frases nem tão soltas
20/04/2017 | 10h14
acervo pessoal
flor / acervo pessoal
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Se todos os sonhos fossem possíveis eu guardaria alguns para serem realizados aos poucos e outros para que permanecessem sonhos. Estes seriam guardados em meios sorrisos como segredos.
*
Em alguns dias, à flor da pele... Apenas um sopro para voar longe.
*
Quero te contar um segredo. Ninguém pode saber. Mas se eu te contar, quem mais ouviria de ti um segredo que era só meu? Agora meu e teu?
*
Só uma parte dela estava ali. A melhor. A outra deixara para trás. Não voltaria para buscar.
*
Algumas vezes a sensação de paz e felicidade é tão intensa que me assusta esperar pelo minuto seguinte.
*
Por que deixar que os desejos passem como se o tempo pudesse parar?
*
Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela.
*
Venha assim, através de mim me mostrar caminhos que não vivi.
*
Em alguns dias sinto-me tão frágil que penso vou sumir como poeira.
*
Há dias que permaneço anestesiada esperando que as horas venham me trazer o sono.
*
Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!
*
Algumas pessoas sopram apenas para ter a oportunidade de morder de novo.
*
E quando ficar bem velhinha que eu me encontre assim: murchinha, assanhada e sempre querendo mais da vida.
*
Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.
Comentar
Compartilhe
Uma vez basta
06/04/2017 | 00h26
                  
google
flor no asfalto / google
                           
Uma vez basta
Cândida Albernaz
Na faixa de cor amarela todos podiam ler: ”Minha Loura, saudades. Seu para sempre, Moreno”.
***
Quando acordou, “a irmã caçula”, Daiana, estava ao seu lado. Mal abriu os olhos e ouviu um parabéns cantado numa voz fina, sem definição, de uma cópia sua em miniatura. Completava hoje vinte e um anos. Mas sentia como se tivesse muito mais.
A mãe, que cuidava das duas foi embora no ano passado.
- Minha querida, Nosso Senhor precisou dela, porque era muito boa. Ela vai ajudá-Lo e nós estaremos sempre juntas. – tentou convencer Daiana que chorava sem parar.
A explicação não convenceu a irmãzinha, com seis anos na época, mas foi a melhor que conseguiu dar.
Quando aos treze anos ficou grávida, não planejaram que Daiana pensasse que era sua irmã, mas nunca tentou ensinar a filha para que a chamasse de mãe. Acostumou-se desse jeito. Quem sempre acordava a noite era sua mãe, dava banho, cuidava das febres e alimentava a menina. Ficou mais fácil assim. Precisava estudar. Depois de algum tempo não soube mais como dizer a filha quem era realmente.
***
Abriu a janela que dava para a rua, e viu a faixa presa em dois postes, de frente para ela. Os olhos encheram-se de água e a sensação que teve estava longe de ser agradável.
Ele voltou a aparecer há um ano mais ou menos, e tem certeza, esse foi o principal motivo da perda de sua mãe. Ela tinha problemas no coração e vendo aquele homem rodeando a casa outra vez, foi ficando cada dia mais triste. Durante o sumiço, as pessoas comentavam que havia fugido para não ser preso. Os caras estavam atrás dele por conta de droga.
Lembrou-se de quando ia aos bailes ficava encantada com aquele homem bem mais velho, poderoso na área onde moravam, dedicando atenção exagerada a ela. Sentia-se importante. Era casado com a irmã de sua mãe e costumava ir à sua casa acompanhando a mulher e os filhos, em alguns domingos. Chamava-a de minha loura e costumava comparar a cor de sua pele com a dela. Pediu que parasse de chamá-lo de tio, e o chamasse de Moreno.
Notou que os olhares para seu lado foram ficando cada vez mais descarados e sentia-se mulher. Não foi só ela quem percebeu. A mãe tentou afastá-la dele e daqueles bailes que produzia.
- Esse safado do meu cunhado está ficando cheio de grana. E não é só com festinhas, não. Tem coisa podre atrás disso. Ninguém faz tanto dinheiro em tão pouco tempo.
Ela fingia não ouvir e perdia seu tempo com conversas com esse tio.
Aos treze anos, indo para casa, encontrou com ele no caminho, que se ofereceu para levá-la de carro: ela e as amigas. Tinha uma conversa engraçada e todas riam muito. Ficou por último, e antes de chegar, ele parou o carro num terreno. O sorriso sumiu de seu rosto, e enquanto a agarrava à força, dizia que parasse de manha porque “acha que não percebi que joga charme para mim?”. As mãos eram grandes e pesadas. Tentou se defender como pôde, mas ao final, ele bateu em seu rosto diversas vezes e com tanta força que desistiu de lutar.
Sua mãe estava na sala quando entrou em casa. Olhou para ela, e sem fazer qualquer comentário, abraçou-a chorando. Não contou quem havia feito aquilo, e quando a barriga começou a aparecer, cuidou de tudo. Nunca insistiu para saber, mas tinha certeza de que havia notado o sumiço do tio da casa delas.
No ano passado ele voltou a se insinuar quando a encontrou sozinha no supermercado. Agora, ele costumava andar com dois camaradas acompanhando-o em todo lugar.
Tentou sair, mas ele segurou seu braço com força:
- Não está com saudades do titio?
Chegou à casa agitada e a mãe perguntou o que houve.
- Nada. Encontrei com o tio agora a pouco. Não gosto dele, é só isso.
Dias depois, voltando da rua, ouviu a voz de sua mãe alterada e um barulho em seguida. Entrou e notou que o rosto dela estava vermelho. O tio saiu pisando duro e com a cara mais lavada disse estar com a mão doída e precisaria dos cuidados dela.
- Volto mais tarde para que você cuide de mim.
O sorriso em seu rosto era nojento.
Sua mãe não durou muito tempo mais depois disso. O coração que já era fraco parou de funcionar e ela se foi.
***
Ontem estava em frente de casa com Daiana e ele apareceu.
- Essa garota está ficando muito parecida com você. Quis se fazer de rogada comigo e, no entanto, logo arranjou um para te embuchar.
Ficou quieta observando a filha que brincava.
- Sabe de uma coisa? Daqui a uns três ou quatro anos essa garota vai estar no ponto. Se puxar a mãe...
Com os olhos fixos na filha, ela tinha certeza de que não permitiria.
Comentar
Compartilhe
desabafo
30/03/2017 | 10h30
google
mulher em solidão / google
                             Desabafo
                             Cândida Albernaz
Percebo o que pensa de mim e talvez eu mereça, mas a esta altura, mudar é difícil. Não é que não queira: não posso. E só quero algumas vezes, quando você diz que não aguenta.
Não ajo desta forma porque gosto, simplesmente não sei fazer diferente. Nunca aprendi.
Sempre soube que se sente enganada porque me apresentei a você como penso que sou. Um homem galante, atencioso, que ama em excesso. Só deixei que me visse de verdade quando já se sentia presa a mim.
Você me ama apesar de tudo e isso dói porque também a amo. Amar é pouco: sou louco por você. E é por esse motivo que a rasgo com palavras e atos. Tudo em nome do amor sem fim.
Quando a conheci era doce e alegre, hoje a vejo amarga e sorri apenas quando ordeno.
Não queria que fosse assim e peço desculpas mais uma vez. É do fundo de mim quando me desculpo e espero perdão. Não prometo que não farei mais. Porque vou. Muitas vezes mais.
Queria um filho, mas os médicos dizem que apesar de não haver motivo algum não consegue engravidar. Tenho uma opinião sobre isso: seu subconsciente não permite que eu a emprenhe. Não quer ficar ainda mais presa a quem lhe faz tanto mal.
Observo as crianças dos vizinhos e tenho inveja. Não gosto deste sentimento.
Às vezes é apenas porque não me dá esse filho que a agrido, às vezes é só por falta de qualquer motivo.
Não se iluda, não a libertarei de mim. Nunca.
Quantas vezes vi minha mãe tentar o mesmo. Papai não permitia. Sou como ele era.
Não vejo mamãe há alguns meses. Desde que foi presa, é a primeira vez que fico tanto tempo sem visitá-la.
Não adianta ter ideias. Você não é como ela e jamais vai conseguir fazer o que ela fez, não é do seu temperamento. Além de medrosa, já provei que não vale nada.
Meu pai foi um babaca. Confiou demais em si mesmo. Quando ela enfiou a faca nele várias vezes, o idiota dormia tranquilamente por conta da bebedeira.
Comigo é diferente, qualquer ruído me acorda e não como nada sem que você prove antes.
Quando falo com ela, pergunto se valeu a pena tantos anos numa prisão. Responde que mortos não sentem e que estava morta muito antes de ter entrado ali.
Amo minha mãe e tenho pena dela. Raramente tenho pena de você.
Em alguns momentos minhas ideias parecem ficar claras e digo a mim mesmo que vou procurar ajuda. Isso dura pouco. O suficiente para que bata de novo.
Com você percorro limites. Vou do amor ao ódio.
No início tentou revidar. Hoje chora, chora e isso me irrita. Disse-me outro dia que a qualquer hora vou acabar matando-a. Não posso imaginar perdê-la. Não saberia viver sem você.
Comentar
Compartilhe
frases nem tão soltas
22/03/2017 | 22h20
vaso sobre mesa
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Na ponta dos pés me equilibro para chegar bem perto da lua e em seu ouvido baixinho pedir que ilumine meu sono. Sonhadora que é promete uma noite de magia. Sonhadora que sou começo a sonhar antes mesmo de dormir.
*
Olhou no espelho e não se viu refletida. Entendeu então que havia se perdido do que esperava ser.
*
Se não conseguimos correr riscos, nos paralisamos num mundo interno que não nos deixa viver. O medo de sofrer já é sofrer.
*
Não pare por julgar que o tempo passou. Ele nunca passa o bastante.
*
Quando em alguns dias permaneço anestesiada, apenas espero que as horas prossigam e com elas me cheguem o sono.
*
Em alguns dias o corpo se fechava em torno de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto.
*
Às vezes a única coisa que consigo sentir é cansaço na alma. Ah! E gastura do mundo.
*
Não importa se faz frio ou chove quando carregamos calor no sentir.
*
Sempre gostei de acordar quietinha e ir me acostumando com a vida aos poucos.
*
Não sei chegar de mansinho com meus sentimentos. Se forem bons ou ruins, eles caem no colo do outro como uma bigorna.
*
Quando uma mulher se entrega a um homem, não é apenas seu corpo que ela está oferecendo. Pequena parte de sua alma está indo junto.
*
Às vezes se via assim: pequena, pequena como um grão de areia fina, em outras, sentia-se como um gigante, não cabendo no curto espaço que era o mundo.
*
Olhando a noite espero escutar nela o falar mudo que grito em silêncio.
*
Se encontrarmos motivo para sorrir, pode ser por um nadica de nada, o brilho do sorriso é tão contagiante que nos carrega para um dia inteiro de paz.
*
Há dias que a vida aperta. O jeito é respirar fundo e deixar que acabe.
Comentar
Compartilhe
espera
22/03/2017 | 06h38
google
banco / google
Espera
Cândida Albernaz
Quanto tempo se passara desde que os vira pela última vez?
Estava pronta. Pediu que pintassem suas unhas e colocou um bonito vestido. Sentada na poltrona com a mala a seu lado, esperava que viessem buscá-la. Aprendera a controlar a ansiedade conseguindo não olhar o relógio nem um momento. Apenas observava o jardim, através da janela onde o vento fazia balançar as folhagens das árvores.
Sempre que se sentava ali sentia paz, mesmo quando era dia de chuva. Aquela janela parecia um quadro onde às vezes a tela era trocada.
O senhor Jorge veio chamá-la para que andasse um pouco, mas não queria. Guardava sua energia para quando as crianças chegassem e exigissem dela toda atenção. Sentia saudades das brincadeiras que fazia com os filhos. Costumavam brincar muito: era cabra-cega, pique-esconde, trenzinho, quando eles seguravam na cintura um do outro e corriam pela casa imitando o som de um apito bem alto... como era divertido. Adorava jogar bola com os garotos. Gostava de ficar com eles. O coração doía.
Estava pensando...será que ainda iam querem brincar com ela? Sua cabeça estava um pouco confusa. Não conseguia lembrar direito da idade deles.
Algumas vezes ficava quieta sem pensar em nada, apenas olhando à sua volta, porque pensar trazia recordações que provocavam lágrimas.
O senhor Jorge se aproximava de novo, agora para convidá-la a comer.
- Venha, coma algo e depois a senhora retorna.
Sorriu para ele. Não entendia que não sentia fome. Sentia saudade. E depois, quando o marido chegasse a levaria para almoçar em seu restaurante favorito. Há quanto tempo não ia lá! Começou a ter fome só em lembrar-se da Galinha ao molho pardo que preparavam. Seu prato predileto. Aposto que já fez reserva para os dois e os filhos. Sim, porque caso contrário não encontrariam lugar.
Passou a mão no cabelo branco, ajeitando uma mecha imaginária. Estava tranquila e sentia-se bem também, há muito ansiava por este dia. O dia de voltar para casa. Sua cama, televisão em frente à cadeira, a jarra sempre com flores... nunca a deixava vazia. Quando elas começavam a murchar, trocava-as por outras.
Nossa! Lá vinha o senhor Jorge. Começava a ficar aborrecida com ele. Insistia para que saísse dali. Será que queria seu lugar? A poltrona em frente à janela? Olhou-o com desconfiança.
Começava a ficar preocupada, se ele conseguisse tirá-la dali, de que adiantaria ter se arrumado toda? As crianças chegariam e não a veriam.
Tomou a vitamina que ele trouxera.
Escurecia lá fora e percebeu que as luzes do jardim começavam a acender.
Ficara pronta cedo demais, mas é que não queria deixá-los esperando.
Talvez fosse melhor pedir que ligassem para ver se já haviam saído de casa. Quem sabe os meninos estivessem tão sujos das brincadeiras e demoravam no banho? Ou qualquer problema no trabalho fizera o pai atrasar?
Toda sua vida era feita de uma espera constante recheada de talvez.
Agora acenderam as lâmpadas da sala. Será que ia chover e por isso escurecera rapidamente?
O senhor Jorge não desiste. Voltava e não estava sozinho. As duas meninas vestidas de branco se aproximaram e enquanto uma delas ajudava-a a levantar, a outra lhe oferecia um comprimido com um copo de água.
- Vamos senhora, é noite. Passou o dia sentada e nem mesmo comeu. Tome o remedinho, vai lhe dar tranquilidade
Não queria, ficaria sonolenta e gostaria de estar bem acordada quando chegassem. Sem querer jogou o copo longe e duas mãos a seguraram com firmeza enquanto outras forçavam-na a se levantar.
- Senhora, é tarde e precisa se alimentar e dormir.
- Não quero! Meus filhinhos vão chegar. Estão um pouco atrasados. Vamos almoçar todos juntos e depois iremos para casa. Que saudade, meu Deus. Que saudade de casa. Não me toquem, deixem que fique mais um pouco.
O comprimido fora engolido à força e as pernas não obedeciam. Foi carregada até o quarto.
Talvez amanhã. Acordaria bem cedo, se arrumaria e sentaria em sua poltrona que ficava em frente à janela de onde podia ver o jardim e então, suas crianças a veriam.
Tem esperado por isso. Amanhã conseguiria voltar para casa.
Comentar
Compartilhe
frases nem tão soltas
09/03/2017 | 15h40

flores

    

Frases nem tão soltas XXXII

Cândida Albernaz

A luz era suave e a música chegava aos ouvidos como calda de caramelo escorrendo na boca. Mas o coração... Ah! este não parecia pertencer àquele lugar, tal a força com que batia procurando romper o peito.

*

Era pouco, muito pouco o que recebera. Acreditava ser demais o que doara. Mentira boba! Tentava enganar a si mesma porque nunca se entregara o suficiente.

*

As piores decisões são tomadas quando nos sentimos apertar entre paredes.

*

Sempre pareceu buscar mais do que pretendia. Na verdade não queria enxergar-se como alguém que não se saciava.

*

Ontem pensou ser forte. Hoje provou que era.

*

Enfiou goela adentro o grito de socorro que não ousava pedir. Quando sentiu estar entalada, chorou.

*

Pede que eu dou. Diz que eu faço. Riu das mentiras que saíam daquela boca. E continuou rindo por notar que mentia com vontade de que fosse verdade.

*

Olhou o céu e percebeu estar inundado de estrelas. Só pôde enxergá-las porque era breu a sua volta. E porque era breu, fazia questão de vê-las todas.

*

Não sou mulher de pequenas porções. São grandes os pedaços de frutas ou carnes que me satisfazem. Não falo manso ou delicado. Talvez aveludado. Nem mesmo sei ser doce por muito tempo. Enjoaria de mim.

*

Tentou falar, mas de seus lábios não saía som algum. Apenas os olhos gritavam a dor que sentia.

*

Apoiou suas mãos enrugadas no braço ainda jovem. Lembrou quando eram os seus que carregavam aquele que agora o sustentava.

*

Quando chorou sentiu o sal das lágrimas em sua língua. Recordou de outro dia, em outro lugar em que o vinho bebido era sorvido pela boca colada a sua. Sorriu na lembrança enquanto a face continuou seu pranto.

*

Enquanto leio sinto aquele mundo como se fosse meu. Se escrevo vivo mundos que transformo em meus. A tinta que sai da caneta carrega o pensamento que estava no fundo do peito e o faz boiar para que leve se torne.

*

Ao se deitar ela decidiu que naquela noite teria belos sonhos. E por assim querer, foi dormir sorrindo.

Comentar
Compartilhe
conto
17/02/2017 | 09h41
google
foto / google
Recomeços
Cândida Albernaz
Pensou voltar em seus próprios passos até chegar ao ponto de partida. Não conseguia mais lembrar-se que ponto era esse. Onde começara tudo?
No chão de cimento que cobria o quintal de sua casa, costumava ficar sentada enquanto a avó lavava roupa no tanque. Ela contava histórias que dizia serem verdadeiras. Entre esfregar uma camisola ou reclamar da sujeira da roupa de algum neto, ia desfiando um mundo imaginário.
Sua avó era uma mulher forte e lavava algumas peças por prazer. Dizia que quando ela não estava ali pedindo que contasse histórias, pensava na vida.
Naquele mesmo quintal, recordava-se de uma discussão entre seu pai e sua mãe. Ela o acusava de estar se engraçando para a filha da vizinha e ele rindo afirmava que só tinha olhos para ela. Sua mãe não se convencia e ele tentou abraçá-la. A princípio o empurrou, mas depois chorou em seu ombro. Repetia que o amava e não queria perdê-lo. Um ano depois, seu pai largou a casa em que moravam e foi viver com aquela mesma moça que provocara a briga entre os dois.
Uma vagabundinha, segundo sua mãe.
O pai as visitava de tempos em tempos e por várias vezes pensou que ficariam juntos novamente. Principalmente quando ele saía de lá com o dia amanhecendo. Em algumas dessas vezes, ouvia sua mãe chorar sozinha.
Anos mais tarde, estava com amigas em uma festa e dois colegas de colégio resolveram disputar sua atenção. Riu com eles, mas tentou mostrar que não se interessava por nenhum dos dois. Pareciam não entender.
Elas moravam ali perto e foram embora caminhando. Numa das esquinas as meninas dobraram e ela seguiu em frente. Andou mais um pouco quando os dois apareceram. Não a deixaram prosseguir, e sem que pudesse falar qualquer coisa, um deles tapou sua boca com a mão enquanto o outro a segurava. Chorava e se debatia.
Antes que conseguissem completar o que desejavam, passou um homem de bicicleta. Ao ver a agitação, resolveu perguntar o que estava acontecendo. Os rapazes a soltaram e saíram correndo.
Nunca contou à mãe ou qualquer outra pessoa o ocorrido. Na escola, costumavam olhá-la com expressão de ameaça, mas nunca tentaram mais nada.
Não se casou e namorou pouco. Formou-se em veterinária e fazia o que mais gostava. Lidar com animais.
Conheceu Guilherme há dois anos. Num bar, numa conversa qualquer, num dia em que estava especialmente alegre.
Ela e Jane, sua amiga, saíram para comemorar. Ficara noiva e marcara a data do casamento. Sempre fora o sonho de Jane, uma casa, filhos, marido, rotina. Estava satisfeita pela amiga. Guilherme pediu para sentar com elas e conversaram durante toda a noite. Quando se despediram, ele tinha seu número de telefone. Ligou no dia seguinte.
Começaram a se ver, saindo sempre que podiam, até que um mês depois, ele próprio contou que era casado. Vivia mal, a mulher era uma chata ciumenta, não o entendia como ela, mal se relacionavam. Ia separar-se, precisava apenas de um pouco mais de tempo.
Dois anos e esse tempo não chegou. A mulher descobriu tudo e foi parar em sua casa. Ouviu o que ela tinha para dizer e sentiu pena quando pediu chorando que deixasse seu marido. Sentiu também por si mesma.
Em que parte da vida que planejara, aquilo tudo se encaixava? Não conseguia lembrar-se.
Quando a outra foi embora, virou-se e viu o retrato de sua mãe. Sabia que não era uma vagabundinha.
O telefone tocou. Resolveu não atender.
Pegou a bolsa que deixara sobre a mesa. Sabia que a clínica estava cheia. Era onde realmente sentia prazer, seu trabalho. Quantas vezes na vida recomeçara?
Comentar
Compartilhe
Não era para se envolver
15/02/2017 | 04h56
google
Fechadura / google
Não era pra se envolver
Cândida Albernaz
- Te avisei mulher. Falei que era furada e você não levou fé. Agora tá aí, na maior neura.
- Não parecia ser nada disso.
- Então tá. E não fui só eu não. As meninas tentaram abrir seu olho e você nem aí. Tô indo porque tem cliente chegando.
- Espera um pouco.
- Espera coisa nenhuma. E acho bom dar um jeito nessa cara, porque a outra lá não quer
ver ninguém parado.
Fiquei no mesmo lugar por algum tempo e então fui ao banheiro. Clô tinha razão, precisava ajeitar porque estava parecendo um lixo. Molhei a mão na água da pia e passei no cabelo tentando domar os fios rebeldes que teimavam em não colar à cabeça. Droga de cabelo que nunca fica bom. Os olhos estavam vermelhos e inchados: culpa do choro e da insônia.
Afastando-me um pouco observei meu corpo. Um sorriso veio aos lábios: esse ainda estava bom apesar do vestido surrado que usava. Tenho um corpo bem feito o que faz com que algumas colegas morram de inveja. Como de tudo, e claro que ainda sou muito jovem, isso ajuda.
Os olhos encheram de lágrimas. Não queria começar a chorar novamente. Tinha que trabalhar ou dona Odete ia perceber que algo estava errado. Sempre fui uma das melhores.
A culpa de tudo era daquele idiota do Carlão. Desde os doze anos nessa vida e agora me deixei enganar. Abri a guarda, foi isso. E o desgraçado se aproveitou.
Tinha que apaixonar? Escolada do jeito que sou? Também, qualquer uma se enrolava. Ele chegou de mansinho com um corpo, que benza Deus!, tira qualquer uma do sério. Nem precisava pagar e fez questão de pagar dobrado. Voltou mais duas vezes e me escolheu. E o cheiro do cara? Sou ligada nesse negócio de cheiro. Sempre perfumado e sempre gostoso: caí de quatro.
Parei de cobrar e saí com ele algumas vezes fora do expediente. Sem que dona Odete imaginasse, é claro, porque com ela não tem papo. Só algumas meninas sabiam.
O problema começou aí: conversa vai, conversa vem, e ele me convenceu a entregar uma encomenda no centro. Na primeira e na segunda vez, deu tudo certo, ainda ganhei um extra. Falei com ele que não pedisse mais, porque tinha meu emprego e aquele negócio podia dar cadeia. Ele veio pegando, se esfregando e me deixando louca: não deu outra, falei que faria pela última vez.
Cheguei à casa do cara, era o mesmo de sempre, não sabia nem o nome dele, porque não queria me envolver. Entreguei o pacote e quando saí ainda na esquina, dois sujeitos me agarraram e colocaram num carro. A conversa foi ali mesmo. Depois de levar dois tapas na cara, mão pesada ele tinha, tirou sangue do meu nariz. Já apanhei antes, mas tenho pavor. Não tem essa de que com o tempo se acostuma. Que nada, detesto sentir dor. Queria o nome de quem me contratou. Estava metendo o nariz na área deles. Tentei dizer que não sabia e recebi um soco no peito, quase desmaiei. Mais dois murros e acabei soltando a língua.
Isso foi há dois dias. Carlão foi pego e apanhou tanto que parece ficará cego de um olho. O pior, é que soube quem foi e está atrás de mim.
- Tá dormindo no banheiro, Norminha?
Abro a porta e dona Odete fica me olhando com aquela cara de quem quer me ver na rua. Quando ela souber com o que estou envolvida, é pra lá que vou.
- Seu cliente preferido chegou. Tá meio quebrado e te procurando. Vai e faz com que ele esqueça as dores.
Entro no salão e Carlão está me esperando.
- Oi, Carlão.
- Oi, nada, sua cadela. Vamos até lá fora.
- Não posso sair agora.
- Pode sim, porque já molhei a mão de Odete e ela tá feliz da vida.
- Carlão, não tive culpa.
- Claro que não, os caras vieram pra cima de mim porque têm bola de cristal.
- Carlão, eles me machucaram. Você sabe que não aguento. E depois, a gente se ama.
- Se ama? E você acha que eu amo vadia?
- Que é isso? Quem são esses?
Três homens estavam dentro de um carro esperando por eles.
- Toma, é de vocês.
- Carlão, o que vão fazer comigo?
- Vai dar uma volta com eles. Já sabem, não quero que sobre nada.
- Carlão, eu te amo...
Comentar
Compartilhe
Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h54
acabei de colherFrases nem tão soltas Cândida Albernaz Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão. * E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro. * Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria. * A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer. * Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma. * Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever. * Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo. * Anseio por serenidade como quem precisa de ar. * Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras. * Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina. * Enquanto mulher, menina para sempre. * Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar. * Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação. * A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos? * Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam. * Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas.  
Comentar
Compartilhe
Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h54
a4ba54fc047509ddce74166827946b69Frases nem tão soltas Cândida Albernaz Porque fechando os olhos posso enxergar melhor. Porque fechando os olhos consigo ver com o sentir. * A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse em cada uma delas. * Às vezes penso que me invento e então me surpreendo percebendo que aquilo que inventei sou eu real. * O relógio marca o tempo que passa às vezes devagar, às vezes rápido demais. Entre espinhos que se escondem, flores e verdes continuam a crescer. * Por que metade se você pode ter e ser inteiro? * Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita. * O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir. * Preciso que me conte histórias, me carregue no colo e através de suas rugas conheça a vida que te fez chorar ou sorrir, para que possa eu, menina que sempre serei, chorar e sorrir a seu lado. * Algumas pessoas demoram a perceber o que passou e perdem tempo se prendendo ao nada. Vida que existiu, mas que se perdeu no viver contínuo. * Será que ultrapassando as nuvens estarão todos os que perdi enquanto continuo aqui? * Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insistir em se colocar no meio dele? * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Não me lembro de quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível. * Quero brincar de pique esconde e no término da brincadeira me encontrar inteira.
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Candida Albernaz

[email protected]

Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

BLOGS - MAIS LIDAS