Cultivando as amizades...
12/04/2017 | 21h17
Duas estórias que nos fazem refletir...
Um fazendeiro que venceu o prêmio “milho-crescido”. Todo ano ele entrava com seu milho na feira e ganhava o maior prêmio. Uma vez um repórter de jornal o entrevistou e aprendeu algo interessante sobre como ele cultivou o milho. O repórter descobriu que o fazendeiro compartilhava a semente do milho dele com seus vizinhos. “Como pode você se dispor a compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos quando eles estão competindo com o seu em cada ano?” – perguntou o repórter. Por que?” - disse o fazendeiro, - “Você não sabe ? O vento apanha o pólen do milho maduro e o leva de campo para campo. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará continuamente a qualidade de meu milho. Se eu for cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meus vizinhos a cultivar milho bom”. Ele era atento às conectividades da vida. O milho dele não pode melhorar a menos que o milho do vizinho também melhore. Aqueles que escolhem estar em paz devem fazer com que seus vizinhos estejam em paz. Aqueles que querem viver bem têm que ajudar os outros para que vivam bem. E aqueles que querem ser felizes têm que ajudar os outros a achar a felicidade, pois o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos. A lição para cada um de nós se formos cultivar milho bom, nós temos que ajudar nossos vizinhos a cultivar milho bom.
Conta-nos uma lenda judaica que dois amigos cultivavam o mesmo campo de trigo, trabalhando arduamente a terra com amor e dedicação, numa luta estafante, às vezes inglória, à espera de um resultado compensador. Passam-se anos de pouco ou nenhum retorno. Até que um dia, chegou a grande colheita.
Perfeita, abundante, magnífica, satisfazendo os dois agricultores que a repartiram igualmente, eufóricos. Cada um seguiu o seu rumo. À noite, já no leito, cansado da brava lida daqueles últimos dias, um deles pensou: “Eu sou casado, tenho filhos fortes e bons, uma companheira fiel e cúmplice. Eles me ajudarão no fim da minha vida. O meu amigo é sozinho, não se casou, nunca terá um braço forte a apoiá-lo. Com certeza, vai precisar muito mais do dinheiro da colheita do que eu”. Levantou-se silencioso para não acordar ninguém, colocou metade dos sacos de trigo recolhidos na carroça e saiu. Ao mesmo tempo, em sua casa, o outro não conciliava o sono, questionando: “Para que preciso de tanto dinheiro se não tenho ninguém para sustentar, já estou idoso para ter filhos e não penso mais em me casar. As minhas necessidades são muito menores do que as do meu sócio, com uma família numerosa para manter”. Não teve dúvidas, pulou da cama, encheu a sua carroça com a metade do produto da boa terra e saiu pela madrugada fria, dirigindo-se à casa do outro. O entusiasmo era tanto que não dava para esperar o amanhecer. Na estrada escura e nebulosa daquela noite de inverno, os dois amigos encontraram-se frente a frente. Olharam-se espantados. Mas não foram necessárias as palavras para que entendessem a mútua intenção...
Nos tempos atuais é raro estarmos ao lado de quem sabe ouvir... Estamos sempre ávidos por falar, por contar, por dividir as nossas lutas, pois nestes momentos percebemos em nós um alívio das nossas tensões, um frescor em nossa mente, um vento bom nos envolvendo em novas e energizadas vibrações de paz. Porém a vida é uma via de mão dupla, e ao mesmo tempo que queremos ser ouvidos... os que nos cercam também esperam o mesmo de nós.
A vida nos proporciona momentos muito ricos, nos oportunizando sermos ombro amigo e ombro que recebe os amigos, sermos braços que abraçam e braços que são envolvidos em um forte abraço, sermos mãos que recebem flores e mão que semeiam o perfume das mesmas.
Amigo é aquele que no seu silêncio escuta o silêncio do outro. Como é bom sermos uma referência para os que nos cercam em nosso dia-a-dia e termos a certeza de que a nossa forma de sermos amigos envolve momentos de escuta, de paciência, de trocas, de caminhar lado a lado.
Hoje com a instantaneidade do mundo não podemos permitir que as nossas amizades se tornem também instantâneas, pois a amizade é um bem muito precioso, que não só lava a nossa alma, como também nos traz o frescor da juventude para os nossos dias...
Que saibamos então repensar os valores que compõem uma amizade como nessas duas estórias... a sinceridade, o cuidar do outro, o não ser egoísta, o não ser individualista, a paciência, o respeito ao limite do outro, mas também o impulsionar a sair do limite e vencer os próprios desafios...
Que assim como o milho bom nós possamos ser sempre um vento suave, como o que sopra nos campos de trigo, levando aos nossos amigos o calor, a energia e o aconchego da nossa sincera amizade...
Com afeto,
Beth Landim
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A caixa d água
07/04/2017 | 11h50
Toda caixa d’água tem várias funções. Acumular água, decantar os resíduos, resguardar um “líquido precioso” para alimentar a vida e assim por diante! Por isso precisa periodicamente de uma “faxina”. Pois toda água tem resíduos e com a decantação, os resíduos vão se acumulando e na maioria das vezes se agrupam formando uma lama, fazendo com que a caixa d’água tenha outro fundo, que não o seu, límpido, próprio para o armazenamento do líquido precioso. Como nos diz Guilherme Arantes em sua canção Planeta Água... “Água que nasce na fonte serena do mundo e que abre um profundo grotão, água que faz inocente riacho e deságua na corrente do ribeirão, águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão, águas que banham aldeias e matam a sede da população. Águas que caem das pedras no véu das cascatas, ronco de trovão e depois dormem tranqüilas no leito dos lagos...”
E conosco acontece o mesmo... Vamos acumulando, guardando sentimentos, angústias, coisas mal resolvidas, resíduos... Este tempo de Quaresma vem nos lembrar dessa faxina em nossa caixa d’água...
Uma faxina que deve ser periódica, mas que “neste tempo” tem uma dimensão ainda maior. Repensar as nossas atitudes, nosso agir, nossos sentimentos e nossa espiritualidade. Trazer de volta a transparência e a limpidez de nossa “água interior”... É dela que nossa alma se alimenta! De que serve acumular angustias? Desentendimentos? E para isso, temos o perdão! O perdão acima de tudo é uma aceitação de nossas falhas e das falhas dos outros... mas é uma nova chance que damos a nós mesmos de tirar as mágoas, as tristezas, os desencantos e decepções de nossa “caixa d’água” para que sejamos livres e cristalinos no viver!
Assim como a água que é fonte de vida e alimento, podemos gerar vida não somente em quem conosco convive, mas principalmente dentro de nós.
E então poderíamos dar um telefonema, ou como nos dias de hoje, linkar com o wathsApp, porque fazemos isso com todo mundo e nos esquecemos D’Ele... me lembrei de um trecho da música... “Alô meu Deus fazia tanto tempo que eu não mais te procurava. Alô meu Deus, senti saudades tuas e acabei voltando aqui. Andei por mil caminhos e, como as andorinhas, eu vim fazer meu ninho em tua casa e repousar. Embora eu me afastasse e andasse desligado, meu coração cansado, resolveu voltar. Eu não me acostumei, nas terras onde andei...”
E nesta reflexão podemos repensar como estamos levando a vida... Se lavamos as mãos como Pilates, se temos a caridade de Verônica, que mesmo não podendo mudar o rumo da história, enxugou o rosto de Jesus, numa prova viva de cuidado, solidariedade e força...
Nos conta uma lenda que um velho Mestre pediu a uma jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal num copo d'água e bebesse. -"Qual é o gosto?" - perguntou o Mestre. -"Ruim" - disse a aprendiz. O Mestre sorriu e pediu à jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e a jovem jogou o sal no lago. Então o velho disse: -"Beba um pouco dessa água". Enquanto a água escorria do queixo da jovem, o Mestre perguntou: -"Qual é o gosto?" -"Bom!" disse a jovem. -"Você sente o gosto do sal?" perguntou o Mestre. -"Não", disse a jovem. O Mestre então disse: - "A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta. É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Então, quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido das coisas. Deixar de ser um copo. Tornar-se um lago”.
Como nos diz Madre Teresa de Calcutá... “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.” E de gota em gota, de persistência árdua, juntos, podemos formar um oceano... Não queremos nada pela metade...
Talvez a urgência da água possa nos abrir os olhos para a mudança... Mudança de comportamento contra o desperdício, mudança de valores desta sociedade tão consumista... Vamos começar dentro da nossa casa... Não deixemos chegar “na gota d’água”...
Voltando ao período da Quaresma... refletimos que Quaresma é deserto, perdão, encontro, luz, saúde, libertação, triunfo, transfiguração e também água... É a passagem da sede da nossa insatisfação para a água viva, como a água de Moisés ao povo de Israel no deserto ou como a água que Jesus ofertou a mulher samaritana. Quaresma é o esforço para retirar o fermento velho e incorporar o novo. Que possamos então viver com intensidade este momento, nos recolhendo interiormente na oração, no silêncio, na faxina da nossa alma com água límpida e cristalina, fazendo com que esta nossa “passagem” que é o significado da Páscoa, seja efetivamente plena e renovadora. E então, iremos limpando nossa “caixa d’água”...
Com afeto,
Beth Landim
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A Inutilidade e o Verdadeiro Amor
03/04/2017 | 12h18
 
A velhice é o tempo em que vivemos a doce inutilidade. Porque mais cedo ou mais tarde iremos experimentar esse território desconcertante da inutilidade. Esse é o movimento natural da vida. Perder a juventude é você perder a sua utilidade, é uma conseqüência natural da idade que chega. O sol do amanhã... Sob o olhar de uma cuidadora... Como você decide viver é o que faz a diferença no momento das provações, nos diz Padre Fábio de Melo, falando sobre a velhice... Quem tiver a oportunidade de assistir ao seu DVD “No meu interior tem Deus”, não deixe de ver e principalmente de ouvir com o “coração”. Vale muito a pena!!! Aqui vai um trechinho...
“... A velhice nos trás direitos maravilhosos. Enquanto a juventude é cheia de obrigações. A velhice é o tempo em que passa a utilidade e aí fica somente o significado da pessoa. É o momento que a gente se purifica. É o momento que a gente vai tendo a oportunidade de saber quem nos ama de verdade. Porque só nos ama pra ficar até o fim aquele que, depois da nossa utilidade, descobriu o nosso significado. É por isso que sempre rezo para envelhecer ao lado de quem me ama. Para poder ter a tranqüilidade de não ser útil, mas ao mesmo tempo não perder o valor. Se você quiser saber se alguém te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém? Pergunte a si mesmo, quem nesta vida que pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora. E é assim que nós descobrimos o significado do amor... Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim! Feliz daquele que tem ao fim da vida a graça de ser olhado nos olhos, e ouvir a fala que diz: - Você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você!”
O que falta muitas vezes para poder resolver os nossos problemas é a simplicidade em enxergá-los. Devemos retirar os excessos. Não permitir que os nossos excessos venham obscurecer a nossa visão, ou até mesmo de nos impedir de encaminhar uma solução para aquilo que nos faz sofrer. Isso é ter fé. É a gente acreditar que Deus está ao nosso lado no momento da nossa luta, no momento da nossa dor. E que, portanto, a gente tem o direito de ser simples.
É interessante observar os movimentos de nossas mudanças interiores. Nem sempre sabemos identificar o nascimento da inadequação que gera todo o processo. O fato é que um dia a gente acorda e percebe que a roupa não nos serve mais. Como se no curto espaço do descanso de uma noite a alma sofresse dilatação, deixando de caber no espaço antigo onde antes tão bem se acomodava. É inevitável. Mais cedo ou mais tarde, os sonhos da juventude perdem o viço. O que antes nos causava gozo, aos poucos, bem ao poucos deixa de causar. Nossos valores vão se tornando mais consistentes.
Mas não precisamos necessariamente chegar à velhice extrema, para entendermos o sentido da inutilidade que leva ao amor... Perder tempo, gastar tempo, ou melhor dizendo “Ter a utilidade do seu tempo” para as coisas que nos levam aos verdadeiros sentimentos... Se permitir “jogar conversa fora” com seus filhos, seus amigos, fazer piqueniques e voltar a ser criança, andar na chuva, sentir o cheiro da terra molhada, passear na praça, na praia, no bosque... sentir a liberdade do rosto te acariciando a pele... jogar frescobol, voleibol, “buraco”, seja o que for, apenas com o intuito de reunir os amigos, e a família... Assim como faziam os homens das cavernas. Ascendiam a fogueira e ao seu redor conversavam, conversavam e conversavam... e assim os laços iam se tecendo, os abraços se alongavam e a vida mesmo na rusticidade daqueles tempos, era aconchegante!!! Tempo... sempre o tempo do Senhor a nos ensinar... Assim como na história de Alice no País das Maravilhas em que seu coelho, corria com o relógio pendurado atrás do tempo... Estamos hoje nós a fazer o mesmo... Que o tempo da inutilidade amorosa, possa ser constante no tempo de nossa utilidade existencial. Que a simplicidade faça morada em nossos corações, atitudes e sentimentos. E que nossos sentimentos estejam sempre no ritmo e no compasso do “amor inútil” aquele que traz pleno significado. Que saibamos respeitar a dor de cada hora, a esperança de cada momento, sendo ao mesmo tempo de Aço e de Flores... Que neste tempo de Quaresma, possamos sentir a esperança brotar de cada coração, nos fazendo pessoas melhores, menos complicadas, de aço, para enfrentar os desafios, mas sem perder a doçura de ser simplesmente humano... Um tempo para nos purificar... Primeiro consigo mesmo, pois muitas vezes somos nosso maior carrasco e depois com todas as pessoas que nos cercam. É essa sensibilidade de enxergar cada tempo com sabedoria, que nos levará a conhecer o significado do amor...
Com afeto,
Beth Landim
 
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Sobre o autor

Elizabeth Landim

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