Poesia brasileira em 2016
26/05/2017 | 09h25
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de maio de 2017
Poesia brasileira em 2016 (II)
Arthur Soffiati
Embora eu me considere um leitor aplicado de poesia e ficção, creio não me enganar ao concluir que a poesia brasileira atual não vive um bom momento. Poetas existem muitos. As pessoas julgam que escrever poesia é fácil. Bastam inspiração e empilhamento de versos. De todos, entendo que o momento é do lúcido Paulo Henriques Brito, que segue as pegadas de João Cabral de Melo Neto.
Evidentemente, não li tudo o que se publicou de poesia em 2016, mas li os antigos, dos quais dei notícia no artigo de abril. Agora, detenho-me nos poetas que publicaram livros no ano passado. Uma delas é Ana Martins Marques, com o “O livro das semelhanças” (São Paulo: Companhia das Letras, 2015). A produção poética atual é muito centrada no “eu poético”. Sei que literatura é um fenômeno humano, que não se conhece nenhuma espécie animal além do homem a escrever. No entanto, o individualismo da atualidade está se refletindo em todas as manifestações humanas.
Ana, pelo menos, sai um pouco de si ao tomar apontamentos (“Ideias para um livro”), partes de um livro (“Capa”, “Nome do autor”, “Título”, “Dedicatória”, “Epígrafe”, “Índice remissivo”, “Colofão”, “Contracapa”) como títulos de poemas, mas logo recai no “eu”. Do seu livro, destaco “Mar”, “Sereia” (de nada te serviriam/joelhos ou pés//o que és é também/o que não és), “Uma caminhada noturna” (há um modo cão de existir no dia/um modo águia ou cavalo ou búfalo/e um pássaro está tão à vontade/na noite quanto na floresta). A autora usa imagens inusitadas e a memória.
Já Fabio Weintraub se apresenta com “Treme ainda” (São Paulo: Editora 34, 2015). No poema “Pés”, ele escreve “no espelho os pés refletidos/são de meu pai/que já não caminha. Assinalei também “Manual de instruções”: “cuidado: ágil/contém material sórdido/feche a puta ao sair/este fado para cima.” E nada mais. Nunca endosso palavras escritas nas orelhas dos livros. Elas parecem escritas sob encomenda.
De Ronaldo Polito, veio a lume “Ao abrigo” (Belo Horionte: Scriptum, 2015). O autor foge ao máximo de si mesmo, mas ainda de forma tímida. Parece que sair de si atualmente é perigoso. Talvez um mundo conturbado absorva a inspiração e o trabalho. Parece que também há pressa e a necessidade de mostrar que se está vivo num mundo de alta concorrência. Em “Ponto final”, o poeta escreve: “Qualquer movimento que fizesse, e o horizonte distante/adaptava-se, indiferente, ao novo ponto de partida.” E na forma de hai-kai: “Um relâmpago./ Escuro. Um homem.”
Em nenhuma passagem de “Com os dentes na esquina” (São Paulo: Portal, 2015). Reynaldo Damazio me motivou anotações. Pareceu-me um livro perfeitamente dispensável. Já Alice Sant’Anna volta à cena com “Pé do ouvido” (São Paulo: Companhia das Letras). Com 29 anos, ela já conta com três livros de poemas. Este, o mais recente, consiste num longo poema em duas partes com temas recorrentes. O principal parece ser o Japão. “Estou escrevendo um poema/você aparece bastante/tudo o que disser pode entrar/é um poema tagarela”. A autora também parece ser muito tagarela no livro.
Carlito Azevedo anuncia algo de arriscado em “Livro das postagens” (Rio de Janeiro: Sete Letras), mas a promessa não me pareceu cumprida. O livro se divide em duas partes. Na segunda parte, mistura poema com foto, partitura e prosa. O exercício transtextual não basta para caracterizar boa poesia.
Restou-me Fabrício Corsaletti com os livros “Baladas” (São Paulo: Companhia das Letras), com ilustrações do cartunista Caco Galhardo, e “Quadras paulistanas”, também editado pela Companhia das Letras e ilustrado por Andrés Sandoval. Eu já conhecia crônicas do autor “Ela me dá capim e eu zurro” (São Paulo: Editora 34, 2014) reunindo crônicas sobre o cotidiano da cidade de São Paulo, principalmente. Creio que minha leitura é insuficiente para uma avaliação sopesada do autor. Pelo que li dele em prosa, entendo que o autor ajuda a mantes vivo o gênero crônica, com Milton Hatoum e Cristovão Tezza, que, por sua vez, escrevem crônicas de alto nível.
O que Corsaletti faz em crônica faz também em poesia. Os dois livros mencionados contêm cônicas em forma de poema, abordando o cotidiano paulistano, inclusive valendo-se de gírias que rimam com palavras portuguesas e inglesas. O autor conhece poesia. Ele se vale da forma “balada”, com redondilhas maiores. Suas rimas nem sempre são perfeitas, mas são justificadas pelo senso de humor que o autor deseja transmitir. Trata-se de poesia de circunstância, mas também permanente. Entre os poemas, são inseridas fotografias de São Paulo, mas não como forma de transtextualidade.
Para concluir, a “Balada para Michael Corleone”, apenas como amostra.
 
ninguém escapa ao destino
ninguém evita um ciclone
e quem, em sã consciência
resiste a um saxofone?
há sortilégios no vento
maldições que vêm de longe
sinto um calafrio na espinha
quando toca o telefone
meu Deus, que vida de merda
teve Michael Corleone
 
seu rosto frio (Al Pacino)
branco feito mascarpone
é a muralha de um palácio
vazio, onde nem o clone
do que ele não pôde ser
ou do que foi (esse monte
de mentiras que somadas são a verdade) se esconde-
ria – não há nada por
trás de Michael Corleone
vamos compará-lo ao pai –
Vito, vital, canelone
disseminava chacinas
com a exuberância de um conde
amava a glutonaria
era um grande cicerone
sua morte entre os tomates
é pura como a de um monge
– o filho é estranho e mesquinho
pobre Michael Corleone
 
como foi mesmo que eu fiz
pra acabar assim alone?
às vezes acho que penso
que sou Michael Corleone.
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Terror sem sobrenatural (Corra)
23/05/2017 | 09h38
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 23 de maio de 2017
(CINCO MATEUSINHOS)
Corra
Terror sem sobrenatural
Edgar Vianna de Andrade
 
Para fins do meu próprio entendimento, elegi duas características para classificar um filme no gênero “terror”: suspense e sobrenatural. Pode haver suspense sem sobrenatural e sobrenatural sem suspense. Trata-se de um critério meu apenas. E nesse sentido, “Corra” é um filme de suspense. De forma alguma a falta do elemento sobrenatural reduz a qualidade do enredo. O diretor e roteirista do filme é o negro Jordan Peele, com pouca experiência no cinema. Ele é mais conhecido na televisão. Pode-se dizer que estreia no cinema com o pé direito, ao conceber e dirigir “Corra”.
A leitura do primeiro plano do filme assusta. A loura Rose Armitage (Allison Williams) namora o negro Chris Washington (Daniel Kaluuya). Ela o convida a conhecer seus pais, que moram numa casa de campo. Ele hesita, pois teme a reação dos pais brancos da namorada. Sem problemas, ela o tranquiliza. Seus pais não são racistas. O pai votaria em Obama se fosse possível uma segunda reeleição. Chris cede e acompanha a namorada. Os sinais de perigo começam já no início do filme. Não se tem ideia quanto à natureza deste perigo: sequestro de negros? Atropelamento de cervos? Morte da mãe de Chris por atropelamento?
Na mansão dos pais da moça, coisas estranhas começam a acontecer. O casal de empregados é negro. Ela e ele se comportam como zumbis. O irmão da namorada é alcoólatra. Os pais promovem uma festa a que comparecem brancos ricos, todos eles aceitando perfeitamente o namoro entre uma branca e um negro. À festa, comparece um negro casado com uma mulher branca bem mais velha. Estranho, tudo muito estranho. Missy Armitage (Catherine Keener), a mãe, hipnotiza Chris para que ele abandone o cigarro, apenas com o movimento de uma colher numa xícara de chá. Ele nunca mais será o mesmo.
Na festa, Chis é examinado como um belo animal. As revelações começam a ser feitas. Passa-se, então, para a explicitação de uma grande metáfora ou fábula. Um convidado diz: “negro está na moda”. O não dito é: “mas não deve. Lugar de negro não é aqui, entre brancos. Negro nasceu para ser serviçal. Tiramos dele o que há de melhor e o reduzimos à sua condição inferior”. Estamos diante da Ku-Klux-Klan modernizada. Não é mais necessário matar totalmente os negros. Basta matá-los parcialmente. Seus órgãos e seu trabalho interessam aos brancos.
Toda moda do politicamente correto é uma fina camada de verniz que esconde o racismo ainda existente. O que Peele parece pretender é remover este verniz e mostrar que, por baixo dele, o preconceito continua existindo nos Estados Unidos, apesar de um esforço em sentido contrário pelos progressistas brancos. A mensagem vale para outros países.
Mas Peele não se liberta de alguns clichês dos filmes de terror. Na verdade, ele tenta ultrapassar o suspense recorrendo a movimentos bruscos de pessoas, sons fortes e inesperados. A namorada de Chis é a isca para uma armadilha em que ele cai. Para sair dela, é preciso matar os membros da família e ser salvo por um amigo. Se nos limitarmos ao plano visível do filme, Chis seria preso e condenado à morte pelos assassinatos. No plano metafórico, ele está descortinando a onda do politicamente correto quanto aos negros. No final, Peele ou mostra que o negro vence ou que, pelo menos, se salva. Gosto mais deste segundo sentido.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VI)
21/05/2017 | 10h28
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 21 de maio de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VI)
Arthur Soffiati
 
Até 1688, a geografia da baixada campista era bem diferente da atual e muito mais complexa. No esforço de compreendê-la, consome-se bastante tempo. Para um entendimento básico, ela contava com dois eixos aquáticos. O maior deles era e continua sendo o rio Paraíba do Sul, que nasce na serra da Bocaina, corre quase que inteiramente na região cristalina, entre as Serras do Mar e da Mantiqueira até a borda de Itereré, contribuindo para formar, a partir de então, a maior planície fluviomarinha do estado do Rio de Janeiro.
O segundo eixo apresenta grau de complexidade maior, embora mais diminuto que o do Paraíba do Sul. Ele é formado pelos rios Imbé e Urubu. O Imbé corre junto ao sopé da Serra do Mar pelo seu lado externo, no sentido longitudinal, recebendo dela todos os pequenos rios que a singram no sentido transversal. Ambos, Imbé e Urubu, formam a lagoa de Cima, na verdade uma depressão que se alaga com as águas dos dois rios por uma de suas pontas. Na outra ponta, ela transborda e escorre pelo rio Ururaí, cujo principal afluente é o rio Preto. Descendo da Serra do Mar, esse pequeno rio tinha foz no rio Ururaí na estiagem e criava uma foz alternativa no Paraíba do Sul por ocasião das cheias.
O Ururaí desemboca na grande lagoa Feia, que recebia as águas dos rios Macabu e da Prata, além de outros contribuintes lagunares hoje eliminados por ação humana. Por sua vez, a lagoa Feia contava com inúmeros escoadouros na parte sul que se reuniam na lagoa do Lagamar, onde havia uma saída periódica para o mar no tempo das águas. Os antigos chamavam-na de Barra Velha. Daí em diante, havia um escoadouro paralelo à costa que buscava um ponto com baixa energia oceânica para desaguar no mar. Ele recebia o nome de rio Iguaçu. Entre o Paraíba do Sul e o Iguaçu, havia defluentes que partiam do primeiro para o segundo. Os principais eram os vertedouros de Itereré, Cacumanga, Cula, Cambaíba, São Bento e rio Água Preta. O curioso é que o Paraíba do Sul vertia para o Iguaçu, sobretudo nas cheias. Usando o rio Água Preta ou Doce, o Paraíba do Sul ainda criava dois braços auxiliares para chegar ao mar num grande delta. Esses dois braços eram o Gruçaí e o Iquipari, atualmente transformados em lagoas alongadas.
Por sua vez, antes de chegar ao mar, o rio Iguaçu se alargava num grande banhado que recebeu o nome de Boa Vista. Do Iguaçu, restou o trecho final, com cerca de dez quilômetros, hoje conhecido como lagoa do Açu. A planície deltaica cortada por esses dois sistemas hídricos era pródiga em água acumulada em rios e lagoas. Havia mais água do que terra.
Em 1688, o capitão José de Barcelos Machado, um dos descentes indiretos de um dos capitães, rasgou uma vala num dos defluentes da lagoa Feia, ligando o complexo até o mar. O objetivo era abreviar o escoamento de água doce acumulada no período das chuvas, que escoava lentamente para o mar pelo rio Iguaçu. A Barra Velha não era suficiente. Então, ele concebeu um rasgo aberto manualmente que recebeu o nome de vala do Furado. A sede de sua fazenda, o morgado de Capivari, era uma das quatro grandes propriedades rurais da baixada, ao lado do domínio dos jesuítas, dos beneditinos e dos Assecas (da família de Salvador Correia de Sá e Benevides).
A vala e barra do Furado iniciou o processo de conversão de uma área extremamente úmida em terra adequada à agropecuária. Seu comportamento, todavia, era como o da Barra Velha: só se abria nas cheias, pois a energia oceânica muito forte a fechava quando o excedente vazava para o mar.

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Limites do humano (Alien Covenant)
16/05/2017 | 10h03
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 16 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
Alien Covenant
Edgar Vianna de Andrade
 

Creio que duas linhas principais norteiam o quase octogenário Ridley Scott na direção de “Alien Covenant”: a expansão de um mundo ocidentalizado para além dos limites do planeta Terra e os limites para as ambições humanas. Ambas as orientações estavam presentes na viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães (1519-1522). A viagem agora se localiza no ano de 2104, em direção ao planeta Origae-6. Ela é empreendida com uma enorme e sofisticada nave espacial transportando colonos e tripulantes. Talvez Scott não tenha consciência plena das questões que levanta no seu mais recente filme.
Como as caravelas, a nave espacial enfuna velas que colherão uma tempestade de neutrinos causadora de um erro no sistema da nave. Nunca se deve subestimar o erro. Primeira observação minha, pois foi ele que provocou um acidente mortal para navegantes. O reparo dos danos permite que um dos mecânicos receba uma mensagem que muda o destino da expedição. Mudando a rota para pousar num planeta desconhecido, mas habitável para a vida como a conhecemos na Terra, o capitão Oram (Billy Crudup) fascina-se com ele como substituto ao planeta de destino. Oram é religioso. Para ele, o planeta desconhecido pode ser uma nova Canaã. Outro aspecto, então, a ser observado, é a dicotomia entre fé e razão entre os tripulantes.
Covenant, a nave espacial, muda a trajetória, como se uma gaivota atraísse Vasco da Gama para uma ilha habitada por sereias. Bem cedo, a tripulação descobre que o planeta estranho continha evidências da passagem do ser humano por ali. Havia trigo cultivado, árvores com as copas ceifadas, mas nenhum humano, nem mesmo animal. Logo se descobre a presença da criatura que tanto assustou os telespectadores em 1979, com “Alien, o oitavo passageiro”, o primeiro filme da sequência, que projetou Scott como um grande diretor.
Tanto em “Covenant” quanto em “O oitavo passageiro”, a distopia de Scott se concentra no perigo que representa a inteligência natural humana criar inteligências artificiais, representadas nos filmes por androides do bem e do mal. No tempo das caravelas, esse tipo de inteligência ainda se expressava na forma de toscos instrumentos de navegação. Em 2104, o perigo é representado por androides fabricados por humanos que fogem ao controle deles e passam a ter vontade própria. Trata-se de uma discussão frequente nos dias de hoje.
Michael Fassbender, de fato, é o grande nome do elenco. Ele faz o papel de Walter, o bom robô, e de David, o mau robô. No planeta desconhecido, David revela como a missão “Prometheus”, título de filme anterior de Scott, malogrou e como ele, David, manteve-se íntegro no meio de seres monstruosos que foram engendrados pela liberação de um terrível e mortal vírus. A visão de Scott é pessimista. Nada termina bem. Não há um herói do bem. O mal triunfa com desejo de potência expresso pela música suntuosa de Wagner. Neonazismo? A conferir, pois o filme deixa o final em aberto, talvez para continuação.
Seja como for, tanto “Prometheus” quanto “Covenant” se passam antes de “O oitavo passageiro”, filme que atingiu alta voltagem de suspense pelo mistério que cerca “Alien” e pela luta entre ele e a subtenente Ripley. Também pela forma de reprodução da criatura monstruosa, parasitando o ser humano, e por seu comportamento altamente frenético. Em “Covenant”, a criatura foi banalizada. Perdeu o seu charme gosmento e nervoso. Ela aparece em demasia. Talvez, com o tempo, até possa ser domesticada e se transforme em animal de estimação.
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As globalizações
14/05/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 14 de maio de 2017
As globalizações
Arthur Soffiati

Houve processos de globalização anteriores ao que vivemos. Os mais expressivos foram o persa, o chinês, o macedônico, o romano, o mongol e o islâmico. Nenhum deles, porém, foi tão amplo no espaço e profundo em intensidade. Todas as globalizações anteriores à ocidental foram parciais. Nenhuma delas tinha motivações econômicas tão fortes como a atual. Elas exigiam, necessariamente, a dominação territorial, formando vastos impérios. A ocidental começou com a formação de impérios, mas hoje não necessita mais deles. O que conta é o modo de vida ocidental. Nenhuma delas, nem mesmo a ocidental, conseguiu uniformizar a cultura. Mas todas elas causaram angústias características de processos de aculturação.
As globalizações criam terrenos culturais híbridos, com a dissolução de modos de pensar e viver tradicionais. Essa dissolução desempara as pessoas. Elas têm, então, duas reações básicas: aferrar-se a expressões tradicionais de cada cultura atingida ou criar novas expressões de pensamento. A segunda reação costuma externar a angústia sentida pela aculturação. É bem verdade que, esfacelados os impérios não ocidentais, as formas culturais tendiam a se recompor. No ocidente, contudo, a globalização é profunda e parece não ter fim em tempo previsível.
Não conheço bem os resultados culturais dos impérios persa e mongol, mesmo porque a vida de ambos foi curta. A China que conhecemos é resultado da união de Estados com cultura aparentada. Eles eram independentes e lutaram entre si do século V a. C. a 221 a. C. Lao-tse e Confúcio podem ter vivido antes do período dos Estados combatentes, mas suas doutrinas ganharam sentido durante esse período de incerteza. Não sem razão, os ensinamentos de ambos buscam a paz entre pessoas e sociedades e a união com o universo.
O império macedônico, fundado por Filipe e Alexandre (356 a 323 a, C.), enquanto entidade territorial, esfacelou-se após a morte do segundo. Mas as repercussões culturais emendaram-se com as do império romano. As religiões tradicionais existentes em toda área do império sofreram impactos muito fortes e foram forçadas a se adaptar a eles. Até o budismo sofreu influências gregas difundidas por Alexandre, chegando à China e ao Japão. As filosofias bem estruturadas de Platão e Aristóteles não resistiram ao tranco dos processos aculturativos. A angústia reinante traduziu-se nas filosofias cética (criada por Pirron), epicurista (criada por Epicuro) e estoica (criada por Sêneca). As três aparentam escapismo do mundo, mas traduzem o estado de espírito da época. Buscam caminhos que permitam viver num mundo conturbado.
O império romano é sucessor do império macedônico. O historiador inglês Arnold Toynbee entende Grécia e Roma como partes de uma mesma cultura, que ele denomina de helênica. Dentro do império romano, os processos de aculturação se intensificaram e geraram mais problemas existenciais. As novas doutrinas pululam no seu interior como atualmente com a fundação de diversas igrejas em toda a extensão do mundo ocidentalizado. O culto egípcio a Isis sofreu mudanças profundas e invadiu a Itália, coração do império. O judaísmo foi abalado pela cultura helênica. Nasceu, assim, o Cristianismo. Para um estudioso sereno, o Cristianismo é a mescla perfeita de uma concepção humanista grega com uma concepção monoteísta judaísta. Ele se expressa por um Deus uno e trino. Um dos integrantes da trindade é o filho de Deus, que assume forma humana e é sacrificado para salvar a humanidade. Os santos representam a herança do politeísmo helênico. Falo apenas da antropologia cristã sem qualquer intenção de me intrometer nos aspectos referentes à fé. Como uma religião se dirige a humanos, ela deve se expressar em termos humanos.
Logo nos primeiros séculos do Cristianismo, ele é diferentemente interpretado, dando origem a doutrinas ainda existentes. Seja como for, todas elas cumprem a função de confortar almas aflitas por tanta conturbação política e cultural. Na Idade Média, o Cristianismo na forma apostólica romana tornou-se dominante, sem que expressões menores dele continuassem vigorando na periferia da Europa ocidental.
Esse Cristianismo imperial foi abalado pelo capitalismo e pela expansão europeia. Novamente, a paz cultural é abalada. A expressão cultural desse abalo é a cisão do Cristianismo romano pela reforma luterana, que deu origem a diversas denominações cristãs e a guerras por motivos religiosos em sua superfície. Tais guerras levam à exaustão. Locke, então, redige as famosas “Cartas sobre a tolerância”, propondo que a religião se transforme em questão de foro íntimo.
É preciso sobreviver à dor gerada pela confusão. Os suicídios aumentam a partir do século XV. Alguns pensadores desenvolvem soluções próprias dentro do Cristianismo. No século XVI, os exemplos dessas soluções são Thomas More, Erasmo e Montaigne. Há outros, mas fico apenas com esses três. Deles, Montaigne foi sábio. Ele aparentou catolicismo por fora, mas desenvolveu uma solução própria de vida: viver é aprender a morrer. A dúvida é a marca da sua filosofia. Daí sua tolerância com a diferença. A voz de Montaigne ainda ecoa vigorosa nos nossos dias.
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Terror no necrotério
09/05/2017 | 10h00
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A autópsia
Terror no necrotério
Edgar Vianna de Andrade
 
André Ovreal (não encontro no computador uma forma de cortar o O inicial do seu nome com uma barra) tem uma filmografia magra, mas um bom domínio da câmara. Seu mais recente filme enquanto diretor é “A autópsia”. Olwen Catherine Kelly, a atriz principal, fez três filmes. Seu papel em “A autópsia” é singular. Ela passa o filme inteiro representando uma bela moça morta apenas movimentando discretamente o dedão do pé. Não sei o que dizer. No Face book o que mais aparecem são mulheres mostrando o rosto, o corpo, as unhas pintadas, passando-me a sensação de que é apenas isso que elas têm a apresentar.
Talvez seja difícil passar 85 minutos nua, exibindo a beleza corporal, mexendo apenas o dedão do pé rapidamente no final do filme. Talvez seja mais difícil do que se movimentar, falar, interpretar. Mexer o dedão do pé por cinco segundos, se tanto, deve ser uma operação cansativa. Mas “A autópsia” não se limita a uma mulher jovem e nua. O cenário principal é uma sala de autópsia com gavetas para conservar cadáveres. O ambiente em si já é tétrico. O tratamento dos corpos sem vida pelo médico Tommy Tilden (Brian Cox)e por seu filho Austin (Emile Hirsch) é prosaico. Eles destrincham cadáveres como as crianças desmontam brinquedos. A rotina das autópsias deve ser essa mesmo. Médicos que trabalham nessa área tornam-se materialistas e frios mesmo que sejam religiosos.
Nesse aspecto é que se nota o grande contraste: vida (ou morte) natural e vida sobrenatural. O cadáver de Jane Doe (Olwen Catherine Kelly) esconde segredos que transcendem o espaço, o tempo e a vida. O filme mescla a racionalidade do presente com crenças antigas, como as bruxas de Salem, assunto para outros filmes. Dois homens racionalistas e frios por sua profissão acabam sendo obrigados a acreditar em fantasmas por todos os fenômenos que vivenciam na própria carne.
Depois de toda a destruição causada pelo exame do corpo de Jane Doe, a polícia tem de lidar com outro mistério. O primeiro foi um massacre inexplicável numa casa onde Jane foi encontrada. O segundo foi o massacre no necrotério onde Jane também estava. O roteiro de Ian B. Goldberg e de Richard Naing tem suas virtudes. A música de Danny Bensi também está adequada ao filme, que apela para os sons a fim de criar a atmosfera adequada; sons repentinos, mortes inesperadas, aparelhos elétricos e eletrônicos que não aceitam comando humano, a presença de um gato, tempestades. São os ingredientes conhecidos dos filmes de terror ocidentais.
O final parece deixar claro que onde está o cadáver de Jane há confusão, há mortes estranhas. Parece anunciar também o início de uma franquia. Depois de esquartejado, o corpo de Jane volta a ser íntegro e vai para outro necrotério. Dentro da ambulância, seu corpo é mostrado em seu todo pela câmara, que, aos poucos, fecha a lente nos seus pés. O dedão se movimenta, então, como se comicamente se despedisse dos espectadores e anunciasse um próximo encontro. Hasta la vista, Jane.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (V)
07/05/2017 | 09h56
Folha da Manhã, 07 de maio de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (V)
Arthur Soffiati
 
Antes de André Martins da Palma, não houve um projeto organizado para a ocupação das terras que futuramente receberiam o nome de norte fluminense. Pero e Gil de Gois procederam como qualquer outro donatário. Lourenço do Espírito Santo (admitamos sua existência) não fez diferente. Instalou-se na margem direita da foz do Paraíba do Sul com seus companheiros e dali se transferiu para o local hoje correspondente à cidade de São João da Barra. Os Sete Capitães fizeram três excursões às terras que requereram em sesmarias, instalaram currais nela e iniciaram uma colonização contínua.
André Martins da Palma encontrou terras extensas, planas e férteis muito irrigadas, um enorme rio (Paraíba do Sul), uma vasta lagoa (Feia), bosques densos (na margem esquerda do Paraíba do Sul), índios semiaculturados, canaviais já consideráveis, pastos nas áreas secas e engenhos de açúcar e aguardente. Já existia uma vila, ainda não elevada a esta condição oficialmente pelo poder de direito.
Em 1657, sua representação ao rei de Portugal trabalha com esses dados. Daí sua proposta de construir uma fortaleza na foz do rio Paraíba do Sul para defender a região de estrangeiros, sobretudo holandeses; a elevação da vila informal diretamente à condição de cidade; a criação de uma vila na foz do rio; o uso das águas do rio e da lagoa como fonte de energia; o domínio e a catequese dos índios; a cobrança de tributos; o estímulo à agricultura e a pecuária, com a experiência do plantio de trigo, e à indústria de açúcar e aguardente.
No final da representação, André Martins da Palma enfatiza: “... tendo V. Majestade a dita cidade e vila com justiças, e sua câmara, haverá logo livro de sesmaria, no qual se registram todas as datas que V. Majestade tem dado e der aos moradores dos ditos campos, e havendo o dito livro, por ele saberá V. Majestade o que se lhe tem usurpado e poderá vir a tanto crescimento de moradores que o que hoje vem a ser de três pessoas poderosas venha redundar em tantas que tenha V. Majestade de direitos com que possa sustentar grandes exércitos e armadas só com o rendimento dos ditos reais direitos.”.
Havia, na baixada, quatro grandes propriedades: o morgado de Capivari, de José de Barcelos Machado, os domínios dos Jesuítas, as terras dos beneditinos e a grande fazenda dos viscondes de Asseca. Parece que Palma é favorável aos domínios alodiais, ou seja, de pequenos lotes de terra entre as grandes propriedades. Mais produtores equivaliam a mais produção e a mais impostos. Daí a ênfase do representante sobre a importância de elevar Campos diretamente à condição de cidade, com sua câmara e suas leis, mas, ao mesmo tempo, com o controle direto da coroa portuguesa, com a indicação de um representante direto dela.
A opção hipotética entre pesca, agropecuária e agroindústria já havia sido ultrapassada. Entre o primeiro curral, instalado em 1633, e a representação, em 1657, o gado e a cana se alastraram na região. Em nenhum momento, André Martins da Palma se refere à atividade pesqueira como importante. O silêncio fala mais que as palavras. No final do século XX, um importante engenheiro do Departamento Nacional de Obras e Saneamento dirá que a pesca era uma atividade subalterna e que não gerava riquezas para a região. Mas ela sempre existiu. Ela era praticada pelos povos nativos da região. Portanto, a pesca é mais antiga que a agricultura, praticada apenas em caráter suplementar pelos indígenas.
No início da colonização portuguesa contínua da região, no século XVII, a pesca era muito mais expressiva que hoje. A existência de um povoado com predomínio de pescadores em São João da Barra, bem como a enorme quantidade de rios e lagoas na planície deltaica, aponta para uma atividade pesqueira bem mais significativa que hoje. A pesca era praticada nos ecossistemas de água doce e tudo indica que no mar. Reza a tradição que Lourenço do Espírito Santo era pescador em Cabo Frio e chegou à foz do Paraíba do Sul por navegação marítima. Assim, a pesca era uma atividade tradicional paralela à agropecuária e complementar a ela. Até a crise geral da cana na região, ela suplementava os trabalhadores rurais na safra e na entressafra.
Mas a atividade pesqueira não apontava para nenhum desenvolvimento futuro da região. A cana era usada para a produção de açúcar e aguardente. O gado em pé atendia ao Rio de Janeiro. A agropecuária estava atrelada aos interesses de desenvolvimento de Portugal. A pesca podia ser praticada para atender às necessidades locais dos pobres, mas nunca para desenvolver a região. Até hoje, ela é vista com os mesmos olhos de há quase quatrocentos anos: uma economia tradicional, paralela e subalterna, com alcance apenas local.
Mas, André Martins da Palma quer ser mais convincente para a coroa portuguesa. Não bastava acenar ao rei com riquezas oriundas da agropecuária. O que as monarquias europeias mais desejavam eram metais preciosos. Pero Vaz de Caminha acena com ouro e prata para atrair os olhos do rei para o Brasil em sua carta de registro da chegada ao Brasil. André Martins da Palma faz o mesmo em relação ao futuro norte fluminense: “Há mais no sertão muitas minas de prata e ouro...”.
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GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2
02/05/2017 | 09h29
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2
Modernidade comprimida
Edgar Vianna de Andrade
Em 37 anos, passa-se da fita cassete para a conquista da galáxia sem que se esqueça o passado. “Guardiões da galáxia vol. 2”, filme roteirizado dirigido por James Gunn (II), tem por base personagens criados por Stan Lee, responsável pelos heróis da Marvel. Os cinco integrantes do grupo de guardiões são típicos personagens de Lee: seres divididos, sem muitos escrúpulos, meio mercenários, mas quase unidos por laços de família. No caso de Peter Quill (Chis Pratt) e Gamora (Zoe Saldana), por um amor enrustido. “Implícito”, como ambos o tratam. O grupo é estranhamente constituído de um semideus, uma mulher com poderes sobre-humanos, um homem extremamente forte (Drax – Dave Bautista), um guaxinim superperigoso e um vegetal.
Em plena atividade mercenária, no espaço da galáxia, a ação é acompanhada de melodias anteriores a 1980, ano em que começa a história, executadas em long-play e em cassetes. Entre 1980 e 2017, etapas são queimadas. No curso de minha vida, percebi aceleração nas transformações nas décadas de 1960 e de 1990. Nunca algo como no filme. Assim, a modernidade se comprime, a ponto de, no curso de uma vida, partir-se de tecnologias hoje superadas para uma nova expansão territorial, agora não mais sobre oceanos, permitindo alcançar continentes, mas no plano espacial, permitindo alcançar a galáxia.
O filme tem um ambiente parecido com o de “Guerra nas estrelas”: povos diversos em contato, vigaristas, ladrões, assassinos, monarcas, sacerdotes... Foi assim por ocasião da expansão marítima. Ainda não deixou de ser um pouco assim, apesar da ocidentalização uniformizadora do mundo. E dinheiro, muito dinheiro a mover as ações de humanos e não humanos.
Não foram necessários mais de dois filmes da franquia para que aparecesse o pai do abandonado e sequestrado Peter Quill. Trata-se de Ego (Kurt Russell), novamente com desempenho excelente. Trabalhando quase ao longo do filme, ele rouba a cena, representando um personagem poderoso, extremamente ambicioso e ególatra. Ele se assemelha a muitos empresários e políticos da Terra. Um Napoleão, um Stalin, um Hitler, um Trump, um Eike Batista... Personagens bem típicos do ocidente moderno. Avança-se no tempo e no espaço, mas os padrões são os mesmos.
Nos seus 137 minutos, o filme cansa. Pelo menos, cansei-me das fórmulas surradas, dos resultados previsíveis, do humor fácil. Na verdade, trata-se de uma ficção científica cômica. Mas a crítica da grande imprensa o avaliou como muito bom e ótimo. Na minha avaliação, trata-se de um filme razoável. Assisti-o numa sessão apinhada de jovens e de adultos com espírito adolescente. Público de gosto e riso fáceis e de pouca exigência. Público que se contenta com pilotos automáticos que tornam secundários roteiro e direção. Efeitos especiais em profusão, sem qualquer preocupação e dosá-los. Quase ninguém hoje estranha tais filmes. O estranho sou eu. Daí uma avaliação menor que a corrente e maior que minha sensibilidade.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
30/04/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
Arthur Soffiati
 
André Martins da Palma saiu do Rio de Janeiro em direção a Campos na segunda metade do século XVII por motivo de castigo. Durante sua permanência, ele procurou conhecer as terras da baixada e escrever um projeto para promover o seu desenvolvimento. Que se saiba, é o primeiro documento em que figura a palavra “desenvolvimento”. O título do projeto é “Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos campos dos Goitacazes em 1657”, publicado na “Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil” tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884.
O autor observou o ambiente natural da região e notou a fertilidade da terra: “... pela muita fertilidade da terra há nela muitos canaviais de canas de açúcar e a terra em si com tanto assento para engenhos de água que todos se meterão no emprego delas...”. O rio Paraíba do Sul não podia lhe passar despercebido: “... rio tão grandioso que poderá mover mil engenhos sem lhes fazer falta água, carnes, lenhas, por tudo ser em tanta abundância, e a terra tão fecunda que para tudo há sem detrimento...”
A lagoa Feia o impressionou: “Há uma alagoa muito grande para a comunicação dos povos vizinhos, que, sendo de água doce, se não vê terra, navegando-se por muitos dias, e é tão dilatada que por um mês e mais se não corre. Nesta pode V. Majestade mandar, que fazendo-se povoações, se cultivem, podendo-se pôr nela grandes moinhos, com o que haja dilatadas searas de trigo pela terra e dar em muita abundância, e crescendo os moradores nela importarão muita fazenda à real coroa de V. Majestade pela brevidade do comércio, em razão de ser por mar e vir sair duas léguas de sítio, em que advirto a V. Majestade se faça a cidade, além de muitos currais que crescerão com as ditas povoações, importando só o dízimo deles em grande número de dinheiro...” Parece que Palma não navegou a lagoa. Ela era, de fato, enorme, com mais de 400 km², mas não exigia um mês para ser cruzada. É curioso que o autor proponha o cultivo de trigo em terras ocupadas por cana e gado.
Ele também registra a existência de florestas, provavelmente na margem esquerda do grande rio: “tem V. Majestade grandes e dilatados matos de pau de jacarandá, a que chamam pau del rei, que só de direitos, havendo navegação, importará em muitos mil cruzados.” E de índios, que viviam ainda em Campos: “... primeiro que tudo, se celebre e só se catequizem os pagãos gentios, para que, alumiados com o leite da santa fé, fique fácil o poder de domá-los à vista dos reduzidos a ela...”
Colonos de origem europeia e mestiços já ocupavam a região com plantação de cana e criação de gado. Já existia a vila de Campos. Entre 1632, primeira viagem dos Sete Capitães, e 1657, data da representação de Palma, o crescimento foi rápido. Já havia vários engenhos de açúcar e de aguardente instalados.
O estrangeiro propunha ao rei de Portugal auferir “... grandes lucros, que sua real fazenda pode tirar com pouco cabedal e dispêndios nestes campos dos Goitacazes.” Era preciso, antes de tudo, dominar os índios. Palma revela que “...treze anos (...) gastei no propagamento do gentio indômito, que senhoreava estes campos (...) domei a maior parte de todo ele (que) vêm hoje ao resgate, trazendo suas mercancias de cera, mel e mais lavouras da terra, a que sua indústria chega para com elas lavrar a terra e fazer roçarias, que é o pão da terra.”
Embora definitivamente expulsos do Brasil, os holandeses ainda eram vistos como ameaça. Daí o conselho: “V. Majestade deve mandar obrar por provisões suas, pondo ministro de sua real fazenda (...) na barra deste rio (Paraíba do Sul) se faça uma fortaleza real com sua artilharia, que resguarde dela e do inimigo holandês que infecciona esta costa, e não vir a entrar por ela a ser senhor de um tão grande tesouro”.
A necessidade de um forte na foz do rio era completada com o erguimento de um núcleo urbano: “à boca da barra se faça uma vila com suas justiças para as entradas de embarcações (...)” Ao parecer de Palma, Campos já merecia ser elevada à condição de cidade: “onde hoje temos ainda povoação, seja cidade com superioridade de jurisdição sobre a dita vila por ser distante dela mais de 8 léguas, com capitão major independente do governo do Rio de Janeiro.” No fim do século XVIII, Campos não havia alcançado ainda o estatuto de cidade, mas era o centro do Distrito dos Campos Goitacazes.
A preocupação de André Martins da Palma era ganhar muito dinheiro gastando pouco, preocupação da Coroa Portuguesa desde o início da colonização do Brasil: “Os moradores da dita vila ou cidade, aonde há grande número de criadores de gado vacum, concorrerão todos na obra da grande fortaleza à vista do grande interesse que estas terras prometem pela abundância de sua fertilidade e só com V. Majestade mandar um navio carregado de ferro e artilharia bastante para a dita fortaleza, na qual mandará V. Majestade pôr capitão maior com seu soldo sem que a fazenda de V. Majestade diminua de coisa alguma, antes maiores acrescentamentos dela.”
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