Amor e Dor
11/04/2017 | 15h31
mariana luiza
amor e dor / mariana luiza
Toda dor é um processo inflamatório
Todo amor é um processo flamatório
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Tão perto, tão distante
02/04/2017 | 21h58
Mariana Luiza
Luz no fim do túnel / Mariana Luiza
Tão perto, tão distante
A Nasa descobriu um novo sistema. Sete planetas na órbita de uma estrela vizinha à 39 anos-luz da terra.
Há quantos milênios estes sete planetas e tantos outros orbitam estrelas desconhecidas?
O que mais menosprezamos por nossa escassez tecnológica?
Por nossos telescópicos limitados?
Arqueólogos descobriram uma estátua de um faraó soterrada por lama, esgoto, palafitas e favelados.
Quantas outras riquezas arqueológicas estão sepultadas mundo afora porque não temos um equipamento ultrassônico capaz de revelá-las?
Quantas vidas invisíveis perseveram precariamente por cima de um monumento faraônico?
Um antiquário antiquado. Tão perto, tão longe.
Nossa vista alcança pouco além do estratosférico, nada além a camada do solo.Quase nada do que lhe é adverso.
O que mais preterimos por nossa cegueira?
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Homem do Saco
21/02/2017 | 18h15
Minha avó morou na casa dos meus pais desde que eu nasci. Era ela quem cuidava de mim e do meu irmão enquanto eles trabalhavam. Quase todas as minhas memórias de comida durante a infância têm o dedo da dela. Os cheiros e gostos de alimentos que ela fazia. A memória dos mementos com aquelas comidas. Eu tomei mamadeira até os 10 anos de idade. Só levantava da cama depois que a minha avó me levasse uma vitamina de banana com maçã e Neston. Era esse o despertador da minha infância.
Dona Diva cozinhava brilhantemente. Fazia uma carne moída com batata que ninguém faz igual. Uma receita simples, sem segredos ou temperos extravagantes. Um tradicional refogado de carne moída com batatas cortadas bem pequeninas de sabor, textura e formato diferente de todas as carnes moídas com batata que já provei na vida.
Ninguém que eu conheça sabe cortas as batatas em formas triangulares tão perfeitas e proporcionais ao moído das carnes como a minha avó Diva. Acho que esse era o segredo.
Ela tinha um caderno de culinária onde anotava as receitas do manjar de côco e pavê de biscoito champanhe que ela sempre fazia pro natal. Eu adorava folheá-lo, muito mais interessada na sua grafia, que era linda, e nas figuras que ela recortava para ilustrar as anotações, do que nas próprias receitas.
Cresci gostando de escrever e sem saber cozinhar.
Nas manhãs, de segunda a sexta, minha avó repetia a rotina de preparar o arroz fresquinho. Eu contava as horas, e sentava na mesa da cozinha fingindo fazer companhia, quando o que me interessava mesmo era comer o arroz torrado. Antes de colocar a água fervendo, ela passava uns bons minutos torrando o arroz numa panela cheia de alho amassado. E eu, ansiosa, esperava na beira do fogão, mendigando uma colherzinha de chá que fosse daquele arroz torrado. Minha avó era uma senhora bem mesquinha. Dessas que esconde moedas e nega colher de chá de arroz pros netos. Muitas vezes, eu precisava roubar escondido quando quisesse alguma quantidade satisfatória. E para evitar que eu comesse demais, ela sempre contava uma história de uma vizinha que por comer muito arroz cru, teve os ouvidos e orifícios do nariz tomados por chumaços de brotos de arroz que germinavam pelo estômago e saiam pelos buracos do rosto. Outra vez contou algo semelhante sobre um ramo de feijão que nasceu no umbigo da neta de uma colega. Eu não ligava muito e continuava a praticar minhas artemanhas para roubar um pouco do arroz torrado. Minha vontade era maior do que o medo. Mas tinha uma outra história, contada por minha avó e também relacionada com comida, que me assombrou por muito tempo. 
Fui uma criança que nunca comeu cachorro quente. Provei já adulta, mas até hoje tenho ressalvas.
Para evitar que eu e meu irmão brigássemos, a gente brigava de se espancar, dona Diva nos ameaçava dizendo conhecer o homem do saco. A briga começava e lá ia ela em direção ao telefone, dizendo que ia ligar para o tal colega. O homem do saco perambulava pela cidade catando crianças desobedientes para fazer salsicha.
Conclusão: Desistir de brigar? Nunca.
Eu e meu irmão sabíamos que a avó não teria coragem de ver seus netos transformados em em salsichas... mas daí a comer coleguinhas nas festinhas de aniversário... Nem pensar.
Eu lembro que nas festas de aniversário dos amiguinhos de colégio, quando os pais serviam cachorro quente, eu ficava horrorizada com tamanho descaso e falta de amor com às crianças desconhecidas. "O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes...
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Dois de Fevereiro
02/02/2017 | 12h21
Fazia um tempo que já não acreditava em deus. Fora devota de santo Antônio e são José. Dessas de fazer promessas mirabolantes como caminhar 100 quilômetros a pé ou distribuir 50.0000 folhinhas com orações do santo. Levava a sério suas promessas. Nunca colocara um santo de cabeça para baixo dentro do congelador.
Tudo que pedira, fora realizado. E a cada nova promessa, aumentava o número de folhinhas para o devoto.
Um dia, não se sabe porquê, acordou não acreditando mais em deus, nos santos. Acordou sem fé.
Um movimento rápido e seco como são as notícias inesperadas que mudam o rumo das vidas.
O mar estava calmo, a casa arrumada, os filhos encaminhados, o marido feliz no emprego. Tudo parecia na mais perfeita harmonia e organização. Como ela sempre sonhara.
Nunca tivera tanto equilíbrio na vida familiar, sempre lhe faltava um detalhe. O marido ser promovido, o filho decidir pelo curso do vestibular, o dinheiro para comprar aquele sofá. A vida estava enfim do jeito que ela planejara. Mas aí vem o destino, feiticeiro destino, com aquele acontecimento que abala as estruturas e prova que não existe equilíbrio. Que o único controle possível é o remoto da televisão.
E foi assim, num dia como esses de notícias arrebatadoras, que ela, do nada, acordou não acreditando em nada. O sofá estava comprado, o filho inscrito na faculdade de medicina e o marido ganhado 20% a mais de promoção, mas ela acordara cética.
Saiu de casa cedo para trabalhar, dentro do ônibus passou pela igreja da Candelária, e pela primeira vez desde a primeira comunhão, não fez o sinal da cruz. Não bateu na madeira quando uma colega de trabalho disse que o salário poderia atrasar naquele mês. Não rezou para agradecer pelo almoço daquele dia.
Nunca deu explicações sobre essa mudança repentina de comportamento. Simplesmente, porque não sabia. E assim viveu no ceticismo com a vida. Histórias de fé não mais a comoviam. Nem na sorte de um cílio caído na maçã do rosto ela acreditava.
O filho agora clinica em consultório próprio. O sofá já fora trocado por um modelo de couro caramelo. O marido estava prestes a aposentar. Ela pegou um ônibus para o centro da cidade. Era dois de fevereiro e isso não lhe dizia muita coisa. Desceu próximo ao cais do porto e cruzou por uma procissão de devotos, filhos de santo e curiosos. Todos saldando a rainha do mar. De repente, ela se viu rodeada de um azul celeste que ornamentava o céu, as roupas, os barquinhos da procissão, as contas do colar da menina, o mar. Um mar de azul.
Foi naquele instante, brusco e inesperado, assim como os instantes em que nos apaixonamos, que ela se enamorou por Iemanjá. Não virou devota, não retomou sua fé. Continuou cética com a vida, com os santos, com os deuses e orixás. Mas todo dois de fevereiro ela molha os pés nas águas celestes.
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Resoluções de fim de ano
22/01/2017 | 01h21
Sou leonina, com lua em Peixes e ascendente em Escorpião. Nem meu signo solar, muito menos o lunar e o ascendente explicam minha mania de listas. Ela vem de algo mais profundo e negligenciado pela astrologia. Eu tenho mãe em Virgem. FullSizeRender-2 A psicanálise freudiana pode tentar explicar a minha necessidade de ser tão detalhista e específica quando elenco tarefas.  Tenho listas pra tudo em todos os cantos. Nos celular, um bloco de tarefas permanente, intitulado Pendências, onde enumero incumbências diversas como uma reunião que preciso marcar ou o anúncio que quero fazer pra vender aquele desumidificador que comprei em 10 prestações e só usei uma vez. Na bolsa, tenho dois caderninhos. O preto com tarefas e atividades do meu trabalho como vendedora: reuniões, clientes que preciso ligar, empresa que tenho que pesquisar contato. E o vermelho que registra anotações e ideais literárias, assuntos para o blog, artigos relacionados a algum tema de interesse.... No computador, no bloco de tarefas, muitas vezes reescrevo as obrigações listadas no caderninho preto. E não é incomum encontrar uma mesma tarefa relatada em listas distintas. Para organizar todas estas anotações, muitas vezes, me pego dobrando uma folha de papel A4 em quatro partes e passando a limpo as atividades mais urgentes de cada bloco ou caderno. Eu tenho mais habilidades em passar listas a limpo do que propriamente executá-las. E acabo levando para a terapia a minha eterna sensação de deveres incompletos. Tenho uma vasta lista de coisas que relacionei e planejei, mas nunca fiz. Não sei se isso tem a ver com minha lua em Peixes, acho improvável. Os peixes não procrastinam. Se organizam em cardume e cumprem suas tarefas cotidianas de seguir o destino ou a maré em busca de alimento ou local para reprodução. O mesmo fazem os escorpiões e os reis da selva. Sem necessidade de listas, cumprem o que se destinam, enquanto já passaram seis meses, minha pequena Caliandra está desfolhada e eu não liguei pro médico de bonsai, cujo telefone consta na minha lista de Pendências. Por isso, e por tantos outros motivos relacionados a ansiedade, ao excesso de informações e estímulos que recebemos diariamente, sou contra resoluções de fim de ano. Já são tantas as obrigações que ainda me dispor a mudar ou fazer coisas novas... Não. Definitivamente, não. Mas enquanto me convenço da resolução de não fazer resoluções, vou colocando nas listas e cadernos os desejos de emagrecer 11 quilos, comprar uma bicicleta para andar todos os fins de semana, voltar para o pilates, comer mais verduras, escrever semanalmente no blog, revisar o livro juvenil, finalizar o roteiro do filme, pintar o corredor do meu apartamento com alguma cor que ainda não consegui me decidir...      
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Corações ao alto
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRenderUm cardiologista da Universidade de São Paulo comprovou através de experimentos científicos realizados com dez mil voluntários, que cada coração nasce com um número certo de batidas ao longo da vida. Segundo a pesquisa, uma proteína, encontrada na membrana plasmática dos miócictos, as células do tecido cardíaco, faz o papel de ampulheta vital. O cronômetro, como foi batizada a proteína, descresse a medida em que o coração embrionário, o primeiro órgão de um indivíduo, começa a pulsar. Se aquele feto evoluir e vir a nascer, se durante sua trajetória de vida ele não morrer de acidente de carro, bala encontrada, ou doenças que não cardiovasculares, o seu coração será o único órgão a saber o dia exato de sua parada. A menos que o cérebro do dono do corpo chame para si o direito de interromper a jornada, planejando o fim de todas as pulsações. A média dos dez mil voluntários foi de 2.649.024.000 palpitações por vida. A equipe de pesquisa ainda não descobriu qual o fator determinante que prolonga as batidas do órgão em um deliberado ser, e diminui consideravelmente noutro, mas fatores genéticos são apontados como as causas mais prováveis de um número de batimentos inferior a média. Os corredores da universidade estão em polvorosa desde a publicação do artigo cientifico. Teólogos, psicanalistas e até historiadores afirmam que o excesso de amores vividos pela mãe pode influenciar consideravelmente a quantidade de batidas do feto gerado em seu ventre. Se sofreu demais, se chorou demais, se o coração desta mulher ficou pequeno e agoniado a cada fim de um relacionamento, a probabilidade do coração de seu filho bater mais é maior. Isto, porque de acordo com os teólogos, também da Universidade de São Paulo, o excesso de dor de uma mãe, pode ser compensado na extensão de vida do filho. Doutores em psicanálise, pesquisadores freudianos da mesma universidade, afirmam o contrário. Cada sofrimento da futura pardieiro, a cada agonia, susto, angústia ou medo vivido por esta mulher será resolutivo na diminuição da quantidade de batimentos do coração do futuro embrião. Enquanto departamentos diferentes se digladiam pela defesa de suas verdades, os alunos, principalmente os calouros, tentam proteger o coração de aventuras sentimentais. Assim, sem o risco de sofrimento, o prolongamento do destino fica um pouco mais garantido. Farmacêuticos, estudam o aprimoramento das fluvoxaminas, manserinas, mirtazapinas e reboxetinas. Um complexo que blinde o cérebro e o coração de pulsações desnecessárias. Filósofos recomendam Platão. Professores de educação física se preocupam com seus empregos. Matemáticos obsessivos calculam o tempo médio restante de dias vividos. E os loucos escancaram os corações às possíveis e impossíveis pulsações da vida. Mais vale menos dias bem sentidos, do que a eternidade vazia de emoções.
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Ovo de avestruz, Corcova de dromedário
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRenderApareceu-lhe um nódulo nas costas. Um pequeno caroço do tamanho da ponta de um dedo mindinho, localizado na altura da escápula esquerda. Junto do nódulo, uma insuportável dor de cabeça que irradiava do caroço, subindo pelo pescoço, se alojando intermitentemente sob a sobrancelha de mesmo lado. Correu para a massoterapeuta. Não adiantou. A cada sessão, o nódulo se mostrava mais comparecente, afrontando a massagista com sua presença e dureza marcante tal como um diamante. Resolveu então procurar uma chinesa, que segundo alguns amigos e o Google, era expert em tratar das mazelas de corpos alheios. Na primeira sessão de shiatsu, a chinesa apelidou o nódulo de caroço de azeitona. Tal sua dureza, tal seu tamanho. No final do conjunto de dez sessões, cada uma com quase duas horas de muita dor e compressões, o caroço se desmantelava sob próprio fruto, tal sua maciez, tal seu tamanho. Mas não desaparecia. Parecia que aquela azeitona, ora caroço, ora fruto desencaroçado chegara para ficar. Para fazer parte daquela vida, tomar conta daquele ser e dar sentido a um corpo que pouco doía até então. Tal como uma azeitona sem caroço, um corpo sem dor, é um corpo sem sentido. É um corpo sem sentimento. Mas a dor  em excesso faz tão, ou mais mal mal do que a escassez.  Um corpo com padecimento crônico é também um corpo sem sentido. Incapaz de vivenciar qualquer outra coisa além daquela dor. Se antes ela não chorava por motivo algum, agora só chora pela escápula dormente. Recorreu a terapia para investigar o principio de tudo. O nódulo chegou num dia atípico, um frio quase glacial de um setembro. A dona do corpo passava férias numa casa de praia em Arraial do Cabo, e acordou com uma dor nas costas irradiando para o pescoço. Tratou com pomadas para torcicolo, e procurou um médico no final da semana. O primeiro diagnóstico, um distensão muscular devido ao frio excessivo, foi tratado com antiinflamatórios. Diante da ineficácia do tratamento. Recomendou-se pomadas, comprimidos, compressas quentes e ao longo dos meses, a dona do corpo foi mudando de médicos, de técnicas de massagens, de remédios e superstições. O caroço já fazia tão parte dela, que acostumada a dor, a dona do corpo mal lembrava vida sem tal padecimento. Já chegava junho e a azeitona faria aniversário em três meses. A esta altura, a dona do corpo já havia percorrido quase todas especialidades médicas possíveis. Ortopedistas, neurologistas, fisgaras, clínicos gerais, e psiquiatras.  A nova massoterapeuta, tentou pedras quentes, cristais, manta térmica, ventosas de sucção e até choques elétricos. Os tratamentos eram apenas paliativos, amansando o caroço para os dias seguintes. O nódulo já estava bem crescido, sendo apelidado pela tal como ovo de codorna. O fisiatra o chamava de ovo de avestruz e a terapeuta dizia que o sofrimento físico se tratava de um processo psicanalítico. A dor fantasma na escápula era oriunda de uma asa podada. Cujo corpo de mente fértil e louco para voar, se via preso numa massa de carne e osso estática demais, pesada demais por carregar nos ombros todas as preocupações mundanas. Apelidou o nódulo de asa encruada. A dona do corpo saiu da sessão re fletindo sobre a última vez que voara bem alto sem o medo de estabacar no chão. Sobre quando começou a podar, por si só, as próprias asas, os próprios sonhos. Sem resposta fácil, abandonou a ideia de asa encruada preferindo apelidar a dor de ovo de avestruz. Era este o pássaro da vez. E assim, seguiu os dias corcunda, carregando seus medos e preocupações numa corcova que só crescia. De pássaro, a dona do corpo, se transformava lentamente num droMEDÁrio cercado de água. Cercado de poças, de poços e de pássaros.
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Uma carta
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRender-2Mãe, Rascunho esta carta, que bem provável, assim como as anteriores, irão para o lixo antes de chegar à senhora. Escrevo na esperança e na insistência em ser reconhecida. Eu mudei tanto que tenho medo de parecer outra estampa. Somos diferentes demais e eu entendo o quão difícil é pra você compreender como eu sou. E aceitar as minhas rebeldias sem estranhamento. Desde bem pequena que me sinto mais pertencente às figueiras do quilombo do que a todo o resto. E assim ainda me sinto. Como árvore nesta cidade grande, resistindo às construções, aos muros, aos limites e podas que nos são impostas diariamente porque trazemos na pele nossas raízes. Quanto mais distante do quilombo e das ruínas do que um dia foi império, mais entendo que o que temos só nos pertence (cabe) porque são fragmentos. Descobri com a minha vida aqui nos Rio, que somos feitos de fragmentos. Pedaços resistentes às ações do tempo, às ações da branquitude. Esta palavra que deve soar estranho pra senhora. Soa estranho pro meu corretor ortográfico que nem consegue sugerir uma palavra mais “correta”. Nunca se discutiu o que é ser branco. Por isso meu computador não sabe o significado de branquitude. Mas nós sabemos muito bem o que a escuridão da pele nos reserva, não é mãe? Talvez fosse por isso que a senhora não quisesse que eu saísse de baixo das asas do quilombo. Para não descobrir quer o sonho que me foi vendido não me pertence. É horrível e realmente doloroso perceber a si mesmo como inferior. Mas o privilégio da ignorância nos torna ainda mais vulneráveis e invisíveis. Como somos vulneráveis. mãe. Como somos invisíveis por aqui. A senhora sabe muito bem o que eu estou falando. Não é precisa morar numa metrópole para não ser visto. Mas a gente sempre brigou por causa disso, né? Hoje entendo que a senhora foi acostumada a acreditar que a invisibilidade é um destino natural dos corpos negros. Não somos nós quem aparece no protagonismo da colheita. É o fazendeiro da cana-de-açúcar. Não somos nós quem protagoniza a corrida do ouro nos tempos áureos das Minas Gerais. São os donos das Minas. Nós somos o sangue de garapa, no corpo duro da rapadura processado e embranquecido para ir à mesa dos que consome o doce açúcar. E nos fica claro que para aparecer precisamos clarear a raça. Temos mais tempo de correntes do que de corpos livres e isso a senhora sabe bem melhor do que eu. Mas ainda me pergunto... Somos verdadeiramente livres? Nos alisam os cabelos, embranquecem nossos deuses, privam de nossas origens. E a nossa frágil memória são lacunas de histórias embranquecidas. Mas como eu te convenço disso, mãe? Justo a senhora que foi tão bem doutrinada a crer que somos servis e de fácil domesticação. Por isso, nos preferiram aos indígenas, né mesmo? Que aprendeu que a nossa liberdade nos foi concedida e não conquistada. Ao passo que eu ainda duvido que somos corpos libertos. Eu não me reconheço mais nas histórias alheias. Não reconheço a minha história em Cleópatras, Bethovens, Machados amorenados. E para contar nossa própria história, precisamos ser como as figueiras. Raízes expostas são mais resistentes. Criam cascas, atravessam fronteiras. quebram calçadas. É chato ser a voz que milita atenção, que levanta a bandeira. É dolorido sentir-se intrusa em lugares aos quais quase não frequentamos. Ou não se reconhecer nas telas do cinema, nos editoriais de moda. Mas mais doloroso ainda é se reconhecer em lugares que as raízes não incomodam. É ver nossos corpos como mercadoria e objeto de desejo para consumo. É nos reconhecer enterrados como indigentes. Somos nós, os corpos que mais morrem nas trincheiras urbanas. E qualquer voz mais alta sobre essa dor é abruptamente ignorada. Porque raiz debaixo da terra não surpreende. Meu sonho é não ser a exceção. Eu não quero ser especial. Eu só quero ter o direito de ser medíocre. Como todos. Quando seremos mediocremente iguais? A pergunta mãe, ainda me é irrespondível, o que não quer dizer que a busca pela resposta se torne inútil. Nossos corpos que foram feitos para dançarem livres, rodopiaram por séculos nos cativeiros. E tudo que a gente quer, só o que a gente quer, é ser dono dos nossos próprios corpos. Isso é liberdade.
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ponto e vírgula
22/01/2017 | 01h21
Ela escreve com ponto e vírgula. FullSizeRender-2Como se tudo que tivesse na vida um fim, continuasse sem a esperança da pausa eterna. Como um amor findado e não perdoado. Uma lembrança que você quer esquecer, e só pelo desejo do esquecimento a faz perpetuar. Como descobrir a reencarnação no juízo final. Ou a vida e lembrança eterna no paraíso. É também uma segunda chance. Um recomeço de vida. O centímetro antes do abismo. A pausa antes do suicídio. É a possibilidade de mudar de ideia. É o segundo antes do trem chegar no fim do túnel. É quase morrer de parada respiratória. É um sofrimento que não tem fim. É uma onda do mar que congela em movimento num dia de vinte e sete graus negativos. O ponto e vírgula não é um fim, nem um começo. É o continuar do que se queria terminar. A perpetuação do trauma. Dos amores mal resolvidos. A água do rio que depois de uma longa jornada rumo ao mar, evapora no meio do caminho retornando à nascente. Ela escreve com ponto e vírgula. A pausa mais forte que a vírgula e menos que o ponto. Porque conhece bem as regras gramaticais e as regras da vida.  
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O Não Lugar
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRenderCristina foi ao shopping. Estava sozinha, como de costume. Comprou um lanche no Mc Donalds. Devorou o hamburguer com fritas no mesmo ritmo dos gritos entre os atendentes e os fazedores de sanduiche. Depois, jogou o lixo da bandeja no receptáculo e caminhou sem destino pelos corredores. Passou por lojas de roupas, lingeries, brinquedos, eletrônicos. E em frente a uma LanHouse viu um casal imprimir fotos de um fim de semana num resort em Cuba. Depois de percorrer os quarto andares, decidiu voltar ao primeiro e enfrentar uma fila de quase cem metros para tomar um sorvete italiano. Cristina digitou a senha, mas a transação não foi concluída. Era dia 20 e o que restou do salário fazia, naquele momento, o caminho da digestão rumo ao intestino. A moça não se abateu com o saldo zerado de sua conta bancária. Ficou uns 15 minutos a observar as pessoas da fila e aqueles que lambiam as bolas de sorvete de sabores variados. Depois desse tempo, ela caminhou novamente atee o balcão e tirou uma foto em close do cartaz da sorveteria. Publicou no Instagram, no Twitter e no Facebook uma mão, que alguns seguidores pensaram ser dela, segurando um copinho de sorvete que estava a logomarca da sorveteria italiana, fazendo propaganda gratuita para aqueles. Que por falta de pagamento, a negaram uma mera bola de sabor chocolate Belga. Cristina rolou com a ponta dos dedos a página do Facebook na tela do celular. Buscava novidades. Dentre fotos de comida, tais como as dela, e diversos autorretratos Cristina acompanhou publicações de sobre política. Bloqueou uns quatro seguidores que pensavam de maneira oposta a ela. Parou de “seguir” aquela prima que só postava notícias a favor do partido que ela julgava corrupto e clicou na lista de amigos para ver o total de seguidores. 1597, excluindo os 4 bloqueados. No final da tarde, Cristina pegou um ônibus de volta para casa. Checou novamente as notícias no Facebook, excluiu mais um colega de escola, rezou um “Pai Nosso” e se deitou para dormir. Quando quase adormecendo, Cristina recebe uma notificação pelo telefone. Duas amigas do tempo do colégio secundário haviam aceitado seu pedido de amizade.  Comemorou o reencontro, curtiu fotos de atores famosos no Instagram e dormiu.
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