tchau
06/09/2018 00:41 - Atualizado em 06/09/2018 00:41

Tchau

Cândida Albernaz

Não adianta olhar para mim com esta cara de bobo. Não volto atrás.

Já sei, já sei o que vai dizer e não pretendo escutar. Cansei. De você, de mim, e dessa posição ridícula em que me coloquei. É, porque fui eu mesma quem admitiu estar neste lugar onde minha opinião pouco importa. Isto vai mudar. Está assustado? Vai ficar muito mais. Acabou a era do senhor-todo-poderoso onde amém era a palavra preferida.

Quando resolvemos ficar juntos eu estava de quatro por você e só pensava em agradá-lo, mas abusou da minha paciência.

Já sei, já sei, vai dizer que ser paciente nunca foi o meu forte. E daí? O que você precisa saber é que ou modifica o seu jeito de enxergar ou nada feito: cada um por si.

Não fale com este tom de voz alto porque não tenho medo. Sabe aquela historinha do “antes só do que mal acompanhada”? Pois é, este é o lema que seguirei. Não acredita? Acha que na primeira dificuldade volto com o rabo entre as pernas? Você não entendeu. Hoje sei que não tenho rabo. Aliás... bom, deixa para lá.

E a comidinha pronta quando chega a casa e ainda assim reclama do que preparei para o jantar? Sempre quer outra coisa. A burra aqui corre até a cozinha para tentar agradar. A camisa passada não pode ter um vinco, caso contrário a ladainha que escuto é intensa. O uísque servido na hora em que chega com três pedras de gelo. Não bebo e ainda tenho que cuidar de sua bebida. E bebedeira.

Poeira no móvel? O senhor-perfeição mal entra na sala faz questão de passar o dedo para ver se está limpo. Achou sujeira? Pois daqui para frente limpe você. Nem a garota que me ajuda na faxina aguenta mais, está querendo pedir demissão.

Já sei, já sei, vivo no salão fazendo unha, cabelo, depilação. Mas quem usufrui além de me sentir bonita? E ainda necessito escolher um horário que não me procure, para que não reclame.

Não, não fale. Nem pense que estou querendo discutir a relação. Quero que ouça! e quieto. Nada de discussão. Apenas escute.

Acha que sou chata, que falo demais?

Já sei, já sei o que pensa de mim. Estou há dez anos ouvindo como acha que sou, o que devo fazer, o que falar, a maneira de vestir. Este é outro item importante. Lembra-se do vestido preto que comprei e tinha um decote nas costas? Disse que nunca me levaria a lugar nenhum vestida daquele jeito porque eu parecia uma qualquer. Pois é, pretendo usá-lo na próxima vez em que sair: com você ou não. Ah! ia esquecendo: comprei outro, mas não se assuste. Não tem decote nas costas e nem é preto. É vermelho e o decote agora é na frente. E-nor-me!

Vai me deixar? Está bem. Se quiser ajudo a preparar sua mala. Pela última vez. Só tem uma coisa; não tem o direito de reclamar se esquecer de colocar algo, caso contrário, jogo no chão tudo o que estiver dentro.

Feche a boca, por favor. Não fique tão surpreso. Depois de tanta pressão, devia esperar que um dia eu explodisse. Bum!

Por falar nisso, vou à casa de uma prima e sua comida está no forno. A esta hora não vai conseguir trocar a fechadura da porta para que eu não entre, mas se encontrar algum meio de impedir que durma em casa, me viro e amanhã estarei de volta.

Tchau! Não vou despedir com um beijo porque não sou hipócrita.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".