um aperto no estômago
18/10/2018 10:16 - Atualizado em 18/10/2018 10:16

Um aperto no estômago

Cândida Albernaz

Hoje quando acordei senti um aperto na barriga. Não era fome, mesmo não tendo comido muito no dia anterior. Parecia uma dor que começava no estômago e ia até o coração. Não era daquelas que doíam era uma que me deixava triste. Parecia agonia.

Levantei e chamei meu irmão:

- Vamos, temos que trabalhar. A mãe não está em casa e já viu como vai ser quando ela chegar.

Não trocamos a roupa. Também não havia roupa para trocar.

Antes de sair cobri os dois menores com o pano que usei durante a noite. Estavam encolhidos, deviam ter frio. No cômodo onde moramos não há muito espaço, mas no inverno era até bom, um acabava esquentando o outro. Chato mesmo é que na maior parte do tempo faz calor.

Dia desses encontrei um ventilador no lixo, levei para casa e tentei consertar. Quando a mãe viu, começou a rir. Não entendi. Depois ela perguntou onde ia ligar se não temos luz. Havia esquecido. Pelo menos serviu para distrair os pequenos por algum tempo.

Ainda não era totalmente claro. Fomos correndo até o mercado e pegamos os sacos de biscoito. Precisávamos aproveitar o horário em que o pessoal ia para o trabalho, porque se conseguíssemos vender tudo, além do dinheiro ganhávamos pão com café.

Não sei, mas ontem quando mãe saiu não estava com uma cara boa, estou com medo de como vai chegar hoje. Às vezes bebe um pouco e se meus irmãos choram, perde a paciência e bate neles. Uma vez, quando cheguei da rua, minha irmãzinha sacudia a mão onde mãe havia colocado uma colher quente, queimando-a. Nem chorava a coitadinha. Tinha medo. Sabia que se chorasse seria pior. Aprendemos cada coisa nessa vida!

Não desgosto da mãe, mas se bebe... ou quando algum cliente bate nela, volta para nós furiosa. Coitada, também não tem como se defender e desconta na gente. Comigo não se mete mais, porque estou crescido.

Quando estou perto ela se segura. O problema é que quase nunca estou. Tenho que arranjar dinheiro para ajudar. Sabe que agora avanço para defender meus irmãos. Tem respeito ou tem medo, sei lá. Nunca encostei a mão nela, mas por eles faço qualquer negócio.

A pequena é grudada comigo. Toda vez que chego me agarra no pescoço e pede para eu girar com ela. Então enlaça as pernas na minha cintura e eu seguro suas mãos enquanto joga a cabecinha para trás. Rodo, rodo e rodo com ela. Ri tanto que nem se lembra do que mamãe fez.

Sei lá, estou com aquele aperto no peito novamente. É uma dor de tristeza tão forte.

Vou chamar meu irmão, pois acabei de vender tudo. Ah! Pelo jeito vendeu também. Tem dia que é assim mais fácil. Fomos pegar nossa parte e tomar o café com pão. Na volta parei no caminho e comprei feijão e batata. Vai ser bom. A mãe cozinha bem, pena que nem sempre tem o que colocar na panela.

Nossa, tem tanta gente em frente ao barraco. O que foi? Ninguém respondeu pareciam nos olhar com piedade. Saí empurrando todo mundo e ao entrar vi nossa mãe sentada no chão com os olhos arregalados, a roupa suja de sangue e repetindo:

- Eles não paravam de chorar, eu queria dormir e eles chorando e falando que tinham fome. Chorando, chorando, chorando.

Ouvi um gemido e vi os dois do outro lado da cama. Eu e meu irmão agarramos cada um no colo e corremos. Vai dar tempo. Eu sei que vai.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".