briga de marido e mulher...
25/05/2017 | 08h35
 
coração remendado
coração remendado / google
Briga de marido e mulher...
Cândida Albernaz
- Soube o que aconteceu na casa da esquina?
- Não.
- A porrada comeu solta.
- Posso adivinhar?
- A mulher pegou a tampa da panela de pressão e mandou na cabeça dele.
- Nossa, esse troço é pesado.
- Foi parar no hospital. Levou nem sei quantos pontos.
- Mas o que ele fez dessa vez?
- Por que dessa vez?
- Você é nova aqui na área e não sabe de nada.
- Ele foi para o hospital outras vezes?
- Que eu saiba umas quatro.
- Mas como?
- Os dois começam discutindo e depois de um tempo algum vizinho aparece com ele sangrando.
- Que mulher doida!
- E bota doida nisso. Um dia foi água fervendo que jogou em cima dele, em outra, pegou uma faca e quase arrancou a mão do cara.
- Por que continua com ela?
- Sei lá. Vai entender a cabeça dos homens.
- Tem uns que gostam de mulher atrevida.
- Essa deixou de ser atrevida faz tempo. Ela é caso de polícia. E quando jogou as roupas dele pela janela?
- O que ele fez?
- Veio para fora e catou tudo.
- O que é isso???
- E enquanto ele pegava as roupas, ela atirou uma mala, gritando que era para colocar as coisas e ir embora...
- Ela também pensa em tudo.
-... só que a mala tinha rodinhas e uma delas bateu no olho dele. Quase ficou cego.
- Dessa vez foi sem querer.
- Foi. Quando ela viu o que tinha feito, correu para fora e o abraçou chorando. Pediu desculpas e beijou o homem todo.
- Que louca.
- Que loucos.
- Nossa, essa rua é movimentada.
– A rua até que é calma. A festa toda é na casa dos dois.
- Agora me diga: dá para entender um homem ficar com uma mulher assim?
- Dizem que além de fazer mandinga, ela é demais.
- Demais como?
- Sabe como é...na cama.
- Poxa!
- Ele conta para quem quiser ouvir o quanto a mulher dele é danada.
- ...
- Diz que quente igual a ela está para nascer.
- Mas vale a pena?
- Parece que o negócio é que quando fazem as pazes, ela faz tudo o que ele quer e mais um pouco.
- Nós tínhamos que pegar umas aulas com ela.
- Pensa que não tentei me aproximar?
- E então?
- A mulher é desconfiada e ciumenta. Não quer ninguém perto do marido dela.
- Já pensou se ela invoca com você?
-...
- E o cara obedece? Segue as ordens da patroa?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Sabe como são os homens. Ele dá umas escapadas de vez em quando.
- Mesmo ela sendo isso tudo que ele fala?
- Homens!
- Ainda bem que ela não descobriu.
- Quem disse?
- E não matou a pobre coitada?
- Não, mas deu uma coça.
- Quero ficar bem longe dela.
- E ainda proibiu que a tal passasse na calçada em frente a casa dela.
- E você conhece?
- Mais ou menos. Vamos atravessar para o outro lado?
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frases nem tão soltas
19/05/2017 | 13h14
sobre nuvens
sobre nuvens / google
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Encoste minha cabeça em seu peito, me afague os cabelos, faça com que seus braços apertem meu corpo. Quero me sentir em casa.
*
Sem o sonho somos apenas a metade do que poderíamos ser.
*
Não quero me conhecer totalmente. É entediante o conhecimento total, sem possibilidade de descobertas. Surpreendo-me comigo muitas vezes.
*
Quero não temer a solidão. Consegui isso um dia, mas se perdeu nos medos que a vida me provocou.
*
Pensou poder carregá-lo na alma. Estúpida ela era. Não imaginou que não aguentaria o peso de um corpo sem coração.
*
Muitas vezes é na agressividade que escondo do outro o que mais me assusta e deixa exposta.
*
Meu lado sonhador vive pregando peças e de vez em quando faz com que tropece aqui e ali.
*
Atrás de um livro o real se torna imaginário ou o imaginário se torna real?
*
O silêncio pode ser nossa melhor companhia.
*
Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e engano-os rindo de mim.
*
Talvez o melhor fosse sentir menos, mas então não seria quem sou.
*
Não gosto quando testam minha paciência. Porque ela é pouca. É curta. É quase nenhuma.
*
Hoje um passarinho me contou que as asas que carrego me farão voar. Não muito alto. Nem muito longe. Apenas até a distância do sonho realizado.
*
Vida perfeita para quê? Momentos quase perfeitos são ótimos.
*
Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.
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sem rastros
27/04/2017 | 00h10
google
coração / google
Sem rastros
Cândida Albernaz
Deixe a luz do quarto acesa e quando sair não se despeça de mim. Finja que não estou aqui. Espero que doa em você o tanto que sinto arder.
A chave, coloque por debaixo da porta. Não quero ainda ter a certeza de que se foi. Mas preciso saber de que não pode voltar.
Talvez na cozinha, eu sinta ainda o cheiro do café que pela primeira vez não preparou.
Quem sabe sentada de frente para a televisão eu aceite que é normal que a esta hora ela esteja ligada para eu assistir o que jamais me interessou.
Não se volte, não me olhe, porque não pretendo que note em meu rosto, as lágrimas que não consegui evitar. Teria que dizer que o ridículo programa que não vejo está me fazendo chorar. E vou pretender que creia nesta explicação, porque meu orgulho não admitirá que pense que a dor em meus olhos tenha sido provocada por você.
Não se esqueça de deixar a cama arrumada como se em nenhum dia algum amor tenha sido feito ali.
Por favor, retire o porta-retratos onde na foto me deixei abraçar rindo com vontade por estar me sentindo dentro de você. Leve-o.
Não deixe rastros, nem mesmo marcas das juras que fizemos um ao outro afirmando que estaríamos para sempre juntos. Palavra longa demais: sempre.
Foram pedaços de tempo recheados de horas que pareciam nunca iriam morrer. Palavra longa demais: nunca.
Não vi a lágrima que deveria estar escorrendo de seus olhos para desaguar em sua boca.
Aliás, não recordo da boca que engolia a minha, do gosto da saliva que se misturava em nossas línguas.
Leve embora o tênis que ontem, num gesto de carinho, limpei a areia que nele havia grudado. Está na área de serviço sobre o parapeito da janela para que secasse mais rápido.
Quando eu levantar e desligar a tv, quero ter a certeza de que sempre fui eu comigo mesma.
Se estiver saindo, feche a porta devagar, sem fazer barulho, para que não haja sobressalto em meu coração.
Daqui posso ver que sobre a pia ainda estão as duas taças com restos de vinho. Fez de propósito, não foi? Teve a necessidade de que ficasse algo para lembrar.
Não vou abrir gavetas ou portas de armários agora. Preciso voltar a dormir, mesmo que ainda seja manhã. Ao acordar deste novo sono estarei melhor.
Durante toda a noite permaneci fixando o teto, o nada. Mentira! Não era “o nada”. Enxergava pedaços de vida vividas com você que eu parecia fazer questão de não esquecer. Ouvi quando roncou algumas vezes. Como pôde dormir tão profundo enquanto eu sofria?
Descobri o pequeno papel amassado que sem querer (sem querer?) você deixara cair no chão: “obrigada amor por mais uma noite perfeita. Da sua para sempre...”. E esta palavra de novo: sempre.
Foi então que comecei a puxar os fios e desenrolá-los, trazendo à memoria um sinal aqui e outro ali. Mensagens que chegavam durante a madrugada, isolava-se para atender o celular, mudanças de horário. Não importa mais.
Ontem quando chegou, abrimos um vinho e jantamos. Esperei terminarmos para entrar no assunto.
Foi doído. Senti que rasgava pedaços da minha pele a cada palavra sua. Não tentou esconder. Ao contrário, parecia aliviado por poder enfim dividir sua história de amor comigo.
- Preciso que entenda... pode ser uma fase... não foi a primeira vez (não??)...estou certo de que passará e estaremos ainda mais fortes.
Tentei sorrir, mas foi impossível. Não se consegue se sente facas pontiagudas enfiadas no peito.
Falou quase sem parar e eu escutei. Resolvemos dormir.
Hoje, quando tentou novamente, pedi que se calasse. Só pude dar as costas e sentar onde estive até a pouco. Não quis conversar e não vou querer qualquer outro dia.
Lavarei as benditas taças antes de deitar. Não desejo resquícios.
O quarto está com um cheirinho bom. Não o seu, mas o meu perfume recende dele. Com a cortina fechada parece ainda ser noite. Pensei vestir a camisola, mas percebi que ainda não a havia tirado.
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frases nem tão soltas
20/04/2017 | 10h14
acervo pessoal
flor / acervo pessoal
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Se todos os sonhos fossem possíveis eu guardaria alguns para serem realizados aos poucos e outros para que permanecessem sonhos. Estes seriam guardados em meios sorrisos como segredos.
*
Em alguns dias, à flor da pele... Apenas um sopro para voar longe.
*
Quero te contar um segredo. Ninguém pode saber. Mas se eu te contar, quem mais ouviria de ti um segredo que era só meu? Agora meu e teu?
*
Só uma parte dela estava ali. A melhor. A outra deixara para trás. Não voltaria para buscar.
*
Algumas vezes a sensação de paz e felicidade é tão intensa que me assusta esperar pelo minuto seguinte.
*
Por que deixar que os desejos passem como se o tempo pudesse parar?
*
Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela.
*
Venha assim, através de mim me mostrar caminhos que não vivi.
*
Em alguns dias sinto-me tão frágil que penso vou sumir como poeira.
*
Há dias que permaneço anestesiada esperando que as horas venham me trazer o sono.
*
Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!
*
Algumas pessoas sopram apenas para ter a oportunidade de morder de novo.
*
E quando ficar bem velhinha que eu me encontre assim: murchinha, assanhada e sempre querendo mais da vida.
*
Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.
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Uma vez basta
06/04/2017 | 00h26
                  
google
flor no asfalto / google
                           
Uma vez basta
Cândida Albernaz
Na faixa de cor amarela todos podiam ler: ”Minha Loura, saudades. Seu para sempre, Moreno”.
***
Quando acordou, “a irmã caçula”, Daiana, estava ao seu lado. Mal abriu os olhos e ouviu um parabéns cantado numa voz fina, sem definição, de uma cópia sua em miniatura. Completava hoje vinte e um anos. Mas sentia como se tivesse muito mais.
A mãe, que cuidava das duas foi embora no ano passado.
- Minha querida, Nosso Senhor precisou dela, porque era muito boa. Ela vai ajudá-Lo e nós estaremos sempre juntas. – tentou convencer Daiana que chorava sem parar.
A explicação não convenceu a irmãzinha, com seis anos na época, mas foi a melhor que conseguiu dar.
Quando aos treze anos ficou grávida, não planejaram que Daiana pensasse que era sua irmã, mas nunca tentou ensinar a filha para que a chamasse de mãe. Acostumou-se desse jeito. Quem sempre acordava a noite era sua mãe, dava banho, cuidava das febres e alimentava a menina. Ficou mais fácil assim. Precisava estudar. Depois de algum tempo não soube mais como dizer a filha quem era realmente.
***
Abriu a janela que dava para a rua, e viu a faixa presa em dois postes, de frente para ela. Os olhos encheram-se de água e a sensação que teve estava longe de ser agradável.
Ele voltou a aparecer há um ano mais ou menos, e tem certeza, esse foi o principal motivo da perda de sua mãe. Ela tinha problemas no coração e vendo aquele homem rodeando a casa outra vez, foi ficando cada dia mais triste. Durante o sumiço, as pessoas comentavam que havia fugido para não ser preso. Os caras estavam atrás dele por conta de droga.
Lembrou-se de quando ia aos bailes ficava encantada com aquele homem bem mais velho, poderoso na área onde moravam, dedicando atenção exagerada a ela. Sentia-se importante. Era casado com a irmã de sua mãe e costumava ir à sua casa acompanhando a mulher e os filhos, em alguns domingos. Chamava-a de minha loura e costumava comparar a cor de sua pele com a dela. Pediu que parasse de chamá-lo de tio, e o chamasse de Moreno.
Notou que os olhares para seu lado foram ficando cada vez mais descarados e sentia-se mulher. Não foi só ela quem percebeu. A mãe tentou afastá-la dele e daqueles bailes que produzia.
- Esse safado do meu cunhado está ficando cheio de grana. E não é só com festinhas, não. Tem coisa podre atrás disso. Ninguém faz tanto dinheiro em tão pouco tempo.
Ela fingia não ouvir e perdia seu tempo com conversas com esse tio.
Aos treze anos, indo para casa, encontrou com ele no caminho, que se ofereceu para levá-la de carro: ela e as amigas. Tinha uma conversa engraçada e todas riam muito. Ficou por último, e antes de chegar, ele parou o carro num terreno. O sorriso sumiu de seu rosto, e enquanto a agarrava à força, dizia que parasse de manha porque “acha que não percebi que joga charme para mim?”. As mãos eram grandes e pesadas. Tentou se defender como pôde, mas ao final, ele bateu em seu rosto diversas vezes e com tanta força que desistiu de lutar.
Sua mãe estava na sala quando entrou em casa. Olhou para ela, e sem fazer qualquer comentário, abraçou-a chorando. Não contou quem havia feito aquilo, e quando a barriga começou a aparecer, cuidou de tudo. Nunca insistiu para saber, mas tinha certeza de que havia notado o sumiço do tio da casa delas.
No ano passado ele voltou a se insinuar quando a encontrou sozinha no supermercado. Agora, ele costumava andar com dois camaradas acompanhando-o em todo lugar.
Tentou sair, mas ele segurou seu braço com força:
- Não está com saudades do titio?
Chegou à casa agitada e a mãe perguntou o que houve.
- Nada. Encontrei com o tio agora a pouco. Não gosto dele, é só isso.
Dias depois, voltando da rua, ouviu a voz de sua mãe alterada e um barulho em seguida. Entrou e notou que o rosto dela estava vermelho. O tio saiu pisando duro e com a cara mais lavada disse estar com a mão doída e precisaria dos cuidados dela.
- Volto mais tarde para que você cuide de mim.
O sorriso em seu rosto era nojento.
Sua mãe não durou muito tempo mais depois disso. O coração que já era fraco parou de funcionar e ela se foi.
***
Ontem estava em frente de casa com Daiana e ele apareceu.
- Essa garota está ficando muito parecida com você. Quis se fazer de rogada comigo e, no entanto, logo arranjou um para te embuchar.
Ficou quieta observando a filha que brincava.
- Sabe de uma coisa? Daqui a uns três ou quatro anos essa garota vai estar no ponto. Se puxar a mãe...
Com os olhos fixos na filha, ela tinha certeza de que não permitiria.
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desabafo
30/03/2017 | 10h30
google
mulher em solidão / google
                             Desabafo
                             Cândida Albernaz
Percebo o que pensa de mim e talvez eu mereça, mas a esta altura, mudar é difícil. Não é que não queira: não posso. E só quero algumas vezes, quando você diz que não aguenta.
Não ajo desta forma porque gosto, simplesmente não sei fazer diferente. Nunca aprendi.
Sempre soube que se sente enganada porque me apresentei a você como penso que sou. Um homem galante, atencioso, que ama em excesso. Só deixei que me visse de verdade quando já se sentia presa a mim.
Você me ama apesar de tudo e isso dói porque também a amo. Amar é pouco: sou louco por você. E é por esse motivo que a rasgo com palavras e atos. Tudo em nome do amor sem fim.
Quando a conheci era doce e alegre, hoje a vejo amarga e sorri apenas quando ordeno.
Não queria que fosse assim e peço desculpas mais uma vez. É do fundo de mim quando me desculpo e espero perdão. Não prometo que não farei mais. Porque vou. Muitas vezes mais.
Queria um filho, mas os médicos dizem que apesar de não haver motivo algum não consegue engravidar. Tenho uma opinião sobre isso: seu subconsciente não permite que eu a emprenhe. Não quer ficar ainda mais presa a quem lhe faz tanto mal.
Observo as crianças dos vizinhos e tenho inveja. Não gosto deste sentimento.
Às vezes é apenas porque não me dá esse filho que a agrido, às vezes é só por falta de qualquer motivo.
Não se iluda, não a libertarei de mim. Nunca.
Quantas vezes vi minha mãe tentar o mesmo. Papai não permitia. Sou como ele era.
Não vejo mamãe há alguns meses. Desde que foi presa, é a primeira vez que fico tanto tempo sem visitá-la.
Não adianta ter ideias. Você não é como ela e jamais vai conseguir fazer o que ela fez, não é do seu temperamento. Além de medrosa, já provei que não vale nada.
Meu pai foi um babaca. Confiou demais em si mesmo. Quando ela enfiou a faca nele várias vezes, o idiota dormia tranquilamente por conta da bebedeira.
Comigo é diferente, qualquer ruído me acorda e não como nada sem que você prove antes.
Quando falo com ela, pergunto se valeu a pena tantos anos numa prisão. Responde que mortos não sentem e que estava morta muito antes de ter entrado ali.
Amo minha mãe e tenho pena dela. Raramente tenho pena de você.
Em alguns momentos minhas ideias parecem ficar claras e digo a mim mesmo que vou procurar ajuda. Isso dura pouco. O suficiente para que bata de novo.
Com você percorro limites. Vou do amor ao ódio.
No início tentou revidar. Hoje chora, chora e isso me irrita. Disse-me outro dia que a qualquer hora vou acabar matando-a. Não posso imaginar perdê-la. Não saberia viver sem você.
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frases nem tão soltas
22/03/2017 | 22h20
vaso sobre mesa
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Na ponta dos pés me equilibro para chegar bem perto da lua e em seu ouvido baixinho pedir que ilumine meu sono. Sonhadora que é promete uma noite de magia. Sonhadora que sou começo a sonhar antes mesmo de dormir.
*
Olhou no espelho e não se viu refletida. Entendeu então que havia se perdido do que esperava ser.
*
Se não conseguimos correr riscos, nos paralisamos num mundo interno que não nos deixa viver. O medo de sofrer já é sofrer.
*
Não pare por julgar que o tempo passou. Ele nunca passa o bastante.
*
Quando em alguns dias permaneço anestesiada, apenas espero que as horas prossigam e com elas me cheguem o sono.
*
Em alguns dias o corpo se fechava em torno de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto.
*
Às vezes a única coisa que consigo sentir é cansaço na alma. Ah! E gastura do mundo.
*
Não importa se faz frio ou chove quando carregamos calor no sentir.
*
Sempre gostei de acordar quietinha e ir me acostumando com a vida aos poucos.
*
Não sei chegar de mansinho com meus sentimentos. Se forem bons ou ruins, eles caem no colo do outro como uma bigorna.
*
Quando uma mulher se entrega a um homem, não é apenas seu corpo que ela está oferecendo. Pequena parte de sua alma está indo junto.
*
Às vezes se via assim: pequena, pequena como um grão de areia fina, em outras, sentia-se como um gigante, não cabendo no curto espaço que era o mundo.
*
Olhando a noite espero escutar nela o falar mudo que grito em silêncio.
*
Se encontrarmos motivo para sorrir, pode ser por um nadica de nada, o brilho do sorriso é tão contagiante que nos carrega para um dia inteiro de paz.
*
Há dias que a vida aperta. O jeito é respirar fundo e deixar que acabe.
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espera
22/03/2017 | 06h38
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banco / google
Espera
Cândida Albernaz
Quanto tempo se passara desde que os vira pela última vez?
Estava pronta. Pediu que pintassem suas unhas e colocou um bonito vestido. Sentada na poltrona com a mala a seu lado, esperava que viessem buscá-la. Aprendera a controlar a ansiedade conseguindo não olhar o relógio nem um momento. Apenas observava o jardim, através da janela onde o vento fazia balançar as folhagens das árvores.
Sempre que se sentava ali sentia paz, mesmo quando era dia de chuva. Aquela janela parecia um quadro onde às vezes a tela era trocada.
O senhor Jorge veio chamá-la para que andasse um pouco, mas não queria. Guardava sua energia para quando as crianças chegassem e exigissem dela toda atenção. Sentia saudades das brincadeiras que fazia com os filhos. Costumavam brincar muito: era cabra-cega, pique-esconde, trenzinho, quando eles seguravam na cintura um do outro e corriam pela casa imitando o som de um apito bem alto... como era divertido. Adorava jogar bola com os garotos. Gostava de ficar com eles. O coração doía.
Estava pensando...será que ainda iam querem brincar com ela? Sua cabeça estava um pouco confusa. Não conseguia lembrar direito da idade deles.
Algumas vezes ficava quieta sem pensar em nada, apenas olhando à sua volta, porque pensar trazia recordações que provocavam lágrimas.
O senhor Jorge se aproximava de novo, agora para convidá-la a comer.
- Venha, coma algo e depois a senhora retorna.
Sorriu para ele. Não entendia que não sentia fome. Sentia saudade. E depois, quando o marido chegasse a levaria para almoçar em seu restaurante favorito. Há quanto tempo não ia lá! Começou a ter fome só em lembrar-se da Galinha ao molho pardo que preparavam. Seu prato predileto. Aposto que já fez reserva para os dois e os filhos. Sim, porque caso contrário não encontrariam lugar.
Passou a mão no cabelo branco, ajeitando uma mecha imaginária. Estava tranquila e sentia-se bem também, há muito ansiava por este dia. O dia de voltar para casa. Sua cama, televisão em frente à cadeira, a jarra sempre com flores... nunca a deixava vazia. Quando elas começavam a murchar, trocava-as por outras.
Nossa! Lá vinha o senhor Jorge. Começava a ficar aborrecida com ele. Insistia para que saísse dali. Será que queria seu lugar? A poltrona em frente à janela? Olhou-o com desconfiança.
Começava a ficar preocupada, se ele conseguisse tirá-la dali, de que adiantaria ter se arrumado toda? As crianças chegariam e não a veriam.
Tomou a vitamina que ele trouxera.
Escurecia lá fora e percebeu que as luzes do jardim começavam a acender.
Ficara pronta cedo demais, mas é que não queria deixá-los esperando.
Talvez fosse melhor pedir que ligassem para ver se já haviam saído de casa. Quem sabe os meninos estivessem tão sujos das brincadeiras e demoravam no banho? Ou qualquer problema no trabalho fizera o pai atrasar?
Toda sua vida era feita de uma espera constante recheada de talvez.
Agora acenderam as lâmpadas da sala. Será que ia chover e por isso escurecera rapidamente?
O senhor Jorge não desiste. Voltava e não estava sozinho. As duas meninas vestidas de branco se aproximaram e enquanto uma delas ajudava-a a levantar, a outra lhe oferecia um comprimido com um copo de água.
- Vamos senhora, é noite. Passou o dia sentada e nem mesmo comeu. Tome o remedinho, vai lhe dar tranquilidade
Não queria, ficaria sonolenta e gostaria de estar bem acordada quando chegassem. Sem querer jogou o copo longe e duas mãos a seguraram com firmeza enquanto outras forçavam-na a se levantar.
- Senhora, é tarde e precisa se alimentar e dormir.
- Não quero! Meus filhinhos vão chegar. Estão um pouco atrasados. Vamos almoçar todos juntos e depois iremos para casa. Que saudade, meu Deus. Que saudade de casa. Não me toquem, deixem que fique mais um pouco.
O comprimido fora engolido à força e as pernas não obedeciam. Foi carregada até o quarto.
Talvez amanhã. Acordaria bem cedo, se arrumaria e sentaria em sua poltrona que ficava em frente à janela de onde podia ver o jardim e então, suas crianças a veriam.
Tem esperado por isso. Amanhã conseguiria voltar para casa.
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frases nem tão soltas
09/03/2017 | 15h40

flores

    

Frases nem tão soltas XXXII

Cândida Albernaz

A luz era suave e a música chegava aos ouvidos como calda de caramelo escorrendo na boca. Mas o coração... Ah! este não parecia pertencer àquele lugar, tal a força com que batia procurando romper o peito.

*

Era pouco, muito pouco o que recebera. Acreditava ser demais o que doara. Mentira boba! Tentava enganar a si mesma porque nunca se entregara o suficiente.

*

As piores decisões são tomadas quando nos sentimos apertar entre paredes.

*

Sempre pareceu buscar mais do que pretendia. Na verdade não queria enxergar-se como alguém que não se saciava.

*

Ontem pensou ser forte. Hoje provou que era.

*

Enfiou goela adentro o grito de socorro que não ousava pedir. Quando sentiu estar entalada, chorou.

*

Pede que eu dou. Diz que eu faço. Riu das mentiras que saíam daquela boca. E continuou rindo por notar que mentia com vontade de que fosse verdade.

*

Olhou o céu e percebeu estar inundado de estrelas. Só pôde enxergá-las porque era breu a sua volta. E porque era breu, fazia questão de vê-las todas.

*

Não sou mulher de pequenas porções. São grandes os pedaços de frutas ou carnes que me satisfazem. Não falo manso ou delicado. Talvez aveludado. Nem mesmo sei ser doce por muito tempo. Enjoaria de mim.

*

Tentou falar, mas de seus lábios não saía som algum. Apenas os olhos gritavam a dor que sentia.

*

Apoiou suas mãos enrugadas no braço ainda jovem. Lembrou quando eram os seus que carregavam aquele que agora o sustentava.

*

Quando chorou sentiu o sal das lágrimas em sua língua. Recordou de outro dia, em outro lugar em que o vinho bebido era sorvido pela boca colada a sua. Sorriu na lembrança enquanto a face continuou seu pranto.

*

Enquanto leio sinto aquele mundo como se fosse meu. Se escrevo vivo mundos que transformo em meus. A tinta que sai da caneta carrega o pensamento que estava no fundo do peito e o faz boiar para que leve se torne.

*

Ao se deitar ela decidiu que naquela noite teria belos sonhos. E por assim querer, foi dormir sorrindo.

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conto
17/02/2017 | 09h41
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Recomeços
Cândida Albernaz
Pensou voltar em seus próprios passos até chegar ao ponto de partida. Não conseguia mais lembrar-se que ponto era esse. Onde começara tudo?
No chão de cimento que cobria o quintal de sua casa, costumava ficar sentada enquanto a avó lavava roupa no tanque. Ela contava histórias que dizia serem verdadeiras. Entre esfregar uma camisola ou reclamar da sujeira da roupa de algum neto, ia desfiando um mundo imaginário.
Sua avó era uma mulher forte e lavava algumas peças por prazer. Dizia que quando ela não estava ali pedindo que contasse histórias, pensava na vida.
Naquele mesmo quintal, recordava-se de uma discussão entre seu pai e sua mãe. Ela o acusava de estar se engraçando para a filha da vizinha e ele rindo afirmava que só tinha olhos para ela. Sua mãe não se convencia e ele tentou abraçá-la. A princípio o empurrou, mas depois chorou em seu ombro. Repetia que o amava e não queria perdê-lo. Um ano depois, seu pai largou a casa em que moravam e foi viver com aquela mesma moça que provocara a briga entre os dois.
Uma vagabundinha, segundo sua mãe.
O pai as visitava de tempos em tempos e por várias vezes pensou que ficariam juntos novamente. Principalmente quando ele saía de lá com o dia amanhecendo. Em algumas dessas vezes, ouvia sua mãe chorar sozinha.
Anos mais tarde, estava com amigas em uma festa e dois colegas de colégio resolveram disputar sua atenção. Riu com eles, mas tentou mostrar que não se interessava por nenhum dos dois. Pareciam não entender.
Elas moravam ali perto e foram embora caminhando. Numa das esquinas as meninas dobraram e ela seguiu em frente. Andou mais um pouco quando os dois apareceram. Não a deixaram prosseguir, e sem que pudesse falar qualquer coisa, um deles tapou sua boca com a mão enquanto o outro a segurava. Chorava e se debatia.
Antes que conseguissem completar o que desejavam, passou um homem de bicicleta. Ao ver a agitação, resolveu perguntar o que estava acontecendo. Os rapazes a soltaram e saíram correndo.
Nunca contou à mãe ou qualquer outra pessoa o ocorrido. Na escola, costumavam olhá-la com expressão de ameaça, mas nunca tentaram mais nada.
Não se casou e namorou pouco. Formou-se em veterinária e fazia o que mais gostava. Lidar com animais.
Conheceu Guilherme há dois anos. Num bar, numa conversa qualquer, num dia em que estava especialmente alegre.
Ela e Jane, sua amiga, saíram para comemorar. Ficara noiva e marcara a data do casamento. Sempre fora o sonho de Jane, uma casa, filhos, marido, rotina. Estava satisfeita pela amiga. Guilherme pediu para sentar com elas e conversaram durante toda a noite. Quando se despediram, ele tinha seu número de telefone. Ligou no dia seguinte.
Começaram a se ver, saindo sempre que podiam, até que um mês depois, ele próprio contou que era casado. Vivia mal, a mulher era uma chata ciumenta, não o entendia como ela, mal se relacionavam. Ia separar-se, precisava apenas de um pouco mais de tempo.
Dois anos e esse tempo não chegou. A mulher descobriu tudo e foi parar em sua casa. Ouviu o que ela tinha para dizer e sentiu pena quando pediu chorando que deixasse seu marido. Sentiu também por si mesma.
Em que parte da vida que planejara, aquilo tudo se encaixava? Não conseguia lembrar-se.
Quando a outra foi embora, virou-se e viu o retrato de sua mãe. Sabia que não era uma vagabundinha.
O telefone tocou. Resolveu não atender.
Pegou a bolsa que deixara sobre a mesa. Sabia que a clínica estava cheia. Era onde realmente sentia prazer, seu trabalho. Quantas vezes na vida recomeçara?
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Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".