Além de um soldado da PM
21/02/2016 | 16h14
[caption id="attachment_3069" align="aligncenter" width="291"]12715207_505451386301587_5150412952181265864_n Fernando Machado[/caption] [caption id="attachment_3071" align="aligncenter" width="297"]1618667_415777088567485_172608313_n Renato Júnior[/caption] Eu não conheci pessoalmente o soldado Escodino, mas em seu perfil em uma rede social pude conhecê-lo um pouco. Fui buscar informações, inicialmente, movido não só pela curiosidade de jornalista que sou, mas também por ter há quase dez anos perdido um irmão policial militar também de forma brutal, tão jovem e amado como o Escodino. Na rede social, Escodino é o Fernando Machado, um rapaz divertido, com uma infinidade de amigos — alguns em comum —, que o amavam, assim como a namorada e os familiares. Entre as várias homenagens postadas, a sua alegria era algo contagiante. Gostava de dançar e cantar, como revelam vídeos, além de estar sempre com a família, inclusive como mostra as imagens do seu último Natal. Gostava de artes marciais também. Estava sempre sorrindo e “agitando todos a sua volta com sua energia positiva”, como postou um dos seus amigos. Na sua rede social também descobri um Fernando humano e herói, que, dias antes de ter sido morto brutalmente a tiros, havia, segundo a Associação de Protetores Amigos de Todos os Animais (Pata), participado do resgate de uma cadela atropelada em Travessão, a qual levou a um veterinário e depois para o DPO do distrito, onde trabalhava. O “menino de coração de ouro” seguiu cuidando da cadela e colocou o nome de Zica. Mergulhei por mais de uma hora em cada postagem feita em homenagem ao “Fernadinho”, como alguns o chamavam, senti uma dor imensa, mas também dei boas gargalhadas com o que relataram sobre ele. As suas danças divertidas e que, durante muito tempo, foram levadas a sério ao ponto de ele ter sido professor. Lá descobri também que antes de realizar o sonho de vestir a farda da PM, ele havia sido guarda municipal em São Francisco de Itabapoana, mostrando disciplina independentemente da profissão que escolhesse. Quis ele e o destino que se tornasse policial, assim como um dia quis o destino que meu irmão também fosse um. Quis o destino que os dois partissem tão jovens e de forma tão brutal. Quis o destino que a alegria deles fosse contagiante e a bondade de ambos não os permitisse ver maldade no outro. Foi assim com meu irmão, Renato Rangel da Mota Júnior, o soldado Júnior — hoje na galeria de PMs mortos na entrada do 8º BPM —, que um dia, ao defender a mãe de um filho drogado, em Campos, foi morto com um tiro em uma ocorrência que parecia simples. Foi assim com o Fernando, que, no seu dia de folga, só queria consertar a sua moto e foi atingido por um tiro dado, supostamente por um menor, pelas costas só por ser, inicialmente, policial ou por ter sido confundido com um “rival”. No caso do meu irmão, sei que o autor foi condenado a mais de 20 anos de prisão, por mais que a pena seja diminuída na prática por questões que só o “juridiquês” explica. Já no caso do Fernando, revolta saber que a punição ao menor será bem mais branda, por conta dos seus 17 anos. E neste aspecto, nem gostaria de discutir a questão da redução da maioridade penal, pois confesso não ter uma opinião muito bem formada a respeito disso, por várias questões que não caberiam aqui. Mas, neste caso específico, não tenho dúvidas da necessidade de uma punição mais severa. E entre tantas mensagens me deparei com a do Caio Escodino, irmão de Fernando, e aí foi impossível não me colocar no lugar dele: “Meu irmão que dor estamos sentindo. Saber que amanhã não irei te ver. Dói muito. Sei que transmitir aqui o que estou sentindo não vai melhorar em nada a dor, mas quero mostrar a todos o irmão que você foi, amigo verdadeiro e sempre esteve comigo em todos os momentos e dizer o quanto te amo. O único conforto que tenho é a certeza que você está num lugar melhor que nós. Você realizou seu sonho de vestir sua farda, mudou e virou um homem que lutava pelo que achava correto. Te admiro muito e guardo no meu coração o seu sorriso e o seu jeito de viver com alegria”. Voltei dez anos lendo isso. Entendo cada palavra. Sei que em meio a essa dor, a revolta terá espaço. Alguns questionamentos virão. Mais um para as estatísticas? Culpa do Estado? Culpa da sociedade? Repostas virão, mas não cessarão a dor. Aí cabe a cada um de nós refletirmos sobre o que temos feito para que mais Fernandos e Juniores não sejam vítimas dessa violência que invade lares de militares e também de milhares de civis. “Parabéns para todos nós que trabalhamos em prol de uma sociedade que nos critica”, disse Fernando em postagem feita em 25 de agosto de 2015, no Dia do Soldado. Quero dizer a cada familiar e amigo do Fernando que a ficha nunca vai cair. Vamos sempre questionar por que isso aconteceu com alguém tão especial e que só queria fazer o bem. Esta resposta nunca virá e o luto será eterno. (Artigo publicado na edição da Folha deste domingo)
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Rodrigo Gonçalves

[email protected]