e o show continua
14/11/2018 23:46 - Atualizado em 14/11/2018 23:46

E o show continua

Cândida Albernaz

O burburinho é grande. A casa está cheia. Olho o relógio e vejo que ainda sobra um tempo. Vou lá fora fumar. Acho uma sacanagem este negócio de proibir cigarro em tudo que é lugar. “Cigarro causa câncer”. E daí? O pulmão é meu e faço o que quero com ele.

Hoje não estou muito bem, amanheci com a garganta doendo. Deve ter sido o excesso de gelo no uísque de ontem. Também, o Jaime resolveu me convidar para sair e ainda por cima, pagar a conta. Aproveitei e enchi a cara. De bebida boa, e não destas porqueiras que tomo porque não posso pagar coisa melhor. Jaime é um amigo que ficou da época em que eu ganhava bem. Pode parecer mentira, para quem me vê hoje, mas já fiz sucesso e tive vários discos gravados. Discos sim, porque na época não havia cd. Era o velho vinil. Gravei música de bons compositores e dei autógrafos também. Há pelo menos vinte anos não autografo para mais ninguém.

Ganhei dinheiro. Muito. E gastei. Muito.

Tive a mulher que quis na minha cama. Não digo os nomes porque sou um cavalheiro. Acredito que o único que sobrou por esses dias. Não fazia esforço para isso. Elas ficavam a minha volta como moscas. Claro que eu era mais bonito. E tinha cabelo. Uma merda essa história de ficar careca!

Mas voltando ao Jaime, foi bom reencontrá-lo. Um dos que continua meu amigo. Ele e o Armando. Esse me procura sempre para contar como seus rendimentos estão crescendo, o carro novo que comprou, a viagem que fez. Torço por ele, porque sei que se precisar, vai ser o primeiro a querer me ajudar. Apesar do que, mesmo que necessite, não peço. Detesto dever qualquer coisa a alguém. Quanto mais a amigo.

Jaime ontem lembrava quando fiz um show para cinco mil pessoas e a maioria acompanhava cantando as músicas. E quando nós dois saímos com três garotas? Foi demais. Naquele tempo, tudo era demais. Até o meu tesão. Hoje só dá para o gasto e olhe lá.

Ontem no final da noite, de porre, comecei a lembrar das farras e de quanta coisa ingeri e injetei. Desandei a aprontar. Arranjava confusão nos hotéis, batia em fotógrafos, faltava aos espetáculos porque simplesmente não conseguia andar. Cantar então, nem imaginar. Os caras se encheram, o empresário desistiu e as portas foram lacrando suas passagens. Droga! Para que fui pensar nisso? Acabei a noite bêbado e chorando no ombro de Jaime. Ainda vomitei e sujei a calça dele. Creio que vai levar mais um ano sem me procurar.

Tenho que encarar a realidade: sou um fracassado e o responsável por isso. Não adianta ficar reclamando feito velha. Aliás, nem sou disso. O problema é que quando encontro com esses dois amigos relembro como foi minha vida e sinto saudade. Mas a fossa dura pouco. Volto a tomar todas e me preocupo apenas com o presente.

Este bar onde canto hoje é pequeno e a maioria das mesas está ocupada. Espero que pelo menos alguns me ouçam. Se um deles aplaudir então, ganho a noite. Costumam ficar tão entretidos com as conversas que nem notam que a música é ao vivo. Eu os entendo.

O que gosto mesmo de fazer, é fumar, beber e cantar. Não exatamente nesta ordem.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".