Flip, território da liberdade do pensamento
04/07/2015 | 12h27
Talvez uma das mais interessantes características da Flip seja a de propor linhas de pensamento diferentes para um mesmo tema. Em princípio, não existem tabus que não possam publicamente ser debatidos, alias se assim não fosse o evento não completaria, sem deixar a peteca cair, a sua 13ª edição e, também convocaria as nuvens, não seres humanos que pensam e escrevem o que pensam. [caption id="attachment_9120" align="alignleft" width="338"]ANTONIO RISERIO foto O Globo[/caption] A mesa “A cidade e o território”, abriu o segundo dia da Festa Literária Internacional de Paraty 2015. Reuniu o antropólogo baiano Antonio Risério e o poeta carioca Eucanaã Ferraz. Dois enfoques. Risério apontou a necessidade de encarar a situação catastrófica das metrópoles brasileiras: “não temos mais tempo para pensar uma cidade ideal, como fizeram os modernistas, hoje, a cidade ideal é a necessária, nos falta tempo”. Ferraz argumentou que a poesia traz consigo um urbanismo, pois age num terceiro espaço entre o real e a imagem do real. Na sua fala, o antropólogo começou analisando o duplo sentido das grandes cidades brasileiras com seus centros históricos: “duas cidades funcionando dentro de uma”, o que leva a um terceiro modelo que é “o que queremos construir: nem a cidade barroca escravista, tampouco a cidade capitalista que geram as periferias de excluídos”. Para ele, o centro antigo é o elemento central de uma identidade cívica que se deseja preservar, “é uma missão de todos num contexto em que avança a segregação sócio territorial”. — Temos que enfrentar a realidade e construir um chão compartilhável, uma narrativa comum. Mas como compartilhar um discurso, uma meta, se habitamos lugares tão diferentes e distantes. Sob o signo da segregação sócio territorial e das suas fraturas não é possível se manter saudável. Caso não nos organizemos, podemos nos encrencar de vez — afirmou Risério. — Não há nenhuma catástrofe a caminho, a merda já aconteceu. Só nos resta tentar remendar a idiotice planetária que já aconteceu. Ao responder a uma pergunta da plateia, pediam sua opinião sobre as ciclovias de São Paulo, o antropólogo afirmou que o debate não deve se centrar na construção ou não das pistas exclusivas para bicicletas, mas no fenômeno urbano onde elas estão inseridas. Ele elogiou o prefeito paulista Fernando Haddad (PT). — São Paulo é um fenômeno sócio territorial especifico com seus viadutos, como o Minhocão, frutos da engenharia da ditadura e do Paulo Maluf. Com Haddad, pela primeira vez vejo alguém tentando discutir a cidade enquanto questão urbanística. A ciclovia não é o problema. Acontece que esse cara está encarando o automóvel – disse Risério, provocando aplausos do público. [caption id="attachment_9122" align="alignleft" width="331"]EUCANAÃ FERRAZ foto. O Globo[/caption] Ferraz iniciou sua participação recitando os versos de “Lira paulistana”, poema de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip: “Quando eu morrer quero ficar / Não contem aos meus inimigos / Sepultado em minha cidade / Saudade”. Seu objetivo foi ilustrar a inflexão praticada pelos modernistas ao abraçar a metrópole na década de 1920, enquanto toda linhagem anterior, Olavo Bilac à frente, a recusava. Para o poeta, a poesia é um fato social, “ela nos fala, é uma materialidade entre outras materialidades, é uma matéria que se instala entre outras matérias, daí seu valor urbanístico”. Menos do que um discurso excepcional e sacralizado e também não restrito ao sentimento do sujeito. Trata-se de uma matéria que entra em relação com outras matérias na cidade. — O urbanista Giulio Carlo Argan diz que faz urbanismo quem produz valor e o coloca em circulação. A poesia tem um alto valor de imaginação e se põe como valor, junto de outros valores, na cidade. Ela tem uma função, mesmo que não seja normativa – disse Ferraz, autor de uma tese de doutorado sobre a relação entre poesia e arquitetura. — É o terceiro espaço que a poesia põe em questão com o seu urbanismo, um espaço que não é nem a realidade nem a imagem dessa realidade. A poesia é uma ameaça, disse Eucanaã Ferrraz. No fim da mesa, quando comentava sobre três mulheres importantes da arquitetura moderna nacional – Carmen Portinho, Lota Macedo Soares e Lina Bo Bardi -, Risério criticou nomes badalados internacionalmente, como Santiago Calatrava e Frank Gehry. Segundo o antropólogo, cada arquiteto fazendo a sua escultura e “foda-se o resto”, não pensam no entorno e deu como exemplo a Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. A mediação da mesa foi do poeta e curador João Bandeira.  
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Solar dos Airizes: alívio e preocupação
14/07/2014 | 12h22
É como fico com a notícia veiculada ontem, (13/07),  na Folha da Manhã, sobre a venda do Solar dos Airizes.  O novo dono, segundo informação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é uma empresa particular, a Vittek Participações e Empreendimentos. O proprietário anterior Nelson Lamego, disse à reportagem que o imóvel foi adquirido por uma empresa do Paraná, responsável pela construção de condomínios residenciais. [caption id="attachment_8324" align="aligncenter" width="500" caption="Foto. Hellen de Souza, Folha da Manhã"][/caption] O Solar dos Airizes, é uma das pérolas do patrimônio histórico regional. Era motivo de aflição para todos os que se interessam por preservar a história arquitetônica e cultural da região norte fluminense. Está localizado à margem da BR-356, (Campos – São João da Barra), a 6km da cidade, na localidade de Martins Lage, lado direito do rio Paraíba. Foi construída, no início do século XIX,  pelo Comendador Claudio de Couto e Souza, toda em esteios de madeira de lei e tijolos. Edificação característica dos imensos sobrados da região; dois andares, 60 metros de fachada. Até 1896,  nos fundos havia um engenho que foi demolido. Estive por duas vezes em seu interior com sérios problemas estruturais, risco de desabamento que se agrava a cada dia. Possui uma das capelas mais "femininas" que visitei. Linda. É minha esperança que passe urgentemente por uma restauração e que obtenha nova função social. É minha preocupação que de fato venha ter, afinal as obras não são de pequena monta, requerem projeto adequado e recursos financeiros. Não poderia deixar de expressar o meu absoluto desconcerto face à inapetência da prefeitura de Campos, e mesmo do governo do estado do Rio, em não ter feito a aquisição, restauração e instalação de um Museu (ou Centro Cultural) público municipal ou estadual. Como patrimônio histórico nacional, enfim, continuamos de olho. Boa vida ao Solar dos Airizes!!  
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O MAUSOLÉU DO CORONEL
15/01/2014 | 11h30
Conheci o Maranhão na juventude, é um Estado de se apaixonar de primeira. Passava algumas férias, de verão ou de inverno, em um sítio na Praia do Olho D'Água, na capital São Luis. Tudo nela me atraia: a negritude do povo, as praias de água turva e da areia socada pelas enormes marés a perder de vista. A batida do tambor ou da matraca dos Bois, de arrepiar. Apurei o gosto de cozinhar por lá; nas tapiocas, no arroz de cuxá, no preparo do caruru com o camarão salgado vendido a granel em qualquer biboca, nas frigideiras de sururu. Tudo acompanhado por um refrigerante rosa claro "Guaraná Jesus" ou pela saborosa cerveja Cerma, precedida por um gole de Tiquira (feita da mandioca), segundo eles a verdadeira aguardente brasileira . Das frutas, impossível não lembrar do cupuaçu, do carnudo bacuri, dos doces sapotis e dos estranhos abricós. São Luis combinava descaso e desigualdade social, muita pobreza sem memória com história, rico patrimônio material com musicalidade e poesia. Sua gente, se recostava e até dormia nas redes,  isso valia para qualquer classe social. De verdade aprendi com os maranhenses a usar a rede atravessada, como os indígenas. Na primeira noite dormida, caí da cama. Era janeiro - para eles inverno - , época das chuvas, acordei com o céu desabando na cabeça, corpo já no chão. Foram, até hoje, as chuvas mais torrenciais seguidas que já presenciei. Na manhã seguinte? Sol, como se nada tivesse havido. Passávamos as tardes mornas sob a brisa dos babaçus. A São Luis de então, não chegava a 500 mil habitantes. Fora do centro histórico, tinha ares de roça rasgada, longas distâncias a percorrer, meio desabitada. Estar em São Luis sem ir a Alcântara era como não ter completado a viagem. Acho que eram duas horas de enjoo no barco, de mar batido na boca da barra. Lá, era como se tivéssemos aportado pelo túnel do tempo no passado. E ainda tinha a simpática Ribamar e todo o interior. Este, por natureza lindo e humanamente miserável. Foram aulas práticas de Brasil. Dava dó ver fachadas inteiras de azulejos coloniais belíssimos saqueados por uma elite que em troca dos "velhos" azulejos da história acenava, aos moradores, com modernos azulejos "Klabin". Era o que mais se via, tanto na ilha quanto no continente (Alcântara). Tempos depois, em uma dessas revistas de fofoca, li entrevista com a já governadora Roseana Sarney. Ela mostrava, sua casa vasta, repleta de obras de arte sacra, inclusive para meu espanto, um altar?!  Chocante, mesmo. Mais recente voltei a São Luis a trabalho - encontrei tempo de conhecer a maravilha natural que são os Lençóis Maranhenses. Me deparei com uma cidade de 1 milhão de habitantes, frequentada por turistas europeus (franceses em sua maioria), alguns de seus imponentes sobrados restaurados onde foram instalados restaurantes com uma culinária e serviço sofisticados. Pelo centro histórico, intervenções de arte popular e, como não poderia deixar de ser, souvenirs de todos os gostos. O mesmo povo mestiço lascado pela pobreza. E música e poesia declamada. Registro essas lembranças como introdução ao artigo abaixo, do jornalista Sebastião Nery, escrito em 2007 e publicado ontem, 14/01, no site www.jornalpequeno.com.br, ver aqui . A leitura esclarece o tempo presente do Maranhão. SEBASTIÃO NERY O MAUSOLÉU DO CORONEL São Luís (MA) – Fernando Sarney, o filho empresário do senador José Sarney, pegou de manhã o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, no belo São Luis Resort Hotel, na praia do Calhau, aqui em São Luis, e o levou à casa do pai, um majestoso e coronelado quarteirão cheio de árvores e todo cercado de muro branco, bem ao lado do hotel. Quando entraram, Fernando foi logo com Mário Soares para um salão repleto de riquíssima coleção de objetos e imagens sacras de muitos séculos. Fernando mostrando, explicando, e Mário Soares olhando, perguntando, surpreso com tanto santo, de tantos séculos, na coleção de um cristão só. Depois de ver tudo, Mário Soares foi saindo: - Tudo bem, obrigado, já vi o museu, agora me leve à casa do Sarney. Sarney vinha chegando. Só então Mário Soares percebeu que o museu era apenas uma sala do casarão do “Coronel do Calhau”. SARNEY A marca macabra do letrado acadêmico dono da casa está logo na entrada. O portão de ferro do casarão, antigo, esverdeado e patinado, é um secular portal tirado do tombado cemitério de Alcântara. As duas pilastras de granito que sustentam o portão também saíram do cemitério de Alcântara. O mágico e fúnebre sopro da morte não está só aí. Castro Alves, cantando a batalha do “2 de Julho” da Bahia, disse que “o anjo da morte pálido cosia uma vasta mortalha em Pirajá”. A maior batalha de Sarney, aqui no Maranhão, nem foi, como se poderia imaginar, a trágica e acachapante derrota de Roseana na eleição para governador. É a luta por seu mausoléu: - “Num belíssimo jardim, no pátio externo do Convento, cercado de imensas palmeiras imperiais e de um exemplar de pau-brasil, está um retângulo, com três metros de largura por seis de comprimento, isolado por grossas correntes de ferro e coberto de granito preto”. O mausoléu do coronel. OLIGARQUIA É uma história metade Freud metade Odorico Paraguassu. Está contada em dois excelentes livros maranhenses: – “Sob o Signo da Morte: o Poder Oligárquico de Vitorino a Sarney”, do professor Wagner Cabral da Costa, mestre da Unicamp, “uma radiografia do poder oligárquico”: - “Sarney pretende erigir em seu nome um museu-mausoléu em São Luis. Por meio de uma fundação privada e utilizando-se de uma vasta rede de tráfico de influência, que abarca vários governadores do Estado, Assembleia, Justiça, Senado, pretende estabelecer uma espécie de Taj-Mahal maranhense, um monumento à morte, que celebra a dominação política dos vivos”. O outro é “O Caso do Convento das Mercês”, do jovem jornalista, formado em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, Emílio Azevedo. Minuciosamente, documentadamente, ele conta a história de um esperto golpe dado por Sarney e seus amigos para transformar o histórico Convento das Mercês, patrimônio público, em propriedade familiar. CONVENTO 1. – “Poucos dias antes de deixar a Presidência da República em 1990, Sarney vai ao cartório de sua irmã, em São Luis, e cria a Fundação José Sarney, para ter, ilegalmente, a posse, o domínio, a propriedade do histórico Convento das Mercês, onde o Padre Antonio Vieira fez muitos de seus sermões. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com mais de três séculos e meio de história, comprado pelo Estado à Arquidiocese de São Luis em 1905, ocupa uma área de 6.500 m2, integrando um conjunto arquitetônico considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade”. 2. – Em 90, o governador Cafeteira, aliado de Sarney, gastou 9 milhões e meio de dólares na reforma do Convento, propôs e a Assembleia aprovou sua doação para uma “Fundação da Memória Republicana”. Era um disfarce. Logo o nome foi trocado para “Fundação José Sarney”. Assumindo, o vice João Alberto, o “Carcará”, assessor de Sarney, fez um decreto de “uma doação firme e valiosa (sic) transferindo para a Fundação José Sarney todo o domínio, posse, direito e ação sobre o Convento, para que possa usar e gozar livremente como seu”. E pôs a doação em “escritura pública em cartório, em junho de 90?. SENADO E SUPREMO 3. – O deputado Freitas Diniz, dos Autênticos do MDB e fundador do PT, protestou. O Ministério Público denunciou e a Assembleia aprovou projeto do deputado Aderson Lago “anulando a doação” e “assegurando ao acervo privado do Memorial do ex-presidente a permanência no Convento”. Mas o Senado, numa ação de curriola jamais vista, foi ao Supremo Tribunal “em defesa dos direitos de um senador”. E o Supremo, minúsculo, anulou a decisão da Assembleia e garantiu o Convento como propriedade dos Sarney. 4. – Em entrevista à “Carta Capital” de 23 de novembro de 2005, Sarney disse que seu mausoléu “será um atrativo turístico e, no futuro, até ponto de peregrinação” (sic). E começou a faturar o mausoléu. Além dos US$ 9,5 milhões já gastos, a Fundação alugou ao Estado parte do Convento por R$ 80 mil mensais, recebeu mais R$ 1.139.142,72, tomou R$ 1.348,005,00 da Petrobras, tem gordas verbas anuais do Orçamentos Federal e comercializa para casamentos, festas, quermesses, shows. Nunca se viu cova tão rentável.
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A Torre campista
09/10/2013 | 09h16
Dar de cara com ela nos faz erguer a cabeça para enxergá-la em sua boniteza. É pedaço de uma Campos, pura e simples: Campos, sem complementos. Está lá meio abafada, parece até que cresceu mais ainda para sobressair  do entorno e clamar, “Sou memória! Me preservem, me salvem como um marco solitário de uma época fabril.” [caption id="attachment_6989" align="aligncenter" width="600" caption="Ft.Luciana Portinho"][/caption]

Não desconfio quem seja o dono legal, se o estado ou o município, mas, com afeto lhes afirmo: legitimamente é de todos, pertence à nossa história.

Procurei verificar se é tombado aqui no blog do Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal – Coppam -, nada encontrei. Olhei a lista de bens tombados pelo Inepac no mesmo blog, também nada. Fica a sugestão, de que a Torre da extinta Fábrica de Tecidos da Lapa, seja protegida e tombada pelo município, antes que algum prédio modernoso ocupe o seu lugar de direito.  
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PARECE QUE VALEU
16/07/2013 | 04h13
Finalmente tudo indica que a luta da sociedade civil pela preservação do patrimônio histórico em Campos,  ganha corpo. Quem não se lembra da derrubada  noturna - no início de 2013 -,  do Casarão protegido pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal (Coppam), situado na esquina da Rua Saldanha Marinho com Treze de Maio. O arrepio foi tanto que na época o Ministério Público Estadual exigiu a não retirada do resto dos entulhos,  se posicionou pela sua reconstrução e proibiu a exploração comercial do terreno. Bom, ontem de noite por acaso passei a pé e verifiquei que o terreno foi esvaziado de veículos , os acessos foram cercados por entulho propositalmente disposto como em uma barricada. [caption id="attachment_6683" align="aligncenter" width="600" caption="fts. Luciana Portinho"][/caption]

Passei hoje de novo para me certificar. Conversei com vizinhos e populares, estes ouviram falar que foi de fato uma ação do MP.

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Sobrado de dar gosto
03/06/2013 | 05h13

Toda casa de dois pavimentos é um sobrado. Talvez algumas pessoas associem a imagem de um sobrado aos de antigamente, aqueles de face de rua em que geralmente acomodavam a família no andar superior e no térreo o estabelecimento comercial. Os tempos passaram, as casas residências se deslocaram para bairros mais afastados da área central de Campos; por motivos de segurança e comodidade de serviços foram dar origem aos condomínios fechados. Neles, o sobrado domina. Como testemunha o arquiteto, urbanista e articulista da Folha da Manhã, Ronaldo Linhares, as pessoas preferem casas de dois pavimentos.

[caption id="attachment_6422" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Ronaldo Linhares"][/caption]

Ele explica a razão, “Os terrenos, em média, nos condomínios têm 400 m² e a média das construções possuem 300 m². Até pela lei do código de obras municipal a taxa de ocupação do terreno não pode exceder os 60%”, esclarece Ronaldo. A taxa de ocupação é o percentual do terreno ocupado pela a construção do pavimento térreo. “Quanto menor é a taxa de ocupação, mais condições temos para a qualidade do espaço arquitetônico, ou seja, mais visão dos jardins, melhores condições de interação com a paisagem, melhor iluminação e aeração natural. Dá para dispor de um bom posicionamento para salas e serviços na parte de baixo e quartos na de cima”, diz o arquiteto.

Outro fator que também influi para a opção na construção de sobrados é o valor imobiliário, cada vez mais elevado, do terreno.
Na média falada pelo arquiteto de 300 m² de área construída em dois pavimentos, as casas têm quatro quartos, sendo um multiuso, área de lazer, varandão, otimização dos espaços com a cozinha integrada por vidros ou ainda área de lazer anexa ao varandão que também serve como sala de jantar. Ronaldo Linhares, prima pela poesia arquitetônica em seus projetos “A arquitetura é a valorização da paisagem”, destaca. “O sobrado pode ter níveis intermediários, uma das suítes embaixo, um home theater multiuso que também se transforme em suíte”, ele divaga ao evocar o desenho e funções das construções.

[caption id="attachment_6420" align="aligncenter" width="600" caption="Ft. Ronaldo Linhares"][/caption]

Nos dias atuais, há uma tendência em telhados embutidos, é um estilo contemporâneo, além de mais econômico com relação aos telhados aparentes. “Favorece mais a liberdade de criação de formas excêntricas bonitas, não há a necessidade de concordância dos telhados que quando existem obrigam a casa em se adaptar ao telhado”, esclarece ele.

Mesmo que a peça para o leigo tenha só uma função, Ronaldo Linhares vê além, “Veja, a escada, pode ser um elemento de valorização da própria casa. Há que ter correto dimensionamento com um espelho (altura entre um degrau e o outro) adequado, dará mais suavidade, um patamar de descanso bonito”. E frisa, “Uma casa é para a cidade e é também a área de um lar”.
O arquiteto gosta de ser útil na arquitetura e no urbanismo, ao pensar em uma escala maior, a do uso do solo, do transito e do transporte coletivo da cidade que ama. Ressalta mais importante do que são as casas, “É conceber lares, tenho que ser um pouco psicólogo, entender o interior, ver o entorno, observar a paisagem urbana, é como diz o ditado oriental: sábio é valorizar as virtudes e corrigir os defeitos”, finaliza.

Luciana Portinho
Folha Casa de hoje, 03/06.

 

 

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Indios saem. Prédio fica.
28/01/2013 | 07h55
Uma história de final feliz quanto ao respeito do patrimônio cultural e histórico. Falo do prédio construído em 1862, que abrigou o Museu do Índio, na capital do estado. Notem que o imóvel, ainda não estava tombado, sim listado pelo Conselho de Proteção do Patrimônio Cultural do município do Rio de Janeiro que desde o início se manifestou contrário à demolição. Depois de posicionamentos difusos e controvertidos das autoridades (municipal, estadual e federal), enquanto a sociedade civil enfáticamente defendeu a preservação da memória, venceu o bom senso. [caption id="attachment_5704" align="aligncenter" width="550" caption="Agência Brasil"][/caption] Nota do governo do estado (divulgada na imprensa hoje, 28/01) "O Governo do Rio de Janeiro decidiu preservar o prédio do antigo Museu do Índio, no Maracanã. O Estado ouviu as considerações da sociedade a respeito do prédio histórico, datado de 1862, analisou estudos de dispersão do estádio e concluiu que é possível manter o prédio no local. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes vão agora tomar a iniciativa de fazer o tombamento do imóvel. O Governo está tomando as devidas providências para que o local seja desocupado dos seus invasores. O Governo do Estado comprou em 2012 da Conab o imóvel, composto por esse e outros prédios, pelo preço de RS 60 milhões. O Ministério da Agricultura já está desocupando os demais prédios existentes no local, que serão demolidos para garantir o fluxo de pessoas no entorno do estádio. O restauro do prédio do antigo Museu do Índio ficará a cargo do concessionário vencedor da licitação do Complexo do Maracanã, cujo edital sairá em fevereiro. O destino do prédio, após o tombamento, será discutido conjuntamente entre o Governo do Estado e a Prefeitura do Rio de Janeiro". Breve histórico A área disputada entre o governo e os índios pertenceu ao Duque Luís Augusto de Saxe, marido da princesa Leopoldina, filha mais nova de D. Pedro II.  Ali, entre 1850 e 1890, ficava o Palácio Leopoldina. Em 1915, o marechal Rondon criou, no prédio, o Serviço de Proteção ao Índio, atual Funai. Em abril de 1953 foi criado o Museu do Índio. Em 1977, sob direção de Darcy Ribeiro, o museu foi transferido para Botafogo, zona sul. Os índios ocuparam o espaço, que estava abandonado, em 2006.
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Em busca de tombamentos
27/01/2013 | 04h17
[caption id="attachment_5684" align="alignright" width="390" caption="Ft. Folha da Manhã"][/caption] A demolição do Casarão histórico que integrava o acervo histórico-cultural de Campos, na calada da noite do primeiro sábado do ano, sem autorização do Município mexeu com os formadores de opinião da cidade, demandou pronto posicionamento da sociedade civil organizada, do executivo municipal e do poder judiciário. Foi também o assunto que abordou o promotor do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Marcelo Lessa Bastos, em seu artigo semanal publicado na Folha da Manhã, na última quarta-feira. Nele, o promotor (logo de cara) em suas palavras classifica a demolição como um ato ilícito: “O ato, sem dúvida alguma, foi ilícito, isto pelo simples fato de não ter sido precedido de autorização do Município. Como agravante, há ação judicial em curso, em que os então proprietários postulam que o juiz obrigue o Município a dar autorização para a demolição. Todavia, não há nenhuma decisão judicial, definitiva ou liminar, acolhendo a pretensão do autor, de sorte que a demolição se deu mesmo “na mão grande”, ao arrepio de qualquer autorização, administrativa ou judicial. Agrava ainda mais a situação se tratar de imóvel listado no plano diretor como de interesse histórico-cultural-arquitetônico”. No artigo, Marcelo Lessa faz a chamada ao poder público municipal. “O tombamento é ato administrativo que depende da iniciativa do Município. A partir dele, ficará fora de discussão não só a impossibilidade de demolição, como a obrigação de preservação do imóvel que for tombado. E isto com a publicidade desejável, já que o tombamento será aver-bado no registro de imóveis”. Sobre a “cobrança” do MP, o presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Municipal (Coppam), Orávio de Campos se justifica, “Todos os que estão na lista de tombamento, tomaram ciência através do Diário Oficial, lamentavelmente, o processo é lento, a parte burocrática exigida é trabalhosa, tem que ser bem fundamentada, explicar o porquê do imóvel ser tombado. Dr. Marcelo está cheio de razão, é moroso o processo, temos que aproveitar toda boa vontade do MP. O ato de tombamento do imóvel é exclusivo do presidente do Coppam. Faremos, na segunda e teça-feira próximas uma reunião administrativa da equipe que acelere o processo e talvez já libere o primeiro lote”, finalizou. Marcelo Lessa ainda que reconheça a irreversibilidade do desmonte do patrimônio histórico-cultural indica a disposição do Ministério Público em propor medidas de efeito pedagógico, “Isto porque foi expedida recomendação ao Município para que não autorize nenhum tipo de construção ou exploração econômica no terreno do imóvel, ao passo em que, simultaneamente, está sendo proposta ação civil pública, com o objetivo de obrigar os hoje proprietários a reconstruir o imóvel com suas características originais, bem como exigir dos responsáveis pela demolição a reparação dos danos, inclusive morais, causados ao patrimônio histórico municipal. E sem prejuízo de apurar a responsabilidade criminal pela demolição, eis que o fato parece constituir crime, a teor do disposto no art. 62 da Lei de Crimes Ambientais”. Para Orávio, o posicionamento do MP através do promotor é correto. “É muito bom e bem escrito. O efeito de pedir a reconstrução, através de uma ação civil pública, não é de preservação, mas, se insere no contexto de punição. Sabemos que nunca mais teremos o Casarão do Chacrinha, mas, mandar edificar quem demoliu cumpre o papel pedagógico sugerido, eu entendo e concordo”, disse Orávio. De acordo com o diagnóstico do promotor Marcelo Lessa e, discordante da solução da reconstrução sugerida, o pesquisador e um dos representantes da sociedade civil no Copppam, Leonardo Vasconcellos, compreende a necessidade de uma clara medida pedagógica. “Se nada for feito, assistiremos uma sucessão de demolições de casas antigas em Campos. O espaço do casarão demolido já está vazio, vamos torná-lo em um espaço coletivo e público, em uma área verde, de recreação, de contemplação. Não temos que inventar a roda, o MP sofre pressão de todos os lados, se faz necessária a aproximação do Legislativo, que se faça uma legislação atualizada à realidade presente. Mesmo o tombamento, por si só, não garante que o imóvel de valor histórico ou arquitetônico não se degrade. Já ouvi proprietários afirmarem que não passarão fome pela preservação dos patrimônios. A prefeitura tem que assumir a sua parte. Sou defensor da premiação àquele que faz o certo”, frisou Leonardo. Luciana Portinho * Capa da Folha Dois de ontem (sábado, 26/01/13).  
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Praça da Bandeira
15/01/2013 | 03h08
Republico post de dois anos. De lá para cá nada foi feito,  a não ser uma calçada de cimento barato em volta do Palácio da Cultura, diga-se, sem personalidade, de décima quinta categoria. Inevitável, qualquer um de nós ao pensar em um Palácio, em nossas mentes formam-se imagens de ambiente bem acabado, amplo, descortinado. Pois bem, peço que leiam. Volto ao assunto em momento pertinente, é quando a sociedade campista discute o destino do patrimônio cultural próprio.

Praça da Bandeira

Por lucianaportinho, em 11-10-2010 - 10h05
Ao longo de oito anos, me dirigi quase que diariamente, à Praça da Bandeira, portal de entrada da Pelinca. E o fazia incomodada. Em dias de chuva me espremia entre os carros. Era obrigada a dar saltos e ainda assim molhar as canelas. Aquele gradil, em  praça tão apertada sempre também me pareceu ridículo. Foi colocado num surto qualquer de macaquice administrativa provinciana, quando no Rio de Janeiro, a prefeitura por medida de segurança, cercava suas extensas praças. E ainda, aqueles dois fumegantes quiosques na ponta mais estreita da praça tornaram mais confusa a área com latas de lixo imundas. Em torno da praça, quase ninguém mais consegue ver, o trânsito rufa. Presas por dentro das grades, duas lindas construções de estilo moderno e plenas de significado: o Palácio da Cultura e o Pantheon dos Heróis de Campos. Li na coluna Ponto Final, Folha da Manhã de sábado passado, em nota intitulada ' Acessibilidade', referência à caótica situação. Deixo minha contribuição à atual administração municipal. Medidas simples, mas, dariam novo colorido a um espaço tão vital como a Praça da Bandeira. Primeiro, há que refazer com urgência todo sistema de galeria de águas pluviais. Obsoleto que é, ao menor sinal de chuva, não consegue dar vazão. Reintegrar a praça na vida de seus moradores, retirando aquele gradil horroroso. Acabar com aquele estacionamento particular interno. Não faz sentido, o poder público privatizar área pública em seu próprio benefício. Na mesma linha, deslocar aqueles dois quiosques. Se algum comércio há de ter que seja o de flores, embelezam qualquer espaço, em qualquer lugar do mundo. Refazer o espelho d’água, foi aterrado; existia no projeto original do arquiteto Francisco Leal.  Criar uma área de lazer para as crianças. Criança é burburinho de graça e de vida. Se dentro do Palácio há Cultura, que ela transborde suas paredes e saia para a área da praça, através da música, poesia, representação cênica e das artes plásticas.  Deixar aberta a porta do Pantheon à visitação permanente; quase que a totalidade da população desconhece a existência daquele monumento. Como acima escrevi, são pequenas medidas, no entanto, humanizariam a Praça da Bandeira e arredores. É só ter vontade política.
 
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Nota de Falecimento
24/07/2012 | 04h34
Há pouco tomei conhecimento do falecimento do arquiteto Francisco Leal. É dele o belo projeto do Palácio da Cultura de Campos. No concreto armado criou um espaço amplo em centro de praça, estilo moderno com colunas que remetem ao tronco da palmeira imperial, arejado e arrojado como a Cultura. Fica meus sentimentos.lp [caption id="attachment_4384" align="aligncenter" width="493" caption="ft. César Ferreira"][/caption]

 

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