para casa não posso voltar
10/10/2018 23:44 - Atualizado em 10/10/2018 23:44

Para casa não posso voltar

Cândida Albernaz

 

Ele está olhando de novo. Se não conseguir desta vez, estou frito.

-E aí, tio? Não tem um trocado pra me dar?

Vamos lá, abaixe esse vidro e dê a grana. Não percebe o Traíra do outro lado da rua?

Até agora o que juntei vai me garantir uma surra.

-Valeu tia.

Droga! Não chega a um real. Esses ricaços estão ficando a cada dia pior. A gente pede um dinheirinho e quando dão, é essa mixaria.

Ontem apanhei feito um puto. Não consegui ganhar o que ele queria.

Traíra disse que está precisando de uma camisa nova e que sou eu quem vai dar a ele. A gola da antiga está puída, falou.

Com o frio que fez esta noite, pensei que fosse morrer congelado. Ainda bem que o Chamuca dividiu o cobertor comigo, e deixou que eu encostasse nele. Não sei se ia aguentar. Esse brother é o único que me trata bem. Os outros têm raiva, dizem que sou mole. Não é isso, vou aprendendo aos poucos.

Lá em casa, mamãe vivia gritando que eu era demente, lerdo e não me suportava mais. Meus irmãos, sim, são inteligentes. Eu nasci meio burro.

Ela falou que bebia muito quando estava em seu bucho porque não queria que eu nascesse. Tentou de tudo para se livrar de mim. Tinha ódio.

Ficava falando que meu pai foi embora porque não suportava olhar na minha cara. Deve ser verdade mesmo. Não entendo direito as coisas e falo devagar. Minha cabeça às vezes doía tanto que começava a gritar. Foi isso! Ele largou a gente por causa dos meus gritos. Hoje em dia, quando a dor chega, fico quieto, coloco as mãos de um lado e do outro e aperto muito. Não adianta, mas não grito.

Mamãe sempre dizia que não gostava de mim, que queria que eu sumisse, ou melhor, que nem tivesse nascido. Resolvi ir embora. Andei quatro dias seguidos, até que encontrei o Traíra. Me deu comida, arrumou um canto dentro do galpão para eu dormir e me abraçou. Sabe há quanto tempo ninguém me abraçava? Nunca havia acontecido.

Só avisou que eu teria que ajudar nas despesas. Eu tento, mas sempre levo menos que os outros. Ele disse que perdeu a paciência comigo.

Já deve ter seis meses que estou com ele. Levei pelo menos dez surras. No início dizia que eu estava em treinamento, mas agora não tenho mais o que aprender, só agir.

O que posso fazer se esses manés ficam com medo de abrir o vidro do carro? Sou feio e muito alto, acho que assusto.

Outro dia fui chamado para escolher umas donas e arrancar a bolsa delas. Pensei: do jeito que sou, vão me pegar.

Chamuca é quem se preocupa. Diz que tem um irmão e que pareço com ele. Não o vê há dois anos. Se não fosse por ele, Traíra já tinha me matado de tanto bater. Como ele é sempre quem traz mais dinheiro, Traíra o respeita. Não quer perder Chamuca para ninguém.

Filho da mãe! Tá me olhando de longe. E eu aqui parado pensando na vida. Tenho que apanhar mesmo. Sei que mereço.

-Tia, um trocado?

-Aí, valeu!

Olhei para ele. Essa foi melhor e rendeu uma graninha. Sorri e ele entendeu. Virou e foi para a outra esquina. Vai pegar no pé de Andrezinho. Me deixou em paz.

Tem um bar aqui perto que vende umas balas.

Vou o mais rápido que posso e compro só uma. Se Traíra me pega...

Cara, que bala gostosa!

-E aí, tio? Uma moedinha, só pra ajudar. Tô com fome.

-Valeu!

Acho que minha sorte está mudando...

 

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".