Dúvidas sobre a lagoa do Campelo
19/02/2017 | 19h25
Dúvidas sobre a lagoa do Campelo
Arthur Soffiati
 
Passei dos dias maravilhosos (18-19 de fevereiro) na companhia de geógrafos que receberam a conceituada geógrafa Sandra Cunha, da UFF, para que ela conhecesse, no campo, o complexo sistema hídrico que tem a lagoa do Campelo como centro. Foi uma visita técnica que me permitiu aprender muito mais sobre a região em que vivo e amo. Sempre aprendo porque, embora com 70 anos de idade, estou aberto ao conhecimento. Nossa excursão foi estritamente acadêmica. Infelizmente, como tenho história de ativista, não pude deixar de observar mudanças estranhas. Mesmo sabendo que nossa realidade ecológica muda a cada semana, voltei cheio de dúvidas sobre minhas constatações. Mas, certamente, estou errado. Por isso, gostaria que as autoridades, conhecedoras profundas da margem esquerda do rio Paraíba do Sul, no seu curso final, me esclarecessem e dissipassem minha ignorância.
As visitarmos as comportas do canal do Vigário, notei que o rio alcançou nível para fluir pelo canal. As comportas pareciam abertas, mas não havia nenhum fluxo, nem do lado do rio nem do lado do canal. A constatação foi feita com o lançamento de folhas e de galhos na água. Só se moveram por força do vento. Como tenho o INEA e o Comitê de Bacia do Baixo Paraíba em alta conta, concluí que a lagoa deveria estar cheia, sem precisar do aporte de água do Paraíba do Sul. Daí o fechamento das comportas. Ao passar pelo canal na lagoa de Brejo Grande, notamos que ela está seca. Apenas o canal do Vigário mostra água. Inclusive, duas pessoas pescavam nele. Então, pensei: nossas autoridades zelam pelo nosso patrimônio ambiental. Se aqui, a água parece escassa, não há dúvida de que a lagoa está cheia.
Chegamos à lagoa da localidade de Mundéus. Meu coração encheu-se de contentamento ao ver adultos, jovens e crianças se banhando nas águas do Campelo. E pensar que técnicos da FIPERJ vaticinaram, no auge da estiagem de 2014-15, que seriam necessários 20 anos para a recuperação da lagoa...
Para tirar a prova dos nove, contive-me até chegar ao vertedouro da lagoa para o canal Engenheiro Resende. Fui pensado comigo: a lagoa está tão cheia, tão saudável que, não tenho dúvidas, a água está vertendo e caindo no canal. Ao chegar lá, meu susto foi grande. A lagoa está praticamente seca na sua ponta norte. A distância entre a água da lagoa e o vertedouro é bem grande. Sobre o vertedouro de concreto construído pelo saudoso Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), órgão que me fez verter lágrimas copiosas quando foi extinto pelo ex-presidente Collor de Melo, de costas para a lagoa e de frente para o canal, olhei para a minha direita e vislumbrei, estupefato, uma vala que se estende de uma extremidade do vertedouro até a margem direita da lagoa.
Alguém desconhecido abriu a vala para retirar material e construir um dique. Segundo informações colhidas no local, o dique foi erguido por um proprietário para se apropriar de parte do leito da lagoa. Então, fui tomado de agradáveis recordações. Lembrei-me de um dique parecido, no mesmo local, embargado pelo ex-presidente da extinta SERLA, Jefferson da Silveira Martins, que veio a Campos vistoriar o local a meu pedido e declarou o embargo. Fiquei muito envaidecido pelo feito. Será que sofri de alguma ilusão ao pensar que a ordem do Dr. Jefferson não foi cumprida? Que o dique está lá desde a década de 1980? Mas fui alertado de que há dois meses, esse dique não existia. Sempre com o pensamento voltado para a seriedade do INEA e do Comitê, concluí que aquela invasão do leito para apropriação de terra não era do conhecimento de ambas as instituições. Tanto que, por esse escrito, denuncio aos dois essa invasão tão fora de moda.
No segundo dia de campo, fomos visitar as comportas do córrego da Cataia e do canal de Cacimbas. Meu coração não estava aflito, pois eu tinha certeza de que elas estavam fechadas para a lagoa, em nível tão baixo, não perdesse mais água. Sofri um grande trauma em verificar que as quatro comportas do córrego para o rio estavam abertas, permitindo que a água da lagoa fluísse livremente para o Paraíba do Sul. Isso só pode ser coisa de um vândalo, pensei.
Sempre confiante em nossas autoridades, continuamos nossa excelente excursão rumo ao canal de Cacimbas. Ao chegar lá, fiquei horrorizado. Além do fluxo de água em direção ao Paraíba do Sul, as duas comportas foram arrancadas. Que horror! Que medonho! Esse mundo está cheio de indivíduos maus, que não respeitam as pessoas e o ambiente. Vou correndo ao INEA e ao Comitê denunciar essas barbaridades, essas agressões aos bens públicos e ao bem comum, contribuindo para que o ressecamento progressivo da nossa amada região seja acelerado.
Em resumo, notei que a água do Paraíba do Sul para a lagoa do Vigário não está correndo, embora haja nível para o fluxo; que a lagoa está bastante detonada; que um dique certamente ilegal foi construído na ponta norte da lagoa; que as quatro comportas do córrego da Cataia estão abertas, permitindo que a lagoa perca ainda mais água; e que as duas comportas do canal de Cacimbas foram arrancadas.
Que mundo é esse, meu Deus?!
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Espírito pouco Santo
18/02/2017 | 21h51
Folha da Manha, Campos dos Goytacazes, 19 de fevereiro de 2017
Espírito pouco Santo
Arthur Soffiati
 
Não consigo entender e explicar a crise de segurança no Espírito Santo sem recorrer às raízes. A impressão superficial sentida pelas pessoas e passada pela imprensa é que a onda de saques e homicídios foi causada pela greve indireta da polícia militar do Estado.
Vejo a crise como tendo razões mais profundas. No mundo todo, com menor intensidade nos países ricos, e com maior, nos países pobres, o mundo está policializado. A palavra é mais significativa que policiado. Significa que a violência no mundo vive em situação de latência para aflorar quando a polícia não está presente. Credito este estado de violência latente à pobreza e ao individualismo.
O pensador que se tornou famoso tomando a violência como origem do Estado foi o inglês Thomas Hobbes. Como se sabe, ele pensou que, no início, reinava entre os humanos um individualismo exacerbado e uma violência descontrolada. Cada indivíduo lutava contra os outros pela sua vida. Daí a máxima: “O homem é lobo do homem”. Nessa perspectiva, a humanidade se aniquilaria. Esse impasse levou as pessoas a firmarem um contrato cessando a guerra de todos contra todo e fundando o Estado, que teria o monopólio da violência.
Pode-se supor que a situação de violência generalizada, o estado de natureza de Hobbes, corresponderia às primeiras sociedades humanas que, no século XIX, os primeiros antropólogos, com forte influência evolucionista, escalonaram em três estágios: selvageria, barbárie e civilização. Engels adotou essa linha evolutiva no seu livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”.
Hobbes viveu num tempo de violência. Entre 1642 e 1688, a Inglaterra mergulhou numa profunda guerra civil e num período de angústia que acabou na Revolução Gloriosa, com a vitória do Parlamento sobre o Rei. A violência influenciou Hobbes, que viu nela os males de uma conflagração prolongada. O estado de natureza seria a situação vivida pela Inglaterra por cerca de 30 anos. Não o estado original da humanidade, que Hobbes desconhecia e que Rousseau exaltava.
Selvageria denota uma condição vivida por quem mora na selva. Conota violência. Barbárie conota a condição de bárbaro, para os gregos, aqueles que balbuciam como crianças. Denota atraso e violência. Os dois substantivos induzem a percepções negativas. Índio é sinônimo de violento até mesmo para pessoas pobres. Ele é selvagem e bárbaro.
Na verdade, as sociedades vistas como selvagens (coletoras, pescadoras e caçadoras) ou bárbaras (agricultoras e pastoras) colocam o coletivo acima de tudo. O individual existe, mas não é valorizado. O social é tão forte que uma ofensa feita a um integrante da sociedade é uma ofensa ao grupo. Há guerras entre os grupos, mas elas são ritualizadas. Na verdade, tudo é ritualizado entre esses povos. Não há pobreza nem riqueza. Daí o estranhamento do velho índio tupinambá sobre herança, que Jean de Léry narra no seu livro. Daí a estranheza de índios americanos levados à França sobre as desigualdades sociais, narrada por Montaigne.
O princípio de solidariedade social permaneceu nas ditas civilizações. Leiam-se os “Atos dos Apóstolos”, no Novo Testamento, e tantos exemplos mais de interesses sociais suplantando interesses individuais. As profundas desigualdades sociais e o individualismo nasceram na civilização ocidental, mais especificamente a partir do século XV. As chamadas grandes navegações, a revolução científica e a revolução industrial criaram as grandes fortunas privadas e a noção de indivíduo e individualismo.
Atualmente, a humanidade está ocidentalizada e alcança cerca de sete bilhões de pessoas. As desigualdades sociais nunca foram tão desiguais como agora. Cerca de dez pessoas controlam riquezas correspondentes a quatro bilhões de indivíduos. Estamos na iminência de conhecer indivíduos triliardálios. Por outro lado, bilhões deles vivem abaixo da linha de pobreza. No Brasil, pessoas que experimentaram um padrão de renda de classe média baixa voltam a cair no estado de pobreza. O retorno à pobreza é pior do que a permanência no estado de pobreza.
A noção de solidariedade social e de coisa pública, por mais republicano que seja o mundo e que a república (de res=coisa pública) seja propagada pelo ocidente para outros países, o chamado mundo democrático não é democrático, mas plutocrático. Juntemos, então, pobreza, individualismo e falta de polícia. O resultado foi o que se viu no Espírito Santo. Em todos os estados vigoram condições para a explosão de saques e violência. Antigos pobres que se enriqueceram com o crime lutam contra os governos e fazem suas próprias leis. Os pobres não têm mais o que perder e aproveitam as condições para saquear.
Para mim, trata-se de um mundo intolerável, como disse o socialista-ecologista René Dumont, providencialmente esquecido pelos conservadores e progressistas. Eu gostaria de viver numa sociedade indígena. Ih, elas estão sendo destruídas por nós.
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O chamado 3
15/02/2017 | 11h27
(UM MATEUSINHO)
O retorno de Samara
Edgar Vianna de Andrade
O chamado 3
 
Cansada da viagem que fez do Japão aos Estados Unidos, Samara já teve seus dias de glória, quando Gore Verbinski dirigiu sua versão estadunidense, em 2002, com Naomi Watts no papel principal. Ela saiu de uma ficção escrita por Koji Suzuki e passou a nos aterrorizar. Ai de quem assistisse a um filme em fita cassete, tecnologia talvez não mais conhecida pelos jovens, com a sua sentença fatal. O mundo está mudando muito rapidamente.
Logo depois de assistir ao filminho, a pessoa recebia uma ligação, ainda por telefone fixo, e morria no prazo de sete dias. Samara, uma menina de cabelos compridos e vestido longo, era a assassina. Tratava-se de uma criança atormentada pela morte prematura. Mas, quem desvendaria o segredo de Samara?
Essa tentativa é feita pelo diretor F. Javier Gutiérrez em “O chamado 3”, com roteiro do trio Akiva Goldsman, David Loucka e Jacob Aaron Estes com o famoso Gullermo del Toro, um dos produtores executivos. Samara estava quieta no seu reduto, Não incomodava mais ninguém. Para ressuscitá-la, era necessária uma equipe de alto nível, mas isso não aconteceu.
O roteiro é tortuoso e preciosista. Filmes dessa natureza exigem roteiro mais claro. A fotografia não tem a mínima ambição. Ela poderia ficar aos cuidados de Sharone Meir, como ficou, ou a cargo de um mero operador de smartfone. Idem com a montagem de Steve Mirkovich. Idem com o elenco, tendo à frente Matilda Lutz, no papel de Julia, e Alex Roe, como Holt. Quem menos aparece é Bonnie Morgan, como Samara.
Com pertinácia e coragem invulgares, Julia persegue Samara por caminhos insuspeitos para o público. Descobre-se que se trata de uma alma penada, filha de uma mulher mantida prisioneira e estuprada por um padre. Haveria a intenção de criticar abusos sexuais de clérigos? Se houve, não convenceu.
Tudo ia bem. Parecia que Julia havia resolvido o problema da atormentada Samara e nós, mortais, estaríamos livres de seus vídeos, telefonemas e assassinatos. Começávamos a ficar gratos a Julia por desvendar tudo e libertar Samara e os espectadores de um possível “O chamado 4”. Mas as notícias não são das melhores. No final do filme, Samara mostra que não está contente e deixa em aberto um próximo episódio.
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De repente, 70
11/02/2017 | 19h53
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 12 de fevereiro de 2017
De repente, 70
Arthur Soffiati
 
Completei 70 anos de vida anteontem. Tenho a impressão de que tudo foi muito rápido. Lembro bem da minha infância. Houve muita mudança a minha volta. Hoje, o mundo se transforma mais rapidamente que as pessoas.
Aos 70, enfrento alguns problemas existenciais. O corpo não vai tão mal. Embora eu tenha sofrido uma isquemia, mais por herança genética que por hábitos de vida, noto que meu corpo está melhor hoje do que antes do acidente. Faço exercícios físicos pesados para a minha idade. Minha dieta é bastante balanceada. Mas minha dependência de medicamentos é considerável. Caí nas garras de médicos e creio que não sairei mais.
Noto uma defasagem entre meu corpo e minha mente, meu espírito, se preferirem. Meu corpo envelhece, mas meu espírito não o acompanha. Ele estranha o tratamento que as pessoas me conferem como professor idoso e respeitável. O tratamento de “senhor” me soa muito esquisito. Na minha mente, eu sou “você”. Minha curiosidade aumentou com a idade. Aposentei-me do magistério depois de 40 anos em sala de aula não por cansaço da velhice, mas para me dedicar a meus projetos. Hoje, leio muito, estudo muito, escrevo muito. Ainda saio em explorações por nossa região.
Minhas reflexões, contudo, levaram-me ao desencanto com o mundo. Atualmente, sinto-me mais situado na minha história e na história do mundo. Era para eu me sentir melhor, mas estou triste. O mundo não é ruim porque sou pessimista. Sou pessimista porque ele é ruim. Não gosto dos otimistas. Na tentativa de melhorar o mundo, eles o destroem mais ainda.
O maior problema que enfrento decorre da defasagem entre mente e corpo. Sei perfeitamente que estou mais perto da morte natural do que aos 51 anos de idade, quando escrevi uma crônica muito melancólica e, ao mesmo tempo, cheia de humor. Dezenove anos depois, a presença da morte não se contenta com consolos fáceis. Ela está a minha espreita. Embora com minha saúde monitorada, posso sofrer um acidente repentino. Por mais longevo que seja (algo em que não acredito, dada a minha herança genética), a morte é inevitável. Não é medo dela propriamente o que sinto. Eu gostaria de viver o suficiente para realizar metade de meus planos. A totalidade deles é impossível porque eles aumentam diariamente. Nem a metade posso medir por não saber a dimensão do todo.
Estudei e ainda estudo muito religiões e ciência. Meu parco conhecimento do mundo não me permite a conversão a qualquer religião. Por um lado, gosto do meu agnosticismo como atitude de sabedoria diante do universo. Creio que respostas provisórias para as minhas inquietações intelectuais com ele. Por outro lado, a falta de convicção em alguma crença sobre a sobrevivência do espírito após a morte do corpo me faz falta. Nem o mais convicto religioso pode garantir que sua alma sobreviverá à morte do corpo. Mas a esperança consola.
Pessoas amigas tentam me ajudar dizendo que eu devo crer no além. Ter certeza nele. Fico com a impressão de que ter fé é fácil. Parece que posso comprá-la no comércio. Uma conversão minha nesta idade pareceria surpreendente a mim e aos outros. Ter fé não depende da vontade, pessoal. Aconselham-me também viver um dia de cada vez. Não consigo. Viver um dia de cada vez é esquecer minha história e a história na qual estou inserido. Como começar do zero ao acordar? Quem me dá tal conselho não o segue. Mas se aproxima dele por não mergulhar profundamente na sua própria vida e no mundo. Cada vez mais, encontro pessoas superficiais que vivem por viver. São pessoas que fazem da vida um selfie.
Agradeço, amigos, mas não consigo ser um vivo-morto, um zumbi. Necessito viver os milênios, os séculos, os anos, os meses, as semanas e os dias. Não consigo viver sem passado nem me despreocupar do futuro. Aos 70 anos, voltei, de certa forma, aos meus 16. Na minha adolescência, eu queria me dedicar à música erudita, à literatura, às artes, ao estudo das ciências e da filosofia. E escrever muito. Só agora estou podendo. E a morte está a minha espreita. Gosto deste mundo, apesar de tudo. Se venho de outro, não me lembro dele. Se vou para outro depois da morte, não tenho certeza.
Não sou feliz, como pessoas amigas desejariam para mim, mas não sou infeliz. Felicidade permanente estressa. Infelicidade permanente é depressão. Vivo momentos de felicidade e de tristeza. Não ostento felicidade falsa. Não gosto de Mário de Andrade porque ele me ensinou o interesse por muitos campos do saber. Gosto dele por ter aptidão ao saber múltiplo. Não gosto de Edgar Morin por ter me ensinado a complexidade, mas por encontrar nele um intelectual que atenua a minha profunda solidão.
Concluo invocando Denis Diderot, embora eu não seja um iluminista. Estou em meio a uma floresta numa noite escura. Só tenho um lampião para iluminar o rumo. Aparece alguém me dizendo que posso encontrar melhor o caminho se apagar o lampião. Desculpem, amigos, continuarei com a lanterna acesa.
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Meu pé, meu pobre pé
09/02/2017 | 20h03
Meu pé, meu pobre pé
Arthur Soffiati
Para Sara Soffiatti
 
...assim de joelhos veem-se-lhes as solas dos pés, tão castigadas, tão sangrentas, tão doloridas e sujas, são a parte mais comovente do corpo humano, se está de joelhos, viradas para o céu por onde nunca caminharão. José Saramago. Memorial do Convento
 
Sou diabético. Tive de amputar o pé esquerdo. O médico me disse que eu tomasse cuidado com os pés quando me diagnosticou com diabetes. Fiquei apavorado. Passei a tomar todas as precauções. Comprei sapatos confortáveis e resistentes para evitar que uma topada causasse algum ferimento. Deixei de cortar as unhas dos pés. Passei a frequentar um podólogo, que me tratava com excessiva atenção. Evitei todos os ferimentos. Mas meus esforços de nada valeram.
Não fumo, nunca fumei. O cigarro concorre muito para agravar o estado do diabético. Apesar de tudo, parece que a circulação periférica foi reduzida e lesionou os nervos, afetou a anatomia dos ossos dos meus pés, sobretudo o do esquerdo, lado em que eu já havia sofrido fratura da fíbula. Será que ela contribuiu? O médico não se arriscou a confirmar. Apenas diagnosticou uma neuropatia diabética. Várias pequenas isquemias. Eu já sofri isquemia cerebral. Terei propensão à isquemia? Agora é tarde. Perdi meu pé esquerdo. Meu pobre pé. Gangrenado e amputado. Não o perdi aos poucos, com a amputação de dedos. Cortei tudo na altura da parte inferior da perna.
Manchas vermelhas, pontos doloridos, facilidade para formação de bolhas e calosidades, joanetes. Não tenho pé chato. Posso muito bem constatar isso. Mas eu estava notando baixa pulsação nos pés. Sem a irrigação de sangue necessário, eles ficavam frios, a pele fina, arroxeada, seca, brilhosa. Corri ao médico várias vezes. Nunca me descuidei, mas perdi o pé esquerdo. Meu pobre pé. Agora, temo pelo pé direito.
Tudo começou com uma pequena úlcera na sola do pé. Procurei o médico. Ele tentou antibióticos para combater bactérias. Depois que ele me alertou para o risco do pé diabético, passei a usar sapatos fechados. Sabemos que os pés transpiram. Em meio fechado, a transpiração facilita a proliferação de bactérias. Elas agravaram a úlcera. Não desconfio do meu médico. Acho que ele fez o possível para evitar a amputação, mas não foi possível.
Sei que é ilegal manter um membro amputado em casa. Ele deve ser incinerado ou sepultado em caixões especiais. O destino de um membro amputado é semelhante ao destino de uma pessoa morta. Tudo bem. Acho acertado. Mas antes que meu pé fosse para o cemitério, dei um jeitinho bem brasileiro para me despedir dele.
Meu pé, meu pobre pé, hoje separado de mim... Agora, ele está nas minhas mãos. Estranho minhas mãos segurando meu pé fora de mim. O pé vem a ser um grande engenho da natureza. Ele já está presente, de maneira latente, em varias espécies de peixe. Estudei esse assunto como pude, embora não seja especialista. Sou fascinado pelas extremidades humanas por entender que elas contrariam a simetria bilateral externa do nosso corpo. Se traçarmos uma linha passando pelo nariz, pelo externo e pelo púbis, pela vulva notaremos que o corpo tem duas partes iguais: dois olhos, duas orelhas, duas glândulas mamárias em homens e mulheres, dois braços, duas mãos, duas pernas, dois pés, dois testículos, dois lábios da vulva. Por dentro, também há alguma simetria bilateral: dois pulmões, dois rins... A linha central divide o único nariz em duas narinas e a boca em dois lados iguais. Sei que há ligeiras diferenças entre um lado e outro, mas elas são praticamente imperceptíveis aos olhos.
Agora, examinemos a mão. Ela tem cinco dedos diferentes entre si. Para acompanhar a simetria, o dedo médio devia separar dois dedos de mesmo tamanho à direita e à esquerda. O mesmo com o pé. O que se considera um pé harmônico tem dedos que decrescem como uma escadinha ou como uma flauta de Pã. Da minha parte, vejo mão e pé como ferramentas altamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, reminiscências primitivas da natureza. Eles se aproximam mais da estrela-do-mar, com sua simetria radial, do que dos mamíferos. Delírio meu.
As extremidades animais sempre me fascinaram. Elas não existem nos peixes. Talvez exista um projeto delas nos peixes. Dizem que o primeiro peixe a sair da água (que nome os cientistas lhe deram? Creio que foi Tiktaalik. Não tenho certeza. Não tenho como fazer essa consulta agora no Google) já tinha extremidades articuladas, com protótipo de pulsos e de dedos. Ele passeava na terra para obter alimento e voltava pra água. Genial invenção e também muito perigosa. Segundo os paleontólogos, os primeiros anfíbios tinham oito, sete dedos nas extremidades. Depois, esse número fixou-se em cinco. Por quê? Não sei. Um deles diz, com gracejo, que foi para tocar piano e usar teclado de máquina de escrever e computador.
As primeiras cobras tinham patas articuladas. Elas foram abandonadas. Algumas embutiram as patas e passarem a se arrastar ou a movimentá-las por dentro do corpo, como se as patas estivessem calçadas com luvas e sapatos. As aves transformaram as mãos em asas. Algumas, como a cigana, ainda guardam vestígios de mãos nas extremidades das asas. Alguns mamíferos aquáticos abandonaram parcial ou totalmente as extremidades. As focas transformaram os pés em nadadeiras, e as mãos têm os dedos ligados por membranas. Também as lontras. Mas as baleias e os golfinhos transformaram tudo em nadadeiras. Os morcegos fizeram como as aves: as mãos sustentam asas. Tudo isso é muito estranho.
Muito estranho também é eu estar sentindo coceira na sola do pé amputado. Estou coçando agora o local, mas não está adiantando. O pé não está mais no meu corpo. À noite, também sinto pulsações nas pontas dos dedos e nos calcanhares. Parece que o coração bate nestes pontos. Seriam neurônios? Neurocientistas dizem que o cérebro continua a reconhecer o membro amputado por algum tempo. Meu lado esquerdo sempre foi problemático. Caí de uma altura considerável e quebrei a fíbula esquerda (antigamente, era perônio. Foi preciso quebrar esse osso para aprender seu novo nome) bem perto do pé. Depois, tive um AVC isquêmico que me afetou o lado esquerdo. Ele me deixou sequelas da boca ao pé. Recuperei-me e estava disfarçando bem minhas dificuldades quando tive de amputar o pé. Também do lado esquerdo. Hoje, nem mesmo uma prótese vai disfarçar a ausência do pé.
Foi uma perda muito grande para mim. Há quem se conforme com a perda de um membro, como aquele jogador da Chapecoense. Ele agradece a Deus por ter levado só a sua perna. Não posso agradecer por ter conservado meu corpo sem o pé esquerdo. As extremidades humanas são, para mim, uma obra colossal que custou milhões de anos para ser construída. Não houve pressa da natureza para construí-la. Se houvesse, elas se pareceriam com os nossos prédios, que caem com facilidade. Não assim com mãos e pés, com todo o corpo humano. Houve muitos testes, muitos ajustes, muita paciência para se chegar a essa perfeição. Mas também há defeitos. Por causa do meu pâncreas defeituoso, perdi o pé esquerdo com todos aqueles ossinhos miraculosos.
Um tio me ensinou seus nomes. Tarso, metatarso e dedo. Depois, falange, falanginha e falangeta. Hoje, a arquitetura do pé é bem mais complexa. Na verdade, sempre foi. A gente é que aprendia de forma simplificada na escola. Agora, o nome certo é falange distal em lugar de dedos. São cinco falanges distais com tuberosidades, bases e cabeça, falanges médias também com cabeça e base, falanges proximais com corpo, base e cabeça. Cada osso parece um corpo humano. Tem cabeça, corpo de base. Existe o osso sesamoide medial e lateral com o metatarso atrás, também ele com cabeça, corpo e base, o cuneiforme médio, intermédio e lateral, o osso navicular, o tarso, cuboide, o tálus e o calcâneo. Já estamos perto da perna, da tíbia e fíbula, osso que quebrei e que ficou em mim depois da amputação.
Meu pé, meu pobre pé será arrancado das minhas mãos daqui há pouco. Dizem que cabelos e unhas continuam a crescer depois que a gente morre. Será que as unhas do meu pé morto estão crescendo ainda? Não dá pra perceber. Elas crescem muito lentamente. Os pelos que nascem nos dedos e em cima do pé não estão mais aqui. Meu médico disse que eles pararam de crescer antes mesmo da amputação porque não havia mais a devida irrigação sanguínea.
Estranho as pessoas dizerem minha cabeça, minhas orelhas, minha boca, meu braço, minhas mãos, meus pés. Num livro que li do chileno Juan Emar, ele diz que sofreu um procedimento cirúrgico para descolar o telefone de sua orelha. Antes da cirurgia, ele cortou o fio do telefone para se libertar do aparelho. O corte fez verter sangue do fio. Embora o autor tenha desenvolvido uma literatura do absurdo, o que ele escreveu sobre o fone grudado na sua orelha com o fio sangrando faz sentido. Ou o telefone é um animal ou a orelha é um objeto inanimado.
A orelha não pode ser minha, pois não é um objeto que exista fora de mim. Não posso cortar minha orelha para dar ou vender. Dar até posso. Van Gogh cortou sua orelha e a enviou para a namorada. Mas certamente vão considerar este gesto doentio e macabro. As orelhas que estão em mim sou eu. Meu pé é eu. Não uma parte desatarrachável do corpo que posso tirar, dar e vender. Ao ser amputado, meu pé vai como uma parte minha. Morri alguns avos quando separam o pé de mim. Serei sepultado alguns avos quando o pé for sepultado. Este engenho fabuloso que está presente nas pessoas e em muitos animais vai virar esqueleto antes de mim. Os muitos ossos da sua estrutura vão aflorar quando os tecidos, os músculos, os nervos, a pele se deteriorarem. Será que meu pé resistirá sofrendo algum processo de mumificação natural?
Lembrei de uma múmia que existia no Museu Nacional do Rio de Janeiro cujo corpo não foi enrolado por inteiro, como um bloco. Tratava-se da múmia de uma moça. Os braços, as pernas, os dedos das mãos e dos pés foram envolvidos separadamente. Dava pra ver até os seios dela. Conheci um professor que era apaixonado por ela. Chamava-se Victor Stawiarski. Perdi-o de vista. Era muito alegre e engraçado. Deve ter morrido com os dois pés.
Certa vez, quando eu ainda estava na Universidade, deram-me a disciplina antropologia para ministrar. Argumentei que eu não tinha formação. Não consegui me livrar. Que eu me virasse, foi a resposta do coordenador. Estudei os fundamentos da ciência e escolhi alguns temas. Moda foi um deles. As alunas prevaleciam nas turmas. Não estou afirmando que mulher só gosta de moda. Mas eu precisava me sentir mais seguro numa área de conhecimento que eu não dominava. Foi um sucesso. As moças participaram ativamente, opinando sobre o que eu apresentava no PowerPoint. Eu queria mostrar como nossa cultura de massa impõe o tipo físico para ser modelo, sobretudo feminino. A mulher deve ter magreza anoréxica, com pouco busto, pernas finas, rosto pálido semelhante a de um zumbi.
De vez em quando, eu introduzia uma artista de cinema ou televisão para elas fazerem o contraste. Uma vez, exibi uma foto de Camila Pitanga com os seios nus e descalça. Os homens logo adoraram. Percorri seu corpo em detalhes, da cabeça aos pés. Gostei dos pés femininos, delicados, pequenos. Externei minhas sensações. Uma moça ponderou que pé de homem é muito feio e que pé de moça é mimoso. Ela usou este adjetivo. Concordei. Mas lembrei de pés femininos calejados, sofridos, maltratados pelo tempo e pelo trabalho.
Certa vez, num barbeiro que era salão de beleza popular também, uma mulher aparentemente pobre, de rosto enrugado, corpo arredondado, pernas arqueadas, de meia idade entrou e perguntou se era possível fazer as unhas. Uma das duas moças presentes respondeu que tinha uma cliente para as quatro horas, mas que, até lá, seria possível tratar das unhas da senhora. Com toda a naturalidade que há de existir neste mundo, a manicure perguntou: “pé e mão?”. “É”, respondeu a outra. Mais que depressa, a manicure encheu uma bacia de água quente com espuma e mergulhou aqueles pés encarquilhados de sua cliente nela. Enquanto tratava das unhas das mãos, aqueles horríveis pés ficavam de molho. Depois de certo tempo, tomou um a cada vez e os raspou com um ralo, com uma fisionomia de quem iria assobiar descontraidamente uma canção. Em seguida, enfiou entre os dedos chumaços de algodão para afastá-los e passou a pintar as unhas com esmalte vermelho. De vez em quando, eu olhava de esguelha aquela cena patética com medo de envergonhar a ambas. No entanto, nenhuma das duas conferia a mim a menor importância. Parecia-lhes fazer a operação mais natural que possa existir. A manicurada com aqueles dedos arreganhados. A manicure segurando aqueles pés sem qualquer pejo. Fiquei a me perguntar, mais uma vez em muitas na minha vida, como as pessoas podem considerar natural ter pés e exibi-los sem qualquer cerimônia.
Mas, no geral, reparo e admiro a delicadeza dos pés femininos. Acho estranho ter as extremidades das extremidades do corpo, mãos e pés, pintadas. Sou de uma geração em que homem não pintava unhas, nem mesmo com base. Hoje, existem homens que frequentam salão de beleza, pintam mãos e pés sem nenhum constrangimento.
Eu tinha tanta vergonha dos meus pés quando criança que, nem na praia, eu os exibia. Acompanhava meus pais calçando sandálias, que mostravam apenas os dedos e os calcanhares. Todos diriam que é tolice. Hoje, também digo, mas não sei de onde nasceu aquela vergonha. Parece até que meus pés desnudos mostravam a nudez de todo meu corpo.
Eu queria ficar mais tempo com meu pé amputado. Ainda tenho várias reflexões a fazer, mas o enfermeiro chegou para levá-lo. Ele vai ser colocado numa urna para natimortos e sepultado no túmulo da minha família. Quanta ironia. Um pé desgarrado do corpo sendo tratado como criança falecida. Num último arroubo, beijei a sola dele. Nunca pensei que chegaria a fazer isso um dia. Restou-me apenas um pé que devo proteger. Adeus, meu pé, meu pobre pé.
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Nem tanto nem tão pouco/Estrelas além do tempo
07/02/2017 | 14h21
Folha da Manhã, 07 de fevereiro de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Nem tanto nem tão pouco
Estrelas além do tempo
Edgar Vianna de Andrade
 
Na década de 1920, a discriminação racial nos Estados Unidos era muito mais forte do que atualmente. Sua semelhança com o apartheid da África do Sul era grande. Nesse contexto, nasce a menina Katherine Johnson. Ela tem de morar num bairro só para negros, estudar numa escola só para negros, não pode circular livremente como os brancos. Mesmo assim, ela se destaca como uma vocação muito forte para matemática e consegue, com duas amigas, trabalhar na poderosa NASA, reduto de homens brancos arrogantes e racistas. Lá dentro, existe um setor só para negros em que vi apenas mulheres. Será que homens negros não trabalhavam na NASA?
Katherine (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) formam um trio de negras contestadoras na NASA. A primeira deixa o departamento de mulheres negras e vai trabalhar no setor de homens brancos, onde só existe uma mulher branca. Ela se revela de grande importância nos cálculos para voos de naves espaciais, mas não encontra ambiente receptivo. Se deseja ir ao banheiro, precisa deixar seu setor e atravessar um amplo espaço externo para chegar ao banheiro feminino para negras. Aos poucos, ela conquista a simpatia do chefe Al Harrisson (Kevin Costner), que acaba suprimindo a distinção de urinas. Diz ele que a urina de brancas e negras tem a mesma cor.
A luta interna das três mulheres negras (afrodescendente me parece um racismo envergonhado) é, na medida do possível, vitoriosa. Uma tem seus talentos matemáticos reconhecidos por todos os brancos. A outra acaba ingressando numa universidade só para homens brancos. A terceira se torna supervisora de um departamento. As três existiram de fato e foram homenageadas pela NASA futuramente e mesmo por Obama. A NASA e a NOOA deixaram de ser órgãos limitados aos interesses dos Estados Unidos e se tornaram mundiais, desenvolvendo pesquisas sobre mudanças ambientais que desagradam os governos do país.
Mas, que diabo, como diria Montaigne, as três mulheres lutam pelo direito a serem mulheres como as brancas e serem reconhecidas por seu valor intrínseco. Conseguem, mas não questionam a grande luta que é a Guerra Fria na qual elas combatiam. O chefe de todos chega a suspeitar que Katherine seja espiã russa. Claro, é preciso encontrar algum defeito naquela mulher. Negra que sabe muito deve ter algum problema. Mas, tudo bem, é difícil ter consciência além de seu tempo. As lutas necessárias foram travadas por elas.
No final, mais do que três negras vitoriosas, temos o individualismo dos Estados Unidos vitorioso. O livro que dá origem ao roteiro mostra três negras que lutam pelos seus direitos e vencem. O diretor Theodore Melfi não facilita. Todos que estão por trás do filme querem compensar os danos do preconceito e tratam as três mulheres como heroínas. Mostram uma NASA dependente de uma só pessoa, que pode salvar uma operação ou levá-la ao fracasso. Ninguém no mundo, trabalhando individualmente, garantiria o êxito de uma viagem espacial tripulada, nem homem nem mulher, nem branco, nem negro nem amarelo. Eis a falha do filme-documento: ter exagerado na dose. Não aparece nem um flash dos grandes impasses políticos dos anos 1960. A luta de Martin Luther King é uma nota de pé de página. As mulheres, os negros e os imigrantes legais ou ilegais avançaram nos Estados Unidos, de fato. Basta dizer que muitos apoiam o racista Donald Trump.
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Lagoas, plantas, peixes
06/02/2017 | 16h01
Lagoas, plantas, peixes
Arthur Soffiati
 
Se a Baixada dos Goytacazes, o Pantanal Mato-grossense e a Baixada de Jacarepaguá fossem colonizados por técnicas e tecnologias ocidentais hoje, certamente haveria uma discussão sobre as mais adequadas atividades econômicas a serem praticadas nas áreas. Os cientistas diriam que o melhor caminho para integrar tais ambientes não seria a agropecuária, mas a pesca e o ecoturismo.
Contudo, a ocupação delas processou-se antes da discussão. Eu não havia nascido quando os colonos de origem portuguesa, portanto, de cultura ocidental, chegaram ao Norte Fluminense, no século XVII. Sua intenção era criar gado nas áreas mais altas e secas, muito raras num imenso complexo hídrico em que não se distinguia claramente terra de água, rio de lagoa. Com o avanço da agropecuária, muito dinheiro foi gasto para converter uma extensa área úmida em área seca. Mesmo assim, sem o sucesso esperado.
O mesmo processo se deu no Pantanal Mato-grossense. Devido às grandes dimensões dele, a ocupação do território por atividades rurais teve de ser mais limitada. Como se percebeu que o turismo seria uma grande fonte de renda, entendeu-se por bem reservar áreas úmidas para esse fim.
A Baixada de Jacarepaguá não teve a mesma sorte. Quando prestei serviço militar, em 1967, passei quinze dias acampado naquele paraíso. A paisagem que então usufruí ficou na minha memória e no livro O sertão carioca, de Magalhães Correia. As belas, imensas, limpas e saudáveis lagoas hoje estão excessivamente poluídas. A vegetação de restinga foi quase totalmente erradicada. Naquele terreno frágil, o urbanista Lúcio Costa, ainda embebido na concepção cartesiana de que se pode e deve dominar completamente a natureza, concebeu um plano de urbanização completamente insustentável ecologicamente. Mas ele foi implementado, resultando num desastre urbano atualmente.
Na Baixada dos Goytacazes, muitas lagoas foram drenadas parcial e totalmente sob o pretexto de saneá-la. O motivo real e escamoteado era ganhar dinheiro com a agropecuária. A atividade pesqueira, vocação primeira da planície, sofreu muito. Enquanto as depressões naturais eram enxugadas e comprimidas por diques, a atividade cerâmica abria cavas para a extração de argila. Trata-se também de uma atividade com os dias contados. A argila de superfície não serve por ser muito suja. A de profundidade, além de extração proibida, não é rentável. Desse modo, a baixada fica toda esburacada.
Assim como Barra do Furado volta à baila, a piscicultura e o plantio de árvores também voltam. Eu os saúdo, embora não acredite numa política pública para a recuperação parcial dessas atividades. A criação de peixes para consumo familiar e venda nas cavas deixadas pela indústria cerâmica foi já foi cogitada mais de uma vez. Nunca houve continuidade dos governos municipais no seu aproveitamento como áreas pesqueiras. Talvez nem mesmo experiências incipientes. E parece mesmo irônico esse aproveitamento. Onde havia lagoas, há agora lavouras e pastos. Onde havia pastos, há agora buracos. É tarde para chorar o leite derramado.
Aproveitar as cavas para a criação de peixes é apropriado desde que as espécies sejam nativas da região, hoje infestada por espécies exóticas, como o dourado, a tilápia, a carpa, o bagre africano e até o pirarucu. Se a piscicultura vai ser praticada com espécies exóticas, cumpre que os criadouros fiquem afastados de cursos d’água e de lagoas para não aumentar a infestação. Todo cuidado é pouco. Lembro aqui o caso do ex-vereador Ruço Peixeiro, que me procurou para que eu tomasse providências pela fuga de tilápias que ele criava em tanques nas margens da lagoa Feia. Por ocasião de uma enchente, elas fugiram para a lagoa. Lembro também do deputado João Peixoto quando foi Secretário de Agricultura de Campos e não via nenhum problema em distribuir saquinhos plásticos cheios d’água e com “avelinos”, como diria Ruço, para pequenos produtores rurais. Ele ficou chocado quando denunciado no Ministério Público por essa iniciativa que só tinha a intenção de beneficiar produtores. De boas intenções, o ambiente está cheio de destruição.
Lembro ainda de Garotinho quando foi governador do Estado do Rio de Janeiro (ter memória dói muito), que criou o bíblico programa Multiplicar, também com a finalidade de multiplicar peixes, como Jesus. Só que de forma natural e com espécies exóticas.
Estes equívocos devem ser evitados. Civis e governantes também se comovem muito com o plantio de árvores. Eles acham que estão contribuindo para recuperar a natureza que ajudaram a destruir. Então, não sabem distinguir espécies nativas de um ecossistema de espécies exóticas, ou seja, de outros ecossistemas. Não sabem como plantar, não se preocupam em cuidar das mudas até que as plantas cresçam por conta própria. O resultado é zero. As mudas são abandonadas como bebês recém-nascidos e morrem. No seu primeiro mandato como prefeito de Campos, Garotinho disse ter plantado vinte mil mudas num só dia. Nunca vi uma que tenha crescido. Se alguém viu, me avise, por favor. Devemos, pois, saber o que plantar, onde plantar, como plantar e como cuidar.
Enfim, políticas públicas municipais de reflorestamento e piscicultura devem nortear-se pelos seguintes princípios:
A- Reflorestamento
1- Buscar apoio técnico de órgãos governamentais especializados no tema;
2- Promover debates com especialistas antes de iniciar a implementação da política de reflorestamento;
3- Certamente que, após os debates, áreas e espécies adequadas estarão selecionadas;
4- Prioridade para margens de rios e lagoas;
5- Prioridade para espécies frutíferas.
B- Piscicultura
1- Debates com especialistas para definir locais e espécies a serem usadas na piscicultura;
2- Orientação técnica em todas as fases de execução da política;
3- Atenção para a questão da água;
4- Cuidados devidos para não agravar mais ainda a infestação de rios e lagoas por espécies exóticas aos ecossistemas locais.
Na implementação das duas políticas, voltá-las prioritariamente para minorar os impactos ambientais e atender ao pequeno produtor e ao pescador.
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O isolacionismo de Trump
05/02/2017 | 10h27
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 05 de fevereiro de 2017
O isolacionismo de Trump
Arthur Soffiati
 
Antes mesmo de proclamar sua independência, em 1776, as Treze Colônias britânicas na América, embrião dos atuais Estados Unidos, já se expandiam além de suas fronteiras. Elas estavam concorrendo com a própria metrópole no oriente pelo domínio comercial. Essa concorrência, aliás, foi o grande motivo da guerra de independência. Cabe lembrar também que as ideias republicanas que acalentavam o novo país vinham da Europa, sobretudo da Inglaterra.
Tão logo proclamada a independência, lá estavam os Estados Unidos guerreando a Líbia. Por que tão longe? Porque o novo país tinha interesse no Mediterrâneo. Pelo tratado assinado com a Inglaterra, que reconheceu a independência das ex-colônias, o novo país ganhava também a região dos Montes Apalaches, em 1783. Em 1803, aproveitando-se do tumulto causado por Napoleão na Europa, os Estados Unidos compraram da França a Louisiana. Para a França, era vender ou perder.
No caso da Espanha também. Era vender ou perder a Flórida em 1819. Já com o México, cujo território era muito maior quando de sua independência, não houve opção. Por uma guerra entre 1846 e 1848, os Estados Unidos anexaram grande parte do México. O pretexto era sempre a doutrina do Destino Manifesto, segundo a qual o destino dos Estados Unidos era expandir-se e civilizar terras bárbaras. Já em 1823, a Doutrina Monroe podia ser resumida com uma frase: “A América para os americanos”. Hoje, a doutrina Trump também cabe numa única frase: “A América primeiro”, como se os Estados Unidos correspondessem a toda América. O objetivo oculto da Doutrina Monroe foi afastar os interesses dos países europeus sobre a América como um todo. Os demais países americanos, porém, viram nos Estados Unidos o grande guardião de suas independências e o grande líder.
Os territórios anexados no oeste da América do Norte evidentemente não eram despovoados. Muitas nações indígenas os habitavam. Contra eles, os Estados Unidos travaram guerra de extermínio e se apossaram das terras de povos que não tinham noção de propriedade privada. Essas conquistas deram origem ao gênero “faroeste” no cinema. Por compra, o país incorporou o Oregon, em 1846. Ainda do México, anexou o território do Gadsden, ao sul do Arizona, em 1853.
Em 1867, invocando a Doutrina Monroe, os Estados Unidos adquiriram o Alasca do Império Russo. Em 1893, foi a vez do arquipélago do Havaí. Em 1898, os Estados Unidos guerrearam a Espanha e a venceram. Cuba passou a ser protetorado dos EUA, com o domínio direto de Guantánamo e das Filipinas pelo país expansionista. Os domínios do novo país ultrapassaram os limites continentais, chegando às ilhas de Porto Rico, Guam, Samoa, Marianas do Norte e Virgens. Ainda sob seu controle ficou o Canal do Panamá.
Logo a seguir, os Estados Unidos ingressaram na Primeira Guerra Mundial (1914-18), ao lado da Inglaterra e da França. A proposta de uma organização mundial, ao fim da guerra, foi formulada pelo Presidente Wilson. Assim, foi criada a Liga das Nações, mas os Estados Unidos não participaram dela, voltando ao que se considerava isolacionismo. O sociólogo e historiador Immanuel Wallerstein sustenta que a Primeira Guerra Mundial decorreu da concorrência internacional de Alemanha e Estados Unidos.
Com a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos não voltaram mais para seu pseudoisolacionismo. Pelo contrário, o dólar passou a ser o padrão monetário internacional, a União Soviética passou a ser seu arqui-inimigo. O país se envolveu em várias guerras fora do território americano. Sua dependência econômica ao resto do mundo aumentou acentuadamente depois de 1945.
Um exaustivo estudo empreendido recentemente por Keiichiro Kanemoto e Daniel Moran mostra que a devastação de ambientes terrestres e marinhos, com o comprometimento da água doce e a ameaça de extinção de espécies na América Latina, Ásia e Oceania, devem-se aos Estados Unidos, União Europeia, China e Japão. No Brasil, o Cerrado é a maior vítima.
No fundo, concordo com Trump. Oe Estados Unidos devem mesmo adotar uma politica isolacionista, não permitindo a entrada de imigrantes. Mais que muros e fiscalização de fronteiras, o ideal seria construir uma cúpula sobre todo o país. Assim, as emanações de gases do efeito estufa ficariam limitadas ao espaço aéreo de seu país. A proposta valeria também para União Europeia, China e Japão. Claro que se trata de uma proposta inexequível. Se fosse exequível, eu também seria contra ela. Afinal, nem mesmo os eleitores de Trump têm plena consciência do que fizeram ao elegê-lo. A maioria do país foi contra ele.
Mas a pergunta que não quer calar: os Estados Unidos podem ser autossuficientes em tudo? Eles podem produzir tudo o de que necessitam em seu próprio território? Eles podem comprar todos os produtos bélicos da sua indústria militar?
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Barra do Furado
02/02/2017 | 12h48
Barra do Furado
Arthur Soffiati
 
Vira e mexe, Barra do Furado volta à pauta. E bota vira e mexe nisso. A primeira vez que a questão de uma saída para o mar pelo sul da lagoa Feia foi discutida remonta a 1688, no século em que a colonização portuguesa contínua da região começou. A geografia da baixada era então bem diferente que a de hoje. Da lagoa Feia, partiam vários canais naturais por onde a água escoava, reunindo-se todos ou quase todos num único ou quase único canal. Os antigos o conheciam com o nome de rio Iguaçu. Ao norte, corria o rio Paraíba do Sul. Quase paralelo a ele, na parte meridional, corria outro sistema complexo que até hoje é difícil de identificar. Ele começava com os rios Imbé e Urubu, que se alargavam na lagoa de Cima, que escoava pelo rio Ururaí, que recebia parcialmente a contribuição do rio Preto. As águas do Ururaí se alastravam na lagoa Feia, que recebia água dos rios Macabu e da Prata, além de água do Paraíba do Sul pelo lençol freático.
Dela, as águas se distribuíam por vários canais que se juntavam no chamado rio Iguaçu. No seu curso rumo ao que hoje é a barra do Açu, ele recebia água do Paraíba do Sul por vários canais naturais. Quando havia muita água, ele forçava a barragem de areia entre a lagoa do Lagamar e o mar, principalmente por força do rio Bragança, seu afluente, formando o que era conhecido por Barra Velha. O príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied registrou esse rio por escrito e por desenho. Era lindo. Hoje, não existe nitidamente.
Voltando a 1688, o capitão José de Barcelos Machado, um dos descendentes indiretos dos Sete Capitães, herdou terras ao sul da lagoa Feia. Era o Morgado de Capivari. Ele olhou pra aquela água toda correndo pelos canais naturais perto do mar e entendeu que faltava inteligência a ela. Recorrendo à ficção, ele perguntou por que ela não atingia o mar ali, tão perto, em vez de se dirigir para a barra do Canzoza, como se chamava antigamente a barra do Açu. A água doce respondeu, mas poucos entendem sua linguagem. “Porque aqui, o mar é muito forte e não deixa eu abrir uma saída por bastante tempo. Veja no Lagamar. Eu abro a Barra Velha, jogo-me no mar e logo ele fecha. No Açu é diferente. A saída lá é protegida da corrente dominante.”
Foi o que aconteceu. A vala do Furado só se mantinha aberta se a força da água doce no continente conseguisse enfrentar o mar. Vala do Furado não é o mesmo que canal da Flecha, gente. Leiam esse artigo até o fim. Não contente com a teimosia do mar em fechar a Barra do Furado, a engenharia sanitária tentou ligar a lagoa Feia ao mar por um canal retilíneo. A ideia foi do engenheiro Marcelino Ramos da Silva, que escolheu o ponto em que a lagoa mais se aproxima do mar. Esse ponto fica em terreno de restinga, portanto arenoso. Saturnino de Brito, outro engenheiro, advertiu que o canal não daria certo, pois a areia da restinga esboroaria e entupiria o canal. Marcelino o abriu assim mesmo em 1898, com o nome de Ubatuba ou Jagoroaba. A previsão de Saturnino de Brito se concretizou. Marcelino admitiu que havia cometido um erro. Mas a ideia de lançar água doce excedente para o mar pela Barra do Furado continuou. Até mesmo Saturnino de Brito, tão cauteloso, admitiu que um canal entre a lagoa Feia e o mar em terreno argiloso vingaria.
Criado em 1940, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) abriu, entre 1942 e 1949, o conhecido canal da Flecha, que funcionaria como outro defluente de água para o mar junto com o rio Paraíba do Sul. Para domesticar as águas revoltas da Baixada dos Goytacazes, era necessário aproveitar os canais naturais que ligavam o Paraíba do Sul ao Iguaçu, drenar as lagoas horríveis que eles formavam, desviá-los para o canal da Flecha, dar a eles um traçado retilíneo e tudo funcionaria às mil maravilhas. Não funcionou.
A força do mar tapava a foz do canal da Flecha no mar como tapava a barra da vala do Furado e a Barra Velha. Então, o DNOS teve uma ideia brilhante: prolongar o canal mar adentro por dois espigões (guias-correntes). Com a barra permanentemente aberta, seria possível construir um ancoradouro e um terminal pesqueiro para os pobres pescadores do Farol de São Tomé. Na verdade, a intenção não declarada era criar um porto para os petroleiros da Petrobras, para os navios pesqueiros industriais de alto mar e para drenar e dessalinizar uma vasta área para a agropecuária. Há quem me conteste quanto a estas afirmações. A diferença é que sou testemunha dessa história, além de contar com documentos. Falo e escrevo com base.
Mas quem faria obra tão suntuosa? Só havia um empresário capaz de executá-la. Ele era, ao mesmo tempo, deputado federal bem quisto pelo governo militar e pelo Ministério do Interior. Quem, quem, quem? Ninguém mais que o deputado-empresário Alair Ferreira. Ele tinha uma pedreira, os caminhões para transportar as pedras e uma empresa de engenharia. Sem nenhum estudo de impacto ambiental, a obra foi feita. Resultado: o espigão da margem direita do canal (lado de Quissamã) passou a reter areia, enquanto que, do lado esquerdo (lado de Campos), o mar erodiu a costa. Na época, lembro-me bem, fui o único a condenar as obras publicamente. Políticos regionais e população acreditaram que a obra seria a redenção da região. O DNOS era, então, uma espécie de Eike Batista da época. Como ele, um ídolo de pés de barro. Não se falava em DNA da empresa, mas, tanto o DNA do DNOS quanto o DNA das empresas de Eike eram enganosos. Diziam ser DNA de elefante, mas não passavam de minhoca.
A obra só agravou os problemas costeiros de assoreamento e erosão. Elas ficaram lá, abandonadas. Posteriormente, surgiram otimistas (eles são muito perigosos) com propostas de aproveitá-las no desenvolvimento regional. As propostas não saíram do papel. Parece que haviam enterrado uma caveira de burro em Barra do Furado. A última tentativa foi empreendida nos oito anos do governo Rosinha, com apoio do governo de Quissamã. Lembro-me bem do início. Agora, estudos de impacto ambiental aprovados pelo INEA, audiência pública validada pelo INEA, autorizaram as obras, iniciadas e logo interrompidas.
Nenhuma empresa quer investir em infraestrutura. Elas querem encontrá-la pronta para montar seus negócios. Coube às prefeituras de Campos e de Quissamã investirem dinheiro dos royalties para montar a infraestrutura, ou seja, resolver o problema do acúmulo de areia do lado oeste, aprofundar o calado para a entrada de navios e criar área para a construção de plantas empresariais. É sempre problemático confiar em fluxo de dinheiro fácil. Um dia a torneira pode fechar. Foi o que aconteceu com os royalties. Não que a torneira tenha sido totalmente fechada. Mas o que vaza dela é muito pouco. Parece o conjunto de reservatórios da Cantareira em São Paulo em 2014-2015. O consumo de água foi maior que o volume de chuvas. Foi necessário adotar o racionamento.
Para voltar à Barra do Furado como local de empreendimentos econômicos, é preciso levar em conta os seguintes pontos: 1- nada que seja feito lá, redimirá a região. Há que ser mais humilde, fazer projetos mais modestos, ter os pés no chão; 2- Tudo o que se fizer lá deve partir do princípio de que os problemas de retenção de areia e erosão costeira devem ser resolvidos de modo a alinhar a costa novamente; 3- todo empreendimento lá realizado deve beneficiar também os pequenos, sobretudo pescadores; 4- toda intervenção lá efetuada deve levar em conta a dimensão ambiental, do contrário, a Secretaria de Desenvolvimento Ambiental (nome horrível que poderia voltar a ser simplesmente para Secretaria Municipal do Meio Ambiente) não poderá mais levar as pessoas para conhecer o Manguezal da Carapeba; e 5- transparência governamental sempre. Apesar de vídeos, folders e visitas guiadas, nunca se soube exatamente o que as prefeituras de Campos e de Quissamã queriam realizar em Barra do Furado.
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O cansaço dos zumbis
31/01/2017 | 10h24
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 31 de janeiro de 2017
(DOIS MATEUSINHOS)
Resident Evil: o capítulo final
O cansaço dos zumbis
Edgar Vianna de Andrade
 
Dos seis filmes da série “Resident Evil”, só o terceiro, de 2007, foi dirigido por Russell Mulcahy. A direção dos outros cinco ficou com Paul W.S. Anderson. Sua mulher, Milla Jovovich, foi a atriz principal nos seis, no papel da andrógina Alice. Só os adeptos do videogame, de onde os filmes foram importados, conhecem a história. Tanto que o início do capítulo final traz um resumo do passado para que o espectador se situe. Trata-se de um enredo simples: Sócio de um grande laboratório de pesquisa, o pai de Alice é assassinado por seu amigo. Ainda pequena, Alice é retida em cárcere privado e é transformada num programa até se tornar adulta e fugir. Mesmo não tendo sido educada para a nossa cultura, ela foge já sabendo tudo, inclusive artes marciais. Ela vai lutar contra o sócio do pai, sua empresa Umbrella e combater o T-vírus, que transforma as pessoas em zumbis. Se não é tudo, é por aí.
O capítulo 6, que se pretende final, não é tão final assim. Anderson abre uma brecha para um sétimo. Vai depender da bilheteria do sexto, elogiado superficialmente pela crítica. Assisto a filmes por não confiar nos críticos. Assim devem fazer os que me leem. A ideia não é ruim, mas o roteiro não soube aproveitá-la. Foi o que percebi. Como sempre, os Estados Unidos estão em primeiro lugar, embora a produção do filme tenha se encerrado antes da vitória de Donald Trump. Não importa. Os filmes-catástrofe estadunidenses sempre colocam seu país como centro do mundo. É de lá que partem as tentativas de destruir o planeta. Ele é sempre o primeiro alvo de alienígenas. Mas de lá, sempre partem as soluções.
“Resident Evil” final é um filme enlatado, como se chamavam antigamente os filmes estandardizados. É um filme sem alma. Washington está destruída. Parece que uma bomba atômica caiu sobre a cidade. A humanidade se transformou em zumbis. Poucos ainda não foram contaminados. Animais sofreram mutações genéticas e se tornaram monstruosos. A empresa Umbrella guarda uma elite adormecida por métodos criogênicos para despertar quando os zumbis forem exterminados. A Terra será dominada por uma raça pura e rica. Parece mesmo um projeto de Trump. Mas um antivírus é produzido. Ocorre uma falha no programa Alice, mostrando que a computação não é cem por cento confiável. Alice verdadeira ou o androide dela (pois nunca se sabe quem é verdadeiro ou falso no filme), sabedora de tudo, vai lutar contra zumbis e inimigos de seu pai para salvar a Terra. O filme é uma sucessão de lutas intermináveis. Melhor, elas terminam previsivelmente com a vitória da quase solitária Alice. Ou seja, do bem contra o mal.
Acho que chega. Os zumbis estão cansados de sempre andar com pés tortos e terem suas cabeças estraçalhadas ou decepadas. Milla Jovovich já está envelhecendo. É hora de fazer papel de mãe de adolescente ou mesmo de jovem avó.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

as-netto@uol.com.br

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