Cinema em Campos, um elogio: merece registro
03/03/2015 | 08h56
Fomos, ontem assistir ao filme "Birdman", vencedor de quatro estatuetas do Oscar. Está em cartaz em Campos, em uma das cinco salas de projeção do Kinoplex - sala vip -, Shopping Avenida 28. Até que enfim, passamos a contar com uma sala à altura do porte da cidade. Som perfeito, ar na medida, ampla tela de projeção -  afastada dos olhos, na altura ideal -, imagem de qualidade e cadeiras especiais no quesito conforto. Um luxo! O filme é bom, fotografia das boas. Com o famoso ator Michael Keaton, foi vencedor nas categorias de melhor filme, melhor diretor com o mexicano Gonzalez Iñárritu, melhor roteiro original e melhor fotografia. Programa bom, daqueles que faziam falta. Filme com um enredo ágil. Apesar de não se pretender "cabeça", não deixa de evidenciar as contradições e expectativas humanas frustradas, as disputas de ego, as vaidades e culpas que nos afetam a todos na sociedade atual. E os sonhos. Para os que curtem um palco de teatro, os bastidores estão lá, ainda que um pouco estereotipados, estão lá. Destaque à percussão (no filme são duas baterias com o mesmo baterista em locais distintos) que dá o clima e o anticlímax do personagem principal. Aos empresários que apostaram na vinda do Kinoplex a Campos, parabéns! Sucesso que desejamos duradouro. Vale a conferida! birdman
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"PRA FRENTE BRASIL"
02/09/2014 | 08h00
É o filme que apresento amanhã (quarta-feira - 3/09), às 19h, no Cine Clube Goitacá. O filme é um dos quatro que integram o ciclo intitulado 'Golpe'. Convido a todos, é bem interessante. O Cine Clube fica no  Ed. Medical Center - Rua 13 de Maio,286, sala 507. Nos encontramos por lá!

"Uma viagem desagradável a um passado bem conhecido. Assim foi novamente assistir ao filme “Pra Frente Brasil” de Roberto Farias, Prêmio do Festival de Gramado, em 1982. Com música de Egberto Gismonti e, Reginaldo Faria, Natália do Valle, Antônio Fagundes e Elizabeth Savalla, no elenco. Retornamos à realidade brasileira de 44 anos atrás. Era 1970, anos de chumbo e do milagre econômico. O Brasil eufórico com a Copa do Mundo sendo disputada no México, onde fomos Tricampeões. Tempo do infame bordão “Brasil, ame-o ou deixe-o”, do General Médici, dos 70 milhões em ação, salve a Seleção. Ainda que tenha sido lançado em 1982, ou seja, depois da Anistia, portanto, da “Abertura, Lenta e Gradual” do último milico no poder, o General Figueiredo; nem a volta dos exilados políticos, nem as eleições gerais, nem o fim do imposto bipartidarismo, foram capazes de impedir que no dia seguinte ao seu lançamento, o filme tenha sido proibido de circular em território nacional, curto e grosso: censurado. A trama começa simples. Jofre Godoi da Fonseca é um cidadão apolítico de classe média. É casado com Marta, tem dois filhos. Miguel, seu irmão, também um cidadão comum, apesar de amar Mariana, uma guerrilheira de esquerda. Quando Jofre divide um táxi com um militante de esquerda, é tido como "perigoso subversivo" pelos órgãos de repressão. É ilegalmente preso, desaparece para ser submetido a sucessivas sessões de tortura. Daí em diante, na tentativa de encontrá-lo, Miguel e Marta encaram todo tipo de intimidação; se surpreendem ao descobrir a relação entre a repressão política e empresários que a patrocinam. Para os órgãos de repressão do regime militar, os dois (e todos os que com eles se relacionam) passam a ser ‘colaboradores comunistas’. O final é dramático. Incomoda".  Luciana Portinho
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E hoje tem Cineclube Goitacá
26/03/2014 | 10h50

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E hoje tem cinema!
12/03/2014 | 09h07
 
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QUANDO PARTIMOS
02/01/2014 | 11h07
De narrativa um tanto lenta, a história de Umay (Sibel Kekilli), do início ao fim, é a do desacerto dramático entre moral e ética na qual a mulher - se quiser fazer prevalecer os seus sonhos – haverá de enfrentar em certos contextos culturais. Uma trajetória simples: uma mulher/mãe que não aceita os maus tratos do marido. Seu desejo? Criar o pequenino filho Cem, estudar, ser independente e, quem sabe de sobra, serem felizes. Para isso retorna à família, na esperança do acolhimento à sua decisão de romper com o casamento. [caption id="attachment_7391" align="alignleft" width="350" caption="ft. Divulgação"][/caption] Não sendo aceita, por desonrar a moral rígida dos valores dominantes masculinos, é vista como mais uma prostituta. Umay parte novamente e novamente. Mais do que não ser protegida pelos pais e irmãos, é por eles rejeitada, vira saco de pancadas, é perseguida.  Ainda que ame a mãe e a ela recorra por abrigo, a mãe é a síntese do que Umay não quer para sua vida: dependência e submissão. Com tom baixo e poucos diálogos, o filme se desenrola nas expressões faciais. Estas revelam o quanto de sofrimento no impasse entre sentimentos que reprimidos sucumbem à necessidade externa de aceitação social; geram a desgraça. Assisti “Quando Partimos”(Die Fremde), sem maior pretensão. Colada fiquei ao dilema da jovem mulher Umay, na ingenuidade de supor que conseguiria se afirmar em ambiente sociocultural hostil. Há nela uma teimosa esperança, a de que pela sinceridade do seu tão genuíno propósito, vitoriosa seria. Não foi. A mesma família que a criou a destrói. Do laço da fraternidade sonhada veio a lâmina que mata seu amor incondicional, o menino Cem, aconchegado em seu colo. Li depois a crítica, cobra do personagem um maior desligamento de seu núcleo familiar, poderia tê-la poupado. Discordo da análise racional. A história de Umay é poética. Nela, a poesia da vida que nos move ou que nos detém. Remete-nos à angustia provocada pelo choque cultural entre uma estúpida moral e os legítimos anseios individuais, nada imorais, e que ao cabo é fonte da infelicidade humana nos desencontros absurdos que a vida social estabelece. Candidato da Alemanha a uma vaga no Oscar 2011, Die Fremde (Quando Partimos) estreou no Festival de Berlim em fevereiro de 2010. Depois, o filme passou por outros sete festivais, incluindo o de São Paulo. Direção da atriz austríaca Feo Aladag. Um bom longa, desperta reflexões. O desfecho me causou silencioso choro. Triste. Recomendo.  
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Hoje tem cinema sim senhor!
13/11/2013 | 05h08

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BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR
09/11/2013 | 08h05
BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR - UM CAMINHO AO INFERNO Texto de Paulo César Moura Brincar nos campos do Senhor, sob o efeito da ayahuasca, pode ser um caminho ao inferno. Uma forma mágica de se chegar ao abismo de si mesmo e descobrir que toda sua civilização representa a morte do outro. Esse mergulho de profunda sinceridade, que o filme de Hector Babenco - Brincando nos campos do Senhor (1991) -, nos propõe, revela-nos o que há de intransponível entre a cultura dos civilizados e a cultura dos selvagens - a ambição, o abismo e a perdição. O foco do filme é o índio de nossa Amazônia. Ainda que, de algum modo, se pense este personagem, nos dias de hoje, sob os moldes românticos, inseridos em um indianismo idealizante, Babenco nos dá, exatamente, o contrário. Para este diretor, o índio não é pitoresco, é estranho; não é colorido, tem cor de chão, de terra. Além disso, apesar de estranho e barrento, é um mundo assolado por dois problemas históricos: a ambição por suas terras e a ambição por civilizá-los.. Ambos deflagram, por si só, o processo da aculturação indígena - sua morte. Sob o ponto de vista literário, o filme de Babenco não é indianista. Não tem heróis. Não vê o índio idealizado. Por certo, aproxima-se do indigenismo, na medida em que busca pensar os problemas que confrontam as populações indígenas, com o objetivo de pensar sua possível integração à nossa nacionalidade. Não obstante, sua visão é trágica, pois o que nos mostra é o genocídio dos povos indígenas. Neste sentido, podemos afirmar que, em termos de identidade brasileira, nossa máscara é barroca - vazia de Deus na cidade de sua mãe. Este é o abismo - a impossibilidade de conversão. Outra questão interessante do filme é o fato de olharmos a cultura indígena a partir de um relativismo no ponto de vista etnocêntrico da cultura ocidental. Os transes espirituais aparecem, no filme, como canais de interpretação da realidade, como outra forma de se chegar à verdade. O “inimigo” se revela a partir de um ritual ininteligível. E todo esse rito - estranho e barrento - revela o abismo que há entre nós e o mundo indígena. O filme de Babenco, na verdade, não é indigenista, mas neoindigenista, porque ao tratar, sob o ponto de vista antropológico, a cultura dos silvícolas, descobre, ainda, o mágico, o maravilhoso, o mítico. E toda beleza de forma de ser gerada pela mente humana. Seus cantos, suas danças, sua pintura, sua espiritualidade. Sua capacidade de revelar a verdade por uma linguagem pronunciada com o coração quente - com êxtase e simbolismos. O propósito do filme é o de superar a caracterização externa do índio para compreendê-lo dentro de sua realidade, abrindo-se para sua visão de mundo e para os abismos profundos de sua cultura. Inserido na esfera do realismo-maravilhoso, o filme incorpora o mundo civilizado e o mundo selvagem, e a “maravilha” que há neste mundo. Diga-se, dois mundos díspares, paradoxais, abundantes. Não obstante, esses dois mundos são o Brasil. Um Brasil precário, roto, faminto. Um Brasil barroco. Necessitado de ser nomeado, construído. Brasil de silêncios e miséria. Um Brasil em estado de perdição. O filme “Brincando nos campos do Senhor” conta-nos a história de dois aventureiros americanos que chegam à cidade Mãe de Deus, no Estado do Amazonas, por falta de combustível em seu avião. Um desses aventureiros é, curiosamente, um descendente aculturado de índios norte-americanos. O policial que analisa os documentos do avião propõe aos dois americanos, em troca da devolução dos passaportes e da documentação, que eles atirem algumas bombas para “espantar” os índios niarunas, a fim de tirá-los de suas terras. Paralelo a essa intriga, há ainda a questão da chegada da igreja protestante em terras indígenas, no afã de converter e de civilizar o índio. Tomado por uma crise de identidade, Moon, o aventureiro americano de descendência indígena, sob o efeito de um chá alucinante, pilota seu avião até as terras dos niarunas e, quando passa por cima de sua aldeia, ele se atira de paraquedas, saltando sobre aquele lugar. Os índios o tomam como um deus que veio do céu e o chamam de Kisu, o deus do trovão, perigoso e maldoso, do qual eles têm muito medo. Incorporam-no à sua coletividade e o relacionam a outro deus que vem do céu, a partir de um sincretismo entre Kisu e Jesus. Assentado sobre essa trama, entre um falso deus, a presença da igreja e o interesse pelas terras indígenas, o filme costura uma tragédia anunciada há quinhentos anos. O elenco do filme é formado por atores excelentes, como Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Katy Bates, Stênio Garcia, José Dumont e Nelson Xavier. Trata-se de uma produção estunidense-brasileira dirigido por Hector Babenco e com roteiro baseado em livro de Peter Matthiessen. É um drama. Com duração de três horas. Vale conferir no Cineclube Goitacá, quarta-feira, dia 13 de novembro, às 19:30h. No edifício Medical Center, na av. 13 de Maio, nº 286, sala 507. Entrada franca. [caption id="attachment_7124" align="alignright" width="300" caption="Ft.Google"][/caption] * Paulo César Moura é professor, contista, poeta e colaborador da Folha da Manhã.
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COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS
29/10/2013 | 02h02

Depois de Hans Staden  (1999, de Luiz Alberto Pereira) filme apresentado no Cineclube Goitacá, na semana passada pelo diretor de redação da Folha da Manhã, Alusyio Abreu Barbosa, chega vez do filme dirigido pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, “Como Era Gostoso o Meu Francês”. Filmado em Paraty (RJ) no ano de 1970, tempos sombrios da ditadura militar no Brasil,  dois anos antes tinha afundado em repressão pesada, com a supressão das liberdades democráticas, consolidada pelo famigerado Ato Institucional baixado, o  AI 5.

O filme enfrentou reação, censura e cortes. Veio ao público em 1972, alcançando um milhão de espectadores para intriga dos burrocratas da tesoura; além de não quererem permitir que as cenas de nudez fossem vistas, desconfiavam que por trás do enredo haveria alguma mensagem política embutida.

Considerado um clássico do cinema nacional, com viés tropicalista - uma visão irônica sobre a colonização brasileira - Como Era Gostoso o Meu Francês recebeu críticas excepcionais nos Estados Unidos –  sendo extremamente bem recebido – participando de célebres Festivais como o de Cannes e Berlim.

Em conversa à Folha On line, a protagonista Ana Maria Magalhães nos disse que é um filme que não envelheceu, “ A sensação que tenho é de que foi feito em outra encarnação distante, sob a perspectiva histórica, o colonialismo está lá.”

O filme, cujos diálogos em tupi-guarani são de Humberto Mauro, segundo Ana Maria “um tupinólogo amador”, é um filme pleno, na linguagem do cineasta Nelson Pereira dos Santos. Talvez o primeiro a trazer para as telas uma visão renovada da antropofagia de Oswald de Andrade.

Na época, o financiamento do cinema nacional provinha dos royalties oriundos da exibição de filmes estrangeiros no país. Como Era Gostoso o Meu Francês, foi produzido pela Condor Filmes em coprodução com Luis Carlos Barreto, também conhecido no meio como Barretão, pela força de sua participação na produção cinematográfica brasileira.

Ana Maria, atriz e diretora carioca, nascida em 1950, tinha na época da filmagem 30 anos. Sua participação se dá o tempo todo nua, “Foi um filme difícil, segurei esta onda. No modo de falar e de andar, minha personagem dava o tom da tribo, meio naturista, mas, consegui impor um respeito, não existiram gracinhas”.

Todo rodado em uma fazenda à beira mar de Paraty, foi construída uma enorme taba indígena.“ A célebre cena da pedra em uma praia linda, que gosto muito, foi cortada. Havia o desejo do canhão, a metáfora do poder da arma.” Mesmo as cenas de nudez frontal tiveram que ser escurecidas, “Na cena mais íntima do casal, meteram a faca”, afirma ela.

Hoje, passados 40 anos, o filme se encontra nas cinematecas o que garante imortalidade ao filme. Está lá disponível a qualquer geração que queira acessar a história do cinema brasileiro. Com ele, em 1972, Ana Maria conquistou o prêmio revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Para minha carreira o filme foi importantíssimo, filmar com Nelson me deu segurança”, diz.

Sinopse:

No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória. É uma adaptação livre de Hans Staden.

Será exibido amanhã, no Cineclube Goitacá, quarta ( 30/10), às 19.30h, no edifício Medical Center, na sala 507. A entrada é franca. Haverá debate após a exibição.

Até lá!

 
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CINEMA EM DEBATE
20/10/2013 | 06h20
Fts. Folha da Manhã
Agora sob o nome de Goitacá, em homenagem à sala de cinema que cedeu lugar à igreja Universal e também aos índios que habitaram a cidade, o cineclube retoma as atividades no próximo dia 23, às 19h30, no auditório do Oráculo (sala 507, do edifício Medical Center) com a exibição do filme “Hans Staden”, de Luiz Alberto Pereira, que será apresentado pelo diretor de Redação da Folha da Manhã, Aluysio Abreu Barbosa. Inicialmente como José Amado Henriques (homenagem ao crítico de cinema que atuou na imprensa campista), as sessões aconteciam na Faculdade de Medicina, e, posteriormente, como Cinema no Palácio, no auditório do Palácio da Cultura, o cineclube está sendo reativado por iniciativa de Luiz Fernando Sardinha, dono do espaço Oráculo, que, além de profissional destacado na odontologia, é cultor das artes, notadamente teatro e cinema. Para dar conta da tarefa, convidou Aluysio, o professor Aristides Soffiati, o jornalista Gustavo Matheus e o articulista da Folha Dois PC Moura. Na coordenação das atividades, a jornalista Luciana Portinho, diretora de eventos do Oráculo. Necessidade — No momento em que a cultura em Campos está em discussão, a partir de depoimentos publicados nesta Folha Dois, Aluysio entende que a retomada do cineclube acontece em boa hora e mostra que é possível “romper com as condições de pedinte do poder público municipal e criar espaços próprios para a discussão da arte. No caso específico, cinema. Isso é possível através da iniciativa privada e de pessoas sensíveis, como é o caso de Sardinha, profissional vitorioso, mas que não vive sem arte.” Além do mais, serve também para a produção efetiva da cultura, através de mostras regulares de filmes que dificilmente seriam vistos em circuito comercial. Depois de “Hans Sataden”, será a vez, no dia 30, de “Como era gostoso o meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos, cabendo ao jornalista Gustavo Matheus a apresentação. “Mantenho conversas regulares com Aluysio sobre cinema. Sempre me interessei em conhecer a trajetória dos diretores e, percebendo meu interesse, convidou-me para participar do cineclube. Aceitei de pronto, já que é uma oportunidade rara para enriquecer meus conhecimentos sobre a sétima arte”, destacou Matheus. No dia 6 de novembro é a vez do professor e ambientalista Aristides Soffiati fazer os comentários antes da apresentação de “Desmundo”, dirigido por Alain Fresnot. Aristides considera a retomada do cineclube fundamental como espaço para discussão e conhecimento de filmes que não fazem parte do circuito comercial. Sendo que muitos não são encontram nem em locadoras. “Se você for a uma locadora e pedir “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica, não encontrará e o atendente pode até tomar um susto porque não está acostumado a lidar com filmes de arte. Também poderemos ver obras que não chegariam aqui por falta de apelo comercial. Enfim, é a retomada de um espaço para discussão e, desta feita, pela iniciativa particular.” O filme “Brincando nos Campos do Senhor”, de Hector Babenco, será mostrado no dia 13 de novembro, cabendo a apresentação ao articulista PC Moura. “A idéia do cineclube é genial, porque podemos nos libertar da enxurrada de filmes comerciais. É uma opção que oferece para discussão e, além disso, a entrada é franca”, observou Moura. Espaço aconchegante A sede do Oráculo, sala 507 do edifício Medical Center, é um espaço confortável com 30 lugares (poltronas estofadas) e equipamento para projeção de filmes de última geração. A diretora de eventos, Luciana Portinho, destaca que a proposta de Luiz Fernando Sardinha é promover discussões regulares sobre arte e, por isso, a proposta de retomada do cineclube que agora “ganha o nome de Goitacá. Além do mais, trata-se de uma oportunidade para formar um grupo para discussões regulares sobre cinema. É um espaço à inteligência campista, sem grupinhos ou mandantes”. Aluysio Abreu Barbosa lamenta o fato do campista neste momento ficar restrito às salas do Boulevard que “exibem filmes para analfabetos, uma vez que são todos dublados.” Também lamenta a demora da reforma das salas do Cine 28. Com isso, o cineclube se constitui numa opção para aqueles se sentem órfãos de filmes que conclamem à sensibilidade “e não as rotineiras sessões pipoca que fazem a festa das bombinières.” O acesso ao Oráculo será gratuito e, após cada sessão, os presentes debaterão o filme se constituindo assim numa oportunidade para o exercício da inteligência e da sensibilidade. Celso Cordeiro Filho (Capa da Folha Dois de hoje, domingo, 20/10)
 
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Artes e ofícios
22/05/2013 | 05h42
Eles são campistas: uma mulher e dois homens. Os três têm filhos. Cada um tem duas profissões distintas. Em comum: uma das profissões é do ramo artístico. Lúcio Magno é médico ortopedista, cirurgião e músico. Olga D’Lucas é assistente social, escultora e artista plástica. Carlos Alberto Bisogno é petroleiro e cineasta. Como conseguem conciliar com a mesma ênfase as duas profissões é algo curioso, os três provam ser possível. [caption id="attachment_6312" align="alignleft" width="300" caption="Ft. Edu Prudêncio"][/caption] Músico desde os dezesseis anos, quando ganhou o Primeiro Festival de Música do Colégio Auxiliadora, o jovem Lúcio aprendeu novo a conciliar os estudos de sua futura profissão médica com a adrenalina sonora da guitarra. Uma parte das despesas da Faculdade de Medicina ele levantava tocando na noite, nas festas do Tênis Clube e nos bailes. “Sábado, pelas manhãs tinha aula de urologia, presença obrigatória. Parava o carro em frente à faculdade, dormia com a roupa que tocava. Naquele tempo chegaram a me perguntar: Menino você faz o quê na noite? Você é dançarino, é leopardo”? conta ele sorrindo. Foi fazer residência médica em São Paulo, especializando-se em Medicina Esportiva e Cirurgia de ombro e joelho. “Vendi guitarra e pedais, para comprar geladeira e fogão. Montei um apartamento, por lá fiquei seis anos sem jamais perder o desejo de voltar, de ter filhos e retornar a tocar”, fala ele. O segredo de até os dias de hoje conseguir levar a bom termo atividades tão diferentes, segundo Lúcio é não deixar acumular de uma área para outra. A agenda profissional dele é pesada. Encontra na música sua válvula de escape. Sua banda de pop rock é conhecida na cidade “Acústico Drive”, querem gravar um CD com composições próprias até final do ano. “A música me equilibra. Meus pacientes sabem que eu toco e me prestigiam, é bom. O segredo é não deixar furo em nenhuma área, por isso, tenho prioridade. Por mais que leve a sério tocar na noite, administro, não toco em noite anterior à cirurgia”, exemplifica. [caption id="attachment_6314" align="alignleft" width="300" caption="Ft. Hellen de Souza"][/caption] Dos três citados, Olga foi a última a estabelecer laços firmes com arte. Mulher, mãe de cinco filhos, a dupla jornada de trabalho como assistente social desde cedo consumiu seu tempo. Veio de uma família “humilde”, o pai mecânico na Usina de Baixa Grande. Estudou no Iepam, “Colégio onde ricos e pobres andavam juntos. Eu andava feito uma princesa, minha tia costurava para me sustentar”. Há 31 anos, Olga exerce a função de assistente social na prefeitura de Campos. Em 2005, no bojo de uma depressão descobriu-se — e foi descoberta — uma escultora por inteiro. Tem uma escultura sua no acervo da Rainha Elizabeth, outra escultura sua na Praça Brasil, cidade de Nagoia, Japão. É uma autodidata, provavelmente ajudada por sua extrema sensibilidade. A conversa transcorre nos olhos marejados da inquieta ariana, “Na Arte recupero energia, exorcizo meus fantasmas. A escultura me toma muito tempo, acaba com minhas unhas, é um desgaste físico, uma catarse. Sinto-me na obrigação de colorir o mundo. Não explico meus trabalhos, cada um traz a sua interpretação”. Como assistente social, Olga trabalha com a miséria humana, se sente impotente. “Trabalho para fazer valer os direitos do paciente, não o interesse contrário da instituição. Consigo amenizar um pouco o sofrimento das pessoas, faço um plantão semanal de 24h no Hospital Ferreira Machado e lá não estou passeando”. [caption id="attachment_6315" align="alignleft" width="300" caption="Ft. Lívia Nunes"][/caption] Quem diria que dá para ser petroleiro e cineasta? Pois para Carlos Alberto Bisogno, não poderia haver melhor combinação. A Petrobrás (é técnico de operação concursado) é a fonte de renda dele. “Fico 15 dias lá e 21 dias aqui; o maior tempo é dedicado ao cinema e mesmo lá o cinema está presente. Quando desembarco, venho com o roteiro escrito, o planejamento elaborado”. Remonta a 2007 o início de seu envolvimento com a “sétima arte” antes, desde 2001, compunha música orquestral no papel ou no computador. Não estranhem ele é uma inteligência rara, apesar de não admitir que o vejam assim e de preferir se autodenominar de “louco”. É que quando cria, a cena (iluminação, fotografia, gestual, fundo musical, por exemplo) vem por inteira na mente dele, assim é também quando escreve música. Sem tocar instrumento algum, a peça musical é concebida mentalmente, aí ele senta e escreve na partitura. Bisogno está agora em seu primeiro longa metragem. É também o primeiro longa metragem de Campos. É um Drama, filmado em 3D. “Já estamos gravando, entre o elenco estão Orávio de Campos, Yve Carvalho, Adriana Medeiros, Aucilene Freitas, Lucia Talabi e Toninho Ferreira. Todos acreditam no projeto, fazem pela oportunidade de experimentar, sabem que não tenho como pagar cachê. Só os atores estabelecem compromisso de filmar naturalmente. O filme retrata um grupo de jovens estudantes, amigos, paixões. No cinema a força não está na história e sim na forma como é contada”, frisa ele. Frente à particular constatação de que a ciência perdeu a força criadora, Bisogno largou a Faculdade de Física do IFF, tomou outro rumo “A arte me deu condições de expansão”. Luciana Portinho Capa da Folha Dois de hoje, 22/05.
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