tenho certeza de que será amanhã
- Atualizado em 12/09/2019 00:29
Tenho certeza de que será amanhã
Cândida Albernaz
Ontem não consegui me concentrar em nada. Algumas vezes fico assim, como se simplesmente deixasse o dia acabar. Quando percebo é noite e nada foi feito. Pelo menos nada de importante.
É claro que meu estado de espírito não é de graça, sem motivo. Acordei cedo e vim para o hospital. Fico muito angustiada todas às vezes. Faço isso há cinco meses, desde que tudo aconteceu.
Cinco meses! Parece mentira o tempo ter passado tão rápido. Vou falar uma coisa: é uma droga esse negócio de tempo. Se pudéssemos voltar nele, ou apenas fazê-lo parar.
Era isso o que eu queria: voltar no tempo. Então mudaria meu trajeto, minhas palavras, quem sabe trocaria de roupa, porque a que eu usava, antes não sabia, não dava sorte. As pessoas falam que isso é bobagem. “A roupa que você usa não pode influenciar em nada o desenrolar da sua vida. Está ficando louca.” E daí, se estou? Queria ficar louca. Completamente. Não precisaria colocar os pés no chão hora nenhuma. Não responderia por meus atos. Não pensaria em nada. Nada disso. O louco deve pensar muito no que o incomoda. Por isso é louco. Então não quero.
O melhor é que tiraram os fios. Incomodavam olhar. Dizem que a pessoa sedada não sente dor. Será? Duvido.
Pedem para a gente falar, conversar sozinho como se o outro fosse responder a qualquer momento. Faço isso sempre. Enquanto estou ao seu lado pratico um monólogo por horas, não é mesmo? No início falava sobre tudo o que ainda faríamos juntas, lembrava os momentos bons que vivemos, as brincadeiras e as risadas que partilhamos.
Está cada dia mais difícil. Se alguém entrar no quarto quando estou conversando com você vai zangar-se comigo. De vez em quando, como hoje, me deixo levar e começo a dissertar sobre meus problemas. Você deitada tão silenciosa, sem um movimento. Inicio com coisas boas e de repente despejo aborrecimentos e insatisfações. Desculpe, é incontrolável. Ou quase, já que quando percebo, paro e mudo de assunto.
Estacionei o carro na vaga de sempre. Parece que sabem que aquela é minha e a deixam vazia.
Quando saí do elevador senti como se meus pés se arrastassem. Tinham correntes gigantes neles.
Abro a cortina para que você sinta o sol. O dia está bonito, claro e sem nuvens. Tento sorrir, mas faz tempo não consigo. A não ser quando imagino que durante uma frase minha você vai abrir os olhos e me chamar de mãe outra vez.
Proibi que fosse àquela festa. O local era ruim. Já havia tido confusões antes e os frequentadores, eu não conhecia. Não faziam parte da turma que uma mãe escolhe para a filha conviver.
Esperou que eu deitasse e saiu. Confiei que obedeceria pelo menos daquela vez. Não foi o que aconteceu. Foi à festa e não voltou. Não para casa. Quando ligaram, já estava no hospital. Alguém disparou um tiro e foi você a escolhida para alojar a bala. Minha filhinha de quinze anos, meu bebê estava entre a vida e a morte.
Continuamos aqui, você e eu. Todos os dias recomeçamos.
Talvez seja hoje que serei surpreendida com o - mamãe! Quando a olho ainda vejo a minha menininha atrevida e revoltada com o mundo. Só um pouco mais magra.
Acabo de pensar em algo. Se você abrir os olhos agora, prometo dizer sim para as primeiras dez coisas que pedir. Ou vinte. Ou quase todas.
Só não peça para fechar os olhos enquanto você foge para uma festa desgraçada que não a trará de volta para casa.
Amanhã quando eu chegar terei a minha surpresa. Tenho certeza de que amanhã será o dia.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".