Viajar para dentro
29/03/2013 | 12h26

Como muita gente vai se desligar neste feriado e colocar o pé na estrada, recomendo a leitura desta crônica da Martha Medeiros.

Viajar para dentro (Martha Medeiros)

Viajar não é sinônimo de férias, somente. Não basta encher o carro com guarda-sol, cadeirinhas, isopores e travesseiros e rumar em direção a uma praia superlotada. Isso não é viajar, é veranear. Viajar é outra coisa. Viajar é transportar-se sem muita bagagem para melhor receber o que as andanças têm a oferecer. Viajar é despir-se de si mesmo, dos hábitos cotidianos, das reações previsíveis, da rotina imutável, e renascer virgem e curioso, aberto ao que lhe vier a ser ensinado. Viajar é tornar-se um desconhecido e aproveitar as vantagens do anonimato. Viajar é olhar para dentro e desmascarar-se.

Pode acontecer em Paris ou em Trancoso, em Tóquio ou Rio Pardo. São férias, sim, mas não só do trabalho: são férias de você. Um museu, um mergulho, um rosto novo, um sabor diferente, uma caminhada solitária, tudo vira escola. Desacompanhado, ou com amigos, uma namorada, aprende-se a valorizar a solidão.

Viajando você come bacon no café da manhã, usa gravata para jantar, passeia na chuva, anda de bicicleta, faz confidências a quem nunca viu antes. Viajando você dorme na grama, usa banheiro público, costura os próprios botões. Viajando você erra na pronúncia, troca horários, dirige do lado direito do carro. Viajando você é reiventado.

É impactante ver a Torre Eiffel de pertinho, os prédios de Manhattan, o Pelourinho. Mas ver não é só o que interessa numa viagem. Sair de casa é a oportunidade de sermos estrangeiros e independentes, e essa é a chave para aniquilar tabus. A maioria de nossos medos são herdados. Viajando é que descobrimos nossa coragem e atrevimento, nosso instinto de sobrevivência e conhecimento. Viajar minimiza preconceitos. Viajando não têm endereço, partido político ou classe social. São aventureiros em tempo integral.

Que cada turista saiba espiar também as próprias reações diante do novo, do inesperado, de tudo o que não estava programado. O que a gente é, de verdade, nunca é revelado nas fotos e publicado no Facebook.

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