Uma era de incertezas
21/09/2015 | 10h07
Publicado, sábado (19), no O Globo. Artigo do escritor e jornalista Zuenir Ventura
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A coruja atrasada
25/05/2015 | 07h24
[caption id="attachment_9051" align="alignleft" width="220"]Foto. O Globo.com Foto. O Globo.com[/caption]

 Perseguidos pela Inquisição, hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um

Luis Fernando Veríssimo Hereges, sodomitas e  usurários eram as vítimas preferidas da Inquisição pelo que pensavam e faziam (e judeus só por serem judeus) e muitos acabaram na fogueira, para aprender. Hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um e a usura legalizada, agora chamada de capital financeiro, domina o mundo. O que prova que a História é uma velha senhora irônica, que só precisa de tempo para virar tudo ao avesso — e tempo é o que não lhe falta. Ateus se arriscam a serem xingados por crentes mas não mais a serem queimados vivos, a união de homossexuais ainda encontra resistência mas tem até a bênção implícita do Papa, e a usura se recuperou tão completamente do tempo em que era pecado que hoje provoca e se redime das suas próprias crises, sem culpa e sem sinal de contrição. A História poderia defender sua inconstância, ou seu senso de humor, invocando a coruja de Minerva, aquela que Hegel usou como metáfora para a incapacidade dos filósofos de compreenderem seu próprio tempo. Segundo Hegel, a coruja de Minerva, deusa romana da sabedoria, só voava ao anoitecer, quando não há mais luz para enxergar nada, muito menos a verdade do momento. Vivemos para a frente mas entendemos para trás, e a filosofia sempre chega atrasada. Foi, acho eu, na sua crítica a esta resignação de Hegel que Marx disse que os filósofos não deveriam se contentar em apenas entender o mundo, mas tentar mudá-lo. Não sei se Marx chegou a encampar a parábola de Hegel, mas ele diria que a coruja precisa voar mais cedo para ver com mais clareza. Outra forma de dizer que filosofia e política precisavam se aproximar na busca da luz. Como a coruja atrasada do Hegel, que só filosofava sobre uma época quando a época já estava no ocaso, a História pode ser perdoada pelas suas incongruências. A Santa Inquisição se assentava sobre um bloco de certezas que pareciam eternas, com um poder que duraria séculos. Hereges, sodomitas, usurários e judeus não eram apenas aberrações aos olhos do Senhor, sua existência ameaçava a ordem natural de todas as coisas. Que culpa tem a História de a eternidade durar tão pouco, e a ordem natural de todas as coisas ser sazonal? Artigo de ontem (24), no O Globo.com
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Nosso crescente mal estar
19/05/2015 | 07h30

Nosso crescente mal estar

Zuenir Ventura é jornalista   zuenir

O ex-presidente FH não afasta a necessidade de ‘algum grau de entendimento’ para que o país saia da crise econômica e política. Talvez só falte combinar com Lula

É crescente o nosso mal estar — ou mau humor — e a culpa pode ser mais uma vez atribuída à presidente Dilma. Uma pesquisa que acaba de ser publicada pela repórter Érica Fraga revela que há nove anos o brasileiro não era tão infeliz quanto nesse primeiro trimestre de 2015. Ao resultado, conhecido como “índice de infelicidade”, se chega numericamente pela soma das taxas de inflação e desemprego, o que provocou nesse indicador, também chamado de “índice de miséria”, um salto de 13,5 para 15,5 pontos nos primeiros meses do ano, o maior desde o fim de 2005. A pior notícia é que a situação não vai continuar assim. Como os dados são consequência da crise econômica, cuja tendência é permanecer ou se agravar, a previsão é que a insatisfação da população vá crescer na mesma proporção em que aumentar a impopularidade do governo, que é das mais altas. A rejeição já impede Dilma de se apresentar em público numa simples cerimônia de casamento, como madrinha, sem ruidosas manifestações de vaias e panelaços. Assim, ela terá mais problemas com que se preocupar, além dos que oferecem o deputado Eduardo Cunha e o senador Renan Calheiros, aliados insaciáveis que dispensam inimigos, pois vivem criando-lhe dificuldades com exigências e cobranças. Agora, por exemplo, esperavam da presidente represália contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que incluiu o nome deles no parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal como suspeitos nas investigações da Operação Lava-Jato (no caso do deputado, o procurador afirmou ter encontrado ”elementos muito fortes” para investigá-lo). Derrotada frequentemente no Congresso e tropeçando muitas vezes na governabilidade, Dilma vive uma melancólica solidão. Curiosamente, um dos poucos lugares onde não é hostilizada, mas até compreendida, é junto a alguns tucanos. Ainda esta semana, por exemplo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, falando para uma platéia de investidores em Nova York, evitou criticá-la. “Esses malfeitos”, disse, usando uma palavra que foi popularizada por Dilma, “vêm de outro governo, isso deve ficar bem claro. Vêm do governo Lula”. Também o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, evitou fazer críticas diretas à presidente e a tratou tão bem que precisou desmentir que ele e FHC façam parte de uma ala moderada que estaria buscando uma conciliação com o governo do PT. Eles negam essa hipótese, mas o ex-presidente não afasta a necessidade de “algum grau de entendimento” para que o país saia da crise econômica e política. Talvez só falte combinar com Lula.
Publicado no jornal O Globo em 16/05/15
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INDIGESTÃO
04/05/2015 | 10h18

O ponto da ganância verissimo

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho — ou ficam melhores ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas). O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da Era Vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existia o indivíduo e suas fomes. Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela Sra. Thatcher. No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim. Claro que, para isso funcionar, é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira. O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja Medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usuários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.
Publicado hoje no O Globo
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MULHER BRASILEIRA
28/03/2014 | 11h39
MULHER BRASILEIRA
Luciana Portinho
Cida, mulher brasileira é doce como os bolos e guloseimas que faz. Seu sonho profissional: ser uma boleira de mão cheia. De uma alegria sincera, risada farta, é transparente em suas emoções. Conheci a Cida dias atrás. Ela e mais outra colega, a eficiente Suely, são as responsáveis pela saborosa (e calórica) comida que desde sábado passado, todos nós que participamos do treinamento/inserção ingerimos com fome de leão. No início da jornada, logo ao chegar, Cida ou Aparecida de Fátima Marques de Freitas travou; uma indigestão encobria o pânico que dela se apossou. Por algum curto e intenso momento, ela pensou que não daria conta de cozinhar para as 40 pessoas presentes à jornada de estudos e debates que se realiza em Itaperuna, cidade polo do noroeste fluminense. Ela nos conta a historia de vida, com explicita gratidão de quem foi lá embaixo. Do fundo do poço de uma depressão em que não enxergava futuro, nem claridade, veio ela há três anos. “Pensei que nunca mais fosse trabalhar”. Depois de ter sido a vida toda empregada doméstica, foi contratada pelo restaurante Galo a Galope. Perto de fazer dois anos no trabalho e de ter desenvolvido amizade com o patrão, ele abruptamente morreu. “Seu Nelde era muito amigo, me dava apoio, conversava franco comigo, de repente enfartou, fiquei sem chão”, diz ela. Cida - 41 anos e dois filhos - foi parar na Igreja, espaço onde encontrou suporte para o desalento que a dominou. Hoje, é evangélica e credita a Deus a recuperação no humor e na disposição de viver. Com o incentivo da irmã em fé, Maricéia, abraçou a nova atividade profissional de fazer bolos para festas e casamentos. “Recebo feliz toda a encomenda, penso em dar o de melhor em mim, faço com carinho e amor”. Agora, Cida está efusiva, a mil. Foi convidada a algo inimaginável. Dará uma entrevista ao vivo, na próxima terça (01/04), na TVI, televisão local, ao vivo, no programa do jornalista e também diretor executivo da emissora, Nino Bellieny. Cedo, pela manhã, Cida chegou para fazer o café da moçada. No cantinho da cozinha, fez questão de mostrar: “Vou aparecer na TVI linda, vê só, já fiz minha sobrancelha ontem à noite”. [caption id="attachment_7766" align="alignleft" width="500" caption="Cida, nossa brasileira faceira"][/caption] Estaremos, a tempo e hora, de olho na tela, assistindo Cida falar dos bolos de sonho e desejos de futuro, o link é esse aqui.
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No tanto Brasil
18/02/2014 | 08h56
Na margem direita do Rio Muriaé, em uma cidade do noroeste fluminense, lá no fim de uma rua sem saída, eles trabalhavam em pleno sol a pique. Sexto dia da semana e os homens em franca atividade. Uma pequena manufatura de vassoura piaçava logo chamou a atenção. Para quem vive nas grandes cidades brasileiras, quiçá seja uma realidade longínqua. Talvez nem se dê conta de que o interior, também produz objetos tão importantes ao dia a dia de todos. Eram seis trabalhadores dentro da pequena construção de laje. Cada um cumpre uma função singular na simplória linha de montagem. Estavam de bom humor, não evitaram as fotos, não se negaram a conversar e até posaram alegres, não sem antes detalhar os meandros do funcionamento daquelas rudimentares máquinas que com eles compõem a linha de produção. [caption id="attachment_7595" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption] A piaçava vem da Bahia. Chega amarrada em rolos; abertos são, separados em feixes e, com o auxílio de um artefato, excluídas as menores. As maiores assim selecionadas, ficam em molhos nas mãos do operário que com destreza realiza a operação.  Esse é só um dos passos para dar forma final à dura palha, transformada ao fim em vassoura: “Vassoura Itaperuna”. Seu Itamar é o dono da fabriqueta, estava na rua vendendo o produto. Da fabricação do utensílio, sobrevivem sete homens e respectivas famílias, não sabemos quantas bocas dali tiram seu sustento. [caption id="attachment_7596" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

[caption id="attachment_7597" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

Vale o registro. [caption id="attachment_7598" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

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VIVA SEU SONHO
17/02/2014 | 11h36
Trago ao blog o artigo do publicitário Mauricio Cunha. Para quem ainda não o conhece, afirmo que Mauricio é um profissional vivaz. Cidadão do bem, carismático e extremamente responsável. Nascido em Itaperuna, noroeste fluminense, foi para o Rio de Janeiro, fazer carreira. O texto é leve. Nos fala de um aspecto vital, do desperdício que é abrir mão dele; o sonho que planejado e executado nos torna mais realizados, em todos os aspectos da nossa efêmera existência.  Sugiro a leitura, nesse início de semana. lp Viva Seu Sonho Quando somos crianças, temos uma capacidade de sonhar tão alta que é como se os limites não existissem. Hoje em dia, se perguntarmos a essas pessoinhas sobre o que querem ser/fazer na vida adulta, temos a oportunidade de ouvir as histórias mais mirabolantes e animadas. Para elas, o mundo é um lugar novo, onde tudo é possível. Ainda que esse potencial inexplorado tenha vindo dentro de nós, no meio do caminho, algo acontece: crescemos. E com a experiência adquirida no passar dos anos, aprendemos que as coisas não são fáceis, que não podemos fazer tudo e que o mundo é um lugar que nos ferirá por incontáveis vezes. Então, vacinados, ficamos receosos, tudo para proteger nossa integridade emocional e física. Cada vez menos a palavra “arriscar” se faz presente no dia a dia, aprender coisas novas não gera a mesma emoção e, finalmente, temos um confronto com aquilo que percebemos como sendo a nova realidade. Enfim, a gente se torna conformado com o pouco. Cada um tem seu ponto de equilíbrio do sonho. Ele fica em um lugar de difícil acesso: entre o pessimismo da maturidade e a ingenuidade da infância. É bem verdade que somos cheios de um potencial fantástico para realizar, mas também é verdade, infelizmente, que isto nunca será experimentado pela maioria esmagadora das pessoas. Agora, questione-se, será que em algum momento você deixou seus verdadeiros sonhos pela estrada? O medo nos paralisa de tal forma que, de uma maneira nada inteligente, decidimos ficar no mesmo lugar. Shakespeare sabiamente resume essa situação na seguinte frase: "Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, pelo simples medo de tentar". Se você já esteve em um cemitério, nunca mais o verá da mesma forma após a leitura deste texto. Não porque abordarei sobre as pessoas que são enterradas ali, mas por causa do que foi enterrado dentro daquelas pessoas que morreram. Pense em todas as músicas que poderiam ter sido cantadas, livros e textos que nunca foram escritos, palavras de amor que nunca foram compartilhadas, perdão que nunca foi liberado, invenções que não foram desenvolvidas... Tanto potencial que nunca, jamais alguém conheceu. Na história, muito tem sido desperdiçado ao longo da existência humana por pessoas que tiveram medo de se machucar, de serem criticadas, ridicularizadas, também por receio das dificuldades financeiras e outras tantas razões. Quais sonhos você enterrou aí no solo do seu coração? A vida é muito curta e você só poderá vivê-la uma vez. Não fazer nada sobre isso também é uma decisão. Um dia, cada um de nós terá seu encontro com a morte e as possibilidades de realiza-los serão finalizadas ali e nada mais poderá ser feito sobre. É incrível como que diante de uma situação assim, todos aqueles empecilhos ficam ridiculamente pequenos. Então, não se preocupe! Caro leitor, se você está respirando neste momento, significa que sua vida não se perdeu ainda. Há algum propósito para a sua existência e você tem o poder de cumpri-lo. Isso vai além da sua felicidade, envolve a comunidade e o universo ao seu redor, pois se trata do legado que você deixará para outras gerações e o exemplo gravado na memória de quem te ama. Por isso, eu te digo com toda a confiança, vale a pena correr o risco. Levante-se em direção daquilo que já era considerado perdido por você mesmo. Busque conhecer e desenvolver os seus talentos para ter atitude e tomar aquele lugar que foi feito pra você ao sol. Corra para fazer aquilo que deixa a sua vida com um sentido especial. Não abra mão do sonho. Você não nasceu para passar despercebido. [caption id="attachment_7584" align="alignright" width="400" caption="Ft. Facebook"][/caption] Mauricio Cunha "Fonte: Revista Estilo Off"
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Vida que vai, vida que vem.
28/01/2014 | 09h28

Vida que vai, vida que vem.

Por lucianaportinho, em 09-02-2011 - 21h13
Tarde de verão, plena estação. As primeiras águas já baixaram, o rio retorna ao seu leito. Ao leito que no último século disseram que era dele. Se há duas semanas corria barro puro, agora o Paraíba já escorre na sua coloração natural. A cidade neste pedaço se estende nas duas margens. A brisa que sopra é mais do que ventinho comum. Uma constante. É o vento nordeste que alivia as tensões da sua gente. Agora, como em todo o fim de jornada, o povo faz parada a caminho de casa. E fica bem. Esse povo é manso, nem se incomoda de todo dia esperar a lotação. João é um deles. Apoiado na mureta do rio aguarda calmamente que Rita desponte naquela esquina da beira rio. Morena das coxas bem grossas, em seu vestido florido, sempre é uma alegria observá-la se aproximar. É rotina que faz com lento prazer. Nestas horas, a vida se esvai pelo cansaço de mais um dia. Retorna pelas canelas da mulher. A cidade até que fica mais bonita. Ter Rita ao seu lado, sentir seu bafo, logo refaz a moral. Os parentes de João bem que fizeram uma força para que ele fosse pra capital, coisa que nem nunca ficou tentado. Pobre nasceu, pobre ele se sabia, lá não iria subir na vida não. Iria era subir pra morar num morro daqueles. Aqui não, nem morro tem! Terra reta, planície das boas. É como Rita falava e repetia: “Melhor ser duro por estas bandas, homem!  Aqui, pelo menos a gente tem espaço. Quer coisa melhor do que o nosso quintalzinho? Poder ter um pé de árvore, umas galinhazinhas… chão de terra sim, e daí?! Por nossas cadeiras, na porta da casa, assistir ao vai e vem dos vizinhos, se perder no falatório da birosca. Olhar pro céu, João! E se espantar com as estrelas;  eu e você, João, é tudo de bom”. Luciana Portinho
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O MAUSOLÉU DO CORONEL
15/01/2014 | 11h30
Conheci o Maranhão na juventude, é um Estado de se apaixonar de primeira. Passava algumas férias, de verão ou de inverno, em um sítio na Praia do Olho D'Água, na capital São Luis. Tudo nela me atraia: a negritude do povo, as praias de água turva e da areia socada pelas enormes marés a perder de vista. A batida do tambor ou da matraca dos Bois, de arrepiar. Apurei o gosto de cozinhar por lá; nas tapiocas, no arroz de cuxá, no preparo do caruru com o camarão salgado vendido a granel em qualquer biboca, nas frigideiras de sururu. Tudo acompanhado por um refrigerante rosa claro "Guaraná Jesus" ou pela saborosa cerveja Cerma, precedida por um gole de Tiquira (feita da mandioca), segundo eles a verdadeira aguardente brasileira . Das frutas, impossível não lembrar do cupuaçu, do carnudo bacuri, dos doces sapotis e dos estranhos abricós. São Luis combinava descaso e desigualdade social, muita pobreza sem memória com história, rico patrimônio material com musicalidade e poesia. Sua gente, se recostava e até dormia nas redes,  isso valia para qualquer classe social. De verdade aprendi com os maranhenses a usar a rede atravessada, como os indígenas. Na primeira noite dormida, caí da cama. Era janeiro - para eles inverno - , época das chuvas, acordei com o céu desabando na cabeça, corpo já no chão. Foram, até hoje, as chuvas mais torrenciais seguidas que já presenciei. Na manhã seguinte? Sol, como se nada tivesse havido. Passávamos as tardes mornas sob a brisa dos babaçus. A São Luis de então, não chegava a 500 mil habitantes. Fora do centro histórico, tinha ares de roça rasgada, longas distâncias a percorrer, meio desabitada. Estar em São Luis sem ir a Alcântara era como não ter completado a viagem. Acho que eram duas horas de enjoo no barco, de mar batido na boca da barra. Lá, era como se tivéssemos aportado pelo túnel do tempo no passado. E ainda tinha a simpática Ribamar e todo o interior. Este, por natureza lindo e humanamente miserável. Foram aulas práticas de Brasil. Dava dó ver fachadas inteiras de azulejos coloniais belíssimos saqueados por uma elite que em troca dos "velhos" azulejos da história acenava, aos moradores, com modernos azulejos "Klabin". Era o que mais se via, tanto na ilha quanto no continente (Alcântara). Tempos depois, em uma dessas revistas de fofoca, li entrevista com a já governadora Roseana Sarney. Ela mostrava, sua casa vasta, repleta de obras de arte sacra, inclusive para meu espanto, um altar?!  Chocante, mesmo. Mais recente voltei a São Luis a trabalho - encontrei tempo de conhecer a maravilha natural que são os Lençóis Maranhenses. Me deparei com uma cidade de 1 milhão de habitantes, frequentada por turistas europeus (franceses em sua maioria), alguns de seus imponentes sobrados restaurados onde foram instalados restaurantes com uma culinária e serviço sofisticados. Pelo centro histórico, intervenções de arte popular e, como não poderia deixar de ser, souvenirs de todos os gostos. O mesmo povo mestiço lascado pela pobreza. E música e poesia declamada. Registro essas lembranças como introdução ao artigo abaixo, do jornalista Sebastião Nery, escrito em 2007 e publicado ontem, 14/01, no site www.jornalpequeno.com.br, ver aqui . A leitura esclarece o tempo presente do Maranhão. SEBASTIÃO NERY O MAUSOLÉU DO CORONEL São Luís (MA) – Fernando Sarney, o filho empresário do senador José Sarney, pegou de manhã o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, no belo São Luis Resort Hotel, na praia do Calhau, aqui em São Luis, e o levou à casa do pai, um majestoso e coronelado quarteirão cheio de árvores e todo cercado de muro branco, bem ao lado do hotel. Quando entraram, Fernando foi logo com Mário Soares para um salão repleto de riquíssima coleção de objetos e imagens sacras de muitos séculos. Fernando mostrando, explicando, e Mário Soares olhando, perguntando, surpreso com tanto santo, de tantos séculos, na coleção de um cristão só. Depois de ver tudo, Mário Soares foi saindo: - Tudo bem, obrigado, já vi o museu, agora me leve à casa do Sarney. Sarney vinha chegando. Só então Mário Soares percebeu que o museu era apenas uma sala do casarão do “Coronel do Calhau”. SARNEY A marca macabra do letrado acadêmico dono da casa está logo na entrada. O portão de ferro do casarão, antigo, esverdeado e patinado, é um secular portal tirado do tombado cemitério de Alcântara. As duas pilastras de granito que sustentam o portão também saíram do cemitério de Alcântara. O mágico e fúnebre sopro da morte não está só aí. Castro Alves, cantando a batalha do “2 de Julho” da Bahia, disse que “o anjo da morte pálido cosia uma vasta mortalha em Pirajá”. A maior batalha de Sarney, aqui no Maranhão, nem foi, como se poderia imaginar, a trágica e acachapante derrota de Roseana na eleição para governador. É a luta por seu mausoléu: - “Num belíssimo jardim, no pátio externo do Convento, cercado de imensas palmeiras imperiais e de um exemplar de pau-brasil, está um retângulo, com três metros de largura por seis de comprimento, isolado por grossas correntes de ferro e coberto de granito preto”. O mausoléu do coronel. OLIGARQUIA É uma história metade Freud metade Odorico Paraguassu. Está contada em dois excelentes livros maranhenses: – “Sob o Signo da Morte: o Poder Oligárquico de Vitorino a Sarney”, do professor Wagner Cabral da Costa, mestre da Unicamp, “uma radiografia do poder oligárquico”: - “Sarney pretende erigir em seu nome um museu-mausoléu em São Luis. Por meio de uma fundação privada e utilizando-se de uma vasta rede de tráfico de influência, que abarca vários governadores do Estado, Assembleia, Justiça, Senado, pretende estabelecer uma espécie de Taj-Mahal maranhense, um monumento à morte, que celebra a dominação política dos vivos”. O outro é “O Caso do Convento das Mercês”, do jovem jornalista, formado em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, Emílio Azevedo. Minuciosamente, documentadamente, ele conta a história de um esperto golpe dado por Sarney e seus amigos para transformar o histórico Convento das Mercês, patrimônio público, em propriedade familiar. CONVENTO 1. – “Poucos dias antes de deixar a Presidência da República em 1990, Sarney vai ao cartório de sua irmã, em São Luis, e cria a Fundação José Sarney, para ter, ilegalmente, a posse, o domínio, a propriedade do histórico Convento das Mercês, onde o Padre Antonio Vieira fez muitos de seus sermões. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com mais de três séculos e meio de história, comprado pelo Estado à Arquidiocese de São Luis em 1905, ocupa uma área de 6.500 m2, integrando um conjunto arquitetônico considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade”. 2. – Em 90, o governador Cafeteira, aliado de Sarney, gastou 9 milhões e meio de dólares na reforma do Convento, propôs e a Assembleia aprovou sua doação para uma “Fundação da Memória Republicana”. Era um disfarce. Logo o nome foi trocado para “Fundação José Sarney”. Assumindo, o vice João Alberto, o “Carcará”, assessor de Sarney, fez um decreto de “uma doação firme e valiosa (sic) transferindo para a Fundação José Sarney todo o domínio, posse, direito e ação sobre o Convento, para que possa usar e gozar livremente como seu”. E pôs a doação em “escritura pública em cartório, em junho de 90?. SENADO E SUPREMO 3. – O deputado Freitas Diniz, dos Autênticos do MDB e fundador do PT, protestou. O Ministério Público denunciou e a Assembleia aprovou projeto do deputado Aderson Lago “anulando a doação” e “assegurando ao acervo privado do Memorial do ex-presidente a permanência no Convento”. Mas o Senado, numa ação de curriola jamais vista, foi ao Supremo Tribunal “em defesa dos direitos de um senador”. E o Supremo, minúsculo, anulou a decisão da Assembleia e garantiu o Convento como propriedade dos Sarney. 4. – Em entrevista à “Carta Capital” de 23 de novembro de 2005, Sarney disse que seu mausoléu “será um atrativo turístico e, no futuro, até ponto de peregrinação” (sic). E começou a faturar o mausoléu. Além dos US$ 9,5 milhões já gastos, a Fundação alugou ao Estado parte do Convento por R$ 80 mil mensais, recebeu mais R$ 1.139.142,72, tomou R$ 1.348,005,00 da Petrobras, tem gordas verbas anuais do Orçamentos Federal e comercializa para casamentos, festas, quermesses, shows. Nunca se viu cova tão rentável.
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RECEITA DE TRAGÉDIA
19/10/2013 | 10h53

Receita de Tragédia

LUCIANA PORTINHO [caption id="attachment_7026" align="aligncenter" width="600" caption="Ft.Google"][/caption]

 

No dia do nosso poetinha, amantes que somos da vida, uma história real e crua não me sai da cabeça. Pensei dela construir personagens fictícios, mas, tão dura que é de tosca crônica não passará. Quem me contou o drama foi uma mulher forte que acorda todos os dias em Campo Grande, zona oeste da capital, as três e 45 horas da matina, para chegar às 7 horas em seu posto de trabalho. Janine é manicure em um cabeleireiro do Posto VI, no Rio de Janeiro. Escuto seu relato, primeiro me transportando à dureza de vida dessa senhora que diariamente se desloca do subúrbio e, para ser pontual, prefere se despencar em três conduções na madrugada e “fugir” da maralha que é o tráfego de gente, ao vir e voltar todos os dias da casa para o emprego, do emprego para casa. Não me perguntem como da história da vida de Janine pulamos para, aí sim, a absoluta desgraça em que vive parcela considerável da população deste meu querido país.  Sei que conversávamos sobre as manifestações, os black bocks, sobre o Cabral, de lá fomos para as UPPs, o Amarildo e finalmente sobre o tráfico na Rocinha. Era hora do almoço, mesmo assim, Janine abriu espaço em sua agenda, quis me atender. De marmita em punho, ela baixinho me disse: “Antes deixava minha comida na copa do salão, mas, perdi a confiança nas meninas depois que Maria (ex-colega, moradora da Rocinha) sem mais nem quê confessou ter tentado assassinar seu ex-companheiro”. Tinha levado mais uma coça dele, o ódio a dominou, decidiu mata-lo. Morreria lentamente com doses mínimas de chumbinho misturadas na janta. O homem um dia baixou hospital, uma gastrite horrorosa o corroía. Lá,  os exames desmascararam o envenenamento. Chegando à casa, sem palavra alguma, ele deu surra ainda maior. Maria pediu ajuda ao comando do tráfico. Comeram o homem na porrada; expulso de casa, na favela proibido de pisar. Obrigado está a pagar o aluguel de Maria até o fim dos dias. Maria estava grávida, terceiro filho que deixou com a mãe no Ceará para criar. Nesta mesma noite, eu e minha prima refletimos sobre a ausência do Estado, os Tribunais e as Leis. Ainda assim sei que do nada, do abaixo do nada, é preciso que brote a poesia.  
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