doença
01/11/2018 00:52 - Atualizado em 01/11/2018 00:52

Doença

Cândida Albernaz

Naquela noite o medo transparecia em seus olhos. Não o medo do desconhecido, mas o temor da constatação, do fato enfim consumado. Pela primeira ele a agrediu.

Com a mão ainda no ar depois do tapa que lhe dera, olhou-a não acreditando no que acabara de fazer.

Ela não sentia dor no rosto vermelho e também não percebia que de seus olhos escorriam lágrimas. Apenas ficou parada vendo a sua frente aquele homem transfigurado e se perguntando por que estava ali, por que deixou até aquele momento. Não teve coragem de tomar uma atitude antes, mesmo reconhecendo que era naquele ponto que chegariam. Fitava o rosto masculino, desconhecido agora, e tinha pena. Dele, pois entrara por um caminho sem retorno. Dela, por ter perdido tanto tempo.

Não falavam e não se encaravam. Caminhou para a porta do quarto e saiu.

Ele permanecia na mesma posição. Deixou-se cair no chão olhando para onde a mulher acabara de passar. Colocou a cabeça entre as mãos e chorou forte. Chorava a dor do reconhecimento da perda sentindo o peito comprimir.

A que ponto chegou. Os indícios foram muitos. A princípio, discussões. Mais tarde, as mesmas vinham regadas de gritos e palavrões. Houve até um empurrão quando ela caiu sobre a cama.

Não se reconhecia. Não se continha. Um ciúme insuportável o asfixiava. Juntava provas que não existiam. Tinha certeza em cenas que criava. Sua mente e a realidade percorriam rumos diferentes. Vivia num imaginário seu e não entendia como a lógica não correspondia ao real. A dor que sentia era intensa, quase não a suportava.

Queria parar, mas suas palavras nunca obedeciam. O que vinha a mente era despejado como vômito: sem controle.

Magoava e feria.

Quantas noites, a cabeça no travesseiro e o sono a fugir. Virava-se e a mulher dormia. Parecia tranquila. Apoiava o corpo no cotovelo e a observava. Que sonho estava agora a sonhar? Com quem? Achava que ela sorria. Seria ele provocando esse sorriso ou algum outro? Como ousava? Rasgava-se por dentro.

Levantava e andava por toda casa. Os pensamentos não o deixariam dormir e os pesadelos viriam: sua mulher sorrindo para muitos enquanto ele permanecia num canto sentindo o abandono. Observando. Acabavam da mesma forma: ela o via e desdenhava dele. Encontraria com algum homem que a faria feliz como ele não conseguia fazer. Como podia traí-lo até mesmo em sonhos?

Agora chegou a bater nela.

Ouviu um barulho. Era o carro. Ela deve ter levado as crianças. Meu Deus! Como seria sem eles? Pediria perdão. Tinha tanto amor a ela. Sabia que errara e reconheceria mais uma vez. Prometeria mudar. Faria qualquer coisa.

Como pudera duvidar de sua mulher? Estava decidido: começaria um tratamento e quando estivesse curado viveriam bem novamente. Tantas vezes ela pedira isso.

Mas talvez ela agora estivesse deixando as crianças com a avó e satisfeita, fosse ao encontro do amante. Ririam dele. O idiota sentindo-se culpado enquanto os dois trocavam carinho, cumplicidade.

Foi ao armário do quarto e procurou na prateleira de cima, embaixo dos casacos. Ela estava ali.

Não zombariam dele. Os encontraria e então.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".