Cicatrizes, por Christiano...
04/06/2016 | 06h06
No início do mês passado fiz uma pausa de uma semana por aqui. A principal providência para descansar, no meu ponto de vista, além de sair da cidade para quebrar a rotina, é a desconexão dos instrumentos de trabalho e dos dispositivos que nos auxiliam e também escravizam.
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No início do mês passado fiz uma pausa de uma semana por aqui. A principal providência para descansar, no meu ponto de vista, além de sair da cidade para quebrar a rotina, é a desconexão dos instrumentos de trabalho e dos dispositivos que nos auxiliam e também escravizam. A primeira medida foi deixar o notebook em casa. A segunda foi sair das principais redes sociais, como Facebook e WhatsApp, apagando os aplicativos do smartphone. O ideal seria também deixar o celular, mas com parte da família ficando não há como. Além do que, hoje o smartphone substitui vários dispositivos úteis em uma viagem, sendo ao mesmo tempo câmera fotográfica, GPS, som, xerox de revistas e fonte de pesquisa. A ida para um lugar com sinal ruim de Internet também ajuda, evitando possíveis “recaídas”. Aproveitei para preencher parte de uma lacuna, colocando, após longo tempo, a leitura em dia, ajudado pelo cenário de praias desertas em baixa temporada. Um dos livros que levei foi “Cicatrizes na Parede”, escrito pelo jornalista Esdras Pereira. Baseado em muita pesquisa feita pelo escritor, o livro mistura ficção e realidade, narrando a saga dos negros, desde a sua captura na África para servir como escravos aqui em Campos, passando pela escravidão, pela abolição, pela época áurea da cana-de-açúcar, pelos salões glamourosos da sociedade campista do século passado, até chegar aos dias atuais. “Cicatrizes na Parede” é um romance repleto de personagens fortes, muitos deles inspirados em figuras conhecidas da sociedade campista, que sofre forte crítica no livro. Como cenário, vários locais que marcaram gerações, alguns ainda de pé até hoje, todos presentes na memória da cidade. A ótima estória passa também por fatos relevantes da história recente de Campos, sempre misturando realidade com alguma ficção. Há forte presença de erotismo na trama, que passa por relações sexuais entre raças distintas e classes distintas, e por temas como homossexualismo e prostituição. Para ilustrar o livro, os traços perfeitos dos desenhos do artista plástico João de Oliveira. “Cicatrizes na Parede” é de fácil leitura, tendo apenas o primeiro capítulo, “A Origem”, de entendimento um pouco mais complexo, mas necessário para a compreensão de toda a trama que se desenrolá dali em diante. Devorei o livro em uma tarde e uma manhã de praia. É daqueles livros que você não consegue parar de ler, atraído pelo que virá no passo seguinte da ótima trama. Talentoso em tudo o que faz, seja no fotojornalismo, no colunismo social, na gastronomia ou no design gráfico, Esdras Pereira revelou, com sucesso, mais uma faceta sua, a de escritor. O livro pode ser adquirido aqui, na Editora Autografia, ou aqui, em versão eletrônica, na Amazon.
(Christiano Abreu Barbosa)
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