imaginação
04/10/2018 00:39 - Atualizado em 04/10/2018 00:39

Imaginação

 

Cândida Albernaz

 

Nos olhos inquietos percebe-se a lucidez indo embora. A dúvida o corrói e não se controla mais.

Tenta fugir de sua direção, mas a persegue como animal, as narinas abertas sentindo o cheiro do que apenas sua imaginação consegue enxergar.

 

* * *

 

Não casaram porque ela sempre achou que um pedaço de papel diante de um juiz era mera burocracia. Queria se sentir livre mesmo vivendo com ele, que dizia ser o ar de garota selvagem, que escapa entre os dedos, sua maior sedução.

Veio o primeiro filho e a mulher independente que se tornaria, nunca existiu.

Não foi o papel que a prendeu, ela se deixou encarcerar como numa teia tecida dia após dia entre diálogos ríspidos e carinhos no meio da noite.

Quando o segundo filho nasceu, fechou o consultório por pouco tempo, mas nunca mais voltou.

O marido costumava reclamar por ficar sozinha com seus pacientes durante a consulta. Afinal de contas, “você é linda e não há outra igual”.

Explicou que a secretária estava sempre presente e nunca houvera qualquer problema. Não o convenceu.

Quando surgiu a oportunidade de abrir uma clínica com colegas, ele foi contra, já que “o safado do Carlinhos só finge ser médico, porque o que ele quer mesmo é dar cantada nas pacientes. Pensa que não reparei o jeito que olha para você também? Qualquer dia quebro a cara dele”.

Tentou mostrar que isso era impossível, Carlos era um cara bem mais velho do que ela e costumava ser reservado e respeitar as pessoas. Insistiu tanto no que faria caso ele se aproximasse dela, que achou melhor desistir do projeto.

A clínica está funcionando e outra dermatologista ocupa a sala que seria sua.

Na época em que havia planejado voltar ao trabalho, o marido sofreu um acidente e exigiu sua presença. “Só você sabe cuidar de mim”. Mais um mês sem se decidir. Estavam chegando as férias e ele planejou a viagem de seus sonhos com as crianças. Ficariam por trinta dias na Europa. O irmão dele morava na Itália e os hospedaria.

Deixou-se levar como algo sem peso no meio de uma ventania. Sem que percebesse as forças foram fugindo e achou que sendo guiada por ele, as discussões diminuiriam e o ciúme doentio também.

Só havia um problema: ele passou a exigir cada vez mais. Nada o satisfazia e se não tinha mais como reclamar do trabalho, era na rua, entre uma compra e outra, entre levar um filho ao médico, entre a saída da escola das crianças, era nas horas mais corriqueiras que as supostas traições aconteciam.

Sentiu-se sufocada e perdeu o brilho. Envelhecia antes da hora. A mulher que gostaria de ter sido, só conseguia vê-la quando estava sozinha diante do espelho e imaginava ter forças para se libertar.

 

* * *

 

Não fez as malas, não retirou nada seu. Avisou que pegaria depois. Os filhos, quando saíssem do colégio, deixaria com sua mãe por algum tempo.

Os olhos dele de tiranos foram ficando débeis enquanto falava. Pedia que ficasse e desse mais uma chance para os dois.

Ela cuspiu tudo de uma só vez e enquanto ele absorvia o que dizia e implorava mudanças, saiu, entrou em seu carro e sentindo o vento pelos vidros abertos, sorriu com segurança. Ia recuperar sua vida.

A garota que fora, ardia dentro dela com tal intensidade que se sentia queimar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".