sabe que te amo
16/08/2018 06:14 - Atualizado em 16/08/2018 06:14

Sabe que te amo

Cândida Albernaz

As coisas estão no lugar, do jeito que gosta. Detesta poeira, desordem ou portas abertas. Demorou para que a mulher aprendesse isso.

Acordou cedo como em todos os dias, mas permitiu que ela dormisse um pouco mais. Não é sempre que age assim. Prefere que ela acorde antes dele e deixe o café pronto. Tem um defeito, detesta esperar. Precisar falar duas vezes a mesma coisa também não aceita. Um tanto impaciente, reconhece.

Foi mimada pelos pais e não se esforça muito. Apenas cuida dele e da casa e nem assim faz o que pede direito.

Há dois dias quando chegou do trabalho mais cedo do que o costume encontrou-a no telefone com a mãe, segundo ela afirmou. Ainda conseguiu ouvir “não aguento mais, estou com medo”. Pensou continuar escutando, mas a mulher notou sua presença e se despediu dizendo que ligava depois. Ligar depois por quê? Não aguentava mais o quê? E aquela ligação quem ia pagar? Não era ele? Se falava com a mãe por que desligou quando viu que ele chegou? O que estava escondendo dele?

Ajudou a mulher a se levantar quando viu que depois do soco, caiu batendo o rosto na ponta da mesa. Sangrava na altura da sobrancelha.

Tirou a camisa e tentou estancar o sangue, mas ela afastou sua mão. Não queria auxílio. Não compreendia que se preocupava e que nunca quis machucá-la.

Só não suportava erros. Admitia que algumas vezes exigia demais, mas sabia pedir desculpas. Não era tão orgulhoso.

Na mesma noite quando sentaram para jantar, enquanto o servia, ela falou de forma suave e baixinho que ele devia procurar um médico. Disse que estava sempre nervoso e isso podia fazer mal. Olhou dentro do olho dela quando puxou seu rosto para perto do dele e explicou que o dia hoje havia sido difícil. Ela não compreendia porque não fazia nada. Nem filhos tinham porque quando engravidou há alguns anos perdeu o bebê, teve uma infecção e foi obrigada a retirar o útero. Não poderia mais dar filhos para ele que sempre sonhou ser pai de dois garotos. Não era sua a culpa daquela casa vazia, e sim, dela. Soltou o rosto que mantivera seguro entre as mãos. A mulher abaixou a cabeça e comeu quieta o frango que preparou.

Perguntou se o corte estava doendo, quer que pegue um analgésico para você? Respondeu que não, mas foi buscar e deu a ela com um copo de água que tomou o remédio e agradeceu.

Gosta quando entende que tudo o que faz é para o bem dela. Precisou ensinar, porque quando solteira, não fazia nada em casa. Tinha empregados! Hoje não necessitavam de gente estranha à volta deles, era tão pouco o que fazer. As roupas, por exemplo, lavavam fora. Ele levava e pegava na lavanderia. Para poupá-la.

Sabia que talvez estivesse mais irritado ultimamente. Os negócios não iam muito bem. Verdade que semana passada, não se aguentou quando viu a porcaria de almoço que a mulher havia feito. Quando reclamou, ela quis discutir dizendo que colocara menos sal por que ele pedira, e que por isso a comida ficou sem gosto. Colocou aquilo para comer e tentou convencê-lo de que a culpa era dele. Sua reação foi rápida e o tapa atingiu o lado direito do rosto. Levantou e começou a gritar como uma louca, que não suportava mais viver daquele jeito. Ele perdeu a cabeça e com a faca que estava sobre a mesa, avançou. Não pensou realmente em ferir, mas ela suspendeu o braço e o rasgo foi feio. O sangue não estancava e precisou ir para o hospital, onde levou alguns pontos. No carro voltando, prometeu que não a magoaria mais.

Resolveu ir até o quarto para saber se ela havia acordado. Viu que ainda mantinha os olhos fechados. No lençol que a cobria, notou que a mancha havia aumentado. Não se recordava de como a briga na noite anterior começou. Apenas lembrava-se da voz dela repetindo que ia embora, que no dia seguinte a mãe estaria ali para buscá-la, que a mala estava pronta e escondida. Tinha decidido não falar nada, mas não o suportava mais. Tinha nojo dele!, nojo dele!, nojo dele!

Aquela tesoura tão próxima...

A campainha tocou. Pensou em abrir a porta, mas não conseguia se mover. Precisava que o desculpasse, afinal, como poderia viver sem ela?

 

 

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".