É pra rir. É pra chorar.
23/01/2015 | 09h33
Dos assuntos que dominam a agenda dos dramas do cotidiano de todos nós: a água. Ou melhor, a falta dela. Bem escrito, sugiro a leitura. E vamos nós! Até quando e como? Alguém se atreve a predizer? Eu já enfiei as minhas certezas há tempo na minha sacolinha.

Ensaio sobre a cegueira paulista

janeiro 21, 2015 11:43
 E, de repente, um surto de cegueira acometeu São Paulo. Não se sabe se começou na avenida Higienópolis, na capital, ou se veio do interior. Há quem diga que o primeiro cego perdeu o senso de realidade em Ribeirão Preto. De repente deu de achar que estava na Califórnia. E a epidemia se espalhou silenciosamente pelo estado, por todas as cidades e vilarejos
Por Mauricio Moraes E, de repente, um surto de cegueira acometeu São Paulo. Não se sabe se começou na avenida Higienópolis, na capital, ou se veio do interior. Há quem diga que o primeiro cego perdeu o senso de realidade em Ribeirão Preto. De repente deu de achar que estava na Califórnia. E a epidemia se espalhou silenciosamente pelo Estado, por todas as cidades e vilarejos. Em 2014, nas eleições para o governo do Estado, a cegueira estava disseminada. Diferentemente do livro de José Saramago, onde uma mancha branca, um “mar de leite”, cegava um a um os habitantes de uma cidade fictícia, em São Paulo os cegos continuavam enxergando. Mas há tempos já se diz que o pior cego é aquele que não quer ver. E eles não viram, ou apenas fizeram cara de paisagem, junto com editores cegos de jornais e revistas, do rádio e da TV. Tudo parecia normal durante a reeleição do “Geraldo”, alcunha de Geraldus Alckminus, da longeva dinastia tucana. “Não vai faltar água”, disse o governador pausadamente naquela campanha, ressaltando cada sílaba, na maior mentira deslavada da história recente do país. E assim a maioria dos paulistas “acreditou” no que ele disse. Culparam São Pedro, o PT, e ignoraram solenemente os milhões que escorreram nos túneis do metrô e a violência que voltou a crescer. Se fizeram de Maria Antonieta no desmonte da educação e das universidades do Estado. Aplaudiram a PM esfolando manifestantes e matando jovens negros e pobres nas periferias. E sobretudo se fizeram de surdos quando alertados que a Cantareira estava baixando e que a água, logo logo, iria acabar. No quarto mês de 2015, no início do quarto reinado alckmino, ano 20 da era tucana, muitos paulistas começaram a se dar conta da realidade. Talvez tenha sido o odor inebriante do CC no busão ou as louças amontoadas na pia. O cabelo ensebado por falta de banho pode ter ajudado. Cientistas suspeitam dos efeitos colaterais da água do volume morto. Dizem que uma moradora dos Jardins acordou num surto psicótico depois que uma crosta de poeira havia se impregnado em seu carro de luxo. Nem decuplicar a oferta ao lava jato conseguiu driblar a realidade. “Esse atendimento não era gourmet?”, gritava, insana. Mas naquele dia já não havia mais água. Não demorou a que o caos se instalasse. Todos correram aos supermercados para estocar o líquido precioso. As gôndolas ficaram rapidamente vazias. Em Itu, um caminhão de água foi sequestrado. Por toda a parte, havia registros de brigas, até por garrafinhas de 500 ml de água. E o preço foi às alturas. Em Pinheiros, uma rua cedeu depois que vários moradores cavaram poços clandestinos. A desordem se instalou. No Palácio dos Bandeirantes, longe de tudo e de todos, Alckminus tentava contornar a crise. Desta vez, estava preocupado. O Maquiavel de Pindamonhangaba enxergava tudo muito bem e, com jeito de bom moço, já havia se tornado mestre em abafar CPIs na Assembleia Legislativa ou em mentir que a Corregedoria da PM funciona. Agora, estava sob grande pressão. Ainda não havia sinal de nenhuma turba chegando ao longínquo Palácio dos Bandeirantes. O Choque da PM bloqueou o acesso ao Morumbi (com garantia de água à vontade, a fim de evitar um motim policial). O estoque de balas de borracha foi reforçado e um novo lote de gás lacrimogêneo fora usado contra manifestantes do Movimento Água Livre. Contra o povo, Alckmin tinha a polícia. O que realmente o preocupava eram os 30 PIBs de São Paulo reunidos no Palácio (a quem foi oferecido champagne por razões de “restrição hídrica”, como explicou o cerimonial). Também apavoravam o governador as chantagens dos acionistas da Sabesp. Apesar do preço exorbitante, a falta d’água deixou a companhia deficitária, com as ações a preço de banana na Bolsa de Nova York, onde eram comercializadas desde a privatização parcial da empresa. E assim os paulistas tentavam deixar a cidade, o Estado. Um grande congestionamento, que já durava uma semana, travou as rodovias. Na capital, moradores fugiam pelas ruas, carregando o que podiam, em uma cena dantesca. Uns deliravam e arrancavam as roupas, andando desorientados. A Força Nacional foi acionada. Já havia gente se jogando no Tietê. Em meio à tragédia, os jornais traziam notícias otimistas. “Cacique Cobra Coral assegura que vai chover”, dizia a manchete de um deles, com declarações de Alckminus justificando a contração da “consultoria para deficiência hídrica”. Analistas chegaram a prever um ataque da população ao Bandeirantes, mas pesquisas mostravam que grande parte dos paulistas ainda não tinha certeza sobre quem era o responsável pela crise da água, se Dilma ou Haddad. Na dúvida, resolveram ir embora o mais rápido possível, com a fé abalada em São Pedro. Ainda mantinham a esperança de que, um dia, a cidade fosse inundar mais uma vez durante as chuvas de verão e que haveria água para todos (ou ao menos nos camarotes). Para muitos, a cegueira era irreversível. Fonte: aqui http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/ensaio-sobre-cegueira-paulista/
Comentar
Compartilhe
Folha com novo escritor
24/05/2013 | 05h38

Paulo César Moura passa a escrever na Folha Dois

Luciana Portinho

[caption id="attachment_6353" align="alignleft" width="200" caption="Ft. Edu Prudêncio"][/caption] O professor, ator, poeta, ensaísta e também mestre e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Paulo César Moura ocupa, a partir de amanhã, um espaço da página sete da Folha Dois, com a coluna de contos, “Abundante”, com hífen, como sugeriu Moura. — Nossa identidade abundante, nossa outridade, no caso, tem a marca do híbrido, da diferença, da extrapolação do imaginário cartesiano etnocêntrico. O Outro é ab-undante, negação e envolvimento — diz Paulo César ao explicar a escolha do nome da coluna. Nascido em Campos, descobriu cedo a vocação para a literatura e o teatro. Aos 18 anos, em meado da década de 70, foi para o Rio de Janeiro estudar Letras. Corriam anos intensos para o movimento cultural brasileiro, em franco confronto com a ditadura militar, o teatro em ebulição. Paulo se aproxima, como ator, ajuda a criar o grupo teatral “Mixirico”. Se aventura na linguagem do Teatro do Absurdo. “Escrevo ficção, contos, peças de teatro, sem tema definido”. Sua poesia é moderna, simétrica, assimétrica, “branca”. De comum, a preocupação social, personagens esquecidos, marginalizados. “É uma reflexão com emoção, a poesia esta presente na prosa”, diz ele. Ao abordar o ‘outro’ ele situa o ato de escrever como parte de uma postura crítica.  “Somos o outro da história, somos o quarto continente depois da Ásia, da África e da Europa”.

( publicado na Folha Dois, página 3, hoje, 24/05)

UM QUIXOTE   [caption id="attachment_6356" align="alignright" width="223" caption="ft. Google"][/caption] porque nunca desistes nem porque tens no corpo sinais de um sobrevivente nem ainda porque antes de tudo ouviste mudo teu nome: errante. por nada deixas de ser criança e apesar das maledicências és um quixote: eis a diferença. Paulo César Moura
   
Comentar
Compartilhe
Mudança na toada
14/01/2013 | 11h22
COMPASSO MARCADO Luciana Portinho Naquela tarde, estava no cais. De pé, olhava em direção ao mar. Imenso aquário de infinito mistério. Visto da terra, aquele azul profundo lhe metia medo. Não era o azul oceânico. Ventava forte e a maresia impregnava até sua alma. Perto dali, algumas crianças brincando de baleba, outras no ágil manuseio do cerol das pipas embaralhadas. Não havia dúvida, até aqui, este fora seu porto. Sempre retornara a ele. Por entre a cantoria das gaivotas e as mãos dos pescadores correram seus sonhos. Até hoje, ainda se questionava ter nascido fêmea. Se homem fosse, mais aceita teria sido sua vida. Sabia-se uma mulher com encantos. Bem lhe fazia bulir com os homens. Alguns de fato eram atraentes, na palma desses tinha se deixado ficar. Aquele lugar era pequeno demais para a sua alma liberta. Filho não quisera ter, nem marido. Só, se impusera pela própria trajetória. Não saberia ter vivido o tempo todo fixa na terra; esperando, bordando, murchando. Agora, parada - imersa em lembranças - as cenas ganhavam animação. No início, os marujos resistiram à decisão de com ela partilhar os percalços mar adentro. Entendiam como um cio, capricho de vadia. Doidivana. Fora assim vista por todos. Depois, nos perigos do mar mostrara a que veio: insuperável na destreza de um leme, no manejo das velas. Na exata previsão dos humores das ventanias dialogava com as tempestades. Nestes momentos limiares, no turbilhão da imprevisibilidade ela era acometida de uma cálida calmaria. Havia nela uma sólida sintonia com as forças da natureza. Ali, na suspensão temporal, procuravam pelo corpo, por gotas de seu suor se hidratavam, vasculhavam seu olhar como se bússola fosse. Diziam, nela haver, as profundezas do contorno de Iemanjá, a rainha do mar. Conquistara assim o espaço individual. É  puxada para o presente por uma lufada fria. Um tremelique a percorre. Apruma o corpo, os seios já rígidos. Aos poucos, uma nova imagem ingressa no seu foco visual. No horizonte, cresce. Esplendorosa nau. Galera das amplas velas brancas, ESTUFADAS. Nave dos longos deslocamentos viera lhe buscar. [caption id="attachment_5574" align="aligncenter" width="350" caption="Muchacha de Espaldas, Salvador Dali, 1925."][/caption]

 

Comentar
Compartilhe
Conto de Cabo Frio
11/06/2012 | 05h08
Conto de Cabo Frio luciana portinho Os quatro se conheciam - três homens e uma mulher -, no topo de um estreito e muito alto escarpado de pedra, reduzido espaço em que mal cabiam os corpos em movimento. Ela nem guarda o registro de como lá em cima chegaram. Ela chama a atenção para que não se apoiem na pequena coluna, há o risco de não aguentar o peso do corpo de qualquer um deles. Mal termina de falar, aquele que parecia liderar os demais se lança no abismo dizendo “eu não temo desafios”. PLAFT, então ela escuta, olhando para baixo, e vendo o corpo do homem jogado em queda livre ao encontro... A perplexidade a invade, junto à incerteza do que aconteceu lá embaixo ao amigo. Estaria ele salvo por tanto destemor à morte?! A vida sempre conspiraria em seu favor? Uma dúvida assustadora a domina. Teria ela que cumprir o treinamento proposto por todos e nada temer. Um por um haveriam de se projetar? E se morressem todos, qual o valor do exercício, quem tiraria algum proveito da ação praticada? Desperta do sonho para então refletir. Agora sem mais o risco da iminência perturbadora. Não se admitiria acovardar; por outro lado, bem mais forte, concluiu da burrice vã. Saiu da cama. Retirou-se do quarto. Olhando o mar, foi tomar café. [caption id="attachment_4059" align="aligncenter" width="960" caption="Ft. Luciana Portinho"][/caption]

 

Comentar
Compartilhe
Do Face para o Blog, COMPASSOS
10/04/2012 | 03h56
Compassos Luciana Portinho Ele se locomovia a passos, largos.Varava em linha reta. De norte a sul. Vez por outra, alternava. De leste a oeste. Ela na ponta dos pés saltitava. De um pulo voava. Pousava na copa de uma árvore. Pelo tronco retornava. Ele infatigável na marcha batida. Dava ré, andava de costas. E, até de lado. Andar certeiro. Ela dava cambalhotas, rolava morro abaixo. Tropeçava e mergulhava no chão de folhas. Deslizava. ENCONTRO MARCADO Ele apertava as mãos vazias. Ela qual caroço de manga, escapulia. Sexo. Carnal. Ele tomava uisque cowboy; ela chupava lichia na vodka. Rasgaram-se todos. Cabelos em alvoroço.Colaram-se. Daí em diante cavalgariam. Dama e Cavalheiro. [caption id="attachment_3714" align="aligncenter" width="480" caption="Ft. Google"][/caption]

 

Comentar
Compartilhe
VIDA MINADA
07/03/2012 | 07h01
VIDA MINADA Luciana Portinho   Acordara com o pensamento nela. Mulher bonita e severa. Implacável nos saltos. Logo percebeu ao entrar naquele ambiente, penetrava em outro enredo de vida. Haveria de ficar um bom tempo. Espaço formal, limites aparentemente bem definidos. Naquele tempo era tão boba. Só não acreditava em Papai Noel. Andava com o coração exposto, sorriso nos olhos, braços abertos e uma esperança certa. E foi uma convivência turbulenta. Uma escola de pancadas surdas. E mudas. Imperativo sobreviver. Um jardim de belas flores e de bombas espalhadas. Tenso. Quando menos esperava já tinha pisado em uma delas. Os estilhaços atravessavam seus sentimentos, lágrimas corriam. Tempos de choque para quem crescera na displicência brejeira. Ali se sentia num reformatório. Hostil. Naquele lindo jardim as paredes a lhe comprimir a alma eram móveis, todas de natureza invisível. Aquele espaço nunca seria também seu, era todo tomado. Ao se movimentar teria que pedir licença: licença e mais licença. Desse modo fora aceita, afinal pela mão dele foi apresentada como a escolhida, portanto, nenhum questionamento admissível ... pela frente. Assim foram os dias, assim foi erguida uma das fachadas da vida. Dela não se arrependia, em nome de um amor quis ficar. Provaria do amargo como a um antídoto. Naquela manhã distante, já sem o peso da tola disputa, a história retornou em todas as suas letras. Aquela mulher, de modos estúpidos com tantos, fora antes de tudo prisioneira de si mesma. Aí a origem do seu enfezamento constante. Incapaz de se libertar iria gritar, espernear, exigir e culpar o outro. Com tanto do bom ficara atada na ampla cozinha de mármore, presa por corrente imaginária ao fogão. Um fogão sólido: azul e branco com detalhes em prata. Seis potentes bocas. Um fogão que o calor de suas chamas ajudou a retorcer as pequeninas mãos daquela mulher dona de objetos e escrava de si. Com o tempo a família estampada em fotografias se dispersou na dimensão terrestre. Seus protagonistas morreram. Os que vivos permaneceram, vez por outra, assopram cinzas e lambem suas feridas. Hoje o jardim virou mato, sem bomba. A casa permanece ocupada pelo vazio.   [caption id="" align="aligncenter" width="445" caption="Ft. Google"][/caption]

 

Comentar
Compartilhe
DE HOMENS E CÃES
26/02/2012 | 08h13

DE HOMENS E CÃES

NinoBellieny
É de manhã, num dia de feira qualquer. O sol se espalha pela praça e se espelha nas poças d’água formadas na depressão do piso. O homem distinto e bem vestido caminha em direção à Igreja. Escorrega no passo apressado e desaba seus cento e vinte quilos. É acompanhado por estertores imediatos. O chacoalhar do cérebro ao repicar no mármore disparou impulsos e o corpanzil treme, gira, se debate. Logo se forma uma multidão em torno e ninguém tem coragem de chegar perto. São segundos de agonia e espetáculo para comodistas e medrosos. Rapazes filmam, meninas narram a cena pelo celular. Risos, piadas e o homem agora nem um pouco distinto, não se mexe mais com a mesma intensidade... a boca e o nariz estão inteiros dentro d’água. Vai morrer afogado e sua morte será mais tarde vista por milhões na internet.
Até surgir de modo brusco e misterioso um enorme cão. É um pitt bull. Já está próximo ao homem. Parte da multidão se excita: a fera vai completar o espetáculo estraçalhando o quase afogado. Outra parte parece despertar do transe e quer impedir.
O cão não se intimida. As duas poderosas patas reviram o homem na exata hora do afogamento. Lambe o rosto da vítima. O sujeito volta a respirar, está salvo. O povo engole o próprio silêncio e a vergonha. O pitt bull permanece majestoso por alguns instantes e depois se afasta lentamente num gingado marrento e heróico. Desaparece dentro da fumaça negra de um ônibus na movimentada rua, como um anjo de quatro patas.
Na praça a multidão se dispersa. Não há risos nem piadas. Só olhos cabisbaixos e ombros arriados como sempre.
[caption id="attachment_3550" align="aligncenter" width="300" caption="Arte Digital de Nino Bellieny"][/caption]

 

Comentar
Compartilhe
É SÓ UM PEIXINHO
05/02/2012 | 11h57
Nino Bellieny
- Ei moço! Compra meu peixinho vai, custa só 10 reais. - Que peixe? Tô vendo só um saco plástico cheio de água. - Olha direito moço! É um peixinho dourado, contra o Sol assim o senhor não vai ver mesmo! - Você quer me enganar, me vender um saco de água suja. - Tem um peixinho dourado aqui, só não vê quem não quer. Leve pro seu filho, tenho certeza de que ele vai gostar.Tem que ver com olhos de poesia! - Não tenho filho. Botou poesia no meio aí é que não levo. Afinal é peixe ou poesia o que você diz vender? - Moço, me compra o peixinho, garanto que ele vai enfeitar seu aquário. - Não tenho aquário. Não quero esta porcaria. - Então leva pra sua mulher, mulheres gostam de presentes diferentes. - Não tenho mulher. E continuo não vendo peixe nenhum nesta sacola. - Pois é moço. Não tem filho, não tem aquário, não tem mulher. Como é que o senhor vai conseguir enxergar um peixe dourado?   http://nuvensnuvensestacionadas.blogspot.com/ [caption id="attachment_3427" align="aligncenter" width="320" caption="Artista Plástico Turco (nome inelegível)"][/caption]    
Comentar
Compartilhe
MITINGA
30/11/2011 | 01h12
MITINGA luciana portinho Não suportava mais aquela rotina de servidor público e ainda mais, a de não concursado. Não era um alguém, enxergava-se como um sub-funcionário. Nunca lhe diziam tudo. Ao contrário, quando o chefe lhe chamava sempre ouvia algo do gênero: “ Amanhã tem que estar tudo pronto, vai virar a noite toda batendo cheques e montando os processos”. “Sem perguntas, não tenho que dizer nada, nenhum detalhe, cara.. é pra isso que você recebe”. Era o preço, sabia. Departamento financeiro, este o lugar onde trabalhava. Uma encrenca só. E bico calado ou dançava. O que ainda o distraia eram os colegas da repartição. Cada qual com sua esquisitice particular. Simone, uma colega mais velha, era feia, complexadíssima. Inventava que a prefeita a chamava no orelhão instalado dentro da repartição. Pensava ganhar desta forma, prestígio junto aos colegas. Estes, por sua vez, fingiam acreditar e se divertiam, pediam detalhes da conversa. Um sanatório geral. Tinha aquela que se julgava a mais gostosa, Rosane, e realmente era. Roupa sempre arrochada, coxas roliças, empoleirada no tremetreme de um salto alto, os peitos transbordando. A maldita andava num rebolado de câmera lenta. Frisson maior era quando resolvia se sentar na mesinha da recepção. Na vista dos marmanjos até os fundilhos da calcinha de renda fazia questão de mostrar. Era casada com um troglodita. Ciumento, machão e bocó que em todo final de expediente batia ponto e sumia com ela. Assim transcorriam os longos dias de trabalho. Nenhum planejamento das atividades, marasmo quebrado por urgências às quais ele se desdobrava para resolver. Como naquele dia... sem mais nem menos foi ultimado a comprar um pato vivo no mercado municipal para Simone fazer a macumba dela. E quem seria doido de negar? Tinha mesmo cara de bruxa a danada. Na base do nariz uma verruga escura, cabeluda e na boca torta, dentes amarelos. Logo surgiram dinheiro e carro para que ele fosse "pagar" o pato. Numa tarde dessas em que estava desatento, descobriu sem querer que o chefe tinha uma amante. Foi a chave da mudança. Daí em diante, recebeu um aumento informal, sanduíches naturais no lanche e coisa e tal. Manter em segredo a descoberta facilitava a vida... Talvez esta rotina medíocre ao longo de uma década explique a tara que, sorrateiramente, foi se instalando em sua mente até por completo dominá-lo. Nunca ouvira falar de algo parecido, pelo menos nisto se sentia original. Começou no dia em que compareceu ao velório do marido de Mariana. O cara além de bonitão era tido como um crânio, inteligência sempre engatilhada, brilhante mesmo. Acontecimento concorrido, quase uma festa. Discursos, muitas coroas, as costumeiras moscas inconvenientes, uma difusa consternação. Naquele sufocado ambiente nasceria aquela que seria sua síndrome maior, da qual se envergonharia os restos de seus dias se mais alguém além dele soubesse. Que merda! Qual o nome para esta patologia de furtar o Livro de Presença de um velório? Só isso agora valia a pena,nada mais. Pra que meleca serviria este monte de livros roubados com o nome do defunto e de quem lá esteve? Personalidades desconhecidas. Monte de garranchos, entremeados por despedidas arrastadas. Infelicidade... só este diagnóstico lhe restou. Sucumbido à rotineira monotonia, fazia da morte alheia uma aventura. Um cheiro de flor velha penetrava suas narinas. Enjoo e suor. Desconforto e inadequação... Sentiu-se comprimido, o coração disparado...naquele momento nitidamente vislumbrou todo o desperdício de sua existência. Transformara-se num secreto colecionador de livros de despedidas funéreas...  
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Luciana Portinho

[email protected]