Espólios
30/06/2017 | 10h50
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"Rogério me deve R$120,00, 3 doses de proteína e um pote de plástico." "Anderson nunca me devolveu a camiseta que eu comprei numa lojinha de um cinema em Rabat." "Foram um edredom, algumas roupas e uma conta na padaria de R$500,00. Ele se mandou deixando na porta da minha casa, um fusquinha azul que de tão velho não deu nem pra pagar a conta da padaria." Durante um período na minha vida, colecionei espólios do fim de relacionamentos alheios. Perguntava a amigos, conhecidos e pessoas que dificilmente encontraria novamente, qual a dívida deixada pelo ex-amor. Restos de sentenças, frases não ditas e coisas. Interessavam-me as coisas. Objetos que o outro se apossou e nunca devolveu me diziam muito mais sobre aquele relacionamento do que os sentimentos e as promessas feitas, jamais cumpridas, guardadas com todos os detalhes na última instância do rancor do entrevistado. A caneca do Fluminense que o parceiro “roubou”e nunca devolveu. A assadeira de alumínio do último frango com batatas. O conjunto de chaves de fenda que pendurou o quadro estopim do término. Para escrever esta crônica, me pus a pensar nas minhas próprias pequenezas e nos espólios dos meus ex-amores. Lembrei de um shampoo importado que ganhei de uma amiga, que me trouxe de Paris naquela época em que pouquíssimas pessoas, pelo menos das que eu conhecia, passava férias em Paris. O shampoo ficou perdido na casa dos pais do desafeto que por motivo contundente fiz questão de nunca mais falar. Hoje, o desafeto mal é lembrado. Mas o shampoo, este me faz falta. O cheiro, a textura dos cabelos, o toque sedoso depois da lavagem. Lembro como se fosse hoje. Posso e acredito que devo estar mesmo supervalorizando sabão de lavar cabelos. Vai ver o shampoo nem era tão bom assim. Mas em se tratando de fins, vale mais uma malquerença bem valorizada do que um aprendizado isento de mágoa.
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30!
27/06/2017 | 17h41
Em Janeiro deste ano li uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna com o título Fazer 30 anos. Sant’Anna começava o texto contando que naquela semana, quatro conhecidos entrariam na fase balzaquiana. Todos eles estavam extremamente preocupados com isso. No dia 17 do mês passado, foi a minha vez de celebrar os 30 anos e sentir a tal gravidade no falar que Sant’Anna escreveu. Quase todos os amigos e conhecidos que encontrei naquela semana, comentavam com pesar na voz sobre o fardo da passagem de ano. “Você vai ver, é uma mudança e tanto. Você dorme com 29 e acorda bem diferente no dia seguinte”.
Eu não sentia nada tão significativo assim. Na verdade, até poucos dias antes da celebração, não dava a mínima para opiniões sobre o assunto. Achava que fazer 30 anos era o mesmo que celebrar 29 ou 28. Apenas mais um dia para comemorar, mais um ano de vida. Esse discurso desencanado mudou no exato momento em que ao me olhar no espelho, às vésperas do meu aniversário, encontrei um fio de cabelo branco bem perto da testa. Aquele não era o primeiro.
Já havia aparecido uns poucos outros, alguns anos antes. Mas a diferença é que os fios anteriores foram encontrados na parte traseira da cabeça e por um cabeleireiro que cortava meu cabelo. Pode parecer um pouco dramático tudo isso que estou narrando, mas só quem já tem cabelos brancos entende a dramaticidade de descobrir por si só, um fio branco na testa. É uma invasão de privacidade sem tamanho. Corri imediatamente para o salão e eliminei o inimigo que poderia arruinar a minha entrada triunfal na casa dos 30. E quando acreditava ter vencido um princípio de crise, fui novamente desafiada pelo espelho do banheiro. No dia 17 de agosto, enquanto passava filtro solar no rosto percebi uma leve linha, ainda tímida surgindo entre as sobrancelhas. Não tem jeito. Pensei. Estou ficando velha. Naquele instante, a crise dos 30 que eu acreditava estar imune, surgiu como um raio emergindo do reflexo da ruga recém nascida direto para lobo frontal do cérebro. Comecei a pensar em todos os comentários e pressões sociais que havia ouvido durante as semanas que anteciparam ao dia 17.
A sociedade espera que você chegue aos trinta anos casada, com pelo menos um filho, e intenções de encomendar o segundo. Sua carreira deverá estar consolidada e você precisará ter ao menos entrado num financiamento para a compra da casa própria. E quando você tem o "agravante" de ter nascido mulher, ainda temos o peso de realizar tudo isso exibindo cabelos lindamente coloridos e botox para esticar as rugas. Eu não tinha, e pior, nem queria ter, nenhum dos requisitos merecedores para o upgrade na idade. E embora me preocupasse com os cabelos brancos e as rugas, sabia que demasiada preocupação só ajudaria a fortalecer o estereótipo feminino da mulher extremamente objetificada. Eu estava longe, bem longe do que a sociedade esperava de mim aos 30 anos e mesmo sem "merecer", me tornei uma balzaquiana. Sempre ouvi que fazer 30 anos era bem diferente de fazer 15, 18 ou 21. Uma tia de Belo Horizonte dizia: "aos quinze você é apresentada a sociedade. Aos dezoito é introduzida ao mundo das quatro ou duas rodas. Aos 21, as verdadeiras responsabilidades se apresentam", mas é aos 30 que a sociedade a qual, segundo a lógica da minha tia, você foi introduzida há 15 anos, começa a te cobrar uma série de realizações e expectativas. E é por isso, que muita gente pira! A minha fulgaz crise dos 30 durou bem menos que um minuto. O tempo que usei para espalhar o filtro solar. Embora estivesse me tornando uma trintona naquele dia, não me sentia uma velha frustrada por não ter realizado nenhuma das expectativas alheias. Na verdade, eu estava muito feliz com as minhas realizações e desejos. O que me salvou do desespero foi relembrar o texto de Sant’Anna. O autor concorda que os 30 anos são uma idade de um início de maturidade. Ele também espera que, aos trinta anos, já se tenha tido filhos, marido casa própria e carreira próspera. Só que a diferença é que para o cronista, há quem faz 30 anos aos 30, há quem faz aos 40, há quem morra sem nunca ter feito trinta anos (meu caso). A idade da realização, assim como a sociedade a conceitua, é muito relativa. As realizações, assim como a queremos, também é bem relativa. O que não se pode, é deixar-se levar pelas expectativas alheias e esquecer-se das próprias. A velhice não chega necessariamente aos 30 anos, nem aos 70 anos. Para muitas pessoas, ela vêm bem antes. Foi aí que ainda espalhando o filtro solar e brigando com a ruguinha recém nascida eu pensei: É bem provável que este cabelo branco já estivesse aí faz tempo, assim como a ruga. E eu ainda me considerava jovem, sem tê-las visto. Foram as expectativas alheias que me fizeram vê-las só agora. Menos mal.
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Amor e Dor
11/04/2017 | 15h31
mariana luiza
amor e dor / mariana luiza
Toda dor é um processo inflamatório
Todo amor é um processo flamatório
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Tão perto, tão distante
02/04/2017 | 21h58
Luz no fim do túnel
Luz no fim do túnel / Mariana Luiza
Tão perto, tão distante
A Nasa descobriu um novo sistema. Sete planetas na órbita de uma estrela vizinha à 39 anos-luz da terra.
Há quantos milênios estes sete planetas e tantos outros orbitam estrelas desconhecidas?
O que mais menosprezamos por nossa escassez tecnológica?
Por nossos telescópicos limitados?
Arqueólogos descobriram uma estátua de um faraó soterrada por lama, esgoto, palafitas e favelados.
Quantas outras riquezas arqueológicas estão sepultadas mundo afora porque não temos um equipamento ultrassônico capaz de revelá-las?
Quantas vidas invisíveis perseveram precariamente por cima de um monumento faraônico?
Um antiquário antiquado. Tão perto, tão longe.
Nossa vista alcança pouco além do estratosférico, nada além a camada do solo. Quase nada do que lhe é adverso.
O que mais preterimos por nossa cegueira?
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Homem do Saco
21/02/2017 | 18h15
Minha avó morou na casa dos meus pais desde que eu nasci. Era ela quem cuidava de mim e do meu irmão enquanto os dois trabalhavam. Quase todas as minhas memórias de comida durante a infância têm o dedo da dela. O cheiro do alho socado torrando na panela para fazer o arroz. O bolo de laranja que perfumava toda a casa. Vários cheiros e sabores da minha infância que me remetem imediatamente a minha avó.
Dona Diva cozinhava brilhantemente. Fazia uma carne moída com batata que ninguém faz igual. Uma receita simples, sem segredos ou temperos extravagantes. Um tradicional refogado de carne moída com batatas cortadas bem pequeninas de sabor, textura e formato diferente de todas as carnes moídas com batata que já provei na vida.
Ninguém que eu conheça sabe cortas as batatas em formas triangulares tão perfeitas e proporcionais ao moído das carnes como a minha avó Diva. Acho que esse era o segredo.
Ela tinha um caderno de culinária onde anotava as receitas do manjar de côco e pavê de biscoito champanhe que ela sempre fazia pro natal. Eu adorava folheá-lo, muito mais interessada na sua grafia, que era linda, e nas figuras que ela recortava das revistas para ilustrar as anotações, do que nas próprias receitas.
Cresci gostando de escrever e sem saber cozinhar.
Nas manhãs, de segunda a sexta, minha avó repetia a rotina de preparar o arroz fresquinho. Eu contava as horas, e sentava na mesa da cozinha fingindo fazer companhia, quando o que me interessava mesmo era comer o arroz torrado. Antes de colocar a água fervendo, ela passava uns bons minutos torrando o arroz numa panela cheia de alho amassado. E eu, ansiosa, esperava na beira do fogão, mendigando uma colherzinha de chá que fosse daquele arroz antes da água. Minha avó era uma senhora bem mesquinha. Dessas que esconde moedas e nega colher de chá de arroz pros netos. Muitas vezes, eu precisava roubar escondido quando quisesse alguma quantidade satisfatória. E para evitar que eu comesse demais, ela sempre contava uma história de uma vizinha que por comer muito arroz cru, teve os ouvidos e orifícios do nariz tomados por chumaços de brotos de arroz que germinavam pelo estômago e saiam pelos buracos do rosto. Outra vez contou algo semelhante sobre um ramo de feijão que nasceu no umbigo da neta de uma colega. Eu não ligava muito e continuava a praticar minhas artimanhas para roubar um pouco do arroz torrado. Minha vontade era maior do que o medo. Mas tinha uma outra história, contada por minha avó e também relacionada com comida, que me assombrou por muito tempo. 
Fui uma criança que nunca comeu cachorro quente. Provei já adulta, mas até hoje tenho ressalvas.
Para evitar que eu e meu irmão brigássemos, a gente brigava de se espancar, dona Diva nos ameaçava dizendo conhecer o homem do saco. A briga começava e lá ia ela em direção ao telefone, dizendo que ia ligar para o tal colega. O homem do saco perambulava pela cidade catando crianças desobedientes para fazer salsicha.
Conclusão: Desistir de brigar? Nunca.
Eu e meu irmão sabíamos que a avó não teria coragem de ver seus netos transformados em em salsichas... mas daí a comer coleguinhas nas festinhas de aniversário... Nem pensar.
Eu lembro que nas festas de aniversário dos amiguinhos de colégio, quando os pais serviam cachorro quente, eu ficava horrorizada com tamanho descaso e falta de amor com às crianças desconhecidas. "O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes...
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Dois de Fevereiro
02/02/2017 | 12h21
Fazia um tempo que já não acreditava em deus. Fora devota de Santo Antônio e São José. Dessas de fazer promessas mirabolantes como caminhar 100 quilômetros a pé ou distribuir 50.0000 folhinhas com orações do santo. Levava a sério suas promessas. Tratava os santos com respeito e admiração. Nunca colocara um santo de cabeça para baixo ou dentro do congelador. Reservava apenas para si penitências astronômicas e por muitas vezes, dolorosas, física ou financeiramente. Tudo que pedira, fora realizado. E a cada nova promessa, aumentava o número de folhinhas para o devoto e dificuldade da penitência a ser cumprida.
Um dia, sem explicação, num movimento rápido e seco como são as notícias inesperadas que mudam o rumo das vidas, ela acordou não acreditando mais em deus e nos santos. Acordou sem fé. Arrumou as gavetas e o armário. Jogou fora todos os santinhos. Resquícios de promessas atendidas no passado. Levou todas as imagens que tinha para a igreja de São José. Tinha uma coleção de imagens respeitável. Um oratório para cada santo dispostos lado a lado num aparador de 3 metros. São Francisco de Assis, São Benedito, São José, Nossa Senhora Aparecida e Santa Teresa reinavam na antessala que agora parecia abandonada. 
O mar estava calmo, a casa arrumada, os filhos encaminhados, o marido feliz no emprego. Tudo parecia na mais perfeita harmonia e organização. Como ela sempre sonhara a até então não havia conseguido. Sempre lhe faltava algum detalhe para alcançar o tão sonhado equilíbrio na vida familiar. O marido ser promovido, o filho decidir pelo curso do vestibular, o dinheiro para comprar aquele sofá igualzinho ao da novela.
Agora, nada lhe faltava. A vida estava enfim do jeito que ela planejara. Era motivo para ir a igreja, agradecer aos santos, mandar rodar 5000.0000 santinhos de cada santo de devoção. Mas o invés disso, ela acordou descrente. O sofá estava comprado, o filho inscrito na faculdade de medicina e o marido ganhado 20% a mais de promoção e ela acordara cética. Saiu de casa cedo para trabalhar, dentro do ônibus passou pela igreja da Candelária, e pela primeira vez desde a primeira comunhão, não fez o sinal da cruz. Não bateu na madeira quando uma colega de trabalho disse que o salário poderia atrasar naquele mês. Não rezou para agradecer pelo almoço daquele dia. Nunca deu explicações sobre essa mudança repentina de comportamento. Simplesmente, porque as tinha. A fé é exatamente igual ao ceticismo. Não há explicação racional ou lógica. E assim, descrente, foi levando a vida. Histórias de fé não a comoviam mais. Nem na sorte de um cílio caído na maçã do rosto ela acreditava.
O filho agora clinica em consultório próprio. O sofá já fora trocado por um modelo de couro caramelo. O marido estava prestes a aposentar. E ela continuava descrente. Pegou um ônibus para o centro da cidade. Era Dois de Fevereiro e isso não lhe dizia muita coisa. Desceu próximo ao cais do porto e cruzou por uma procissão de devotos, filhos de santo e curiosos. Todos saldando a rainha do mar. De repente, ela se viu rodeada de um azul celeste que ornamentava o céu, as roupas, os barquinhos da procissão, as contas do colar da menina, o mar. O mar da Baía de Guanabara, bem próximo a Praça XV, na concentração das barcas, aquele mar escuro, preto de dejetos e esgoto lançados, sujo de óleo das embarcações, estava inacreditavelmente azul. E lindo. 
Foi naquele instante, brusco e inesperado, assim como os instantes em que nos apaixonamos, que ela se enamorou por Iemanjá. Não virou devota, não retomou sua fé. Continuou cética com a vida, com os santos, com os deuses e orixás. Não comprovou imagens da rainha, não fez Bori, nem oferenda. Nunca lhe fez uma prece. Mas todo Dois de Fevereiro ela não abre mão de ir junto ao mar e molhar os pés nas águas celestes ou escuras da Baía de Guanabara.
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Resoluções de fim de ano
22/01/2017 | 01h21
Sou leonina, com lua em Peixes e ascendente em Escorpião. Nem meu signo solar, muito menos o lunar e o ascendente explicam minha mania de listas. Ela vem de algo mais profundo e negligenciado pela astrologia. Eu tenho mãe em Virgem. FullSizeRender-2 A psicanálise freudiana pode tentar explicar a minha necessidade de ser tão detalhista e específica quando elenco tarefas. Tenho listas pra tudo em todos os cantos. Nos celular, um bloco de tarefas permanente, intitulado Pendências, onde enumero incumbências diversas como uma reunião que preciso marcar ou o anúncio que quero fazer pra vender aquele desumidificador que comprei em 10 prestações e só usei uma vez. Na bolsa, tenho dois caderninhos. O preto com tarefas e atividades do meu trabalho como vendedora: reuniões, clientes que preciso ligar, empresa que tenho que pesquisar contato. E o vermelho que registra anotações e ideais literárias, assuntos para o blog, artigos relacionados a algum tema de interesse.... No computador, no bloco de tarefas, muitas vezes reescrevo as obrigações listadas no caderninho preto. E não é incomum encontrar uma mesma tarefa relatada em listas distintas. Para organizar todas estas anotações, muitas vezes, me pego dobrando uma folha de papel A4 em quatro partes e passando a limpo as atividades mais urgentes de cada bloco ou caderno. Eu tenho mais habilidades em passar listas a limpo do que propriamente executá-las. E acabo levando para a terapia a minha eterna sensação de deveres incompletos. Tenho uma vasta lista de coisas que relacionei e planejei, mas nunca fiz. Não sei se isso tem a ver com minha lua em Peixes, acho improvável. Os peixes não procrastinam. Se organizam em cardume e cumprem suas tarefas cotidianas de seguir o destino ou a maré em busca de alimento ou local para reprodução. O mesmo fazem os escorpiões e os reis da selva. Sem necessidade de listas, cumprem o que se destinam, enquanto já passaram seis meses, minha pequena Caliandra está desfolhada e eu não liguei pro médico de bonsai, cujo telefone consta na minha lista de Pendências. Por isso, e por tantos outros motivos relacionados a ansiedade, ao excesso de informações e estímulos que recebemos diariamente, sou contra resoluções de fim de ano. Já são tantas as obrigações que ainda me dispor a mudar ou fazer coisas novas... Não. Definitivamente, não. Mas enquanto me convenço da resolução de não fazer resoluções, vou colocando nas listas e cadernos os desejos de emagrecer 11 quilos, comprar uma bicicleta para andar todos os fins de semana, voltar para o pilates, comer mais verduras, escrever semanalmente no blog, revisar o livro juvenil, finalizar o roteiro do filme, pintar o corredor do meu apartamento com alguma cor que ainda não consegui me decidir...      
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Corações ao alto
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRenderUm cardiologista da Universidade de São Paulo comprovou através de experimentos científicos realizados com dez mil voluntários, que cada coração nasce com um número certo de batidas ao longo da vida. Segundo a pesquisa, uma proteína, encontrada na membrana plasmática dos miócictos, as células do tecido cardíaco, faz o papel de ampulheta vital. O cronômetro, como foi batizada a proteína, descresse a medida em que o coração embrionário, o primeiro órgão de um indivíduo, começa a pulsar. Se aquele feto evoluir e vir a nascer, se durante sua trajetória de vida ele não morrer de acidente de carro, bala encontrada, ou doenças que não cardiovasculares, o seu coração será o único órgão a saber o dia exato de sua parada. A menos que o cérebro do dono do corpo chame para si o direito de interromper a jornada, planejando o fim de todas as pulsações. A média dos dez mil voluntários foi de 2.649.024.000 palpitações por vida. A equipe de pesquisa ainda não descobriu qual o fator determinante que prolonga as batidas do órgão em um deliberado ser, e diminui consideravelmente noutro, mas fatores genéticos são apontados como as causas mais prováveis de um número de batimentos inferior a média. Os corredores da universidade estão em polvorosa desde a publicação do artigo cientifico. Teólogos, psicanalistas e até historiadores afirmam que o excesso de amores vividos pela mãe pode influenciar consideravelmente a quantidade de batidas do feto gerado em seu ventre. Se sofreu demais, se chorou demais, se o coração desta mulher ficou pequeno e agoniado a cada fim de um relacionamento, a probabilidade do coração de seu filho bater mais é maior. Isto, porque de acordo com os teólogos, também da Universidade de São Paulo, o excesso de dor de uma mãe, pode ser compensado na extensão de vida do filho. Doutores em psicanálise, pesquisadores freudianos da mesma universidade, afirmam o contrário. Cada sofrimento, agonia, susto, angústia ou medo vivido por esta futura mãe será resolutivo na diminuição da quantidade de batimentos do coração do embrião que ela carregar no ventre. Enquanto departamentos diferentes se digladiam pela defesa de suas verdades, os alunos, principalmente os calouros, tentam proteger o coração de aventuras sentimentais. Assim, sem o risco de sofrimento, o prolongamento do destino fica um pouco mais garantido. Farmacêuticos, estudam o aprimoramento das fluvoxaminas, manserinas, mirtazapinas e reboxetinas. Um complexo que blinde o cérebro e o coração de pulsações desnecessárias. Filósofos recomendam Platão. Professores de educação física se preocupam com seus empregos. Matemáticos obsessivos calculam o tempo médio restante de dias vividos. E os loucos escancaram os corações às possíveis e impossíveis pulsações da vida. Mais vale menos dias bem sentidos, do que a eternidade vazia de emoções.
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Ovo de avestruz, Corcova de dromedário
22/01/2017 | 01h21
FullSizeRenderApareceu-lhe um nódulo nas costas. Um pequeno caroço do tamanho da ponta de um dedo mindinho, localizado na altura da escápula esquerda. Junto do nódulo, uma insuportável dor de cabeça que irradiava do caroço, subindo pelo pescoço, se alojando intermitentemente sob a sobrancelha de mesmo lado. Correu para a massoterapeuta. Não adiantou. A cada sessão, o nódulo se mostrava mais comparecente, afrontando a massagista com sua presença e dureza marcante tal como um diamante. Resolveu então procurar uma chinesa, que segundo alguns amigos e o Google, era expert em tratar das mazelas de corpos alheios. Na primeira sessão de shiatsu, a chinesa apelidou o nódulo de caroço de azeitona. Tal sua dureza, tal seu tamanho. No final do conjunto de dez sessões, cada uma com quase duas horas de muita dor e compressões, o caroço se desmantelava sob próprio fruto, tal sua maciez, tal seu tamanho. Mas não desaparecia. Parecia que aquela azeitona, ora caroço, ora fruto desencaroçado chegara para ficar. Para fazer parte daquela vida, tomar conta daquele ser e dar sentido a um corpo que pouco doía até então. Tal como uma azeitona sem caroço, um corpo sem dor, é um corpo sem sentido. É um corpo sem sentimento. Mas o padecimento crônico faz tão, ou mais mal mal do que a escassez. O corpo se torna vítima da dor. Incapaz de vivenciar qualquer outra coisa além daquela tortura. Se antes ela não chorava por motivo algum, agora só chora pela escápula dormente. Recorreu a terapia para investigar o principio de tudo. O nódulo chegou num dia atípico, um frio quase glacial de um setembro. A dona do corpo passava férias numa casa de praia em Arraial do Cabo, e acordou com uma dor nas costas irradiando para o pescoço. Tratou com pomadas para torcicolo, e procurou um médico no final da semana. O primeiro diagnóstico, um distensão muscular devido ao frio excessivo, foi tratado com antiinflamatórios. Diante da ineficácia do tratamento. Recomendou-se pomadas, comprimidos, compressas quentes e ao longo dos meses, a dona do corpo foi mudando de médicos, de técnicas de massagens, de remédios e superstições. O caroço já fazia tão parte dela, que acostumada a dor, a dona do corpo mal lembrava vida sem tal moléstia. Já chegava junho e a azeitona faria aniversário em três meses. A esta altura, a dona do corpo já havia percorrido quase todas especialidades médicas possíveis. Ortopedistas, neurologistas, fisiatras, clínicos gerais, e psiquiatras.  A nova massoterapeuta, tentou pedras quentes, cristais, manta térmica, ventosas de sucção e até choques elétricos. Os tratamentos eram apenas paliativos, amansando o caroço para os dias seguintes. O nódulo já estava bem crescido, sendo apelidado pela tal como ovo de codorna. O fisiatra o chamava de ovo de avestruz e a terapeuta dizia que o sofrimento físico se tratava de um processo psicanalítico. A dor fantasma na escápula era oriunda de uma asa podada. Cujo corpo de mente fértil e louco para voar, se via preso numa massa de carne e osso estática demais, pesada demais por carregar nos ombros todas as preocupações mundanas. Apelidou o nódulo de asa encruada. A dona do corpo saiu da sessão re fletindo sobre a última vez que voara bem alto sem o medo de estabacar no chão. Sobre quando começou a podar, por si só, as próprias asas, os próprios sonhos. Sem resposta fácil, abandonou a ideia de asa encruada preferindo apelidar a dor de ovo de avestruz. Era este o pássaro da vez. E assim, seguiu os dias corcunda, carregando seus medos e preocupações numa corcova que só crescia. De pássaro, a dona do corpo, se transformava lentamente num droMEDÁrio cercado de água. Cercado de poças, de poços e de pássaros.
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ponto e vírgula
22/01/2017 | 01h21
Ela escreve com ponto e vírgula. FullSizeRender-2Como se tudo que tivesse na vida um fim, continuasse sem a esperança da pausa eterna. Como um amor findado e não perdoado. Uma lembrança que você quer esquecer e só pelo desejo do esquecimento a faz perpetuar. Como descobrir a reencarnação no juízo final. Ou a vida e lembrança eterna no paraíso. É também uma segunda chance. Um recomeço de vida. O centímetro antes do abismo. A pausa antes do suicídio. É a possibilidade de mudar de ideia. É o segundo antes do trem chegar no fim do túnel. É quase morrer de parada respiratória. É um sofrimento que não tem fim. É uma onda do mar que congela em movimento num dia de vinte e sete graus negativos. O ponto e vírgula não é um fim, nem um começo. É o continuar do que se queria terminar. A perpetuação do trauma. Dos amores mal resolvidos. A água do rio que depois de uma longa jornada rumo ao mar, evapora no meio do caminho retornando à nascente. Ela escreve com ponto e vírgula. A pausa mais forte que a vírgula e menos que o ponto. Porque conhece bem as regras gramaticais e as regras da vida.  
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