Feliz Páscoa!
27/03/2016 | 10h11
Mudando de orelhas... IMG_8441 Uma ótima Páscoa!
Comentar
Compartilhe
Das Unbehagen in der Kultur
24/01/2016 | 01h56
Sigmund Freud escreveu o Mal Estar na Civilização (Cultura) no final da década de 1920, quando as marcas da I Grande Guerra ainda eram evidentes por toda a Europa e o espectro do nazismo já se insinuava sobre a Alemanha. Publicado em 1930, é uma das poucas obras de S. Freud que não trata especificamente da psicanálise, da sua teoria e das suas técnicas. Ao contrário, é uma obra sobre ciências sociais onde a libido encontra a sociologia e as origens da infelicidade humana é investigada. E é justamente nessa investigação onde S. Freud imprime a contundência das suas considerações sobre a gênese da infelicidade que permeia a nossa cultura. O primeiro motivo da infelicidade Freud detecta em nosso próprio corpo. Desde muito cedo sabemos que marchamos inexoravelmente rumo à dissolução, ao retorno à nossa forma primeva, mineral. Só não sabemos quando e de que modo isso se dará. Sendo muito improvável que a mente consciente sobreviva a dissolução do corpo físico, Nietzsche escreveu em Considerações Intempestivas : "No fundo, todo homem sabe muito bem que viverá somente uma vez, que é um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de qualidades fundidas em um todo". Frente à isso, então, só nos resta acreditar que a mente consciente seja uma entidade muito mais ampla e transcenda realmente seu substrato óbvio: nosso cérebro. O segundo motivo está um pouco além do nosso corpo, centrado dessa vez em nosso ambiente, na Natureza. Contra seus desígnios e movimentos somos impotentes. Que o diga os milhares de turistas que fugiam do inverno europeu e se bronzeavam em resorts espalhados pela Indonésia e Tailândia quando foram surpreendidos pelo tsunami que varreu o Oceano Indico no Natal de 2004. Toda riqueza do mundo não teria muita valia para ao menos minimizar essa catástrofe. Em última instância, nossa vida e bem-estar é uma mera concessão da Mãe Natureza, sujeita a alterações sem aviso prévio. Para piorar nossa situação, a Mãe Natureza desconhece o significado da palavra benevolência. O terceiro motivo é identificado naquilo que nos é mais importante ao longo das nossas vidas: as relações entre os indivíduos, as relações entre os grupos humanos, as relações sociais. Criamos uma sociedade hostil, desigual e violenta onde guerras, perseguições, genocídios, conflitos ideológicos, religiosos e territoriais permeiam nossa história desde que nosso gênero se tornou sedentário e promoveu a agricultura. Por exemplo, ao longo dos milênios aprimoramos e sofisticamos os métodos e os instrumentos de aniquilação mútua mas somos incapazes de facilitar um final de existência digna e confortável para boa parcela dos idosos, mesmo em países desenvolvidos. O titulo original, em alemão, dessa obra seminal é Das Unbehagen in der Kultur. S.Freud, com toda razão, considerava a Cultura a única qualidade que nos diferenciava dos demais animais. Seus editores, todavia, preferiram, contra a vontade do autor, substituir Cultura por Civilização. Os direitos dessa obra, no Brasil, é da IMAGO Editora Ltda,(1969) e uma perfeita tradução, a partir do original em alemão, foi realizada por José Otavio de Aguiar Abreu.
Guilherme Peregrini*
* Guilherme Peregrini é handmaker, filósofo amador e considera o rock'n roll o único caminho possível para a Salvação. Pode ser encontrado no "Handmades", fórum que reúne jazzistas, bluseiros e roqueiros que gostam de construir, guitarras, amplificadores, pedais de efeito e processadores de sinais com as próprias mãos. aqui http://www.handmades.com.br
Comentar
Compartilhe
'Charlie Hebdo' e os atentados terroristas
18/11/2015 | 12h50
[caption id="" align="aligncenter" width="400"]Capa da edição que vai às bancas nesta quarta-feira (18) do semanário satírico francês "Charlie Hebdo" "Eles têm armas. Eles que se f..., nós temos champagne!"[/caption] O jornal satírico "Charlie Hebdo", alvo do ataque terrorista que dizimou a redação em 7 de janeiro de 2015, vai às bancas hoje, quarta-feira (18) e faz uma provocação direta aos terroristas na capa do especial sobre os atentados que mataram 129 pessoas em Paris, na última sexta-feira (13). A capa, assinada pela desenhista Coco, mostra um homem em atitude festiva, garrafa e taça de champanhe na mão, com o corpo repleto de buracos de bala por onde escapa o vinho espumoso, sobre o fundo vermelho. "Sem perceber, os parisienses em 2015 se transformaram nos londrinos dos anos 1940, determinados a não se render ao medo, não importa o que seja. É a única resposta que nós podemos mostrar aos terroristas", disse o cartunista Riss, atual editor-chefe da publicação. O desenho é uma referência direta aos ataques terroristas da semana passada: todos em lugares vinculados ao lazer, como a casa de shows Bataclan, o Stade de France e bares e restaurantes, que deixaram 129 mortos e 400 e tantos feridos. "Imaginávamos que aos atentados de janeiro se seguiriam outros. Esperávamos, resignados, que nos caísse sobre a cabeça, como um espada de Damocles", indica o desenhista e atual diretor da publicação, Riss, no editorial da revista que estará nas bancas. O diretor da publicação pediu que "não cedam, nem ao medo nem à resignação. É a única resposta possível". Em outra charge publicada no site da revista, Charlie Hebdo mostra três fantasmas com boinas pretas e baguetes, uma alusão ao modo de vida francês, com a frase: "Os franceses retornam à vida normal". A publicação se distingue por críticas aos extremismos religiosos de todo tipo e foi alvo dos ataques terroristas por ironizar em diversas edições o profeta Maomé. Após o atentado de janeiro, Charlie Hebdo retornou às bancas com uma capa em que Maomé aparecia chorando e a manchete "Tudo está perdoado". Na imagem, o profeta segurava um cartaz que reproduzia o slogan popularizado após essas ações, "Je suis Charlie".
Comentar
Compartilhe
HUMOR OU BLASFÊMIA?
08/11/2015 | 08h35
  A revista de humor francesa Charlie Hebdo enfrenta nova confusão com a reação furiosa de Moscou às recentes charges sobre o acidente com o avião russo. Putin as classificou de blasfêmia e exigiu desculpa formal do Estado francês. Peças e destroços de uma aeronave em queda livre e mesmo um passageiro caindo do céu e atingindo um combatente islâmico armado. Na legenda do desenho lê-se apenas : “Daesh: a aviação russa intensifica os seus bombardeios". É assim que pode ser descrita uma das ilustrações publicadas pelo jornal satírico “Charlie Hebdo” da quarta-feira passada (04), acerca do acidente com o Airbus russo que caiu no Sinai no qual morreram 224 pessoas. Todos indícios caminham por confirmar ter sido uma ação terrorista, no qual uma bomba interna teria explodido a certa altura. No segundo desenho (da direita), também um cenário do desastre nos fala dos “perigos das viagens russas de baixo custo" e mostra os destroços de um avião enquanto uma caveira diz que o melhor seria “ter viajado pela Air-Cocaína”, em referência ao aparelho recentemente interceptado no Líbano com carregamento da droga, supostamente destinado ao financiamento dos radicais islâmicos na Síria. 2015-11-06-cartoon.PNG O porta-voz do Presidente russo foi enfático: “Na nossa opinião, isto tem um nome: blasfêmia. Não tem nada que ver com a democracia, nem com a liberdade de expressão”, disse aos jornalistas Dmitir Peskov. Depois do atentado sofrido em sua própria redação, do qual resultaram 12 mortos, para o jornal, esta é apenas mais uma das tantas polêmicas às suas edições, cujo teor ascende inúmeras discussões sobre a liberdade de expressão e os seus limites.
fonte. Le Figaro
Comentar
Compartilhe
Ressaca da crise aumenta consumo de cerveja
19/10/2015 | 12h53
Com crise ou sem crise ou até pela crise bebe-se à beça no país. [caption id="" align="aligncenter" width="543"]Nos 11 primeiros dias da oktoberfest 2015, 480 mil litros de chope foram vendidos (Foto: Oktoberfest 2015/Divulgação) (Foto: Oktoberfest 2015/Divulgação)[/caption] Nos 11 primeiros dias da Oktoberfest, 480 mil litros de chope foram vendidos no Parque Vila Germânica, em Blumenau, local onde se realiza até o dia 25 a 32ª edição da Oktoberfest.  Houve um aumento de 15,4% no consumo da bebida em relação a igual período do ano passado. E o chope querido da galera é do tipo pilsen ainda que os de tipo artesanais tenham tido aumento no consumo de 149,8%, segundo os organizadores. Na noite do sábado passado (17), 58.093 pessoas compareceram na Oktoberfest de Blumenau que até aqui recebeu 298.114 visitantes,  número 8% maior do que o registrado nos primeiros 11 dias da festa de 2014. Pelo ânimo ou desânimo nacional a tradicional festa alemã segue embalada.
fonte. G1
 
Comentar
Compartilhe
"Engenhosidade"
22/09/2015 | 07h38
Abaixo, o pequenino testemunho do escritor Luis Fernando Veríssimo. Quando se quer, as coisas acontecem na Cultura, ainda que com falta de recursos abundantes e das condições ideais. [caption id="attachment_27534" align="alignnone" width="315"]Verissimo no estande da Biblioteca Municipal |Foto Tiago Amado Verissimo no estande da Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos |Foto Tiago Amado[/caption] "Rio do Sul é uma simpática cidadezinha no nordeste de Santa Catarina, e Rio do Sul tem uma feira do livro, à qual fui convidado. Todos os eventos da feira acontecem num espaço montado embaixo de uma ponte. O que só serve para mostrar como a engenhosidade supera tudo, inclusive a falta de verbas e a negligencia oficial com a cultura. Estávamos embaixo de uma ponte, e estávamos, durante a feira, no lugar mais nobre da cidade."
Comentar
Compartilhe
Bastão
08/09/2015 | 05h20

O que os "selfies" revelam sobre o mundo atual

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 30/08. Vale a leitura! RESUMO Mais que mera versão atualizada do consagrado gênero do autorretrato, os "selfies" se impõem como signo da revolução digital. Ironicamente, em um mundo marcado pela alta tecnologia, o homem contemporâneo tem como "gadget" favorito um tosco bastão, cujo benefício último é dispensar a interação com estranhos.
"Autorretrato em Espelho Convexo" (1524), de Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido como Parmigianino
"Autorretrato em Espelho Convexo" (1524), de Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido como Parmigianino
Mesmo os pouco observadores devem ter notado um novo aparelho na temporada de férias. Tecnologia de ponta? Só no sentido mais estritamente literal. Neste ano, o "pau de selfie", monopé que permite tirar autorretratos, conquistou o mercado dos viajantes. Não deixará de surpreender que em pleno 2015 o homem tenha redescoberto a utilidade tecnológica de um bastão. Na pré-história, o homem vagou pelos bosques apoiando-se nele; milhares de anos depois, a moda volta, de forma distorcida: o instrumento que servia para conectar o homem com o que estava sob seus pés –a terra– e o apoiava, literalmente, para abrir passo pelo mundo se converteu em uma ligação com o mundo superior. Se eu não me vejo, como sei que existo? Esse novo cajado nos permite uma perspectiva aérea da existência. O filósofo alemão Peter Sloterdijk explica que aquilo que nós entendemos por tecnologia é uma tentativa de substituir os sistemas imunológicos implícitos por sistemas imunológicos explícitos. Em nossa época, os sistemas de defesa que criamos procuram nos isolar de um exterior que se nega a ceder à tendência individualista da sociedade. Por isso andamos de um lugar a outro sem renunciar nunca a nosso mundo: nos transformamos em uma sociedade de caranguejos-eremitas, carregando no lombo nossas casas. Sentados entre centenas de passageiros, nos protegemos, com nossos fones de ouvidos, celulares e vídeos, do encontro com o exterior. Agora, o "pau de selfie" nos permite tirar fotos sem a incômoda necessidade de interagir com estranhos. Nos transformamos em seres autossuficientes e, em decorrência disso, necessariamente antissociais. A máxima ironia do mundo globalizado é a crescente insularidade do indivíduo. Como o exterior é impessoal, nos embrenhamos no interior; como a comunidade nos debilita, a individualidade se torna preponderante; é assim que a casa familiar dá lugar ao apartamento individual –e a autogamia moderna surge. O grande balão da globalização explodiu em milhares de bolhas comprimidas, que voam juntas, sem, no entanto, se roçarem. O fenômeno do "selfie" responde a essa condição insular e por isso se arraigou como a manifestação estética da revolução digital. O isolamento do indivíduo é tal que, liberto do voyeurismo, teve de conceber um autovoyeurismo: nos tornamos paparazzi de nós mesmos. O "selfie" procura esconder nossa natureza isolada e solitária sob o verniz da felicidade e do gozo. ORIGENS As origens mais remotas do fenômeno, contudo, expõem sua natureza. Em 1524, o pintor italiano Parmigianino (1503-40) se autorretratou com o auxílio de um espelho convexo. O efeito é alucinante: mais que um autorretrato, a pintura de Parmigianino é uma indagação a um mundo interior atormentado. O olhar do autor é sereno, mas incômodo, mais adequado ao mundo das "hashtags" que ao da pintura renascentista. Séculos depois, em outubro de 1914, aos verdes 13 anos de idade, a princesa Anastácia da Rússia subiu em uma cadeira em frente a um espelho e fotografou seu reflexo. O resultado causa calafrios: a princesa lembra um fantasma. Ambas as imagens ressaltam a condição solitária do "selfie". A discussão sobre o significado desse fenômeno tem muitas vertentes. O "selfie" já foi explicado como uma ferramenta de "empoderamento", como vão narcisismo ou como um desesperado grito de ajuda lançado ao vazio da aldeia digital. Outros sugeriram que se trate das três coisas ao mesmo tempo. Um pedido de atenção em um mundo onde a atenção equivale ao poder. O "selfie", no entanto, tem também um sentido de autoconstrução. Permite ao indivíduo moldar a narrativa de sua vida e, assim, nos transformou em promotores de nossa própria marca. Não se trata simplesmente de que o indivíduo queira ostentar a "perfeição" de sua vida, mas de ele mesmo querer acreditar em sua invenção. O "selfie" permite adequar a realidade a suas próprias expectativas. Em um mundo altamente tecnológico, o "pau de selfie" se destaca pelo aspecto tosco. Os que esperavam carros voadores e lentes multifuncionais se viram decepcionados pela realidade: o invento mais popular do ano é um bastão. Atrás dessa aparente simplicidade, porém, se esconde uma revelação profunda sobre o mundo contemporâneo. Como o velho cajado que amparou nossos antepassados, o "pau de selfie" nos oferece segurança diante de um mundo perigoso. Não é só a nossa proteção no isolamento mas uma resposta a essa angústia do ser humano contemporâneo –a de constatar sua própria existência.

Texto de EMILIO LEZAMA, 28, escritor, diretor da revista "Los Hijos de la Malinche" (loshijosdelamalinche.com) e colabora com textos sobre comunicação global e política em jornais dos EUA, México, Espanha, França e Brasil.

Tradução de FRANCESCA ANGIOLILLO, 43, editora-adjunta da "Ilustríssima", Folha de São Paulo.

Comentar
Compartilhe
Cultura pede socorro
18/08/2015 | 08h52
Que situação! Mais uma vez recebo apelo pela sobrevivência da ONG Orquestrando a Vida. É um pedido para o qual é impossível silenciar. Conhecemos o trabalho sociocultural com os jovens campistas pela e na música erudita. É esforço gigantesco da ONG. É quase que uma miragem na árida paisagem  da política cultural de Campos.
Transcrevo o e-mail recebido, sem saber ao certo como ajudar, mas, calar seria um desserviço.
Caso o leitor, vislumbre ao menos um sopro, sugiro que estenda sua mão.
DESESPERO !!
" QUERIDOS AMIGOS, BOA TARDE!
A ORQUESTRANDO A VIDA SE ENCONTRA EM UMA SITUAÇÃO DESESPERADORA. ESTAMOS PARA FECHAR NOSSAS PORTAS E INTERROMPER NOSSO ATENDIMENTO A CENTENAS DE CRIANÇAS E JOVENS  QUE ATRAVÉS DA MUSICA RECEBEM A ESPERANÇA DE VER SEU FUTURO TRANSFORMADO.
PARA MIM É TRÁGICO !! PARA MIM É MUITO DIFÍCIL,POIS TRABALHAMOS A CERCA DE 19 ANOS NESTE PROJETO.
POR FAVOR,NOS APOIE!! EU NÃO SEI MAIS O QUE FAZER AMIGOS!! ME SINTO IMPOTENTE!!
SE PODE NOS AJUDAR ,POR FAVOR FAÇA CONTATO COMIGO .
QUE DEUS NOS AJUDE."
JONY WILLIAM
Comentar
Compartilhe
Direitos individuais
11/08/2015 | 11h52

Pensando rápido, em breve analisada da abrangência da crise política, econômica e ética que atravessa o país, e nesta o maior responsável ao meu ver somos nós os  brasileiros, ao menos as instituições republicanas funcionam sem parar. É a nossa luz no fim do túnel, o Estado democrático.

Marcha civilizacional

montesquieu O STF deve começar a julgar nesta quinta uma ação que poderá resultar na descriminalização do uso de todas as drogas no país. Trata-se do Recurso Extraordinário 635.659, em que se contesta a constitucionalidade do artigo 28 da Lei Antidrogas (nº 11.343/06), que penaliza a posse de entorpecentes para uso próprio. Pelas petições que li, o cerne da discussão é se o dispositivo fere ou não o princípio de inviolabilidade da vida privada (CF, art. 5º, X). Trocando em miúdos, haveria uma esfera da intimidade que nem o próprio Estado tem legitimidade para regular. Esse, vale frisar, é um debate que vai além da questão do uso recreativo de psicofármacos. O que o STF terá a oportunidade de definir é o alcance mesmo da liberdade individual no ordenamento jurídico brasileiro. O embate entre o que é percebido como bem coletivo (no caso, saúde e segurança públicas) e a autodeterminação do cidadão não é novo. E a tendência, desde o Iluminismo, tem sido a de privilegiar o segundo elemento. Foi nesse movimento que o Brasil aboliu, já em 1830, as leis que criminalizavam a sodomia. Pelo código anterior, as Ordenações Filipinas, homossexuais deveriam ser feitos "per fogo em pó". Se o pecado fosse só o de molície (masturbação entre pessoas do mesmo sexo), a pena era mais leve: degredo nas galés. A marcha liberalizante não parou no sexo e na intimidade. Houve avanços significativos em outras liberdades individuais, como o direito à livre expressão e as garantias contra arbitrariedades do poder público. Obviamente, há muito a melhorar. A noção de autonomia do paciente em questões de saúde, por exemplo, apenas engatinha no Brasil. O STF tem diante de si a oportunidade de dar um importante passo para consolidar a autonomia do indivíduo, que, numa simplificação tolerável, está entre as maiores contribuições do Ocidente para o mundo. Esperemos que não a desperdice.
Hélio Schwartsman, artigo publicado hoje (11) na Folha de São Paulo
 
Comentar
Compartilhe
Flip, território da liberdade do pensamento
04/07/2015 | 12h27
Talvez uma das mais interessantes características da Flip seja a de propor linhas de pensamento diferentes para um mesmo tema. Em princípio, não existem tabus que não possam publicamente ser debatidos, alias se assim não fosse o evento não completaria, sem deixar a peteca cair, a sua 13ª edição e, também convocaria as nuvens, não seres humanos que pensam e escrevem o que pensam. [caption id="attachment_9120" align="alignleft" width="338"]ANTONIO RISERIO foto O Globo[/caption] A mesa “A cidade e o território”, abriu o segundo dia da Festa Literária Internacional de Paraty 2015. Reuniu o antropólogo baiano Antonio Risério e o poeta carioca Eucanaã Ferraz. Dois enfoques. Risério apontou a necessidade de encarar a situação catastrófica das metrópoles brasileiras: “não temos mais tempo para pensar uma cidade ideal, como fizeram os modernistas, hoje, a cidade ideal é a necessária, nos falta tempo”. Ferraz argumentou que a poesia traz consigo um urbanismo, pois age num terceiro espaço entre o real e a imagem do real. Na sua fala, o antropólogo começou analisando o duplo sentido das grandes cidades brasileiras com seus centros históricos: “duas cidades funcionando dentro de uma”, o que leva a um terceiro modelo que é “o que queremos construir: nem a cidade barroca escravista, tampouco a cidade capitalista que geram as periferias de excluídos”. Para ele, o centro antigo é o elemento central de uma identidade cívica que se deseja preservar, “é uma missão de todos num contexto em que avança a segregação sócio territorial”. — Temos que enfrentar a realidade e construir um chão compartilhável, uma narrativa comum. Mas como compartilhar um discurso, uma meta, se habitamos lugares tão diferentes e distantes. Sob o signo da segregação sócio territorial e das suas fraturas não é possível se manter saudável. Caso não nos organizemos, podemos nos encrencar de vez — afirmou Risério. — Não há nenhuma catástrofe a caminho, a merda já aconteceu. Só nos resta tentar remendar a idiotice planetária que já aconteceu. Ao responder a uma pergunta da plateia, pediam sua opinião sobre as ciclovias de São Paulo, o antropólogo afirmou que o debate não deve se centrar na construção ou não das pistas exclusivas para bicicletas, mas no fenômeno urbano onde elas estão inseridas. Ele elogiou o prefeito paulista Fernando Haddad (PT). — São Paulo é um fenômeno sócio territorial especifico com seus viadutos, como o Minhocão, frutos da engenharia da ditadura e do Paulo Maluf. Com Haddad, pela primeira vez vejo alguém tentando discutir a cidade enquanto questão urbanística. A ciclovia não é o problema. Acontece que esse cara está encarando o automóvel – disse Risério, provocando aplausos do público. [caption id="attachment_9122" align="alignleft" width="331"]EUCANAÃ FERRAZ foto. O Globo[/caption] Ferraz iniciou sua participação recitando os versos de “Lira paulistana”, poema de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip: “Quando eu morrer quero ficar / Não contem aos meus inimigos / Sepultado em minha cidade / Saudade”. Seu objetivo foi ilustrar a inflexão praticada pelos modernistas ao abraçar a metrópole na década de 1920, enquanto toda linhagem anterior, Olavo Bilac à frente, a recusava. Para o poeta, a poesia é um fato social, “ela nos fala, é uma materialidade entre outras materialidades, é uma matéria que se instala entre outras matérias, daí seu valor urbanístico”. Menos do que um discurso excepcional e sacralizado e também não restrito ao sentimento do sujeito. Trata-se de uma matéria que entra em relação com outras matérias na cidade. — O urbanista Giulio Carlo Argan diz que faz urbanismo quem produz valor e o coloca em circulação. A poesia tem um alto valor de imaginação e se põe como valor, junto de outros valores, na cidade. Ela tem uma função, mesmo que não seja normativa – disse Ferraz, autor de uma tese de doutorado sobre a relação entre poesia e arquitetura. — É o terceiro espaço que a poesia põe em questão com o seu urbanismo, um espaço que não é nem a realidade nem a imagem dessa realidade. A poesia é uma ameaça, disse Eucanaã Ferrraz. No fim da mesa, quando comentava sobre três mulheres importantes da arquitetura moderna nacional – Carmen Portinho, Lota Macedo Soares e Lina Bo Bardi -, Risério criticou nomes badalados internacionalmente, como Santiago Calatrava e Frank Gehry. Segundo o antropólogo, cada arquiteto fazendo a sua escultura e “foda-se o resto”, não pensam no entorno e deu como exemplo a Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. A mediação da mesa foi do poeta e curador João Bandeira.  
Comentar
Compartilhe
Próximo >