Governança democrática
27/03/2016 | 18h12

A política democrática está sofrendo uma crise de legitimidade, que se aprofunda no atual cenário político brasileiro, em que novos escândalos não param de aparecer. Ontem mesmo, enquanto escrevia este artigo, fomos todos surpreendidos (será?) com a divulgação de listagens de possíveis beneficiados com recursos da Construtora Odebrecht, dentre eles os membros da família Garotinho.

O que causa estranheza, é a dificuldade que diversos políticos têm de enxergar o agravamento dessa crise e a necessidade de abandonar os mecanismos ultrapassados da velha política, entranhada em todos os níveis de poder, independentemente de partidos e posições ideológicas.

Partindo dessas premissas para a análise do cenário da nossa cidade, é imprescindível superar a relação estabelecida entre as recentes Administrações que por aqui passaram e a sociedade, em que os governos se tornaram quase que verdadeiros tutores da população, atraindo para si, quer seja pelo constante aumento de arrecadação, quer seja pela vontade inconfessável de tornar a população refém dos seus interesses, a responsabilidade quase que exclusiva das tomadas de decisão acerca do futuro da cidade.

Essa ruptura não é necessária apenas porque os nossos recursos, fortemente reduzidos pela crise do petróleo, estão cada vez mais escassos antes as crescentes e complexas demandas sociais, mas sobretudo pelo fato de que as atuais transformações sociais criam hoje as condições para o surgimento de um novo tipo de governo, pautado numa governança mais democrática.

A dificuldade de pôr em prática essa concepção entre nós é evidente. Ninguém muda de uma hora para outra um pensamento populista e demagógico fortalecido ao longo dos últimos trinta anos. Mas é nosso papel, enquanto cidadãos, ajudar a construir uma nova cultura política, que fortaleça a capacidade institucional do município, em detrimento de conceitos personalistas de poder, trazendo para o cenário político pessoas com a capacidade de traçar estratégias de governo voltadas efetivamente para o bem-estar da população e não apenas para atender a interesses inconfessáveis de determinado grupo político.

De tudo isso que foi dito, fica a ideia de que precisamos nos apropriar do poder. Não podemos mais permitir que as decisões mais relevantes do nosso município continuem a serem tomadas pelo grupelho da lapa. Nenhum político é dono de Campos e isso precisa ficar claro daqui em diante. Que saibamos absorver as lições que o atual momento político brasileiro nos apresenta e façamos algo concreto e positivo de tudo isso que está diante de nós.

Artigo publicado na versão impressa da Folha do dia 24/03.

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Ainda tem fundo no poço?
21/03/2016 | 10h10

Nada é tão ruim que não possa piorar. O famoso ditado encaixa-se como uma luva na política brasileira, cada vez mais atolada em escândalos de corrupção, de falta de ética, moralidade e decoro. Para onde se olha, esquerda, direita, centro, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Campos, constatamos a degradação de nossas instituições e, sobretudo, dos políticos, com ou sem mandato.

Em âmbito nacional, a cada dia nos surpreendemos com novos fatos descortinados pela operação lava jato e suas delações premiadas, que tiram o sono da elite política nacional, até mesmo de ex Presidentes da República. Alguns vão dizer: Mas a operação é seletiva, só ataca o PT, a mídia tradicional só atende aos interesses da elite. Pode até ser que seja, em alguma medida, mas nada disso é capaz de afastar ou descaracterizar todo o esquema de corrupção desbaratado. Querer fechar os olhos para o que está acontecendo apenas por razões de preferência ideológica me parece algo incompreensível. Se há membros da oposição (direita, elite conservadora, o que mais se queira denominar) envolvidos, que se investigue e se puna. A própria população que saiu às ruas no último domingo, em grande parte, me parece ter dado provas, ao repelir a presença de determinados políticos, de que não se manifesta em nome do político A ou B, mas em favor de um basta ao mar de corrupção que tomou conta do país. Dentre desse contexto, outros ainda vão dizer: Só tinha coxinhas nas ruas, eles não se conformam com os avanços sociais dos últimos anos. Eles não têm legitimidade para protestar. Sinceramente, não sabia que protestar agora é exclusividade de determinados grupos sociais. E você foi fazer o que nos protestos contra o aumento das passagens então? Desqualificar o emissor, quando não se tem o que falar do argumento é tática velha aqui em nossa cidade e sabemos muito bem onde isso nos colocou.

Falando em Campos, é preciso ressaltar que a política daqui não é muito diferente do que estamos vivendo em nível nacional. Ou alguém acha que o Governo dos Garotinhos não padece desses mesmos problemas? Tomara que a população campista que foi às ruas no último domingo também acorde para a situação local e dê o seu recado nas urnas em outubro. O que não podemos mais admitir é essa baixeza política que se instalou aqui nas últimas décadas. O Campista já cansou de pessoas que voltam sem nunca terem ido, do jogo sujo de tomar o partido alheio, dos cavalos de Tróia, se passando por oposição para atender ao sistema bruto do Governo, dos ataques pessoais em detrimento do debate político pautado em ideias. Enfim, tá na hora de mudar, não apenas os nomes, mas o jeito de fazer política. Do jeito que está, não dá mais para aguentar.

Artigo publicado na versão impressa da Folha de 17/03.

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Pragmatismo sim, qualidade também
17/03/2016 | 14h04

Há anos, sempre que nos aproximamos das eleições, repete-se que a união da oposição é o único caminho para por fim ao domínio da família Garotinho. Fala-se em pragmatismo. Mas será mesmo? Tenho lá minhas dúvidas.

Primeiro é preciso estabelecer o que seria a oposição. Seria de oposição todo político e/ou partido que simplesmente se opõe aos Garotinho ou apenas aqueles que, muito além de estarem em lados opostos, comungam de princípios completamente distintos dos que nos nortearam nos últimos 25 anos? Particularmente, comungo do segundo entendimento. De nada adianta estar oposição, se os princípios que sustentam determinado projeto sejam os mesmos do atual governo.

Dito isto, é preciso analisar o histórico recente do município para constatar, de fato, se a união da oposição é garantia de sucesso eleitoral. Nas eleições de 2012, praticamente todos os partidos ditos de oposição estiveram reunidos em torno de uma candidatura. Apesar das grandes qualidades do dr. Makhoul, a quem tenho grande admiração, a oposição saiu derrotada.

Não é a simples reunião de opositores, portanto, que dita os seus destinos eleitorais. É preciso ter organicidade, é preciso ter semelhança de propósitos, um projeto comum de governo, uma conjunta favorável e, sobretudo, é preciso existir uma liderança que consiga agregar qualidades, ao mesmo tempo que consiga repelir divergências, defeitos e vaidades.

É claro que a união de todas as vertentes oposicionistas em torno de um nome seria o ideal, não podemos ser ingênuos a ponto de desconsiderar esse aspecto. Mas se isso não ocorrer, não será o fim dos tempos. Numa eleição de dois turnos como a nossa, é até mesmo natural que a apresentação de inúmeras candidaturas ocorra. E isso não é ruim, desde que não sirva apenas para afagar egos e camuflar interesses pessoais inconfessáveis.

Independentemente do número de candidaturas, o que não se pode perder de vista é o objetivo comum que deve, esse sim, servir de guia para toda a oposição, seja de que vertente for: por fim ao reinado dos Garotinhos, mas sob a pauta de novos princípios, que tenham como finalidade o desenvolvimento do município e não de projetos pessoais de poder. O que não for possível reunir no primeiro turno, que se reúna no segundo, só não podemos forçar situações sob a falsa premissa de que a simples reunião de partidos é o único caminho para salvação da oposição.

É bom lembrar que água e óleo não se misturam. Portanto, a maior preocupação da oposição deve ser a qualidade das alianças, sua capacidade de atrair o apoio popular e não apenas a quantidade de acordos que, assim como água e óleo, se repelem após a agitação do sistema.

Publiquei o texto acima do ano passado, mas fiz questão de republicá-lo, pois com a proximidade das eleições, a questão está cada vez mais atual. Pragmatismo sim. Qualidade também.

Artigo publicado na versão impressa da Folha de 10.03

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