Semiologia Médica 4 - Doenças por uma nova ótica
24/12/2017 | 21h30
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Havana, 2016
Havana, 2016 / Mariana Luiza
Ansiedade: É o desespero da espera. O precipitar do precipício. Uma respiração que não cabe no pulmão. O excesso de medos e futuros. A falta de ar e do presente. Recomenda-se colocar os pés no chão, sentir o hoje e respirar mais e mais e mais até que o pulmão retome seu tamanho.
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Caxumba: Também conhecida como parótide ou papeira, a caxumba é uma infecção viral que inflama as glândulas salivares e sublinguais. As pessoas que não têm papas na língua e falam o que pensam sem medir consequências, são as mais propensas a se infectar com o vírus.
Os sintomas são inchaço e dor na região das papadas. Além das comuns dores ao mastigar e engolir aquilo que não deveria ter sido dito. Uma das complicações da caxumba é a meningite, que causa fortes dores de cabeça. Ela acontece quando o indivíduo, impossibilitado de falar sem limites, devido a complicações da doença, tenta transmitir seus comentários grosseiros e indelicados pela força do pensamento.
Em homens, o vírus da caxumba também pode infectar a região dos testículos, uma vez que alguns indivíduos do gênero também pensam grosserias e indelicadezas com a cabeça de baixo.
Como tratar: A caxumba é como a palavra grosseira depois de proferida. Não tem atenuantes. Recomenda-se apenas repouso e alimentação leve com poucos ou total ausência de ácido para não irritar as glândulas salivares, não incitando-as a proferir palavras que possam agravar e postergar a permanência do vírus no corpo do individuo. Como forma de prevenção existem alguns tratamentos como o tele transporte que leva o paciente a se colocar no lugar do outro, com o ouvido e pensamento, antes de proferir as palavras pensadas.
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Cálculos renais: São as pedras no meio do caminho. A maior parte dos cálculos se forma sem manifestar qualquer sintoma. Instalam-se sorrateiramente nos rins, nos pensamentos ou nas vias urinárias, provocando o desvio de percursos ou a paralisação total de um projeto ou plano. As pedras, assim como a maioria dos problemas e dos medos, começam pequenas. Encontram no corpo um lugar de repouso e desenvolvimento e crescem ao encontrar alimento naquilo que deveria ser excretado pelas vias urinárias e/ou imaginárias.
Diz-se que a cólica renal é uma das dores mais lancinantes, intoleráveis e desumanas sentida por um corpo. Não é pra menos. A interrupção desistência de um desejo é verdadeiramente atroz com qualquer corpo.
A remoção dos cálculos se dá por cirurgia ou eliminação natural pela uretra com consumo excessivo de água. O solvente universal dos problemas e das pedras nos caminhos chega como enxurradas ou tsunamis carregando pra longe o que impede o sonho.
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Congestão alimentar: Mal estar súbito provocado pelo acúmulo excessivo de presentes e comidas na noite de natal. O corpo entra em estado de congestão porque o consumo desenfreado muda a direção do fluxo sanguíneo para irrigação do estômago e intestino quando deveria na verdade irrigar o coração e o cérebro.
Chás digestivos como o de simancol ajudam a processar com consciência o sentido do nascimento do símbolo do natal. Jesus Cristo.
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Semiologia Médica 3 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 13h01
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Formigamento: Locomoção de um grupo de formigas debaixo do tecido epitelial em busca de alimento. As formigas existem há 100 milhões de anos e constituem a maior população de insetos do planeta. Fora do corpo humano, são conhecidas por consumirem diversos tipos de alimento, tendo preferência por substâncias adocicadas como açúcar, mel, bolos. Dentro do corpo humano, a base alimentar do inseto varia de acordo com sua espécie. Entre as mais comuns estão:
Formiga fantasma (Tapinoma Melanocephalum): Esta espécie se alimenta basicamente de medos e acontecimentos passados não digeridos pelo corpo do paciente. Pessoas pretéritas, presas à saudades, com tendências à alucinações e pensamentos ilusórios são mais propensas a hospedar o formigueiro fantasma, sofrendo por consequência constantes formigamentos em diversas partes do corpo. Estas formigas fazem trilhas irregulares, andam em ziguezague e não se fixam em um lugar por muito tempo.
Recomenda-se exposição do tecido epitelial ao frescor do vento e das chuvas e infinitas sessões de drenagem linfática.
Formiga louca (Paratrechina Longicornis): O nome “louca” é devido ao andar irregular e em semicírculos dessa espécie. A sensação do formigamento é sentida da mesma forma pelo paciente hospedeiro. A formiga louca se alimenta da realidade do paciente. Ela pode desencadear reações variadas como devaneios, arrepios, pirações e delírios.
Se o paciente for cuidadoso e consciente da existência deste tipo de formigueiro, ele poderá fazer bom uso da loucura proporcionada pelas formigas.
Formiga –faraó (Monomorium Pharaonis): Os faraós eram os reis do Egito Antigo. Possuíam poderes absolutos na sociedade decidindo sobre a vida política, religiosa, econômica e militar. Eram considerados filhos diretos do deus Osíris. Portanto, os faraós eram, consequentemente, deuses vivos. A formiga faraó se alimenta de ideias de grandeza, autoritarismo e prepotência. Geralmente se hospedam em corpos adultos com mais de 12 anos, portadores de complexo de superioridade, e com grande necessidade de controle daquilo que é incontrolável, como por exemplo o tempo cronológico, os fenômenos meteorológicos e as vidas alheias.
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Edemas periféricos: Inchaços dos tornozelos, pés e pernas. A acumulação anormal do peso da vida nos membros inferiores. Excesso de caminhos e falta de caminhadas.
Recomenda-se exercícios físicos e drenagens das preocupações. 
 
 
 
 
 
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Sacudida hipnal: Sacudida forte e breve que a vida dá enquanto dormimos. Muitas pessoas sentem os espasmos enquanto acordadas, uma grande maioria relaciona os mesmos a passagem de algum anjo ou espírito. A escassez de literatura científica a respeito alimenta os mistérios sobre a causa.
Embora muito comum e aparentemente inofensiva, a sacudida hipnal requer cuidados: vale prestar atenção e manter os olhos abertos para os acontecimentos da vida. Principalmente enquanto sonhamos acordados.
 
 
 
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Dermatite de contato: reação inflamatória da pele devido à exposição a um componente que causa irritação ou alergia. Erupção cutânea (ou dos nervos), coceira, vermelhidão e descamação são sintomas comuns.
A dermatite de contato irritativa é o tipo mais comum. Essa reação ocorre quando a pele entra em contato com uma substância que desencadeia irritação por ação direta. Além da irritabilidade, principal sintoma da patologia, o paciente poderá sofrer de mau humor, desânimo, alterações de apetite e do sono. Fissuras podem se formar nas mãos e no comportamento.
Os agentes causadores mais comuns são pessoas ou atividades preservadas por formaldeído (componente químico utilizado para conservação de cadáveres). Podemos destacar chefes arrogantes, trabalhos não prazerosos, colegas invejosos, problemas de família e relações amorosas com componentes tóxicos.
A gravidade da dermatite de contato irritativa depende do tempo e intensidade de exposição e da capacidade agressora da substância. Se no primeiro contato, a pele apresentar lesão, denomina-se dermatite de contato por irritante primário. Pacientes com sensibilidade à flor da pele apresentam vantagens na identificação imediata do agente causador da irritabilidade (quando o santo não bate).
Para os casos em que são necessárias mais de uma exposição para manifestação da patologia, denomina-se dermatite de contato alérgica. É muito comum o paciente apresentar dificuldades para associar a dermatite ao seu componente causador e por conta disso, pode ao longo da vida, submeter a tratamentos paliativos como antialérgicos, práticas de respiração, meditação e yoga, massagens e cremes com propriedades calmantes e anti-inflamatórias. Estas medidas adiam a possibilidade de cura e mascaram os sintomas da doença.
O tratamento da dermatite de contato bem sucedido consiste basicamente em identificar o que está causando a reação e se manter distante. Se você pode evitar o agente agressor, a erupção geralmente se resolve.
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Semiologia Médica 2 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 12h47
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Nevos melanocíticos cogênitos: lesões (conhecidas como marcas de nascença) que representam pequenos tumores das células pigmentadas. Aparentemente inofensivas, podem causar graves transtornos na fase adulta do indivíduo. É nesta fase que as marcas de nascença ficam mais latentes.
De difícil remoção recomendam-se longos anos de análise. Para pacientes afoitos, a remoção por incisão é recomendada.
Há também tratamentos com o uso de ácidos ou por criocirurgia, que consiste no esfriamento do trauma pela aplicação de nitrogênio líquido.
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Apneia do sono: Mergulho profundo dentro de si. Interrupções de respiração e sensação de sufocamento são comuns a medida que o mergulho se torna mais profundo.
Recomenda-se o experimento por completo da apneia. Sem fuga, nem interrupção. Melhor fazê-lo abraçando o próprio corpo contra o peito. Esta posição melhora o atrito com o externo.
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Leuconíquia: Pequenas nuvens brancas no interior das unhas.
Materialização do vazio.
Aparentemente inofensivas, as manchas localizadas entre a unha e o leito epidérmico (vulgo unha e carne), são fruto de um processo inflamatório, ou traumatismo, ocorrido na matriz das unhas.
Não há tratamento para traumas ocorridos na raiz de um relacionamento. Recomenda-se uso excessivo de tempo e sessões semanais de terapia para amenizar os danos.
Cuidado com os espaços vazios nas relações de afeto é uma excelente prática preventiva.
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Agripnia: Ausência de sossego. Excesso de pensamentos, perturbações, emoções e estímulos.
Recomenda-se inalações de paciência, exalações de angústias e altas doses de vento na região craniana.
Muito vento aplicado diretamente nas narinas, ouvidos, bocas e orifícios cutâneos.
 
 
 
 
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Fotofobia: Aversão à fotografia pela dor que ela produz em caso de afecções oculares ou neurológicas. Acontece devido à recusa da imagem pelas células fotorreceptoras da retina e do sistema límbico, mais precisamente o hipocampo. A sensação resultante tem diversos graus de intensidade e é caracterizada por lacrimejamento, tristeza, angústia e saudade.
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semiologia Médica 1 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 12h22
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Oxiurose: Infecção causada por excesso de oxitocina liberada pelo oxiúrus (verme nematódeo com menos de 15mm de comprimento que parasitam corações, cerebelos, cérebros e intestino dos apaixonados).
É uma das doenças parasitárias mais comuns do mundo, atingindo certa de 11-21% da população por ano. A doença é frequente mesmo em países desenvolvidos. Afinal, apaixonar-se não é sinônimo de subdesenvolvimento.
O enterobius vermicularis causa coceira na região retal. Vulgarmente conhecido pelo fogo no rabicó ou paixonite aguda. Não tem cura. Ainda bem!
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Joelhos Valgos: Joelhos que se encontram. Excessos de caminhos sinuosos na infância. Constantes obstáculos que não permitiram que o indivíduo traçasse sua trajetória de vida em linha reta.
Recomenda-se seguir em frente. Não interessa quão sinuoso o caminho.
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Se todos fôssemos no mundo iguais a você
20/12/2017 | 11h53
A primeira vez que eu me apaixonei de verdade foi por um menino que eu vi na praia, numa tarde ensolarada de um domingo de verão. Ele era surfista e passou por mim carregando uma prancha de bodyboard enquanto eu esturricava sob o sol sem nem um pingo de filtro solar. No segundo seguinte eu já estava apaixonada. Não sabia onde ele morava, nem quantos anos ele tinha. Não sabia nem o seu nome, mas eu o amava e só esse amor já me bastou para o resto do dia. Alguns meses se passaram e eu revi o surfista plantado num ponto de ônibus a esperar. Eu passei de carro e meu pai dirigia tão rápido que mal deu tempo de pensar em lhe oferecer uma carona. Também, naquela época, me faltava tal audácia. Meu pai me levava pro curso de inglês, era o meu primeiro dia de aula e eu que já pensava em ser escritora, mentalizei a cena da carona durante todo o trajeto para o curso. Cheguei até a pensar que ele estivesse indo para o mesmo lugar que eu. Quem sabe não era meu colega de turma? Sentei na primeira fila, abri o caderno e o livro. Quando um quarto da aula já tinha se passado eis que a porta se abriu e quem entrou? Ele mesmo. O surfista, que não posso revelar o nome por questões éticas. O fato é que se antes, eu já achava que ele era o homem da minha vida, agora então, eu tinha certeza. Meu inglês que nunca foi bom ficou pior ainda. Eu não concentrava nas aulas e tinha vergonha de pronunciar as palavras erroneamente. Daí, entrava muda e saía calada. O surfista me intimidava pela sua presença e pelo impecável inglês californiano. Eu ia de mal a pior no curso. Até hoje tenho certo bloqueio para a língua. Estudamos por longos 8 semestres. Ele se formou com louvor e eu como se fosse uma aluna mediana. Justo eu que sempre fui nerd. Ao longo desses oito semestres, eu me aproximei um pouco, mas nunca tive coragem de me declarar. Nesse meio tempo, ele me convidou para surfar, eu planejei uma festa surpresa num dia de aula para celebrar o seu aniversário e ele teve um namoro relâmpago com uma das minhas melhores amiga da época. Ela, claro, não fazia idéia do amor que só eu sentia e ninguém mais sabia. Levei dez anos pra beijá-lo na boca. Mas aí, já não era mais amor, já não era mais platônico e eu não era mais a mesma menina que acreditava na eternidade de um sentimento. Beijei por curiosidade e tesão mesmo e contei pra ele do amor platônico que eu senti no passado. Ele achou graça, eu também e nós ficamos amigos. E eu nunca mais o vi desde então, mas até hoje eu tenho as boas vibrações que este amor me trouxe. Hoje comemora-se o centenário de Vinícius de Moraes, o homem que amou eternamente todas as mulheres que se relacionou. Com a mesma intensidade, com a mesma entrega e sem medo do inevitável - até para os mais precavidos - sofrimento do fim.  Há quem diga que Vinícius era um mulherengo, um inconsequente. "Como pode um homem amar tantas vezes à tantas mulheres?". Há quem pense que ao contrário de um amante intenso, Vinícius era um sem vergonha, um colecionador de corações partidos. Afinal, "O amor verdadeiro só acontece uma vez." Eu acho que Vinícius era apenas o portador de um coração imaturo. Um coração que não aprende com o sofrimento de experiências anteriores, que ingenuamente repete sempre a mesma história sem guardar rancor, remorso ou arrependimento.  Que se apaixona, se joga na relação como como se aquela fosse a primeira. Um coração de criança esperta, que sabe bem que não se sai imune nem da vida nem do amor. Que bom que existiu um Vinícius porque os corações maduros são chatos demais e não têm boas histórias pra contar.  
Amor - Vinícius de Moares
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos,amor, tomar thé na Cavé com madame Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
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Rain drops keep falling on my head, e eu amo isso...
18/12/2017 | 18h05
Durante boa parte da minha infância, eu dividi o quarto de dormir com a minha avó materna. As camas eram colocadas contra a parede. Minha avó na parede esquerda, eu na direita e entre nós, a janela gradeada. Antes de deitar, todas as noites, ficávamos as duas, por alguns minutos, observando a lua. Dependendo da época do ano, ela aparecia bem de frente à janela, exatamente na fresta entre os dois prédios da rua de trás. Mas havia um período, não sei se inverno ou verão, em que podíamos ver apenas a luz da lua cheia refletida na parede da cama da minha avó. Era nessa época, que nós nos debruçávamos na grade chamando pela lua na esperança dela nos libertar da monotonia das noites tijucanas.
"Lua, oh Lua... minha avó cantava". Eu me sentava com as pernas por entre as grades de alumínio contorcendo meu corpo e esticando ao máximo meu pescoço para alcançar a lua com os olhos.
Passados quase 25 anos, eu e minha avó ainda fazemos o mesmo ritual. Já não dividimos o quarto, as janelas não tem mais grades e o chamar pela lua não me faz o mesmo sentido que fizera na minha infância. Mas onde quer que estejamos, sempre quando anoitece olhamos a leste a procura da lua. E se é dia e há nuvens, desvendamos suas formas e intenções. E se chove, procuramos uma janela para ouvir o som do choro do céu. Se é alegre, se é triste. Qual música a garoa toca? 
Se o dia é branco pensamos no azul da melancolia e no que se pode cair daquele céu contínuo, sem intervalo nem espaços de luz vazante. Disco voador? Pipa perdida? sacolas plásticas de super mercado?
Se o dia é azulado de sol quente, sem nuvens, rezamos pelo cinza refrescante e para que caia algo além dos pára quedas.
E sempre quando faz sol, quando a lua nasce, quando o dia está nublado ou quando chove, eu tenho lembranças da minha avó. Do cheiro das primeiras gotas de chuva caindo no calçamento quente e evaporando até a minha janela. Do dia em que eu e ela voltámos a pé da escola, estava quente, céu limpo, mas no meio da caminhada, que não durava mais de 20 minutos, o céu enegreceu e chorou por todo o caminho restante, encharcando nossas roupas e minha mochila. Naquela tarde, chegamos em casa ensopadas, mas antes de entrar no prédio, minha avó sugeriu que eu abrisse a a boca o máximo que eu pudesse, colocasse a língua para fora para beber o choro do céu. Eu me surpreendi porque as lágrimas não eram salgadas e fiquei pensando se quem bebe chuva ácida, daquelas que caem no Japão, precisa tomar um antiácido logo em seguida.
O céu me traz memórias dos cinco sentidos e do que me faz mais sentido na vida: o amor (da minha avó).
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Nossa Senhora em seu manto azul
16/11/2017 | 20h56
Nossa senhora e seu manto azul
Nossa senhora e seu manto azul
Éramos vizinhas e quase todos os dias quando saía de casa, me encontrava com ela nas ladeiras que dão acesso ao meu prédio. Eu, desleixada e distraída, quase sempre sem batom, quase sempre com o celular nas mãos. Descia a rua feito um foguete, atrasada para compromissos sem importância e com os olhos na tela e a cabeça nas mensagens e curtidas virtuais.
Diferente de mim, ela estava sempre impecavelmente maquiada. Como se acordasse e a primeira coisa que fizesse, fosse colocar um sonho no rosto em forma de cor. Igualmente a mim, ela vivia absorta ao cotidiano. Com seu olhar longe, pouco ou quase nada interagia com os transeuntes.
Sua atenção era para os perigos da rua. O resto, todo o resto, podia esperar.
Nunca soube seu nome. Nunca lembrei de perguntá-lo.
Fernanda. Hoje eu sei. Preferia nunca ter sabido.
Por poucas vezes, tentei puxar uma conversa. Saber porque estava na rua, se tinha família próxima. Se estava com fome. Uma dessas vezes, dei a ela um batom que vivia há muitos perdido na minha bolsa.
Ela sorriu. Ela sempre sorria e logo depois, sumia do rosto deixando apenas o sorriso congelado em forma de disfarce. Para voar bem longe das questões terrenas de Copacabana.
Um dia ela sumiu de verdade. De sorriso e corpo. Não dormia na ladeira da Coelho Cintra, nem no matagal próximo ao Rio Sul. Achei que tivesse morrido. Ou reencontrado a família.
Depois de um bom tempo, apareceu barriguda. Estava arredia. Não deixava a gente se aproximar. Conversava sozinha com a veemência dos que carregam a dor. Tinha parado de sorrir, mas ainda usava maquiagem. Ainda se vestia do sonho diário para enfrentar a vida.
E eu, sempre distraída, sempre preocupada com reuniões e encontros sem importância, desencontrei do tempo que nos afastou.
Não sei o que foi feito daquele feto. Não sei o que foi feito daquele corpo. Daquele sorriso. E eu só me importava com isso, nos breves instantes em que cruzávamos uma com a outra, quando eu abria mão de olhar para o meu celular para fitá-la.
Ela já não dormia mais nos arredores. E de pouco em pouco, de quando em quando, vi sua barriga crescer e decrescer.
Agora, só encontrávamos quando eu passava próximo à Duvivier. Ficava por ali, na Nossa Senhora de Copacabana, com sacolas de panelas bem ariadas, suas roupas e maquiagens.
Um dia, dirigia meu carro quando parei no sinal. Olhei para o lado. Estava ela. No meio da calçada, na Nossa Senhora de Copacabana, enrolada num manto azul com uma touca branca na cabeça e um batom vermelho, que jurava ser o que eu tinha lhe dado. Os lábios cerrados não sorriam. E ela olhava para o horizonte como se esperasse a volta do seu pensamento.
E eu, que sou descrente de deus, vi Nossa Senhora. Majestosa Nossa Senhora num manto azul na Copacabana.
Saquei aquilo que tinha nas mãos e tirei-lhe uma foto. Digna de um altar.
Hoje descobri que ela foi assassinada por dois marginais. E por causa deles, descobri seu nome estampado nas manchetes.
Agora eu choro pelas poucas vezes que insisti na conversa, por não saber por Fernanda, quem era a Fernanda, e principalmente, por não ter voado com ela pela estratosfera de Copacabana.
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Filmes, Catástrofes e Tecnologia
06/11/2017 | 16h04
Igreja de São Jorge, RJ
Igreja de São Jorge, RJ
A primeira, das sete profecias Maias, destina o fim do mundo para o dia 21 de Dezembro de 2012. Astrólogos, tarólogos e até Hollywood já deram suas versões para o fato. Místicos, mães de santo e videntes profetizam catástrofes naturais ao longo dos anos como uma forma de preparação da terra para o grande dia.
 
As previsões são divergentes, mas todos concordam com uma coisa: o mundo não irá acabar como no filme 2012. 
 
O que acontecerá no dia 21 de Dezembro será o início de uma nova era. Um novo tempo onde o materialismo e a dor estarão banidos do universo, e a convivência harmônica entre os seres humanos e o planeta será definitivamente estabelecida. É o que dizem. Confesso que eu nunca acreditei na profecia Maia, nem em São Malaquias, Nostradamus ou nos três milagres de Fátima. Atualmente, o único presságio que ponho fé é o de minha mãe, que sempre disse ser a tecnologia a grande responsável pelo fim do mundo. Minha mãe, que temeu o bug do milênio, por diversas vezes, profetizou que o fim dos tempos viria na velocidade catastrófica das inovações tecnológicas e principalmente da internet. Seríamos, num futuro próximo, dominados e massacrados pelas máquinas que criamos, dizia ela. Os prognósticos de mamãe nunca chegaram aos pés de James Cameron e seus Exterminadores do Futuro. Ela, diferente do cineasta, acredita que a vitória das máquinas sobre os homens será bem mais sutil. Os homens tornarão escravos das máquinas que criaram, vendendo seu tempo e convívio com o presente em troca das alegrias fugazes de "likes" nas redes sociais. Verão o nível de stress e a velocidade do tempo aumentar incontrolavelmente a medida que se preocupam com a aprovação de desconhecidos. As relações humanas estarão cada vez mais dependentes da internet e da tecnologia. E o lançamento veloz e constante de produtos será o grande responsável pelo aumento do lixo de obsoletos. Sempre tive ressalvas à teoria apocalíptica de dona Suzy. Demorei a acreditar que ela pudesse estar certa. Achava que em parte ela tinha razão. Principalmente no que diz respeito à quantidade de lixos e obsoletos que produzimos diariamente, por conseqüência das inovações tecnológica. Mas, eu nunca acreditei que a internet seria a responsável pelo fim do mundo. Nem que este fim, assim como os Maias profetizam, estaria tão próximo. Muito próximo. E se muitos acreditam que os Maias acertaram a data do juízo final, eu acredito que minha mãe prenunciou como deus fará o acerto de contas. Faz um ano que o site WikiLeaks ficou famoso ao publicar uma série de documentos sobre possíveis crimes de guerra cometido pelo exército dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque. Julian Assenge, o fundador do website, foi, logo em seguida, acusado de crimes sexuais. O WikiLeaks sofreu pressões e sanções financeiras. Em retaliação, o grupo de hackers Anonymous, atacou as empresas Visa, Mastercard, Amazon e PayPal, além do site da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Segundo a OTAN, o Anonymous é uma ameaça ao mundo. A publicação, também no WikiLeaks, dos telegramas da embaixada norte-americana sobre os abusos de corrupção e nepotismo envolvendo o governo da Tunísia foi a gota d’água para que a população se revoltasse e derrubasse o poder ditatorial de Bem Ali, no início deste ano. Estava inaugurada a Primavera Árabe, que só em 2011 derrubaria mais dois governos ditatoriais. O Egito e a Líbia. Além do website, as redes sociais, Facebook e Twitter se tornaram fundamentais na organização e sensibilização da população para a derrubada do governo no Egito e a disseminação dos descontentamentos mundo afora. Manifestações na Líbia, Argélia, Iêmen e vários outros países do Oriente Médio e Norte da África também foram organizadas pelas mídias sociais. Greves, comícios e motins, como o ocorrido na Tailândia em abril deste ano, igualmente se beneficiaram das facilidades da tecnologia. A velocidade e o alcance da internet foram essenciais para que movimentos como o Occupy Wall Street , em Nova York, ganhasse notoriedade e a adesão mundial. Ottawa, Berlim, Roma, Londres, Hong Kong, Sydney e Tóquio criaram suas versões para os protestos contra as ganâncias corporativas e as injustiças em geral.   O poder da tecnologia e a da internet é tamanho, que na semana passada, a CIA - agência de inteligência norte-americana – admitiu monitorar as redes sociais no mundo todo em busca de ameaças à segurança do país e informações da opinião pública sobre o governo americano. Não há como negar: O fim do mundo, assim como o conhecemos, está mesmo próximo. Não sei se 2012 será a data certa para a extinção destes tempos de corrupção, abusos de poder e ganância, mas acredito que estamos vivendo o início do fim e que a minha mãe, a internet e a tecnologia têm muito a ver com isso.
 
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Se a praia fosse de Quixote...
06/11/2017 | 14h53
Praia do Sancho
Praia do Sancho
Era uma travessia, a nado, de ponta a ponta da praia do Sancho. A chance derradeira de provar às cinco amigas que eu não era tão covarde quanto parecia naqueles quatro dias em que viajávamos juntas pelo arquipélago de Noronha. Já havia fracassado no mergulho com cilindro e sofrido um ataque de histeria ao topar com uma saparia no banheiro do hotel. As cinco amigas se diferenciavam de mim em algumas coisas cruciais para a viagem: nadavam como atletas e gostavam de batráquios. A mais mística delas, colecionava porcelanas sapais que beirando a perfeição, faltavam só coaxar na estante da sala. O guia, que nos acompanhava no passeio à praia, prometeu um mergulho com os golfinhos, que segundo seus cálculos, cruzariam a baía dentro de uma hora. Era esse o tempo que eu tinha para vencer o meu medo de mar, e acompanhar as meninas na travessia marítima. Ao sinal do guia, as cinco destemidas, correram para a rebentação. Eu hesitei no primeiro momento. Ofereci-me a tomar conta de nossas carteiras e roupas que ficariam sozinhas na areia, mas não tive muita persuasão, uma vez que a praia estava deserta, seu acesso era difícil e a luz do dia começava a cair. Provavelmente não apareceria mais ninguém para se banhar ou simplesmente pegar nossas coisas.
A areia era um lugar seguro, tanto para as carteiras, quanto para mim. As meninas, além quebra mar, insistiam e eu, com os pés enterrados na areia movediça, pensava que agora não me restaria outra alternativa a encarar o mar aberto. O guia percebendo o tamanho do meu medo e o quanto ele poderia atrapalhar o passeio do grupo, se ofereceu a me acompanhar, segurando a minha mão, durante toda a travessia. Aceitei de prontidão, afinal eu tinha um pequeno e pesado problema e dividi-lo, facilitaria por demais no cumprimento da minha incumbência. Ninguém na praia tinha percebido, mas eu carregava nas costas toda a gordura de Sancho Pança, que, aliás, não era pouca. Sancho tinha uma missão: Precisava levar umas encomendas para Dom Quixote, do outro lado da praia, e quando me viu relutante na areia, pediu para ajudá-lo. O guia me dizia para ficar esperta. Não podíamos dar bobeira com as ondas cada vez mais altas. Era preciso esperar o recuo do mar, mergulhar bem fundo, prender a respiração e avançar assim que a onda gigante passasse por nós. Foram duas ondas. O Sancho até que colaborou no primeiro mergulho porque ele ainda conseguia ficar de pé. Mas no segundo, aquele homenzinho pesado pulou das minhas costas e nadou de volta pra areia. Eu soltei a mão do guia e fui em direção à areia, como fazem os amigos leais. Não sei se o guia conhecia Sancho Pança, nem muito menos Dom Quixote, mas seguindo os passos de um fiel escudeiro, ele nadou de volta a areia e juntou-se a nós. As meninas já estavam em alto mar acenando com ansiedade. Foi quando o guia me olhou nos olhos, repetiu as orientações e perguntou se poderíamos tentar novamente. “Claro que sim!”. Respondi sem hesitar e lá fomos nós mar adentro. Passada a rebentação, alcançamos as meninas e começamos a trajetória. Todos juntos. O guia de mãos dadas, e Sancho Pança se equilibrando nas minhas costas. Ele não podia se molhar porque carregava uma bolsa cheia de roupas, comidas e remédios de Quixote, o que o deixava ainda mais pesado. Por um instante, me esqueci onde estava e nadei com a felicidade daqueles que estão prestes a cumprir a mais importante e honrada de todas as tarefas. Debaixo de mim, tubarões lixa nadavam a uma curta distância, mas eu não me incomodei. A alegria em acompanhar Pança a uma missão dada por Quixote era maior do que qualquer boca dentada de um tubarão. O guia me olhava a toda hora fazendo um sinal de "ok" com os dedos. Eu estava confiante, e percebendo minha calma, o guia soltou minha mão. Na hora não me importei. Afinal tinha a companhia de Pança. Eu usava uma máscara e um snorkel, só olhava para baixo e nadava muito forte. E assim prossegui por alguns minutos. Num momento da trajetória, levantei a cabeça para fora d’água e percebi que as meninas se afastavam vertiginosamente a cada braçada e que o guia já tinha desaparecido no horizonte. “Calma, está tudo sob controle!” Eu pensava em não pensar. Mas como é difícil a proeza de esvair da cabeça o peso do pensamento. Sancho se equilibrando em minhas costas também incomodava um pouco. Ele estava bem acima do peso para sua pouca estatura e ainda por cima, carregava consigo as comidas, os remédios e as roupas de Quixote. Ah, e claro, o mais pesado de tudo: sua adarga de ferro maciço. Eu ainda não tinha me dado conta de quanto pesava aquele escudo, que não podia tocar o mar a fim de evitar o sal corrosivo. E ao contabilizar o peso que carregava nos ombros gritei: “SOCORRO!!!!” Somente minha amiga Natália ouviu nosso apelo e nadou em nossa direção. Eu disse a ela que precisava voltar pra areia. Ela nadou depressa até alcançar o guia que veio nos salvar. Era o fim da missão de Pança. As meninas continuaram na água e o guia me deu novas instruções para passar a rebentação sem levar um caldo. As ondas estavam bem mais altas do que quando entramos no mar. Sancho se agarrou nas minhas costas com firmeza. Esperamos alguns minutos por uma onda mais fraca. Mergulhamos fundo, e nadamos depressa até a beira d’água. O guia voltou para trazer as minhas amigas. Era o fim da missão delas também. Não tinha mais Dom Quixote, nem mergulho com os golfinhos. E como fazem os bons amigos, ninguém tocou mais nesse assunto até o fim da viagem. Sancho Pança tinha os pés no chão e a realidade na cabeça. Por isso, ele pesava feito chumbo. Carregá-lo nas costas foi uma impossível tentativa de esquecer o meu medo de mar e nadar com os golfinhos. O bom disso tudo é que assim como Pança, eu tenho fiéis escudeiras. Amigas com a leveza dos sonhos de Quixote, que apesar de conseguirem nadar, não se importaram com o peso da minha realidade. Quem sabe noutra praia, com outro nome.
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Solidão
24/07/2017 | 22h24
casca de ovo
casca de ovo / MLM
A casca do ovo, de tão grande, grudou na embalagem. Não saiu nem por reza. O ovo gigante destoava dos outros pela casca mais clara e obviamente, pelo tamanho. A tampa de isopor ficava com uma pequena protuberância no lugar onde o ovão bravamente resistia a se tornar ingrediente de um bolo de cenoura ou omelete. O menu não passava muito disso, e como eu não faço bolo e não gosto de omelete, ele viveu por mais de um mês na geladeira. Ao longo do tempo, Consumi os outros 11. Ora mexidos com salsa e manjericão, ora pincelados por cima de uma massa de pão de batata doce. Todas as vezes que precisei de ovos, tentei usá-lo, mas ele permanecia grudado feito dedos de criança quando brinca com super bonder. Então, eu fui deixando o teimoso, no solitário castigo da geladeira escura e fria. Achei que tivesse passado do tempo. Não faz só um mês, faz quase dois que comprei esta caixa. Deve estar podre, quebrado por baixo ou algo parecido. Antes de jogar o ovo no lixo, resolvi aproveitar, ao menos, a generosa quantidade de cálcio disponível naquele baita para adubar as plantas. Quando eu quebrei a casca, me dei conta que sozinha estava eu. Sobrando num apartamento de 100m2 enquanto dois dividiam o cubículo. Chorei.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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