josé e lena
30/08/2018 01:23 - Atualizado em 30/08/2018 01:23

José e Lena

Cândida Albernaz

Cheguei a casa mais cedo. Está silenciosa. Antes de entrar sentei na rede da varanda olhando o pé de manga ao lado do portão. Sempre gostei da terra, o verde das folhas me transmite paz. Acendi um cigarro. Maldito hábito! Se Lena chegasse agora me repreenderia: José, não sabe que faz mal? Olha o exemplo para nossos filhos. Nossos filhos... Pedro estava casado e morava perto dali. Deu-nos dois netos. Umas pestes! Toda vez que nos visitavam fazia com que lhes contasse alguma história do passado e eu gostava disso. Eram sempre as mesmas, mas os garotos ouviam atentos e riam delas. No meio da conversa Lena trazia bolo e refresco. Sentavam nos degraus da escada e comiam sem pressa enquanto a avó passava as mãos nos cabelos deles para em seguida encostar-se ao portão e ficar admirando como se fossem as crianças mais lindas do mundo. Então perguntava: viram o tio Artur esta semana? Os dois moviam a cabeça de um lado para o outro negando. Eu não conseguia entender porque ela sempre fazia a mesma pergunta aos meninos. Sei que ela e o filho se veem de vez em quando. Artur foi embora dali há tempo. Brigou comigo quando tinha dezoito anos, nunca mais apareceu e nem lembro mais o motivo. Há seis anos. Nem penso mais nele. Enviou algumas cartas para a mãe e nem uma palavra para mim. Não ligo. Ele era brigão, vivia arrumando confusão na rua. Uma vez quebrou a antena do carro de um dos vizinhos e este veio reclamar. Dei uma surra no Artur e ele jurou vingar-se dizendo que um dia iria embora e nunca mais voltaria. Cumprira a promessa. Menino de palavra! Lena diz que se parece comigo: turrão, briguento e com um coração enorme. Sei não, esse negócio de coração enorme acho que puxou a mãe. Mentira quando digo que não ligo. Sinto saudades e às vezes choro escondido imaginando como ele está. Qualquer dia desses vou procurá-lo e pedir desculpas. Não sei do quê, mas peço desculpas assim mesmo. Não tivemos uma filha. Lena sempre quis tanto, mas Deus sabe o que faz. De vez em quando vejo minha mulher rezando de olhos fechados com as mãos no peito segurando o terço. Eu fico escondido observando-a. Sempre gostei de olhar para ela. Quando jovem era muito bonita. Eu a conheci na igreja e na época estava noiva. Não teve jeito. Nunca mais a deixei em paz até que resolveu acabar o noivado. Casamos seis meses depois. Grande amor, mesmo com o passar do tempo não diminuiu o gostar. Na cama éramos um só. Depois que Artur se foi ela envelheceu muito e seus olhos perderam o brilho. De vez em quando eu a coloco no colo, a enlaço com os braços fazendo com que encoste a cabeça em meu ombro e a embalo como a um neném. Ficamos assim sem falar, apenas sentindo. Acho que vou passar a noite aqui na rede. Não conseguirei entrar em casa. Lena não estará esperando com o jantar pronto. Não beijarei sua testa sentindo o cheiro de seu cabelo e à noite não dormiremos encaixados um no outro. Tive que deixar Lena lá. Sozinha com a terra cobrindo o corpo macio. Sinto que não vou aguentar. Estou pensando uma coisa... Artur não se aproximou de mim. Como farei para que ele entenda que não importa mais? Amanhã vou até onde ele está. Ou depois de amanhã. Ou.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".