assim, continuam presentes os traços principais, marcados na época em que ele teve a batuta na mão. Basta notar a forma como a campanha de Dilma Rousseff foi conduzida, em 2010. E como está sendo conduzida agora, pensando em 2014. Persistem as mesmas questões de fundo.
Quais questões?
Essa volúpia pela eternização no poder. Antes do PT, essa volúpia esteve presente em Collor e em Fernando Henrique. Mas realizar reformas, em tempo largo, como era pretendido por Collor, Fernando Henrique e Lula, implicou uma política que levou a muitas dificuldades. Certamente, Collor não soube administrar isso, não estabeleceu um sistema de alianças capaz de sustentar seu governo. Fernando Henrique, posteriormente, interpretou isso muito bem, e em nenhum momento perdeu de vista a necessidade de ter maioria governamental – à época, sua associação com o PFL provocou protestos inclusive entre aliados mais íntimos, a começar por Ruth Cardoso, muito desgostosa com esse tipo de aliança, entre outros dentro do próprio PSDB. Ficou esta lição: governos pretensamente longos, que miram o horizonte muito à frente, necessitam de sólidas alianças governamentais. Isto é, quem quer mudar precisa do apoio de setores que não estão realmente preocupados com a mudança – aliás, de setores até contestadores dos projetos mudancistas. Isso leva a um certo imobilismo na política.
Mas nada mudou?
Há mudanças. Vimos mudanças significativas com Fernando Henrique (como o Plano Real) e com Lula (como o Bolsa Família). A crítica da esquerda agora parece querer sustentar que o PT deveria ter unido forças próprias e aliados muito afins a seu projeto. Isso não permitiria esse arremesso para a persistência no poder. Mas imaginou-se que, perdido o governo, tudo estaria perdido. Não é verdade. É a questão ficou: o que a sociedade ganhou com esse arranjo entre atraso e moderno, entre forças de mudança e forças comprometidas com a conservação? E o que se perdeu? O que se pode levantar, contrafactualmente, é que um governo com um projeto de mudança possa, se tiver estratégias definidas, pensar num voo não longo, mas exemplar. Um voo que avance até onde se pode avançar – e que, principalmente, corra o risco de perder a próxima sucessão presidencial. Pense na vitória de Michelle Bachelet. O caso chileno está nos ensinando que um voo não precisa ser transoceânico, digamos assim, para realizar mudanças. Vale antes ter um projeto com objetivos definidos, pois assim um governo poderia parar num determinado ponto e continuar mais à frente, num processo mais avançado. É preciso ter perspectiva.
Todos perdemos perspectiva?
A política atual, como está, prejudica todos – e principalmente a própria atividade política, que perdeu aura, imaginação, ousadia. Ficou num canto, avançando milimetricamente onde podia. Onde não podia, deixou tudo ao andar "natural" dos acontecimentos. O ponto é: perdeu-se o impulso para as mudanças, com essa ideia de que era antes necessário garantir estabilidade para um governo longo. Isso desarmou a sociedade. A política aparece em lugares inesperados, fora de sua trama real e concreta, que seriam as instituições e os partidos. Certamente há algo universal nisso, quer dizer, acontece em diversos países. Mas no Brasil, essa falta de representação política se tornou algo absurdo, em que as representações são meramente nominais, como um poder de carimbo. O PT foi desarmado também, obrigado a todo momento a respeitar as estratégias gerais para garantir sua permanência ad eternum no poder, vide o caso das sucessões estaduais. Lula ainda é o detentor da hegemonia do PT. Aí, por que fazer política, se há quem a faça em nome de todos? Ao mesmo tempo, essa malha paralisa o próprio governante.
O sr. quer dizer que, certas vezes, perder (o governo) pode ser ganhar (o projeto)?
Sim. Perder no presente, mas tendo tentado realizar seu projeto, mobilizando bases e sociedade para seguir seus caminhos, poderia significar uma vitória no futuro.
De tempos em tempos, assistimos a uma faxina ética após um novo escândalo. Há cassações, impeachment, prisões, mas os esquemas se reestruturam. Nossas instituições são fortes nesses momentos de crise?
Sim, continuam fortes. Estamos passando por um momento de turbulência, pois lideranças políticas do partido hegemônico estão sendo apenadas. Enquanto as ruas estão silenciosas, os principais interessados estão se movimentando. O Judiciário tem desempenhado um papel fundamental, por ter uma relação autônoma com os demais poderes. Autonomia essa que falta a outros setores, como os movimentos sociais e étnicos, o movimento sindical e a UNE. Não à toa, o que ocorreu por fora desses movimentos assumiu uma forma abstrusa, os Anonymous e os Black Blocs.
Na ressaca das manifestações, a presidente Dilma Rousseff deu os primeiros passos para uma reforma política, proposta antiga do PT. A reforma é possível neste momento?
Possível é, não há nenhum obstáculo material. Há obstáculos imateriais: a (falta) de vontade do legislador, comprometido com o estado de coisas anterior. Se há uma grande movimentação social, como vimos, passando ao largo da política e sem deixar rastros nem animar os partidos, sem vivificar os movimentos, aí realmente se pode imaginar que temos uma situação difícil adiante, que demandará muito tempo para encontrar uma saída razoável.
Desde 2005 foram feitas críticas às investigações de corrupção a governos passados. Mas há indícios de que o esquema de Marcos Valério também serviu ao PSDB. É justo que a corrupção fique circunscrita ao PT?
Não. A corrupção é um mal endêmico no Brasil. Está presente na nossa história "desde sempre". Mas agora a sociedade conhece instrumentos novos, trazidos pela Carta de 1988, e operadores novos, como o Ministério Público e a Polícia Federal, que exercem uma vigilância inédita.
A imprensa tratou o mensalão como o ‘maior escândalo de corrupção do País’. Que papel tiveram a mídia e a opinião pública nesse processo?
O papel da mídia foi importante, também por estar vinculada à opinião pública. O mensalão – aliás, a Ação Penal 470, como procuro sempre descrevê-la – foi um caso de corrupção política. Nas motivações dos autores dessas infrações não esteve o impulso por aquisição de riqueza, mas aquisição de poder. Esse foi um fato que a sociedade e os tribunais julgaram severamente, na expressão de muitos dos ministros do STF: foram crimes contra a República, isto é, crimes contra todos. E é explosiva essa relação entre o poder judiciário, a opinião pública e a mídia, pois a alta visibilidade desses processos deixa pouco espaço para o réu se defender. Mas isso não dá para impedir, é o avanço da esfera pública no mundo. Que fazer? Fechar as portas dos tribunais? Silenciar os jornais? É só ver o caso das biografias. Vamos ficar com os vícios e as grandes virtudes disso, que é tornar públicas determinadas cenas que realmente mereçam ser públicas, que não podem transcorrer nem em segredo de Justiça nem em silêncio obsequioso da imprensa. Isso faz parte do desenvolvimento de uma democracia de massas.
Muitos criticam as ordens de prisão, cumpridas no 15 de novembro, dizendo que o tribunal é autoritário. Quão supremo é o STF?
É relativo, pois as decisões podem ser contestadas na Câmara, no que se refere à perda de mandato dos condenados. O STF pode muito, mas não pode tudo. No fundamental, o papel que a Justiça tem cumprido é um processo de limpeza de território para que a democracia possa prosperar, para que não seja poluída pelos que detêm poder político e econômico. Ainda há um longo caminho a percorrer – e esse caminho não pode dispensar uma vida política mais rica, com partidos mais vigorosos e movimentos sociais autônomos. Tudo isso ainda está por acontecer.
Com biografias respeitáveis, o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino saíram do banco dos réus e foram para a prisão. Como serão lembrados na história?
Não sei. A história deles deve ser preservada. São figuras importantíssimas para a história do PT, sobretudo José Dirceu, a meu ver, a melhor cabeça política deles. Alguém sempre pode dizer "a história me absolverá". Bem, absolve alguns e outros não. A ver, né? É preciso deixar o tempo fluir. Mas o mensalão não é uma nódoa na vida republicana brasileira. O julgamento foi uma conquista. A democracia avançou. Os limites estão dados para o poder político: há leis – e o poder não pode tudo. Foi uma condenação justa, mas não há o que comemorar. Eu fui um preso político, um perseguido político. Não há razões para me regozijar com condenações dos outros. Esses, porém, são políticos presos. Foram condenados por uma corte com ministros inclusive indicados pelo PT.
Esse desfecho influenciará 2014?
Sim, certamente. Se favorecerá tal ou qual candidato, ainda não dá para dizer. Os partidos não são antenas sensíveis para o que ocorre na sociedade. São antenas para auscultar seus interesses imediatos e futuros. Se Marina Silva ou Eduardo Campos poderão recuperar a política... é muito difícil, penso. Também é difícil que isso se torne projeto de Aécio Neves. Mas quem vier agora terá que ter claro que a sociedade quer mudanças no mundo real. Operar mudanças implica dor e perdas – para ter outros ganhos. A ideia de ganhar tudo e todos fez parte desse projeto megalômano do PT, que pretendia uma permanência no poder até o fim da História do Brasil. Ora, a história está aberta, sempre esteve. Pede por movimentos, novas ideias, novas gerações. É muito difícil avançar, mas como diria o papa Francisco, bote fé. E assim vai, assim caminha a humanidade.
Fontes:  aqui e O Estado de S. Paulo / Aliás
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O QUÊ TEMEM
30/06/2013 | 12h59
“Antes de mais nada, importa reconhecer que é o primeiro grande evento, fruto de uma nova fase da comunicação humana, esta totalmente aberta, de uma democracia em grau zero que se expressa pelas redes sociais. Cada cidadão pode sair do anonimato, dizer sua palavra, encontrar seus interlocutores, organizar grupos e encontros, formular uma bandeira e sair à rua. De repente, formam-se redes de redes que movimentam milhares de pessoas para além dos limites do espaço e do tempo. Esse fenômeno precisa ser analisado de forma acurada porque pode representar um salto civilizatório que definirá um rumo novo à história, não só de um país mas de toda a humanidade. As manifestações do Brasil provocaram manifestações de solidariedade em dezenas e dezenas de outras cidades no mundo, especialmente na Europa. De repente o Brasil não é mais só dos brasileiros. É uma porção da humanidade que se identifica como espécie, numa mesma Casa Comum, ao redor de causas coletivas e universais”. Leonardo Boff Enquanto no mundo inteiro, no Brasil e em Campos as pessoas nas redes sociais e nas ruas aparecem de peito aberto - com a sua única face -, os que estão no poder político se assustam e reagem atabalhoadamente, buscam respostas às insatisfações populares. Outros, sinceramente, se sentem nelas ecoados, há bem pouco estavam juntos.  Percebem a oportunidade de absorver as demandas sociais, alavancar suas administrações. Em Campos, a Situação com os pés no retrógrado da política de um governo do espetáculo, na ‘harmonia’ construída pelo uso e abuso da máquina pública, continua para nosso desgosto, a querer manipular, na contramão da nova história. Se de um lado a juventude mostra a sua cara, se mobiliza e ganha as ruas, do outro lado o poder local tentou se articular no subterrâneo “Anthonymous”  diversionista ( nunca antes as redes sociais foram invadidas por um exército de apócrifos perfis, Fakes) , para dividir, enfraquecer e fazer ruir o movimento que surgiu bonito  e que se propõe a agregar, em torno de uma pauta democrática comum, todos que respeitem a sua independência dos partidos políticos e de  interesses particulares. O uso prolongado do microfone rosa entortou de vez a boca. LP  
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CIENTISTA POLÍTICO FALA
23/06/2013 | 03h22
Íntegra da entrevista do professor e doutor em ciência política, Hamilton Garcia (Uenf) ao repórter da Folha da Manhã, Bruno Almeida Silva. FM- Esse momento que o Brasil atravessa pode ser entendido como uma revolução? É um movimento anárquico, sem precedentes? Pode ser confundido com terrorismo? HG-Podemos entender as manifestações como fruto do descontentamento popular, em particular das classes médias, em face de um Estado que, em todos os níveis, arrecada quase 40% da riqueza nacional e devolve à sociedade serviços de baixa qualidade, entre eles o transporte público, e uma máquina pública cara e plena de privilégios para apaniguados e cabos eleitorais. As pessoas estão nas ruas porque querem o fim dos privilégios e a solução de seus problemas, que vão da tarifa dos ônibus até a corrupção generalizada. FM-Como ele começou, o que o motivou, o que o difere dos demais movimentos que acontecem, por exemplo, na Grécia e na Turquia? HG-As ruas foram tomadas pela juventude porque elas não se sentem representadas pela superestrutura política vigente, em grande parte predadora do próprio Estado. O nosso tema é a crise do Estado, enquanto na Grécia é o colapso econômico e as medidas ortodoxas para combatê-lo, e na Turquia o avanço islâmico sobre o Estado. Nesses dois últimos casos, o tema do Estado está, por enquanto, atrelado a problemas oriundos quer do capitalismo (desemprego, endividamento, etc.), caso Greco, e da própria sociedade (teocracia islâmica), caso turco. FM- Aonde ele pretende chegar? Quais seus efeitos? Há legitimidade para eles? O que pode levá-los ao sucesso e o que pode os atrapalhar? Os poderes públicos toparão negociar com um movimento sem líderes? HG-No fundo eles querem livrar o Estado do parasitismo hoje dominante, mas não sabem muito bem como fazê-lo. Isto, naturalmente, passa por uma reforma política radical, no espírito do Ficha Limpa, mas muito além dele. Ao que parece, as lideranças do movimento ainda não vislumbraram com clareza esta saída, talvez ainda cegados pela neblina do antipartidarismo, que, paradoxalmente, é uma ideologia muito útil ao próprio sistema que eles combatem. Mesmo assim, eles lograram uma vitória importante em relação às tarifas e as negociações políticas não tiveram papel algum nisso. FM- O fato de até os sindicatos e partidos políticos serem, até certo ponto, rejeitados pela massa popular nas negociações, é bom ou ruim? HG-Até aqui, o movimento não tem tido nenhum caráter negocial e sim impositivo, o que é próprio da crise de Estado que estamos vivendo: de que vale negociar com "representantes" que se acham donos de seus mandatos? Os sindicatos – inclusive a UNE e as UEEs – e os partidos, estão sendo ignorados e hostilizados por não cumprirem seus respectivos papéis de representação dos interesses das bases. Isto naturalmente é ruim, mas os manifestantes não são os culpados disto e sim os dirigentes dessas instituições. FM-Sobre o chamado vandalismo que vem sendo praticado, pode ser entendido mesmo assim? É mesmo necessário? HG-Vândalo em manifestação de média/grande cidade, é como bêbado em comício de interior: difícil não aparecer um… FM-E sobre a organização através do Facebook e rumores de que a Justiça queria tirar o Face do ar, o que dizer? HG-As redes sociais têm sido uma alternativa ao esclerosamento das instituições sociais tradicionais, mas não podem substituí-las, de modo que novas instituições devem surgir a partir destas mobilizações. O que é preciso destacar, é que a transformação de um Estado só pode ocorrer se suas bases de legitimação forem transformadas, pela negociação ou pela imposição. O que esperamos é que estas transformações ocorram negocialmente, mas tais negociações são quase inviáveis na base da dinâmica política atual, onde os políticos, equipados com os recursos públicos, corrompem a vontade do eleitor para se elegerem e, assim, deixam de representá-los. Somente quebraremos este círculo vicioso por meio de um movimento impositivo de largo espectro que consiga arrastar consigo as velhas instituições e os partidos suscetíveis às reformas político-sociais. Hamilton Garcia (Cientista Político, UENF-DR)  
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