'FRISSON' NO VELHO CONTINENTE
12/05/2015 | 10h16
Em uma visita histórica, o presidente da França François Hollande, chegou a Cuba no último domingo (10). É a primeira de um presidente francês desde 1898, final do século XIX, quando da independência de Cuba da Espanha. Desde os anos 1980, é a primeira visita oficial de um chefe de Estado europeu. Neste momento em que Cuba e Estados Unidos reataram as relações diplomáticas, a França quer ser pioneira, de olho em possíveis relações comerciais, apostar na renovação cubana. Ontem (11), Hollande fez um apelo para o fim do embargo dos EUA a Cuba, afirmou que a França fará de tudo para que "a abertura possa se confirmar" e que "as medidas que tanto prejudicaram a ilha possam enfim ser eliminadas". Desde 1991, a França vota a favor da resolução que exige o levantamento do embargo na Assembleia Geral da ONU.
É uma visita de oportunidades. Hollande foi acompanhado de 30 empresários franceses , a delegação incluiu sete ministros e vice-ministros. Como o décimo parceiro econômico da ilha, a França busca expandir sua presença no mercado cubano.
O deslocamento de François Hollande a Cuba suscitou certa excitação na França. O jornal Libération (de gozação) estampou na primeira página uma mistura do retrato do presidente com o do Che Guevara, morto há 48 anos. O fascínio, apesar de enfrentar na atualidade forte contestação ao regime político cubano, data de longe: intelectuais de esquerda alimentavam a esperança de que Cuba ofereceria solução à espinhosa equação entre socialismo e liberdade. Até 1968 este entusiasmo persistiu e mesmo setores da direita vibravam com a atitude de Fidel Castro de "bater pé" frente aos Estados Unidos, aos quais os franceses de um modo geral menosprezam culturalmente.
Francois-Hollande-en-Une-de-Liberation-le-11-mai-2015_exact1024x768_pO presidente francês também se reuniu com o ex-presidente cubano, Fidel Castro, a conversa durou cerca de uma hora.
— Tive diante de mim um homem que fez História. Há um debate sobre qual será seu lugar e quais serão suas responsabilidades na História. Mas, ao vir a Cuba, queria conhecer Fidel Castro, esclareceu Hollande. Fontes. Le Figaro, O Globo  
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Os sete erres e um Feliz Natal
24/12/2014 | 03h17
Retorno. Apesar de tê-los comunicado da minha ausência temporária, peço “desculpas”. É que os últimos meses me pegaram pelo pé. Entrei em contramão particular com a enxurrada de más notícias que assolaram o país. Foram tapas repetidos, a blogueira foi a nocaute, emudeceu. Tem horas em que tudo já foi dito, a voz fica fraca, com a sensação de que nada acrescenta. Ler o noticiário entristece qualquer um. Das boas novas, o restabelecimento das relações diplomáticas pelos EUA com a pequenina e frágil Cuba. Reconhecer que a ilha tem o direito de viver do seu jeito, com seus costumes e valores, é esperançoso para que tenha fim o criminoso embargo econômico que por meio século prejudica aquela musical população. Um gol certo do Papa latino-americano, uma marca histórica na gestão do democrata Obama – aliás, um compromisso de campanha que não tinha conseguido cumprir em seu primeiro mandato. Das más velhas, a mixórdia em que nos metemos com o diminuto jeitinho brasileiro de conviver em sociedade, de administrar a coisa pública, de se relacionar com o meio-ambiente, de construir uma NAÇÃO. Se como dizia Guimarães Rosa, “o começo é tudo” (citado hoje pelo antropólogo Roberto Damatta, no artigo Precisamos ser investigados, publicado no O Globo), às vezes o fundo do poço pode ser o começo de um começo novo. Renovar mentalidades. Quem sabe nos levarão também a novas práticas que preservem os sete erres do consumo sustentável: reduzir, reutilizar, reciclar, respeitar, refletir, recuperar, responsabilidade. É isso. Para todos, sem distinção: Feliz Natal!   charge cuba duke
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EM CAMPOS, TOCAR É LUTAR!
30/08/2014 | 12h04
Na quarta-feira passada (27/08) a Ong Orquestrando a Vida, reuniu em sua sede, os pais e alunos, para uma conversa. Mais uma vez, o assunto foi o convênio não renovado com a Prefeitura de Campos, que fez com que a Orquestra Sinfônica Municipal de Campos e o Coro Municipal tivessem suas atividades interrompidas. O ano de 2014 , tem sido até aqui, um tempo de muita aflição e de dificuldades materiais para a entidade. Também tem sido de tristeza. Ao ser alvo de acusação pública pelo poder público municipal local, à direção da Ong não restou outra opção do que se defender, também publicamente. Ao fazê-lo da forma irresponsável como tem feito, a municipalidade usa do expediente surrado de desmerecer a história da Ong, de tentar  em vão incompatibilizá-la com a sociedade campista. Em uma cidade constantemente envolta em imoralidades, em suspeições de todo tipo e espécie, é pura maldade. É aquela tentativa da mentira repetida, mais do que manjada, de jogar pro limbo do descrédito, todo um trabalho social calcado na música erudita, na construção de orquestras de jovens músicos. O que garante, no dia a dia, a sobrevivência da Ong Orquestrando a Vida, é o resultado. É o reconhecimento da sociedade. É a consciência de fazer o certo. É a certeza da importância da sua existência junto aos jovens carentes de Campos. Por isso, são combativos e tem como lema: “Tocar e Lutar”. Não por acaso, sempre que despudoradamente atacada - por aqueles que querem porque querem, em tudo, dividendos políticos de curto prazo – vozes de todos os cantos do mundo se levantam em apoio. Não por acaso, o governo do Estado do Rio de Janeiro, há dois anos, cedeu o imóvel onde foi instalada a linda sede do projeto. Todos que lidam com a Cultura no interior, não com o entretenimento, sabem da situação que é andar de pires na mão, atrás de recursos. Enfim, parece que uma luz se acendeu no horizonte. Vamos torcer!
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No tempo e no espaço da bola que rola
22/06/2014 | 07h52
Sugiro a leitura do artigo semanal abaixo de Arnaldo Bloch, publicado ontem (21/06), no jornal O Globo. Muito bom!

A Copa do avesso do avesso do avesso...

Povo ordeiro, estádios lotados, turistas felizes, espanha eliminada, seleções latinas dando show... Socorro!

O futebol é uma caixinha de surpresas: a frase mais surrada do “bárbaro esporte bretão” (expressão mais gasta que a reputação do Joseph Blatter) está mais atual do que nunca, nesta que já é a Copa do Mundo menos óbvia jamais vista. Uma “copa do tudo ao contrário”, ou muito pelo contrário e ainda há controvérsias. Segue um pequeno apanhado das evidências e das exceções à regra. 1) Ao contrário do que se previa e até do que muitos desejavam, a Copa está funcionando, não houve nenhuma tragédia aeroportuária, nenhum nó urbano intransponível, nenhum colapso infraestrutural de proporções catastróficas. Os incidentes são pontuais e de pequena escala, alguns, aliás, protagonizados por torcidas estrangeiras e por cambistas nórdicos e americanos. 2) O povo brasileiro, ora ordeiro, ora zoneiro, está contagiando os turistas e até as seleções. Como disse o técnico da Holanda, o melhor do Brasil na Copa são os brasileiros. Os turistas copeiros não estão nem aí para aeroporto (aliás, a aviação mundial já colapsou faz tempo em qualquer país), não ligam para engarrafamento nem desmaiam com uma fila ou outra: eles querem pular, beber em botequim, subir morro, caminhar de cuecas com bandeirões, viver a vida. 3) O pânico de uma grande convulsão social, de uma revolução, o medo burguês de “a favela descer” ou de uma grande onda de manifestações fazer o país e a Copa pararem, por enquanto, demonstra-se completamente infundado. Os grandes movimentos, respeitáveis, necessários e saudáveis, conduzidos pela geração Facebook e pela classe média, e ignorados pelo proletariado que faz marmita e tem que acordar às 5 da manhã para levar o leite das crianças, por ora, ficaram nos anais de 2013. 4) Ao contrário do que se preconizou, todos os estádios sem exceção estão lotados em todos os jogos, as cidades estão cheias de turistas, os hotéis estão estufados. O tal do medo estrangeiro de um Brasil perigoso e letal, na iminência de uma guerra civil generalizada ou de um colosso anárquico, ficou no terreno da ficção. 5) O boicote nacional à Copa deve estar escondido em algum bunker. Os brasileiros aderiram em massa ao Mundial, nos bares e lares, nas fan fests e nas florestas onde até as araras e os quatás estão gritando de entusiasmo. Até porque mesmo os que torcem contra o Brasil têm que ver os jogos para exercer o ofício. 6) A Espanha, que estava entre as quatro favoritas, saiu da Copa na segunda rodada. O tic-tac da irresistível campeã do mundo emperrou, virou um relógio mole de Dalí, um Rolex de camelô, um carrilhão de filme de terror. A Fúria é um escrete de velhinhos cansados com um esquema cansado e manjado e risível. 7) A Holanda, depois de beber todas e receber visitas íntimas e se estatelar na praia (eles podem fazer isso sem pirar, pois vivem numa sociedade livre e já são meio pirados mesmo) goleou a Espanha por 5 x 1 e todo mundo gritou “pintou o campeão”. Que surpresa! Mas... no jogo seguinte, provavelmente depois de beber todas de novo, fazer amor em meio ao labor e tomar chá de erva, levou um esquenta da Austrália e já não é mais aquela. O avesso do avesso. Mas isso pode mudar na próxima rodada. e teremos o avesso do avesso do avesso e assim por diante indefinidamente. 8) As alegres e criativas e aguerridas seleções africanas não estão jogando nada nem surpreendendo ninguém. Na verdade, a grande alegria está vindo... das equipes das Américas do Sul e Central!, que há muito vinham abafadas pelo absolutismo europeu. Mas como esta é a Copa do tudo ao contrário, o Chile está bombando, o Uruguai Hemp está moderno, a Colômbia está voando, a Argentina está fazendo deverzinho de casa, México e Costa Rica estão pimpões e o Brasil... bom, o Brasil é exceção, mas Felipão é pai. 9) Pela primeira vez na história dos mundiais, o estádio de abertura é o estádio mais feio da Copa, quiçá o mais feio do mundo, o mais feio de todos os tempos, e permanecerá o mais feio até o fim dos tempos. A semelhança de seu projeto arquitetônico arrojado e conceitual com o design de uma impressora vagabunda vendida de segunda mão na Saara já é uma evidência atestada nas redes sociais mundo adentro, e afora. 10) Nunca antes numa Copa do Mundo o chefe de Estado não discursa na abertura, nem diz a frase “declaro aberto o Mundial”. 11) Nunca antes uma festa de abertura de Mundial foi tão chata, feia, pobre, patética, sem imaginação, sem a cara do país, sem nada que não seja digno de lamento. 12) Nunca antes uma música oficial da Copa do Mundo foi tão escandalosamente feia. 13) Revogam-se todas as disposições em contrário, ou muito pelo contrário. 14) Para não ficar no 13, adicionamos mais um item. Aliás, um abraço pro Zagallo.
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SALDO DA CULTURA
11/05/2014 | 09h48
Da agenda corrida do senador Lindberg Farias em Campos, na sexta-feira passada (09/05), a Cultura esteve presente. Após o almoço, o senador fez questão de visitar à ONG Orquestrando a Vida. Lindberg tem estreita vinculação com o setor, seja por sua militância na juventude no movimento estudantil, seja pelo trabalho desenvolvido nos bairros de Nova Iguaçu quando prefeito. Conheceu a sede da instituição, projetos, dificuldades, se comprometeu a ser um parceiro do projeto social através da música, foi recebido pelas orquestras e coro com duas belíssimas execuções. Ao final, ouviu a leitura de uma solicitação de agentes culturais campistas, confirmou sua vocação democrática ao se comprometer em dar voz ao setor cultural local. Acompanhando a visita estiveram o cinegrafista Carlos Alberto Bisogno e o professor João Vicente Alvarenga. Este último, leu a carta aberta que segue. Um sonho possível de ser vivido.
Ação Cultural do Estado com a Região O Solar dos Airizes, localizado às margens da Rodovia BR 356, que liga os municípios de Campos e São João da Barra, é testemunho do apogeu econômico da região durante o século XIX. O Solar encanta por sua imponência e também porque é parte significativa da narrativa sobre nossa história. A história não só do Palácio, mas também da Senzala. Lá viveu, amou e morreu a Escrava Isaura que está na memória coletiva de nossa gente. Sua história passou de geração em geração, ressaltando a possibilidade de uma escrava se unir a seu senhor, promovendo sua ascensão aos salões do Solar. Na década de 80 do século passado, a Rede Globo de Televisão, através de seu Núcleo de Teledramaturgia, transformou a Escrava Isaura em personagem que visitou os lares brasileiros. Sua história ficou conhecida dentro e fora do país. E nossa região também. Recentemente, o Solar passou por uma reforma em seu telhado, já que poderia comprometer suas estruturas por causa da infiltração de água, resultado das chuvas. Não existe pessoa física ou instituição que se dedique a conservá-lo. Nessas condições de abandono, há um risco iminente de mais uma vez termos suas estruturas comprometidas irremediavelmente pela ação do tempo. Nossa região precisa de um Museu moderno onde a dinâmica e a interatividade sejam sua marca diferenciadora. Ele poderia ser nomeado Museu Pluricultural Escrava Isaura. Nele seriam abrigadas atividades nas diferentes linguagens artísticas: Teatro, Música, Literatura, Dança, Cinema, Artes Plásticas. Estamos certos de que será um espaço de referência nacional. Vossa Excelência, Lindberg, pode transformar esse sonho em realidade, investido de poderes executivos.

Campos dos Goytacazes, 9 de maio de 2014

Antônio Roberto de Góes Cavalcanti Kapi - Teatrólogo  Carlos Alberto Bisogno - Cineasta João Vicente de Alvarenga – Professor, Mestre em Filosofia Luciana Portinho – Agente e Produtora Cultural Silvio Greego – Artista Plástico
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Calou-se uma voz dos oprimidos
04/05/2014 | 01h41
Calou-se a voz de Tomás Balduíno,                                                                         
nessa noite de 2 de maio.
Uma voz que nunca quis ser sozinha,
sabia, desde os anos de chumbo:
uma voz solitária não suspende a manhã.
Quis ser uma voz entre vozes,
ergueu sua voz dentro do vasto coro dos oprimidos:
os índios, os posseiros, os lavradores,
os retirantes da seca e da cerca
e os que se levantam contra elas,
as mulheres, os negros, os migrantes, os peregrinos
para forçar claridades, para ensinar amanhecer.
Tomás é palavra.
A palavra que banha como bálsamo.
A palavra que fustiga.
Incendeia.
A palavra que perdoa
mas aponta - sempre - o caminho da Justiça.
E o que somos na vida?
Somos os ossos das palavras
que povoam o caminho de pedra ou flores
que sangram os pés dos nossos filhos.
Tomás é sertão.
O sertão e suas armadilhas.
O sertão e suas infinitas contradições.
Tomás é sertão
onde se dobram os ventos de Goiás e Minas,
onde nascem águas
nessa infinita geografia
que alimenta nossas esperanças.
Calou-se a voz de Tomás Balduíno.
Permanecerá sua palavra.
Tomás é sertão:
gesto de fé nessa gente que não se dobra.
Pedro Tierra Brasilia,Manhã de 3 de maio 2014
NOTA DE FALECIMENTO
Dom Tomás Balduino, fundador da CPT, fez a sua páscoa
“Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou...
tempo de lutar e tempo de viver em paz”.
(Eclesiastes 3:1-8)
É com grande pesar e muita tristeza que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunica a todos e todas o falecimento de Dom Tomás Balduino. Fundador da CPT, bispo emérito da cidade de Goiás e frade dominicano, Dom Tomás lutou por toda sua vida pela defesa dos direitos dos pobres da terra, dos indígenas, das demais comunidades tradicionais, e por justiça social. Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital ele deixava de se preocupar com a questão da terra e pedia, em conversas, para saber o que estava acontecendo no mundo.
Aos 91 anos, completados em dezembro passado, Dom Tomás Balduino, o bispo da reforma agrária e dos indígenas, nos deixa seu exemplo de luta, esperança e crença no Deus dos pobres. Ficamos, hoje, todos e todas um pouco órfãos, mas seguimos na certeza de quem Dom Tomás está e estará presente sempre, nos pés que marcham por esse país e nas bandeiras que tremulam por esse mundo em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.
Dom Tomás faleceu em decorrência de uma trombo embolia pulmonar, às 23h30 de ontem, 02 de maio de 2014. Ele permaneceu internado entre os dias 14 e 24 de abril último no hospital Anis Rassi, em Goiânia. Teve alta hospitalar dia 24, e no dia seguinte foi novamente internado, porém desta vez no Hospital Neurológico, também em Goiânia.
O Corpo será velado na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, em Goiânia, até às 10 horas do domingo, dia 4 de maio, momento em que será concelebrada a Eucaristia, e logo em seguida será transladado para a cidade de Goiás (GO), onde será velado na Catedral da cidade até às 9 horas da segunda-feira, 5 de maio, e logo em seguida será sepultado na própria Catedral.
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Modesto da Silveira, em defesa da liberdade
01/04/2014 | 10h09
Modesto da Silveira é uma legenda na defesa dos perseguidos, presos, torturados pelo Golpe de 64. Figura doce, dedicada e amiga. Em 1978, foi eleito deputado federal pelo MDB, com uma vitória retumbante da oposição ao regime militar. Tive a honra e o privilégio de ter convivido na ocasião com este brasileiro. É emocionante vê-lo ativo, fiel aos princípios que nortearam sua carreira e vida. Sugiro a leitura da matéria aqui.
Alessandra Duarte (Email · Facebook · Twitter)
Publicado: 30/03/14 - 8h00
 Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Foto: Pedro Kirilos / Pedro Kirilos 
Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Pedro Kirilos / Pedro Kirilos
RIO - Defensor de agricultores, intelectuais, líderes estudantis e religiosos, Modesto da Silveira viu “os tanques do golpe” na Cinelândia. Seis anos depois, foi sequestrado e levado a uma sala do DOI em que as paredes tinham sangue coagulado. Hoje, guarda mais de 30 agendas daquela época. Algumas encardidas, outras empoeiradas. E, como se de um jogo se tratasse, convida: “Vamos ver a de 68?” O advogado de 87 anos vai então ao dia 13 de dezembro, data da decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5) e na agenda lê: “Prisão Sobral Pinto”. — Esse “prisão” escrevi entre aspas porque foi o sequestro do Sobral, né? — conta ele, lembrando colegas de profissão. Todas as agendas estão em seu apartamento. E, numa época de infiltrados e acusadores, os compromissos anotados viraram álibis e testemunhas de defesa. Até hoje Silveira é considerado, por colegas, como o advogado que mais defendeu brasileiros no regime militar. Ele não sabe dizer quantos clientes teve, mas diz que cuidou de gente “de Belém a Porto Alegre”, de agricultores e operários a nomes como Mário Alves, Ferreira Gullar, David Capistrano e Dom Adriano Hipólito. De muitos, não cobrou nada. E a memória do dia do golpe é nítida: — Naquele dia, quando cheguei à Cinelândia, o povo esperava um comício em apoio a Jango. Mas não apareceram líderes sindicais, estudantis ou intelectuais. Apareceram tanques do Exército. Quando voltaram os canhões para o povo, ficou claro que eles eram do golpe. Então começaram a vaiar. Dois à paisana deram tiros para o alto e entraram no Clube Militar. No meu escritório, gente já pedia socorro. Para o mineiro de Uberaba, “o pior era quando você perdia o cliente”, numa referência à morte. Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodora — citada pela presidente Dilma Rousseff em discurso de 2010, foi um deles. Presa e torturada, suicidou-se no exílio. Em 1970, Silveira foi sequestrado pela repressão e ficou no DOI-Codi do Rio por dois dias. Não sofreu tortura física, mas psicológica. Na sala havia sangue coagulado, e a máquina de choque estava ligada. — Passaram a falar das minhas três filhas: “Sabe aquela? Trago aqui, boto a arma na boca e pow!” Modesto está hoje na Comissão de Ética da Presidência e presta assistência jurídica a antigos clientes. Auxilia a Comissão Nacional da Verdade e pede que ela tenha mais membros, poder de intimação e dê mais atenção à Operação Condor. — É preciso olhar o apoio financeiro e logístico de um regime que fez, no mínimo, meio milhão de vítimas diretas.
 
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"O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM"
20/02/2014 | 06h35
Aqui para o blog, trago um artigo do Fabrício Maciel, Doutor em ciências sociais pela UFJF. Foi feito em cima da reportagem (aqui) sobre o programa De Braços Abertos, realizado pela prefeitura de São Paulo  que obteve nível satisfatório de redução em 70% no consumo de crack, na capital paulista. Todos vocês já leram sobre a tenebrosa "Cracolândia". É mesmo chocante vê-la em contraste com o vizinho edifício da Estrada de Ferro Sorocabana - hoje, abriga a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e uma das mais importantes casas de concertos e eventos do País. É leitura mais longa do que a habitual, no entanto, nos revela possíveis políticas públicas - sérias - na área da saúde pública. Observem os cuidados no planejamento do programa. Depois, abaixo, leiam a análise do Fabrício. Uma luz! O TRABALHO E A POLÍTICA QUE DIGNIFICAM Estou extremamente contente com o post que acabo de compartilhar, sobre o combate ao crack. Diferente da política e do senso comum conservadores de nosso tempo, que exatamente agora assumem face explícita no Brasil, assistimos a recuperação gradual de usuários de crack. Pouca gente deve imaginar o sofrimento de um usuário de crack. Na verdade, a sociedade brasileira só lembra de suas questões sociais quando estas incomodam a classe média e a ordem do espaço público. Contrário ao descrédito da maioria e ao preconceito aberto de uma minoria em ascensão, que sustenta a hipótese de se tratar de vagabundos qualquer tipo de gente que vague pelas ruas sem emprego, a lição que tomamos agora é só o contrário. O trabalho dignifica o ser humano, atribui a sua vida sentido, valor pessoal de estar fazendo algo útil por sua sociedade. Para estes nossos "sobrantes", cuja maioria nunca teve chance de exercer alguma atividade reconhecida como digna em sua sociedade, ter a oportunidade de trabalhar está sendo o passo decisivo. Para os que desacreditam da política e para os que a descreditam de propósito o fato manda dois recados: para os primeiros, que acordem e acreditem na mudança social. Para os segundos, que se olhem no espelho e se perguntem até onde são capazes de manter seu conservadorismo. Toda vez que classificamos alguém como vagabundo estamos tentando expurgar de nós mesmos o nosso outro, produzido pela mesma sociedade que atribui méritos diferenciais às suas ocupações, algumas dignas, outras não. Existe saída para o crack, sim. No plano mais abstrato, a prova de que o trabalho atribui sentido combate a construção do estigma do vagabundo, lançado contra aqueles que perderam em nossa mesquinha competição social. No plano mais concreto, imediato, a política que neste caso está acertando em cheio é um tapa com mãos de pelica na cara daqueles que acham que fazer política é só fazer acordos, pensar em dinheiro e defender a bandeira do desenvolvimento, e que no fim cada um tome para si, de acordo com suas capacidades, o seu quinhão. Não. Política é outra coisa. É usar os recursos do Estado em favor da sociedade. Ou melhor, em favor de sua parte mais carente. É o que vemos agora. Viva o trabalho, viva a verdadeira política, e que os conservadores da política e da sociedade acordem enquanto é tempo! [caption id="attachment_7609" align="aligncenter" width="600" caption="Ideia é afastar usuário da área (foto: João Luiz/SECOM.SP)"][/caption]

 

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As insatisfações,as manifestações e os medos
20/01/2014 | 12h37

A bastilha manda lembranças? Rolezinhos não são arrastões.

Os rolezinhos são parte de um contexto mais amplo de questionamento da inserção subalterna – nas relações internacionais, na política, na cidadania, no mercado – quer no Brasil ou em outros países classificados no mundo contemporâneo de terceiro mundo ou subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. É a periferia dos capitalismos clamando ao centro do sistema econômico e político e cultural por igualdade sem deixar de ser o mesmo. Sem perda da identidade, sem serem colonizados pelos costumes elitizados de ser e estar, desejam o direito dos usos do mercado em benefício próprio. Assim, se a sociedade capitalista num primeiro momento tinha como demanda o consumo e, nos dias atuais, tem como demanda o desejo artificialmente criado, nada mais capitalista que mobilizar-se nos templos dos desejos por mais.
Bem ao modo brasileiro de ser – superando as divisões de classe mas fora do tempo e do espaço próprios determinados pelos detentores dos poderes – a manifestação é de tudo um pouco; parte de um movimento social ainda informe na totalidade de seus projetos; namoro; compras; protesto; organização política informal; festa; dança; canto; gritaria; alienação. Todavia, ampliou a agenda das demandas e modos de manifestação e seu lócus.
O “Movimento não é só por R$0,20” que foi cooptado pelos mais diferentes interesses e classes começa a passar pelos expurgos dos dominantes insatisfeitos com o partido detentor do poder. Agora o mercado, e não apenas o Estado a serviço do mercado é questionado, é questionado e se canta e grita e corre por inclusão via mercado, ou seja, a cidadania via mercado  que tanto agrada as classes médias é demandada pelas novas classes médias que diante da inflação crescente percebem que seus avanços podem ser temporários. Mais efêmeros do que o “O milagre econômico brasileiro da ditadura militar no Brasil”.
Como desejam a manutenção da identidade via consumo de mercado regido por um partido que foi de esquerda e que se consolida no poder como partido “social de mercado”, não se deixam colonizar pelos modus vivendi da etiqueta de classe média. Neste ponto, os rolezinhos assustam aos cidadãos privilegiados historicamente como classe média, pois estes não o distinguem do arrastão, da turba ou das lembranças da Bastilha que bate a porta todos dias quer via Maranhão ou Carandiru ou arrastões.
O recado está dado desde o “Não é só por R$0,20”. A pólvora está sendo espalhada em nome da cidadania plena sem perda de identidade colonizadora. Que os políticos respondam com a assertiva de democracia sem desvios de conduta ética e econômica para que todos possam ter o que o desejo de mercado lhes prometeu. O consumo de direitos de felicidade de bem estar movimentos pelo mercado social.
Wlaumir Souza.
Ribeirão Preto, São Paulo. Professor Universitário, graduado em Filosofia e Pedagogia. Mestre em História e Doutor em Sociologia. Autor de "Anarquismo, Estado e pastoral do imigrante" - Editora UNESP; e, "Democracia Bandeirante" - Paco Editorial. Contato: [email protected]
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O MAUSOLÉU DO CORONEL
15/01/2014 | 11h30
Conheci o Maranhão na juventude, é um Estado de se apaixonar de primeira. Passava algumas férias, de verão ou de inverno, em um sítio na Praia do Olho D'Água, na capital São Luis. Tudo nela me atraia: a negritude do povo, as praias de água turva e da areia socada pelas enormes marés a perder de vista. A batida do tambor ou da matraca dos Bois, de arrepiar. Apurei o gosto de cozinhar por lá; nas tapiocas, no arroz de cuxá, no preparo do caruru com o camarão salgado vendido a granel em qualquer biboca, nas frigideiras de sururu. Tudo acompanhado por um refrigerante rosa claro "Guaraná Jesus" ou pela saborosa cerveja Cerma, precedida por um gole de Tiquira (feita da mandioca), segundo eles a verdadeira aguardente brasileira . Das frutas, impossível não lembrar do cupuaçu, do carnudo bacuri, dos doces sapotis e dos estranhos abricós. São Luis combinava descaso e desigualdade social, muita pobreza sem memória com história, rico patrimônio material com musicalidade e poesia. Sua gente, se recostava e até dormia nas redes,  isso valia para qualquer classe social. De verdade aprendi com os maranhenses a usar a rede atravessada, como os indígenas. Na primeira noite dormida, caí da cama. Era janeiro - para eles inverno - , época das chuvas, acordei com o céu desabando na cabeça, corpo já no chão. Foram, até hoje, as chuvas mais torrenciais seguidas que já presenciei. Na manhã seguinte? Sol, como se nada tivesse havido. Passávamos as tardes mornas sob a brisa dos babaçus. A São Luis de então, não chegava a 500 mil habitantes. Fora do centro histórico, tinha ares de roça rasgada, longas distâncias a percorrer, meio desabitada. Estar em São Luis sem ir a Alcântara era como não ter completado a viagem. Acho que eram duas horas de enjoo no barco, de mar batido na boca da barra. Lá, era como se tivéssemos aportado pelo túnel do tempo no passado. E ainda tinha a simpática Ribamar e todo o interior. Este, por natureza lindo e humanamente miserável. Foram aulas práticas de Brasil. Dava dó ver fachadas inteiras de azulejos coloniais belíssimos saqueados por uma elite que em troca dos "velhos" azulejos da história acenava, aos moradores, com modernos azulejos "Klabin". Era o que mais se via, tanto na ilha quanto no continente (Alcântara). Tempos depois, em uma dessas revistas de fofoca, li entrevista com a já governadora Roseana Sarney. Ela mostrava, sua casa vasta, repleta de obras de arte sacra, inclusive para meu espanto, um altar?!  Chocante, mesmo. Mais recente voltei a São Luis a trabalho - encontrei tempo de conhecer a maravilha natural que são os Lençóis Maranhenses. Me deparei com uma cidade de 1 milhão de habitantes, frequentada por turistas europeus (franceses em sua maioria), alguns de seus imponentes sobrados restaurados onde foram instalados restaurantes com uma culinária e serviço sofisticados. Pelo centro histórico, intervenções de arte popular e, como não poderia deixar de ser, souvenirs de todos os gostos. O mesmo povo mestiço lascado pela pobreza. E música e poesia declamada. Registro essas lembranças como introdução ao artigo abaixo, do jornalista Sebastião Nery, escrito em 2007 e publicado ontem, 14/01, no site www.jornalpequeno.com.br, ver aqui . A leitura esclarece o tempo presente do Maranhão. SEBASTIÃO NERY O MAUSOLÉU DO CORONEL São Luís (MA) – Fernando Sarney, o filho empresário do senador José Sarney, pegou de manhã o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, no belo São Luis Resort Hotel, na praia do Calhau, aqui em São Luis, e o levou à casa do pai, um majestoso e coronelado quarteirão cheio de árvores e todo cercado de muro branco, bem ao lado do hotel. Quando entraram, Fernando foi logo com Mário Soares para um salão repleto de riquíssima coleção de objetos e imagens sacras de muitos séculos. Fernando mostrando, explicando, e Mário Soares olhando, perguntando, surpreso com tanto santo, de tantos séculos, na coleção de um cristão só. Depois de ver tudo, Mário Soares foi saindo: - Tudo bem, obrigado, já vi o museu, agora me leve à casa do Sarney. Sarney vinha chegando. Só então Mário Soares percebeu que o museu era apenas uma sala do casarão do “Coronel do Calhau”. SARNEY A marca macabra do letrado acadêmico dono da casa está logo na entrada. O portão de ferro do casarão, antigo, esverdeado e patinado, é um secular portal tirado do tombado cemitério de Alcântara. As duas pilastras de granito que sustentam o portão também saíram do cemitério de Alcântara. O mágico e fúnebre sopro da morte não está só aí. Castro Alves, cantando a batalha do “2 de Julho” da Bahia, disse que “o anjo da morte pálido cosia uma vasta mortalha em Pirajá”. A maior batalha de Sarney, aqui no Maranhão, nem foi, como se poderia imaginar, a trágica e acachapante derrota de Roseana na eleição para governador. É a luta por seu mausoléu: - “Num belíssimo jardim, no pátio externo do Convento, cercado de imensas palmeiras imperiais e de um exemplar de pau-brasil, está um retângulo, com três metros de largura por seis de comprimento, isolado por grossas correntes de ferro e coberto de granito preto”. O mausoléu do coronel. OLIGARQUIA É uma história metade Freud metade Odorico Paraguassu. Está contada em dois excelentes livros maranhenses: – “Sob o Signo da Morte: o Poder Oligárquico de Vitorino a Sarney”, do professor Wagner Cabral da Costa, mestre da Unicamp, “uma radiografia do poder oligárquico”: - “Sarney pretende erigir em seu nome um museu-mausoléu em São Luis. Por meio de uma fundação privada e utilizando-se de uma vasta rede de tráfico de influência, que abarca vários governadores do Estado, Assembleia, Justiça, Senado, pretende estabelecer uma espécie de Taj-Mahal maranhense, um monumento à morte, que celebra a dominação política dos vivos”. O outro é “O Caso do Convento das Mercês”, do jovem jornalista, formado em Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, Emílio Azevedo. Minuciosamente, documentadamente, ele conta a história de um esperto golpe dado por Sarney e seus amigos para transformar o histórico Convento das Mercês, patrimônio público, em propriedade familiar. CONVENTO 1. – “Poucos dias antes de deixar a Presidência da República em 1990, Sarney vai ao cartório de sua irmã, em São Luis, e cria a Fundação José Sarney, para ter, ilegalmente, a posse, o domínio, a propriedade do histórico Convento das Mercês, onde o Padre Antonio Vieira fez muitos de seus sermões. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com mais de três séculos e meio de história, comprado pelo Estado à Arquidiocese de São Luis em 1905, ocupa uma área de 6.500 m2, integrando um conjunto arquitetônico considerado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade”. 2. – Em 90, o governador Cafeteira, aliado de Sarney, gastou 9 milhões e meio de dólares na reforma do Convento, propôs e a Assembleia aprovou sua doação para uma “Fundação da Memória Republicana”. Era um disfarce. Logo o nome foi trocado para “Fundação José Sarney”. Assumindo, o vice João Alberto, o “Carcará”, assessor de Sarney, fez um decreto de “uma doação firme e valiosa (sic) transferindo para a Fundação José Sarney todo o domínio, posse, direito e ação sobre o Convento, para que possa usar e gozar livremente como seu”. E pôs a doação em “escritura pública em cartório, em junho de 90?. SENADO E SUPREMO 3. – O deputado Freitas Diniz, dos Autênticos do MDB e fundador do PT, protestou. O Ministério Público denunciou e a Assembleia aprovou projeto do deputado Aderson Lago “anulando a doação” e “assegurando ao acervo privado do Memorial do ex-presidente a permanência no Convento”. Mas o Senado, numa ação de curriola jamais vista, foi ao Supremo Tribunal “em defesa dos direitos de um senador”. E o Supremo, minúsculo, anulou a decisão da Assembleia e garantiu o Convento como propriedade dos Sarney. 4. – Em entrevista à “Carta Capital” de 23 de novembro de 2005, Sarney disse que seu mausoléu “será um atrativo turístico e, no futuro, até ponto de peregrinação” (sic). E começou a faturar o mausoléu. Além dos US$ 9,5 milhões já gastos, a Fundação alugou ao Estado parte do Convento por R$ 80 mil mensais, recebeu mais R$ 1.139.142,72, tomou R$ 1.348,005,00 da Petrobras, tem gordas verbas anuais do Orçamentos Federal e comercializa para casamentos, festas, quermesses, shows. Nunca se viu cova tão rentável.
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