Longa espera
24/05/2018 16:33 - Atualizado em 24/05/2018 16:33

Longa espera

Cândida Albernaz

Ficou parada olhando a parede branca. Não saía som de sua boca. Não havia por que, já que também não havia ninguém para escutar.

Estava sozinha mais uma vez. Queria poder gritar, mas sentia-se fraca para isto. Deu então um muxoxo e um balançar de ombros. Fingiria não se incomodar.

Fingir para quem? Riu de si mesma. Estranhou o som que saiu de sua garganta. Não parecia o de um riso, aquele barulho alegre que faz com que outros também queiram sorrir. Era mais semelhante a um gemido. Que jeito esquisito de dar risada! Acha que desaprendeu. Ou esqueceu. Melhor que seja assim, porque poderá lembrar a qualquer momento de novo.

Notou que a parede não estava totalmente branca. Havia um ponto preto quase chegando ao teto. Parecia uma aranha.

E era! Uma pequena aranha que acabara de se pendurar. Imaginou que se tivesse altura suficiente, passaria o dedo pela teia para ver se caía. Queria ser como ela. Esconder-se no alto, presa por um fio invisível, apenas ela vendo tudo o que acontecia a sua volta. Sem ser vista.

Pensou que era uma tonta mesmo. Ver o que se ali não havia ninguém? A cama mal forrada? Aquela mesinha sem gavetas? Ou o chão também branco?

Tiraram as gavetas para que não quisesse guardar nada. Gostaria de ter pelo menos um porta-retratos. Eles têm medo de que se machuque com ele.

Verdade que rasgara todas as fotos que estavam ali. Eram três. Não entendiam que não podia olhá-las. Não naquele dia. O peito ardera ao se ver rindo com os filhos e o marido.

Pois é, um dia soubera rir.

Quando olhou a fotografia, lembrou-se do que vivera naquela tarde: felicidade. Doeu recordar como era. Não aguentou e então rasgou em minúsculos pedaços.

Quando a enfermeira entrou estava com um deles na mão. Eram dois olhos, sem a boca e o nariz. Não sabia de quem eram aqueles olhos.

Perguntou a ela, insistiu e como a enfermeira não conseguiu identificar, agarrou em seus cabelos e puxou seu rosto para perto. Queria apenas que visse melhor. Em vez disso, mãos a agarraram com força e prenderam-na na cama. Dormiu.

Do mesmo jeito que não sabia rir, não sabia chorar.

Mas lembrava de já ter chorado muito. Quando o filho mais velho foi embora. Disse que não ficaria mais ao lado dela porque daquela vez jogara uma tesoura nele, que quase o cegara. Não se recordava.

Ele contou várias histórias ao médico. Como o dia em que ela esquentara o garfo e em seguida colocou sobre o braço do irmão. Quando percebeu muita gente gritava à sua volta enquanto trancava-se no banheiro. Queria fugir daquele alvoroço.

Um dia jogara o carro que dirigia contra uma árvore. Estava ela, o marido e os dois meninos.

- Não há mais o que fazer, disseram. Temos que interná-la.

Não perguntaram sua opinião. Enfiaram-na naquele lugar sem cor. Ela poderia ter dito que escolheria morrer. Seria tão fácil. Quantas vezes pensara nisto? Chumbinho? Cortar os pulsos? Pular de uma janela? Ligar o gás e esperar?

Este último era o seu preferido. Agora, neste lugar, não teria mais chance alguma.

Janela com grade e quarto vazio. Se fosse como a aranha, aproveitaria a própria teia e a passaria pelo pescoço.

Queria ver a cara daquela mulher chata quando a encontrasse. Ficaria horrorizada ou aliviada?

Não importa. Não é uma aranha.

Avisaram que hoje é dia de visita.

- Está calma – disseram.

Tomou banho e agora penteavam seu cabelo.

- Está bonita. Quer passar um batom?

Perguntou mas não esperou resposta. Passou um de cor rosada em sua boca.

Quanto a estar bonita, um dia fora sim. Sobrou pouco do que era.

Colocaram-na sentada em uma cadeira da sala.

- Fique bem quietinha porque estão chegando.

Tentou lembrar novamente como era sorrir. Gostariam de encontrá-la assim.

Pegou o dedo indicador e puxou o canto direito do lábio. Com o outro, puxou o esquerdo.

Acho que está bom desse jeito. Tomara não demorem, porque vai se cansar.

Para ela o que sobrou foi uma longa espera.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".