ponto sem nó
22/11/2018 08:01 - Atualizado em 22/11/2018 08:01

Ponto sem nó

Cândida Albernaz

Aquela pequena capela, com bancos de madeira resistentes ao tempo ficava em meio a árvores e o que um dia foi um gramado. Hoje mato por cortar.

A casa um pouco distante, com pedaços de reboco caindo da varanda onde tantas vezes sentara para conversar com amigos ou simplesmente se deixar ficar.

Naquela época, pensar não doía como agora. Acreditava ter a vida à sua disposição. O tempo fez questão de mostrar que ela sim, disporia dele como bem entendesse.

Os pais morreram quando tinha vinte e seis anos. Um acidente na estrada, quando um cavalo atravessou na frente deles sem que houvesse tempo para desviar.

Herdou aquela fazenda e alguns outros bens na cidade. Gostava da terra, dos bichos e hoje da solidão.

Estava noivo na época e com planos para casar. Desistiu. Resolveu fazer uma viagem que duraria um mês, mas levou um ano para voltar.

A noiva se magoou com ele que não fez questão de dar maiores explicações.

Quando voltou, ela estava de casamento marcado com um de seus amigos. Foi à cerimônia e com olhos sem amor, viu os dela fixarem nele durante todo o caminho até o altar. Resolveu que não iria à recepção.

Os imóveis que possuía na cidade, rendiam mais do que o suficiente para que pudesse tocar a fazenda com calma, levando-a a crescer e produzir. Os pastos a cada ano viam aumentar o gado.

Conheceu Liliana em uma de suas idas a cidade. Frequentava os bares e festas que haviam por lá.

Em menos de um ano estava casado e na espera do primeiro filho. Não era homem de grandes paixões, costumava dizer. Programava seu dia, semana ou ano e seguia em frente.

Os amigos continuavam a frequentar sua casa, inclusive a ex noiva com o marido. Gostava de realizar pequenas festas que duravam toda a noite. Numa delas eles chegaram com um casal de amigos. Foram ficando, ficando e já amanhecia quando se despediram. A garota era bem mais jovem do que ele, dançava de forma insinuante, provocando a maioria dos olhares masculinos.

Com a desculpa de mostrar a ela um potro que havia nascido, sumiram os dois por algum tempo. Depois desse dia, encontravam-se sempre que possível.

Quando contou que estava grávida, pediu que ele largasse a mulher e ficasse com ela. Riu de sua pretensão e questionou o fato de ser ele o pai. Como ter certeza?

Não esperava o que viria a seguir. Ela contou ao marido sobre os dois, que foi tirar satisfação com ele em sua casa. Mulher e filho presentes ouvindo o que não deviam. Ainda tentou se explicar, mas não deu em nada.

Mais tarde, ficou provado que a criança era do marido. Os dois se acertaram e criam a filha juntos.

Com ele foi diferente. Liliana saiu de casa levando o filho que passou a ver de vez em quando.

Não acreditou sentir tanta falta. Saiu da fazenda e foi morar na cidade. A casa ficou abandonada, perdeu o gosto. Continuou com o gado, mas passou a ir apenas quando necessário. Mesmo assim, levou anos sem voltar à sede.

Hoje, olhando a casa naquele estado, pensou o quanto havia se enganado sobre si mesmo. Era na verdade um homem de grandes paixões, e por isso a cada dor vivida, fugia de tudo o que o fizesse recordar.

Só não conseguia fugir de si mesmo.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".