conto
17/02/2017 | 09h40
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Recomeços
Cândida Albernaz
Pensou voltar em seus próprios passos até chegar ao ponto de partida. Não conseguia mais lembrar-se que ponto era esse. Onde começara tudo?
No chão de cimento que cobria o quintal de sua casa, costumava ficar sentada enquanto a avó lavava roupa no tanque. Ela contava histórias que dizia serem verdadeiras. Entre esfregar uma camisola ou reclamar da sujeira da roupa de algum neto, ia desfiando um mundo imaginário.
Sua avó era uma mulher forte e lavava algumas peças por prazer. Dizia que quando ela não estava ali pedindo que contasse histórias, pensava na vida.
Naquele mesmo quintal, recordava-se de uma discussão entre seu pai e sua mãe. Ela o acusava de estar se engraçando para a filha da vizinha e ele rindo afirmava que só tinha olhos para ela. Sua mãe não se convencia e ele tentou abraçá-la. A princípio o empurrou, mas depois chorou em seu ombro. Repetia que o amava e não queria perdê-lo. Um ano depois, seu pai largou a casa em que moravam e foi viver com aquela mesma moça que provocara a briga entre os dois.
Uma vagabundinha, segundo sua mãe.
O pai as visitava de tempos em tempos e por várias vezes pensou que ficariam juntos novamente. Principalmente quando ele saía de lá com o dia amanhecendo. Em algumas dessas vezes, ouvia sua mãe chorar sozinha.
Anos mais tarde, estava com amigas em uma festa e dois colegas de colégio resolveram disputar sua atenção. Riu com eles, mas tentou mostrar que não se interessava por nenhum dos dois. Pareciam não entender.
Elas moravam ali perto e foram embora caminhando. Numa das esquinas as meninas dobraram e ela seguiu em frente. Andou mais um pouco quando os dois apareceram. Não a deixaram prosseguir, e sem que pudesse falar qualquer coisa, um deles tapou sua boca com a mão enquanto o outro a segurava. Chorava e se debatia.
Antes que conseguissem completar o que desejavam, passou um homem de bicicleta. Ao ver a agitação, resolveu perguntar o que estava acontecendo. Os rapazes a soltaram e saíram correndo.
Nunca contou à mãe ou qualquer outra pessoa o ocorrido. Na escola, costumavam olhá-la com expressão de ameaça, mas nunca tentaram mais nada.
Não se casou e namorou pouco. Formou-se em veterinária e fazia o que mais gostava. Lidar com animais.
Conheceu Guilherme há dois anos. Num bar, numa conversa qualquer, num dia em que estava especialmente alegre.
Ela e Jane, sua amiga, saíram para comemorar. Ficara noiva e marcara a data do casamento. Sempre fora o sonho de Jane, uma casa, filhos, marido, rotina. Estava satisfeita pela amiga. Guilherme pediu para sentar com elas e conversaram durante toda a noite. Quando se despediram, ele tinha seu número de telefone. Ligou no dia seguinte.
Começaram a se ver, saindo sempre que podiam, até que um mês depois, ele próprio contou que era casado. Vivia mal, a mulher era uma chata ciumenta, não o entendia como ela, mal se relacionavam. Ia separar-se, precisava apenas de um pouco mais de tempo.
Dois anos e esse tempo não chegou. A mulher descobriu tudo e foi parar em sua casa. Ouviu o que ela tinha para dizer e sentiu pena quando pediu chorando que deixasse seu marido. Sentiu também por si mesma.
Em que parte da vida que planejara, aquilo tudo se encaixava? Não conseguia lembrar-se.
Quando a outra foi embora, virou-se e viu o retrato de sua mãe. Sabia que não era uma vagabundinha.
O telefone tocou. Resolveu não atender.
Pegou a bolsa que deixara sobre a mesa. Sabia que a clínica estava cheia. Era onde realmente sentia prazer, seu trabalho. Quantas vezes na vida recomeçara?
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Não era para se envolver
09/02/2017 | 07h20
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Não era pra se envolver
Cândida Albernaz
- Te avisei mulher. Falei que era furada e você não levou fé. Agora tá aí, na maior neura.
- Não parecia ser nada disso.
- Então tá. E não fui só eu não. As meninas tentaram abrir seu olho e você nem aí. Tô indo porque tem cliente chegando.
- Espera um pouco.
- Espera coisa nenhuma. E acho bom dar um jeito nessa cara, porque a outra lá não quer
ver ninguém parado.
Fiquei no mesmo lugar por algum tempo e então fui ao banheiro. Clô tinha razão, precisava ajeitar porque estava parecendo um lixo. Molhei a mão na água da pia e passei no cabelo tentando domar os fios rebeldes que teimavam em não colar à cabeça. Droga de cabelo que nunca fica bom. Os olhos estavam vermelhos e inchados: culpa do choro e da insônia.
Afastando-me um pouco observei meu corpo. Um sorriso veio aos lábios: esse ainda estava bom apesar do vestido surrado que usava. Tenho um corpo bem feito o que faz com que algumas colegas morram de inveja. Como de tudo, e claro que ainda sou muito jovem, isso ajuda.
Os olhos encheram de lágrimas. Não queria começar a chorar novamente. Tinha que trabalhar ou dona Odete ia perceber que algo estava errado. Sempre fui uma das melhores.
A culpa de tudo era daquele idiota do Carlão. Desde os doze anos nessa vida e agora me deixei enganar. Abri a guarda, foi isso. E o desgraçado se aproveitou.
Tinha que apaixonar? Escolada do jeito que sou? Também, qualquer uma se enrolava. Ele chegou de mansinho com um corpo, que benza Deus!, tira qualquer uma do sério. Nem precisava pagar e fez questão de pagar dobrado. Voltou mais duas vezes e me escolheu. E o cheiro do cara? Sou ligada nesse negócio de cheiro. Sempre perfumado e sempre gostoso: caí de quatro.
Parei de cobrar e saí com ele algumas vezes fora do expediente. Sem que dona Odete imaginasse, é claro, porque com ela não tem papo. Só algumas meninas sabiam.
O problema começou aí: conversa vai, conversa vem, e ele me convenceu a entregar uma encomenda no centro. Na primeira e na segunda vez, deu tudo certo, ainda ganhei um extra. Falei com ele que não pedisse mais, porque tinha meu emprego e aquele negócio podia dar cadeia. Ele veio pegando, se esfregando e me deixando louca: não deu outra, falei que faria pela última vez.
Cheguei à casa do cara, era o mesmo de sempre, não sabia nem o nome dele, porque não queria me envolver. Entreguei o pacote e quando saí ainda na esquina, dois sujeitos me agarraram e colocaram num carro. A conversa foi ali mesmo. Depois de levar dois tapas na cara, mão pesada ele tinha, tirou sangue do meu nariz. Já apanhei antes, mas tenho pavor. Não tem essa de que com o tempo se acostuma. Que nada, detesto sentir dor. Queria o nome de quem me contratou. Estava metendo o nariz na área deles. Tentei dizer que não sabia e recebi um soco no peito, quase desmaiei. Mais dois murros e acabei soltando a língua.
Isso foi há dois dias. Carlão foi pego e apanhou tanto que parece ficará cego de um olho. O pior, é que soube quem foi e está atrás de mim.
- Tá dormindo no banheiro, Norminha?
Abro a porta e dona Odete fica me olhando com aquela cara de quem quer me ver na rua. Quando ela souber com o que estou envolvida, é pra lá que vou.
- Seu cliente preferido chegou. Tá meio quebrado e te procurando. Vai e faz com que ele esqueça as dores.
Entro no salão e Carlão está me esperando.
- Oi, Carlão.
- Oi, nada, sua cadela. Vamos até lá fora.
- Não posso sair agora.
- Pode sim, porque já molhei a mão de Odete e ela tá feliz da vida.
- Carlão, não tive culpa.
- Claro que não, os caras vieram pra cima de mim porque têm bola de cristal.
- Carlão, eles me machucaram. Você sabe que não aguento. E depois, a gente se ama.
- Se ama? E você acha que eu amo vadia?
- Que é isso? Quem são esses?
Três homens estavam dentro de um carro esperando por eles.
- Toma, é de vocês.
- Carlão, o que vão fazer comigo?
- Vai dar uma volta com eles. Já sabem, não quero que sobre nada.
- Carlão, eu te amo...
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Frases nem tão soltas
08/02/2017 | 18h12
acabei de colherFrases nem tão soltas Cândida Albernaz Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão. * E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro. * Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria. * A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer. * Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma. * Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever. * Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo. * Anseio por serenidade como quem precisa de ar. * Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras. * Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina. * Enquanto mulher, menina para sempre. * Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar. * Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação. * A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos? * Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam. * Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas.  
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frases nem tão soltas
11/01/2017 | 16h09
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão.
* * *
E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro.
*
Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria.
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A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer.
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Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma.
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Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever.
*
Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo.
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Anseio por serenidade como quem precisa de ar.
*
Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras.
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Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina.
*
Enquanto mulher, menina para sempre.
*
Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar.
*
Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação.
*
A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos?
*
Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam.
*
Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas.
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06/01/2017 | 10h48
ise/
mmm / ise
preciso trocar minha foto
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Frases nem tão soltas
05/01/2017 | 19h18
a4ba54fc047509ddce74166827946b69Frases nem tão soltas Cândida Albernaz Porque fechando os olhos posso enxergar melhor. Porque fechando os olhos consigo ver com o sentir. * A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse em cada uma delas. * Às vezes penso que me invento e então me surpreendo percebendo que aquilo que inventei sou eu real. * O relógio marca o tempo que passa às vezes devagar, às vezes rápido demais. Entre espinhos que se escondem, flores e verdes continuam a crescer. * Por que metade se você pode ter e ser inteiro? * Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita. * O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir. * Preciso que me conte histórias, me carregue no colo e através de suas rugas conheça a vida que te fez chorar ou sorrir, para que possa eu, menina que sempre serei, chorar e sorrir a seu lado. * Algumas pessoas demoram a perceber o que passou e perdem tempo se prendendo ao nada. Vida que existiu, mas que se perdeu no viver contínuo. * Será que ultrapassando as nuvens estarão todos os que perdi enquanto continuo aqui? * Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insistir em se colocar no meio dele? * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Não me lembro de quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível. * Quero brincar de pique esconde e no término da brincadeira me encontrar inteira.
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Uma crônica de natal
29/12/2016 | 08h45
Christmas presents piled underneath a christmas tree. Uma crônica de natal Cândida Albernaz Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel. Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza. Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes. Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos. Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância.  Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão. No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou: - Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo. Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta. Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo. Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija. Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também. De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco. Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios. Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós. - Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto. Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum. - Podem descer. Está tudo aqui. E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse. Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café. O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela. Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.  
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Frases nem tão soltas
22/12/2016 | 17h30
02f4915d1b550082798a6e88cec63ec0Frases nem tão soltas Cândida Albernaz Não sei esconder o que sinto. Implodo se tentar. * E com as tintas da imaginação, porque esta não tem limite, Deus coloriu o mundo. * Não conseguia ver sua sombra refletida na parede. Desesperou-se e voltou atrás para procurá-la. Encontrou-a agachada sob uma mesa. Não queria fazer parte do quão pequena se sentia naquele momento. * Sentada na cadeira de pano com as alças de corda presas na árvore, ela girava. E quanto mais girava, mais ria, e naquele momento pequeno, minúsculo, conseguia esquecer o que lhe dava agonia. * Às vezes preciso me esconder do mundo e brincar sozinha. * Fechei os olhos e me coloquei em seu colo. Eram seus os braços que me apertavam ao peito. Juro ter escutado: minha filha... E dentro daquele sonho adormeci. * Quero portas onde eu possa passar. Portas fechadas me assustam. E afastam. * Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda. * Após cada vendaval, enganava-se agindo como se não fosse com ela. Apenas um filme irritante e triste que assistia da confortável poltrona que desenhara na mente. * A maioria de nós conhece ou conheceu o mais ou menos. Não vale a pena. Ou é tudo, ou é nada. * E como a pedra diante da luz, posso ser opaca ou brilhar para quase todo o sempre. * O lugar predileto para se encontrar a paz: dentro de nós. * Às vezes vem assim... do nada! Não se iluda. Nunca é do nada. * Há pessoas que gostam de ninhos, mas não procuram fazer o seu. São preguiçosas e preferem desfazer ninhos prontos. * Quando se vê a chuva inundar a casa e levar o pouco que tem uma, duas, três vezes, não há escolha. Refazer vidas é o que sobra.      
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Sobraram as lembranças
15/12/2016 | 14h42
13903436_10209383474531210_7369343992075753560_nSobraram as lembranças Cândida Albernaz A caminho de casa parou num bar e no balcão pediu uma cachaça. O copo pequeno encheu-se do líquido amarelo que tomou de um só gole, fazendo careta. Já era o terceiro em que entrava desde que saíra do serviço. Deixou o carro no estacionamento do prédio onde trabalhava. Pegaria no dia seguinte. Precisava caminhar e pensar. Entre uma coisa e outra tomava uma cachacinha para relaxar. Estava tenso há alguns dias e sentia dor na altura do pescoço. Tinha a sensação de um torcicolo a qualquer instante. Quando entrava em casa, Rita já não falava nada. Beijava-o e observava. Nas últimas semanas, ela tentava conversar e saber o que estava acontecendo, mas ele não queria diálogo, então desistiu. Os filhos o cumprimentavam e depois corriam para o quarto onde brincavam e viam algum programa na televisão até a hora de dormir. Acreditava que Rita os orientou a agir assim, já que mesmo com eles não tinha paciência alguma. Quase bateu no mais velho dia desses. Teria sido a primeira vez. Sempre teve orgulho de ser bom pai, estar com eles nas horas de folga e conversar quando preciso. Isto era antes. Agora notava em seus olhos decepção e até medo. Ficava triste, mas não via chance de mudança. Não no momento. Resolveu parar de novo para tomar mais uma. Pelo menos chegaria a casa e apagaria. Não precisaria ver a interrogação no rosto de Rita. Porque boba ela não era e sabia que algo sério devia estar acontecendo. Apenas parou de perguntar. Esse silêncio dela acabava com ele, ao mesmo tempo em que dava alívio por não precisar explicar nada. Rita e ele se conheceram na faculdade. Não era alta e tinha um cabelo preto e cacheado que chamou sua atenção. De lá para cá, sempre estiveram juntos. Quando engravidou do primeiro filho, estavam casados há cinco anos, com a vida estável e querendo muito aquela criança. O caçula também foi programado. Ele recebera um aumento considerável e passara para o setor financeiro da firma de material de construção onde trabalhava. Sempre foi eficiente, organizado. Os pagamentos e as contas da firma estavam na sua mão e de outros dois funcionários. Os problemas começaram a um mês, desde que chegou uma empresa de auditoria. O patrão achava que havia algo errado. Parece que os auditores chegaram a uma conclusão e amanhã seria a reunião em que falariam sobre isso. Marcaram para o início da manhã com os dois colegas e em seguida conversariam com ele. Não precisava que dissessem o que estava acontecendo. Há três dias o olhavam enviesados e discutiam em voz baixa com o patrão. Amanhã teria que enfrentá-los, quando mostrassem a duplicidade de algumas duplicatas que forjou. Muitas duplicatas. Uma quantia de dinheiro considerável. O fechamento do livro caixa era raramente conferido pelo patrão. Ele era de sua confiança. Isso facilitava em muito sua ação. Os dois patetas que trabalhavam com ele não percebiam nada. Fora fácil enganá-los. Não teria como fugir. Se fosse mandado embora com a responsabilidade da devolução do dinheiro, já ia ser complicado, porque não tinha de onde tirar. O pior é que talvez saísse de lá preso. Teria que encarar a mulher e os filhos. Isso doeria mais do que tudo. Que vergonha! Se pudesse enterrava a cabeça e o corpo também em algum buraco de onde não precisasse sair mais. Os pés estavam perdendo o comando que deveria ter sobre eles. Pareciam dançar de um lado para o outro na rua, em um samba que só ele escutava. Perdeu a conta do tanto que bebeu. Começou a rir lembrando-se do dia em que Rita dançou para ele, enquanto tirava peça por peça da roupa que vestia. Viu num filme e quis fazer igual. Lembrou-se de quando ele e os filhos jogavam futebol e o mais velho fez seu primeiro gol. O sorriso que dominou seu rosto foi uma das coisas que mais trouxe felicidade. Nem sabia ser possível uma sensação tão plena. Pensou em fingir que não estava acontecendo nada, puxaria os três para conversar e os abraçaria com força. Imaginava as caras de surpresa. Olhariam entre si e pensariam que voltara a ser o mesmo de antes. O carro que vinha não percebeu que ele ia atravessar com o sinal fechado para pedestres. Acertou-o em cheio, fazendo com que seu corpo rolasse por cima dele e batesse com a cabeça no asfalto ao cair. De qualquer forma, ainda sorria com as lembranças quando curiosos chegaram perto e o olharam.  
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Frases nem tão soltas
08/12/2016 | 19h08
14724474_1215150588543823_4250563760277294606_nFrases nem tão soltas Cândida Albernaz Alguns segundos que vivemos levam uma eternidade para se deixar esquecer. * Então posso escolher abrir o portão e descobrir que onde parecia ter apenas mato, havia flores. * Não gosto de me rasgar. Nunca soube costurar. * Nunca se dê a alguém por menos do que por amor. * Às vezes as palavras me fogem e fica apenas o sentir gritando nos olhos. * Ontem jurava que seria nunca mais. Hoje afirma que para sempre não mais. * Quero que me balance bem forte, para que eu possa ir tão alto que toque as nuvens. Preciso ter certeza de que são feitas de algodão. * Vou deixando flores por onde passo, para que não me perca no caminho de volta. * Vivo buscando não sei o que de não sei onde e não canso nunca. * Fujo de quem se diz muito bonzinho. Ninguém é. * Bebo uma taça de tinto ou duas e fico comigo me fazendo companhia. Converso com o corpo e sinto a pele me acarinhando. * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * A rotina é nosso pior inimigo quando queremos esquecer. * Eu escrevo, eu leio, eu escrevo, eu leio. Vivo em um mundo encantado? Gosto de mundos encantados. * No meio do mato flores nascem como se importantes fossem. Importantes são enquanto flores. Do mato. * Por que no meio de uma noite deixo de ser borboleta e viro lagarta outra vez? * Muitas vezes peço que meus pensamentos se calem, mas parecem fazer questão de fingir não ouvir.  
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Sobre o autor

Candida Albernaz

candidaalbernaz@hotmail.com

Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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