Das Unbehagen in der Kultur
24/01/2016 | 01h56
Sigmund Freud escreveu o Mal Estar na Civilização (Cultura) no final da década de 1920, quando as marcas da I Grande Guerra ainda eram evidentes por toda a Europa e o espectro do nazismo já se insinuava sobre a Alemanha. Publicado em 1930, é uma das poucas obras de S. Freud que não trata especificamente da psicanálise, da sua teoria e das suas técnicas. Ao contrário, é uma obra sobre ciências sociais onde a libido encontra a sociologia e as origens da infelicidade humana é investigada. E é justamente nessa investigação onde S. Freud imprime a contundência das suas considerações sobre a gênese da infelicidade que permeia a nossa cultura. O primeiro motivo da infelicidade Freud detecta em nosso próprio corpo. Desde muito cedo sabemos que marchamos inexoravelmente rumo à dissolução, ao retorno à nossa forma primeva, mineral. Só não sabemos quando e de que modo isso se dará. Sendo muito improvável que a mente consciente sobreviva a dissolução do corpo físico, Nietzsche escreveu em Considerações Intempestivas : "No fundo, todo homem sabe muito bem que viverá somente uma vez, que é um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de qualidades fundidas em um todo". Frente à isso, então, só nos resta acreditar que a mente consciente seja uma entidade muito mais ampla e transcenda realmente seu substrato óbvio: nosso cérebro. O segundo motivo está um pouco além do nosso corpo, centrado dessa vez em nosso ambiente, na Natureza. Contra seus desígnios e movimentos somos impotentes. Que o diga os milhares de turistas que fugiam do inverno europeu e se bronzeavam em resorts espalhados pela Indonésia e Tailândia quando foram surpreendidos pelo tsunami que varreu o Oceano Indico no Natal de 2004. Toda riqueza do mundo não teria muita valia para ao menos minimizar essa catástrofe. Em última instância, nossa vida e bem-estar é uma mera concessão da Mãe Natureza, sujeita a alterações sem aviso prévio. Para piorar nossa situação, a Mãe Natureza desconhece o significado da palavra benevolência. O terceiro motivo é identificado naquilo que nos é mais importante ao longo das nossas vidas: as relações entre os indivíduos, as relações entre os grupos humanos, as relações sociais. Criamos uma sociedade hostil, desigual e violenta onde guerras, perseguições, genocídios, conflitos ideológicos, religiosos e territoriais permeiam nossa história desde que nosso gênero se tornou sedentário e promoveu a agricultura. Por exemplo, ao longo dos milênios aprimoramos e sofisticamos os métodos e os instrumentos de aniquilação mútua mas somos incapazes de facilitar um final de existência digna e confortável para boa parcela dos idosos, mesmo em países desenvolvidos. O titulo original, em alemão, dessa obra seminal é Das Unbehagen in der Kultur. S.Freud, com toda razão, considerava a Cultura a única qualidade que nos diferenciava dos demais animais. Seus editores, todavia, preferiram, contra a vontade do autor, substituir Cultura por Civilização. Os direitos dessa obra, no Brasil, é da IMAGO Editora Ltda,(1969) e uma perfeita tradução, a partir do original em alemão, foi realizada por José Otavio de Aguiar Abreu.
Guilherme Peregrini*
* Guilherme Peregrini é handmaker, filósofo amador e considera o rock'n roll o único caminho possível para a Salvação. Pode ser encontrado no "Handmades", fórum que reúne jazzistas, bluseiros e roqueiros que gostam de construir, guitarras, amplificadores, pedais de efeito e processadores de sinais com as próprias mãos. aqui http://www.handmades.com.br
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Trouxa. Quem é trouxa?
17/09/2015 | 10h10
Sou leitura costumaz do Luis Fernando Veríssimo. Não sou daquelas que idolatram ser humano. Nem cantor, nem músico, artista, ator, diretor teatral, poeta, intelectual. Em suma, aprecio a obra e ponto final. Parto daquela premissa de que "de perto ninguém é normal", daí me prendo ao que fica quando tem qualidade, inteligência ou força poética. Mas confesso, como resistir à simplicidade, humor e leveza do Veríssimo?! Raros - não me lembro de algum - são seus textos desinteressantes, até porque o modo como ele enxerga os fatos do cotidiano é peculiar. De tudo ele extrai assunto com um ponto de vista sensível, típico de um homem culto amável. Vamos lá! Ia reproduzir seu artigo de hoje (17) no O Globo. O título é "TROUXAS"  e começa com a frase do ator Charlie Sheen, no filme 'Quero ser John Malkovich' em que diz: “A verdade é para os trouxas”. Daí, ele parte para indagações como, "Ele quis dizer que a verdade é para quem não tem imaginação e vive preso à realidade? Ou que trouxas são os que não veem que não existe uma “verdade”, mas muitas, e elas se contradizem? Ou ele estava apenas bêbado"? Ou ainda,  "A frase do Sheen só quer dizer mesmo que a fantasia é preferível ao fato, e que trouxa é quem nega isto. E vive sem aceitar que tudo é irreal: a política, as paixões, a justiça e as injustiças, e até a morte". Filosofias de lado, Verissimo está matutando que a tal frase cai como luva no Brasil atual e continua ao justificar, "Nunca as 'verdades' de cada um foram tão antagônicas, e nunca os antagonistas se xingaram tanto (“trouxa” é o mais brando dos epítetos trocados). Para um lado, trouxas são os que acreditaram no passado e ainda acreditam nas verdades mentirosas do PT. Para o outro lado, trouxas são os que participam de um golpe sem se darem conta da sua cumplicidade numa ruptura política e social possivelmente incontrolável. Nos dois lados, a retórica obscurece a verdade. Qualquer verdade". Que a gente está num mato sem cachorro, acho não restar dúvida. Que sobram gatos e ratos, outra certeza!
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A coruja atrasada
25/05/2015 | 07h24
[caption id="attachment_9051" align="alignleft" width="220"]Foto. O Globo.com Foto. O Globo.com[/caption]

 Perseguidos pela Inquisição, hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um

Luis Fernando Veríssimo Hereges, sodomitas e  usurários eram as vítimas preferidas da Inquisição pelo que pensavam e faziam (e judeus só por serem judeus) e muitos acabaram na fogueira, para aprender. Hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um e a usura legalizada, agora chamada de capital financeiro, domina o mundo. O que prova que a História é uma velha senhora irônica, que só precisa de tempo para virar tudo ao avesso — e tempo é o que não lhe falta. Ateus se arriscam a serem xingados por crentes mas não mais a serem queimados vivos, a união de homossexuais ainda encontra resistência mas tem até a bênção implícita do Papa, e a usura se recuperou tão completamente do tempo em que era pecado que hoje provoca e se redime das suas próprias crises, sem culpa e sem sinal de contrição. A História poderia defender sua inconstância, ou seu senso de humor, invocando a coruja de Minerva, aquela que Hegel usou como metáfora para a incapacidade dos filósofos de compreenderem seu próprio tempo. Segundo Hegel, a coruja de Minerva, deusa romana da sabedoria, só voava ao anoitecer, quando não há mais luz para enxergar nada, muito menos a verdade do momento. Vivemos para a frente mas entendemos para trás, e a filosofia sempre chega atrasada. Foi, acho eu, na sua crítica a esta resignação de Hegel que Marx disse que os filósofos não deveriam se contentar em apenas entender o mundo, mas tentar mudá-lo. Não sei se Marx chegou a encampar a parábola de Hegel, mas ele diria que a coruja precisa voar mais cedo para ver com mais clareza. Outra forma de dizer que filosofia e política precisavam se aproximar na busca da luz. Como a coruja atrasada do Hegel, que só filosofava sobre uma época quando a época já estava no ocaso, a História pode ser perdoada pelas suas incongruências. A Santa Inquisição se assentava sobre um bloco de certezas que pareciam eternas, com um poder que duraria séculos. Hereges, sodomitas, usurários e judeus não eram apenas aberrações aos olhos do Senhor, sua existência ameaçava a ordem natural de todas as coisas. Que culpa tem a História de a eternidade durar tão pouco, e a ordem natural de todas as coisas ser sazonal? Artigo de ontem (24), no O Globo.com
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Dois destinos
11/05/2015 | 12h30
Desde de garota pensava como ele. Nascida na cidade do Rio de Janeiro, criada na Zona Sul, cercada pelas favelas nos morros, olhava para cima e vinha a certeza: se no altos tivesse nascida seria outra pessoa. Só não sabia, com precisão, qual a extensão da diferença. Mas, que ela existiria, dúvida não tinha.
Sugiro a leitura do artigo do Luís Fernando Veríssimo, publicado no jornal O Globo, em 07/5/15.
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Luís Fernando Veríssimo                 verissimo

Sua biografia já foi decidida, antes de você nascer. Quem a decidiu você nunca soube quem foi. Seu destino está fixado nas estrelas, mas as estrelas se movem

Você nasceu num vilarejo da África Equatorial. Não importa o seu nome, você é uma entre milhares. Além das outras desgraças que a esperavam, você nasceu mulher. Sobreviver ao parto já foi uma vitória sobre as estatísticas. Chegar viva à sua idade sem sofrer qualquer tipo de mutilação foi um milagre. Sua mãe morreu de uma epidemia, você mal a conheceu. Seu pai você nunca soube quem foi. E seu destino está fixado nas estrelas. Deve haver uma palavra na sua língua para “destino”. Talvez seja a mesma palavra para “danação”. Sua biografia já foi decidida, antes de você nascer. Quem a decidiu você também nunca soube quem foi. Seu destino está fixado nas estrelas — mas as estrelas se movem. Não estão fixadas no mesmo lugar todas as noites. E algumas fogem. Você vê os riscos que deixam no céu as estrelas que fogem. E você decide fugir também. Fugir do seu destino. Fugir da danação. É pouco provável que exista o termo “livre arbítrio” na sua língua. Você o descobre em você. Você inventa sua própria liberdade. E você foge da sua biografia. Com outros do seu vilarejo, caminha para o Norte, para o Mediterrâneo. Não morre no caminho — outro milagre! Não morre sufocada no barco abarrotado de fugitivos que atravessa o Mediterrâneo. Não morre afogada antes de chegar ao seu outro destino, o destino que você escolheu. E começar outra biografia. Ou: Você nasce numa cidade chamada Londres. Seu nome não só importa como é sujeito de uma especulação nacional, até ser escolhido. Sua mãe é linda, seu pai é rico e tem emprego garantido, sua foto provoca êxtases, você já é uma celebridade internacional. Ah, e um detalhe: você é a quarta na linha de sucessão ao trono da Inglaterra. Dependendo da disposição das estrelas, pode acabar rainha. Nada lhe faltará. Mas mesmo que queira, jamais poderá fugir da biografia que prepararam para você. Danação.
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INDIGESTÃO
04/05/2015 | 10h18

O ponto da ganância verissimo

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho — ou ficam melhores ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas). O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da Era Vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existia o indivíduo e suas fomes. Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela Sra. Thatcher. No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim. Claro que, para isso funcionar, é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira. O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja Medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usuários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.
Publicado hoje no O Globo
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"Ponha-se no lugar de Dilma: o que você faria?"
27/03/2015 | 08h59
ddd Ponha se no lugar de Dilma: O que você faria? O título acima é inspirado no livro Ah, se eu fosse presidente _ O Brasil ideal na opinião de grandes brasileiros famosos e anônimos, organizado pelo jornalista Sidney Rezende, que acaba de ser lançado pela Alta Books Editora. Ponha-se no lugar de Dilma: o que você, caro leitor, faria se fosse presidente? É impressionante como agora todo mundo sabe o que a presidente Dilma Rousseff deve fazer para sair da encalacrada em que se meteu, da mesma forma como se comentava o que Felipão deveria fazer com a seleção brasileira durante a Copa do Mundo. Em lugar do "Fora Felipão", entrou o "Fora Dilma". O nível das conversas é mais ou menos o mesmo. Nunca os brasileiros falaram tanto de política, a todo momento, em todo lugar, nem mesmo no auge do segundo turno da campanha presidencial do ano passado. "Eu não quero saber de política, eu não gosto disso", cansei de ouvir até outro dia, quando o assunto surgia numa roda. Pois neste momento está acontecendo exatamente o contrário. Isto tem um lado bom, o interesse em discutir os destinos do país, e revela, ao mesmo tempo, um assustador desconhecimento sobre como funcionam nossas instituições. Chuta-se para todo lado e qualquer boato ouvido no rádio, espalhado nos táxis ou lido nas redes sociais vira verdade absoluta. Tem gente que se gaba de não pagar mais impostos, "para não entregar meu suado dinheiro aos vagabundos do bolsa família", sem se dar conta de que está confessando um crime. Pelas leis em vigor, afinal, quem sonega pode ir para a cadeia Este ano, os procuradores da Fazenda Nacional calculam que a sonegação de impostos baterá nos R$ 500 bilhões _ ou seja, pelo menos dez vezes mais do que o governo pretende economizar com o pacote fiscal. E todas as corrupções somadas não chegam nem perto desta sangria incontrolável do Tesouro Nacional, mas ninguém quer falar disso, não dá manchete. Outros não fazem a menor distinção entre as diferentes responsabilidades constitucionais dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, atribuindo todos os nossos males, genericamente, ao "governo do PT", e colocando a culpa em Dilma Rousseff, que, diga-se a bem da verdade, contribuiu bastante para que chegássemos a esta situação. Discussões histéricas e estéreis se multiplicam em todos os ambientes sociais, misturando ignorância e má-fé, como se o Brasil fosse acabar amanhã. Neste clima, confesso, estou pela primeira vez na vida preocupado com o futuro _ da minha família e do país. Depois de ficar uma semana fora do Balaio e procurando me manter afastado do noticiário, em defesa da minha saúde mental, bastaram algumas horas na volta a São Paulo para sentir este ar pesado que nem as chuvas dos últimos dias conseguiram levar embora. Cada um tem sua solução mágica para resolver todas as crises de uma vez, do impeachment da presidente à prisão de todos os políticos, da renúncia à volta dos militares ou a novas eleições, de um grande diálogo nacional ao encolhimento do ministério, do fechamento dos partidos à convocação do papa Francisco para dar um jeito no Brasil. Além de economistas e técnicos de futebol, viramos agora todos estrategistas políticos, embora a maioria nem saiba do que se trata. Virou o Samba do Indignado Doido. Já que dar palpite não custa nada, eu mesmo pensei no que faria se fosse eleito presidente da República (Deus me livre!), atendendo ao pedido do Sidney Rezende para contribuir com o livro citado na abertura deste texto. Escrevi antes das eleições de outubro: "Antes mesmo de tomar posse, chamaria os lideres de todos os partidos e representantes da sociedade civil para discutir um projeto de reforma política ampla, geral e irrestrita que seria enviado ao Congresso Nacional no primeiro dia do meu mandato. O ideal seria discutir os pontos centrais deste projeto durante a própria campanha eleitoral, o que nenhum candidato fez até agora. Sem isso, qualquer outra proposta de mudança no país seria inútil, mera demagogia, inviável. Com o atual sistema político-partidário-eleitoral, o Brasil é um país ingovernável, seja quem for eleito presidente da República". Infelizmente, minhas piores premonições se confirmaram, bem mais cedo do que eu esperava. Vida que segue.
Perfil que consta na primeira página do blog:
No blog Balaio do Kotscho, cabe qualquer assunto. Quem manda é o freguês. Paulista, paulistano e são-paulino, Ricardo Kotscho, 65, é repórter desde 1964. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos da imprensa brasileira, nas funções de repórter, repórter especial, editor, chefe de reportagem, colunista, blogueiro e diretor de jornalismo. É atualmente comentarista do Jornal da Record News e repórter especial da revista Brasileiros.
Foi correspondente do Jornal do Brasil na Europa, nos anos 1977-1978, e exerceu o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República no governo Luiz Inácio Lula da Silva, no período 2003-2004. Ganhou os prêmios Esso, Herzog, Carlito Maia, Comunique-se, Top Blog e Cláudio Abramo, entre outros. Em 2008, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Imprensa da ONU. Tem 20 livros publicados, entre eles, Do Golpe ao Planalto - Uma vida de repórter (Companhia das Letras), A Prática da Reportagem (Editora Ática) e Vida que Segue (Editora Escrita Fina). É casado com Mara, pai de Mariana e Carolina, e avô de Laura, Isabel e André. Ler o blog, aqui
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Pra pensar
10/01/2015 | 07h55
Os últimos acontecimentos na França, colocam sérias questões para os futuros possíveis que estão por vir (já se anunciaram) e que, de algum modo, repercutirão em todo o mundo. Amanhã, domingo (11/01), assistiremos a uma mega manifestação na capital francesa (Paris), cidade oprimida pelos atos terroristas recentes. Dela participarão, primeiro a população indignada, fiel às liberdades democráticas, aos ideais que fizeram daquela república um baluarte da convivência entre os diferentes, do estado laico, da garantia aos direitos civis. Em segundo, líderes e representantes governamentais de meio planeta, muito deles - por ação ou omissão - corresponsáveis pela radicalização crescente entre Oriente e Ocidente.
As redes sociais foram tomadas por dois virais: "Eu sou Charlie" e "Eu não sou Charlie". Não há como ignorar os acontecimentos. Declararei-me, desde o início da carnificina: Eu sou Charlie, porque no momento trata-se de defender o direito à livre expressão do pensar. O momento é de unidade na defesa da democracia que a duríssimas penas foi conquistada, aqui como lá. Trago o artigo abaixo como uma contribuição, sugiro que leiam.

O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo é apenas a ponta do iceberg. A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio.

 

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior, é apenas a ponta de um iceberg.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antanho. De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa. Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas. Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem “à la cria”, como se dizia, em ações que parecem “espontâneas” e até “amalucadas”, mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaïda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo. Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira do anti-islamismo também fanático como meio de arregimentar “as massas” em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas. No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudamente universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes. Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos). Na Itália este fascismo latente se organiza com o nome de “Liga Norte”, mobilizando o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações. Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida. O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido. Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos. Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da exprema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”. Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a “defesa da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os assassinos do Charlie Hebdo gritavam – segundo testemunhas – estarem “vingando o profeta”, referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale, também no ano passado,  recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em “seus territórios”, não na Europa agora dita “judaico-cristã”, puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio. Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin. Durante mais de uma década as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães. No momento o “grande terror” que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade. Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica. Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será, nem para a Europa, nem para o mundo. (*) Originalmente publicado no Blogue do Velho Mundo, na Rede Brasil Atual. Fonte: aqui
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Dos Achados
27/11/2014 | 09h45
Dias atrás estive no Mosteiro Zen Morro da Vargem,  no vizinho estado do Espírito Santo. Neste ano comemoram-se os 40 anos da fundação daquele que é o mosteiro budista mais completo da América Latina. Instalações na medida exata: amplas, despojadas, funcionais, bem bonitas. Dispostas em “uma área de 150 hectares, 140 deles reservados exclusivamente para a preservação e recuperação da Mata Atlântica. Os 10 hectares restantes são ocupados com templos, jardins e com agricultura de subsistência. Esse modelo de ocupação foi destacado, em 1997, pelo Ministério do Meio Ambiente, como uma das mais bem sucedidas experiências brasileiras de desenvolvimento sustentável.” Quem se propõe a conhecê-lo verifica com seus olhos a dimensão da obra que nos enche de orgulho. Participei do último Sesshin (retiro) de 2014. Grupo grande de 80 pessoas vindas de várias localidades do país. Fui pela terceira vez em busca de uma reafirmação de valores. Não é um passeio de distração, definitivamente não. A jornada - ainda que cercada pela natureza exuberante da pequena montanha - é trabalhosa espiritualmente, exige esforço mental e físico, mas, nos deixa o rastro dos significados essenciais à vida, saberes abafados pelo cotidiano superficial da sociedade que construímos. É um momento de silenciar, de “não- agir”, de imobilizar (nos inúmeros e prolongados tempos de meditação) o corpo físico, de esvaziar a mente e de praticar a disciplina. Produz efeitos duradouros. Cito, sem dogma, uma máxima do Budismo, por ela perceberão que nos sugere a integração plena no universo. Estar integrado é nos perceber parte do todo maior: rico, diverso, contínuo. Ainda que sejamos individualmente finitos, a vida não o é. Saber nos servir dela, tirando o justo necessário, sem deixar restos, presente no momento e respeitando a si e ao outro. “Estudar o Zen/é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo/é se esquecer de si mesmo. Esquecer de si mesmo/é estar uno com todas as coisas.” Mestre Dogen Seguem algumas imagens do Mosteiro Zen. Sugiro que pesquisem, com curiosidade, o sítio http://www.mosteirozen.com.br . IMG_3754 IMG_3627 IMG_3742 IMG_3696IMG_3608
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Campos saiu ganhando
06/10/2014 | 02h41
Essa é a certeza que carrego do resultado eleitoral de ontem. A derrota histórica do Garotinho em Campos (abaixo de 40% dos votos locais), a sua não ida ao 2º turno da eleição para governador, tem esse conteúdo para a nossa cidade. Um orçamento bilionário que se escoa pelo ralo; uma prefeitura que não paga em dia o que contrata, que definitivamente ignora os agentes culturais independentes, que descuida da educação dos seus, que despreza a saúde do cidadão, uma população que não atura mais ser engambelada por discursos populistas. Mais do que nunca, é hora de juntar forças. A oposição em Campos, também não se saiu bem: está pulverizada, presa a interesses de partidos, precisa urgente se renovar. Falta, hoje, uma liderança que catalise essa vontade de mudança expressa na fraca votação do casal governante - apesar do imenso poderio da máquina.  E tenho a convicção de que o novo sairá se for colado ao cotidiano da população campista. A cidade de Campos, mudou, cresceu, não é mais aquela Campos de 20 anos atrás, nem de dez!  As relações sociais são outras, a economia se diversificou. Basta andar pelas ruas e ver as caras novas que circulam com seus problemas e anseios, alheios à elite tradicional e à política vigente. É preciso pensar grande, acima dos interesses individuais de grupos, pois, a oportunidade de virar a página nas eleições municipais de 2016 está dada. Para esta modesta blogueira, ainda que seus candidatos proporcionais, tenham ido mal, o gosto final  é o de vitória, é bom. Do tanto que li de avaliações e comentários sobre o pífio resultado eleitoral da dupla poderosa, cito duas. Falam por mim: "Mas o tempo não levou os ataques inconsequentes, lhe trouxe prepotência e um caminhão de ex-amigos, que são bem piores que inimigos".  (frase de Gustavo Matheus que pincei, o negrito é meu) "Perdeu para o Crivela com uma diferença que Campos poderia dá-lo, mas preferiu ignorar os professores, condenar a Orquestra Orquestra Coro Municipal de Campos ao descaso total, a paralisação das obras entre outras. Dá nisso!!!" (do jovem músico Charles Vianna, na rede social) Até o final do ano, irei dar uma retirada leve, do blog e das redes sociais. Peço paciência, por vezes postarei. É o meu tempo. Um abraço,  
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Ausência de si
21/04/2014 | 02h33
“O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes”. Mia Couto

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Sobre o autor

Luciana Portinho

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