Na Ribalta: Ator - Uma voz e uma presença
Fernando Rossi - Atualizado em 18/06/2020 13:28
Entre os profissionais de teatro, o ator é o que expõe sua personalidade, seu próprio corpo; é o que é visto e, por isso mesmo, corre o risco de desgaste do seu delicado instrumental. É um dos poucos artistas que tem seu veículo de expressão inseparável de si próprio, instrumental que envolve corpo, voz, dotes e mentalidade.
Para falar a respeito de sua história e formação, vai interessar mais olhar a evolução histórica da formação do ator, espontânea ou não, com vistas a colher os fundamentos mímicos à sua habilitação profissional, à sua suficiente atuação. Devemos, assim, conhecer experiências consumadas para entender seu melhor desenvolvimento profissional. Interessaria descobrir o ator de cada um e não impor um padrão de ator. O processo deve variar em função das necessidades e carências do aluno ator, voltado para a sua autonomia e crescimento. Uma proposta curricular para a formação do intérprete cênico deve prover experiências pessoalmente satisfatórias para cada aluno individualmente, sem, no entanto, deixar de considerar o grupo e os conhecimentos básicos desenvolvidos em todo o universo cultural e humano, oportunos ao teatro.
Da maneira geral, encontramos grande dificuldade em localizar uma história do ator: sua atividade sempre aparece diluída nas histórias do teatro, já que a ênfase está no texto dramático (um material mais permanente para pesquisa e análise) e nos grandes eventos teatrais ou que envolvem o teatro. Acrescente-se a isso à relativamente pouca preocupação com o trabalho do ator, seu significado histórico; no máximo um século.
Além da sua evolução histórica, tornou-se necessário considerar a formação propriamente dita do ator, tanto nos grandes centros internacionais quanto nos nacionais, bem como a formação que se verifica numa escola e a que se realiza um agrupamento teatral. A formação em escola geralmente apresenta um programa previamente estabelecido (programação), enquanto as agremiações livres desenvolvem uma busca em aberto, e assentada na própria experimentação.
Popular na sua origem, como a comédia Dell’Arte italiana, cortesão como o teatro tailandês, vinculado ao ritual como o da África, religioso como os autos-medievais europeus, ou confessadamente divino como o indiano, o teatro sempre foi a expressão objetivada de uma cultura, alimentando-se de mitos, lendas e costumes populares, de estilos históricos de vida e assimilando todas as formas de expressão e comunicação humanas. A atividade cênica teatral abrange um imenso panorama de formas, que vai do eletrizante espetáculo do teatro Kabuki japonês, passando pela ópera, pelo musical norte americano, pelo teatro catequese, pelos cenários despidos de acessórios do teatro nô, até o teatro pobre de Grotowski, não sem antes incluir o cinema e a televisão. Ele pode ser apresentado em qualquer espaço, tanto numa casa especialmente construída quanto nas ruas e praças. Pode ser um teatro que obedeça a rígidas convenções, ou improvisado, como o das experiências vanguardistas. Pode recriar momentos partindo de mitos, da religião, da história, ou ser de ação direta de grupos marginais.
Na Grécia antiga o ator era “uma voz e uma presença” como disse alguém, em Roma tornou-se um corpo discursivo, enquanto no teatro da Idade Média foram os eclesiásticos e homens do povo hábeis na dicção. Na Renascença o ator pretendeu tornar-se natural e dedicou-se a imitação de forma prodigiosa o que observava ao seu redor. No século XVIII exigiu-se um compromisso com a razão, e a partir daí as teorias se sucederam: Gordon Craig (1872-1966) pretendeu prescindir do ator, tornando-o uma “super marionete”, enquanto Constantin Stanislavski (1863-1938) concluiu que o ator seria o único senhor da cena.
Cumpre, portanto, conhecermos o que é ator, o comediante, e todos os problemas que envolvem, para depois concluirmos sobre o melhor caminho a cumprir na formação dessa instituição central do teatro.

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