O Brasil de antigamente
04/04/2018 | 09h23
Recentemente, em um destes encontros familiares, surgiu uma conversa sobre o quanto nosso comportamento de um modo geral, mudou em poucas décadas.
Era um domingo, e ao redor de uma mesa de jantar fartamente regada a vinhos e massas, estavam representantes de três gerações distintas.
A que nasceu nos anos 40, sendo reforçada graciosamente pela matriarca da família, forte e lúcida no auge de seus 92 anos, seguido da geração dos anos 70/80, estes pais dos mais novos, nascidos depois dos anos 2.000.
Ou seja, tínhamos pessoas de 70, 40 e 15 anos.
Os mais velhos, hoje mais avós do que pais, diferentemente do que muitos ali pensavam, lembram com saudade e respeito da época deles. E não é aquele saudosismo vil, simplesmente por se tratar do passado. É uma saudade de quem não via tantas mortes barbaras, sem motivo, simplesmente pelo fato de matar, como vemos hoje.
Digo isto, pois é comum pensarmos que naquela época tudo era chato, demorado, que a modernidade de hoje trouxe muito mais vantagens.
Mas o que ficou visível para todos nos, e principalmente para os mais novos, é que o importante para eles, sempre vinha relacionado ao emotivo, e não ao material.
Desde as brincadeiras, simples mas sadias, até as refeições, tudo era feito com respeito, que não parece se tratar do pais que moramos, apesar de passado pouco tempo.
Crianças brincavam na rua, sempre correndo e em bando, com a liberdade de quem podia andar na cidade inteira. Brincadeiras como cabra sega, corre corre, pique esconde, pula cordas, pião, bolinha de gude.....apesar de simples, sempre contavam com a participação de outras crianças, estas de famílias conhecidas.
Pelo que percebi, brincadeiras onde uma criança ficava sozinha, comum nos dias atuais, com seus smartfones e videogames, não existiam.
Se queriam brincar com algo, geralmente construíam, como o pião, o estilingue, a pipa e as bonecas de pano. Se eles próprios não construíam, pode ter certeza que o avô o fazia. Ou seja, nada era descartável.
Custavam suor para construir.
Hoje, o pai dá um presente de manhã (de plástico), a mãe da outro a tarde (de plástico), e não sabemos por que as crianças não dão valor.
Refeições eram na mesa, juntos. Sem pressa. Fast Food era palavrão, se existisse. O respeito dos mais novos perante os mais velhos, era inegavelmente maior. Arrisco a dizer, que existia respeito.
Televisão era uma, na sala. Todos assistiam juntos, e não cada um em seu quarto, com sua própria TV.
Um professor aposentado, presente na conversa, lembrou que sua profissão era respeitada, digna, motivo de orgulho. Se ele chamasse a atenção de um aluno, o mesmo tomava duas broncas, dele e do pai. Hoje, quem apanha é o professor. Perceba que o salário não foi o assunto. O importante era o respeito.
Falando em apanhar, naquela época os pais batiam nos filhos. Simples assim. O leitor mais velho deve-se lembrar das palmadas do pai, isso sem contar as cintadas e borrachadas. E com certeza não deixou de amá-lo por isso. Pelo contrario, acredito que seja grato por ensiná-lo a ser, o homem que se tornou.
Na mesa, nós da geração do meio escutávamos atentos, com lampejos de lembranças, afinal convivemos um pouco com esta geração.
Lembro-me de poder andar na rua sem medo de assaltos, mas sabia da ocorrência de alguns. Jogava bola e empinava pipa, ao mesmo tempo que tínhamos videogame em casa.
Pegamos a febre da novidade dos fast foods, mas também comia na mesa com a família. Não na sala, em frente a TV. Ainda existiam os almoços de domingo, pessoas que faziam questão de reunir a família inteira, sem pensar no trabalho do dia seguinte, ou se terá algum tipo de compensação.
Escola era lugar de respeito, mas já tínhamos certa liberdade a mais do que nossos pais. Devíamos estudar, pois tínhamos que passar de ano, e se não estudássemos era reprovação na certa.
Respeitávamos nossos professores, que por sua vez, conheciam e eram conhecidos de nossa família.
Pegamos a transição de uma época que se brigássemos na escola, as nossas mães conversavam e os dois apanhavam ou ficavam de castigo, para uma época que ninguém conhece mais ninguém.
O papo progredia, até que um da geração mais nova, no auge de seus 15 anos, mostrando toda a sua preocupação com o assunto, perguntou onde tinha tomada para carregar o celular, para ver o novo clipe do MC sei lá o que com a Anitta, que por sinal, esta em todas.
Existia só coisas boas? Claro que não. Somos inteligentes para saber que progredimos na medicina, saneamento básico, rapidez na informação, opções de entretenimentos, enfim.
Mas o que mais assusta, é que quando conversamos o quanto nosso país mudou, os defensores dos dias atuais citam somente coisas materiais para defender suas teses, mesmo sem perceber.
O grande problema é que naquela época, até os bandidos eram românticos, chamados de batedores de carteira, gatunos. Não matavam para roubar, eram ladrões de oportunidades. Lembro que quando viajávamos, meu pai deixava a luz da sala acessa, para enganar o gatuno de que tinha alguém na casa.
Hoje, o meliante entra até com holofote, guarda, cachorro e tudo mais. E o pior, é que mata pelo simples fato de matar.
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Sobre o autor

Fábio Pexe

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