Um dia, o cansaço
23/08/2018 09:19 - Atualizado em 23/08/2018 09:19

Um dia, o cansaço

Cândida Albernaz

Mais uma noite e nada. Estava ficando esgotada. Melhor isso do que a tristeza que se tornara sua companhia.

Com cansaço era fácil lidar. Podia deitar, mudar de assunto, desistir. Palavra-chave: desistir.

Sabia que tentara tudo o que podia e sabia também que não mais teria coragem.

Conversaram muito no último domingo. Discutiram na verdade, porque é o que conseguem fazer quando estão ao lado um do outro.

Ele avisou que faria uma viagem, marcada com antecedência. Coincidiu a data ser logo após a discussão. Antes pensara que ela talvez pudesse acompanhá-lo, mas agora decidira o contrário. Voltariam ao assunto quando estivesse de volta.

Depois de sete dias, ela não sabia se ainda queria conversar. Com certeza cada um seguir seu caminho era o único bem que podiam fazer a ambos.

Os dois tão diferentes no agir. Ele costumava dar razões óbvias ao que viviam, e ela a pensar com o imaginário no que poderiam viver.

No início era interessante, divertido até. Mas o tempo mostrou ser desgastante o conviver. E o pior, a sensibilidade latente. Deles. Nisso, não havia diferença.

Sensibilidade e uma razão cortante caminhando lado a lado. Dele. O que provocava discussões bobas que beirava à raiva.

Ele entrou em sua vida como uma enorme onda ocupando todos os espaços. Não deixava a ela tempo para pensar ou decidir. Tomava decisão pelos dois. Quando deu por si, se encontrava no meio de um redemoinho. Talvez fosse uma tática para envolver, um plano usado tantas outras vezes, em tantas outras relações. Não tinha certeza, pelo menos não naquele momento.

Quase dois anos numa montanha russa, onde prazer e medo se completavam.

Avisara a ela desde o início, nada de filhos, casamento ou mesmo morar juntos.

Prezava sua privacidade, palavras mortas que saíram de sua boca tantas vezes. Achou que concordava com ele, mas apenas adiou uma exigência da qual sentia necessidade cada vez mais.

Nos três últimos meses, brigavam e brigavam sobre o que ela queria e ele não cogitava.

Nunca tivera uma família sua e ele também não. Mas era dessa forma que ele pretendia continuar. E ela não.

Mil razões foram expostas; Filhos no mundo em que vivemos? E estes gerarão mais filhos? Não aceitava a ideia de futuro tão desgraçado para um descendente seu.

Casamento, papel no cartório ou ainda viver na mesma casa, duas pessoas com hábitos tão diferentes? Havia manias, ciúme do que possuía e não conseguia dividir espaços com ninguém. Estavam tão bem, divertiam-se, tinham amor, tesão não faltava. Por que mudar? Para que inventar carências?

Ela agora sabia. Um homem que tem pés tão fincados na realidade, não deveria tentar se relacionar com uma mulher que sonha. Em algum momento, ele vai conseguir quebrar-lhe as asas e fazer com que ela despenque de muito alto. Sentia-se cair.

Estava levando a sério a promessa de não ligar enquanto viajava.

Ela sabia que era só uma questão de tempo não querer ficar mais naquela relação.

Talvez não fosse ainda dessa vez, mas quem sabe na próxima?

Fechou os olhos para dormir. O cansaço venceu.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".