Ciranda cirandinha
Em um feriado qualquer, meu filho no auge de seus cinco anos, me convidou para brincar com ele. A princípio, pensei que não teria muito pique para acompanha-lo, preocupado principalmente com as terríveis dores nas costas, companheira da família a gerações.
Foi mais fácil que pensei. Afinal, ficar sentado no sofá, com ar condicionado e jogando vídeo game, é mamão com açúcar, como diria os antigos.
Comecei a reparar que, quando os amiguinhos dele vão em casa, a liturgia é a mesma. Claro que brincam com outras coisas, mas logo voltam ao game, ou ao celular .... com jogos.
Percebo que minha filha Ana Luisa é assim também, apesar de gostar (muito) de bonecas. Os meus sobrinhos, filhos de amigos, seus coleguinhas... enfim, toda esta nova geração também.
Não deixei barato e chamei meu filho para uma conversa séria, cara a cara, eu com 40 e ele com 05 anos. Cheguei logo impondo respeito, mostrando quem manda e disse: filho, senta aqui que papai quer conversar com você, agora! A resposta veio lá de longe: perai pai, tô acabando de jogar o vídeo game e já vou...
Bom, passado alguns minutos, finalmente conversamos. Eu fui até ele. Paciência nunca foi minha virtude.
A princípio ele quis saber, por que eu achava que ele tinha que brincar mais, afinal para ele, vídeo game é um tipo de brincadeira. O que não está errado. O problema é que não pode ser só este tipo de brincadeira.
Expliquei a ele, que em minha época de criança, até tinha vídeo game, mas era de difícil acesso (não se encontrava em qualquer loja e parcelado em mil vezes), mas preferíamos brincar de outras coisas.
Aqui cabe uma observação, que não gostaria de alongar muito. Certa vez escutei que naquela época brincávamos do que era considerado comum para nós, e o vídeo game era um detalhe. Hoje, eles brincam do que é comum a eles (tecnologia) e as demais brincadeiras são detalhes.
Mas voltando ao assunto, durante nossa conversa séria, já com cara de bate papo, ele me perguntou do que eu brincava quando tinha a idade dele. Nisso, já contávamos com a presença da minha filha, curiosa como sempre.
Expliquei que vivi em uma época, infelizmente diferente da de hoje, onde tínhamos mais liberdade, no sentido de segurança.
Podíamos sair na rua sozinhos, para irmos a casa de amiguinhos ou até mesmo de parentes, como tios e avós, que em sua maioria moravam próximos de nós. Isto por que escolhíamos ficar próximo de nossos pais, diferente de hoje que a grande maioria quer ir para longe.
Na rua, uma das brincadeiras favoritas era soltar pipa. O cerol, item obrigatório hoje em dia, era praticamente desconhecido. Além de menos carros nas ruas, tínhamos mais espaços livres nos quarteirões, com as cidades sendo aumentadas e terrenos abertos.
Espaços estes onde aconteciam verdadeiros campeonatos de futebol entre crianças. A bola, quando não aparecia um iluminado com uma, o que o transformava em capitão do time, era um monte de meias velhas embrulhadas uma nas outras. Com pés descalços, corríamos a tarde inteira. Dedões eram machucados, mas quem se importava? E olha que na época o merthiolate ardia.
Reparem que precisávamos de pouco, apenas meias velhas, ou uma embalagem de Danone vazia, para brincar de futebol, ou de passou tomou, por exemplo. Brincadeira onde se a “bola” passasse debaixo de suas pernas, você tomava cascudos. Violência? Balela. Diversão e risadas.
O fato de não precisarmos de nenhum brinquedo físico, não restringia as opções. Pique esconde, pega pega, cabra cega, juntavam uma grande quantidade de crianças interessadas, principalmente quando eram férias escolares. As ruas eram cheias de alegria, com menos violência e intolerância.
Isso me fez lembrar do meu velho pai, que adorava inventar brincadeiras, principalmente em aniversários com bastante crianças. Na época não existiam salões de festas infantis, com seus brinquedos prontos e monitores. Os adultos se viravam como podiam para entreter as crianças.
Lembro-me dele colocar fogo no meio de um barbante, e ficávamos com dois dedinhos embaixo, esperando o barbante cair. Quem conseguisse pegar, ganhava. Vaga lumes, raros hoje nas grandes cidades do interior paulista, eram armazenados por breves instantes dentro de plásticos de cigarro, para vê-los brilhar.
Assim como brilhavam as meninas na amarelinha. Não tinha como vencê-las, sempre ganhavam. Hoje em dia, poucos vemos nas ruas o tabuleiro da brincadeira desenhado, comum antigamente. E nem precisava de giz para escrever o céu e o inferno. Apenas uma lasca de tijolo já era suficiente.
Existia também as brincadeiras que incentivavam a coordenação motora, como escravos de Jó, porquinho (Cinco Marias) e bafo, este último muito praticado em época de copa do mundo.
Nossas casas também eram diferentes, com seus ditos quintais, locais propícios para brincar de pula corda, jogar pião e bolinha de gude, hoje substituídos por “áreas gourmet”. Detalhe importante: quintais com muros baixos, que passávamos de uma casa a outra, por cima do muro literalmente. Claro, desde que fosse nosso conhecido.
Nestes quintais, principalmente na casa dos mais velhos, não raro tinham um quartinho de ferramentas. Nossos avós, que consertavam desde corações partidos por paqueras não respondidas a brinquedos, estavam sempre prontos a ajudar. Muitos faziam cavalinhos de madeira, balanços e piões, afinal, aprenderam em sua juventude a fazer seus próprios brinquedos.
Brinquedos estes que não eram descartáveis, como os de hoje. Bonecas por exemplo eram de pano, costuradas a mão. Únicas e portanto, valorizadas. Prova é que são disputadas a tapa por colecionadores. Para os meninos, tínhamos estilingues feitos de pedaço de arvore, lixados e com tira de borracha de bicicleta. Hoje é justamente ao contrario, expliquei a ele, olhando para o quartinho de brinquedos abarrotado de bonecos, carrinhos e aviões, todos de plásticos.
E é justamente esta a intenção mesmo, assim incentivam o consumo. Estraga logo, você compra novo e assim a roda gira. Posso falar com propriedade pois sou formado em marketing e vivenciei isto de perto.
A maioria das brincadeiras que citei aos meus filhos, eles conheciam e brincavam, mas não corriqueiramente. Outras como pião, cobra sega e escravos de Jó, tive que chamar testemunha, no caso minha esposa, para provar que não estava mentindo.
Os tempos mudaram e temos que nos adaptar e aceitar. Hoje, poucos pais tem coragem de deixar os filhos saírem na rua sozinhos. E na minha opinião, estão certos. Afinal, é o que temos de mais importante.
Os muros não são mais baixos, e nem devem ser. Brincávamos sem saber o que os pais de nossos amiguinhos faziam, pois não havia tanta diferença como hoje. Os carros eram os mesmos, pois existiam poucos modelos. As casas eram iguais, não existia condomínio fechado. Se trabalhasse honestamente, seja entregando leite, vendendo autopeças ou pequenos comércios, criava os filhos com o mesmo respeito do que os filhos dos doutores.
São tempos que não voltam mais, infelizmente. Após explicar tudo isso aos meus filhos, com certa nostalgia que me permitir ter, olhei para o lado, na procura dos olhos deles, esperando encontrá-los com lágrimas.
Estava só. Eles já tinham saído pra jogar vídeo game.

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    Fábio Pexe

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