Presente!
17/03/2018 10:09 - Atualizado em 20/03/2018 15:12
Vazio que sufoca.
O ar que me deixa sem ar.
Vácuo?
Vá-se!
E deixe voltar à luz que preenche o sentido que já não encontro.
Vácuo.
Vá.
Vá-se!
Existe luz no vácuo.
Mas existe lucidez?
Eu não sei descrever o que sinto.
Mas SINTO MUITO.
Uma nuvem no plexo solar. Uma complexa dor que não sei como explicar.
Uma agonia do agora.
Agouros.
Ago.
Go.
Go agonia.
Vá-se propagar no vácuo.
Onde o som não chega.
Onde não escuto as palavras de repúdio, de ódio, de ignorância em torno de sua morte.
Go agonia. Vá se propagar no vácuo onde só entra a luz.
Mas o vácuo mora no meu peito.
Eu vejo a luz. O calor do final de verão frita a minha pele e o meu juízo.
Esqueço de comer. Esqueço de beber água. Esqueço de respirar. Me falta ar. Mas sobram os abraços e as lágrimas.
Encontro força nos braços de amigos e desconhecidos que esbarro Cinelândia afora.
Encontrei um braço cujo dono não falava há muitos meses. Continuamos sem nos falar.
O abraço por si só falou muito.
E o som... a palavra. Essa não se propaga no vácuo. Só a luz, lembra?
Eu vejo os faróis do carro. A faísca dos nove projéteis.
Vejo a dor nos rostos daqueles que acompanham a descida dos caixões sob um sol escaldante e reluzente.
Um homem e uma mulher negra. Corpos encarcerados em caixas de madeira.
Eu vejo tudo isto, mas não escuto a minha dor. Não ouço o clamor por sua presença.
Minha agonia não me deixa esperançar.
Eu sinto, eu vejo o tremor do corpo, mas não escuto o PRESENTE! Não escuto os tiros, não escuto os gritos. Eu não estava lá.
Eu mal sabia quem você era.
Eu não sei quem são os homens, as mulheres e as crianças negras baleadas em Acari, na Maré, no Alemão.
Eu não escuto as suas vozes.
Porque o som não se propaga no vácuo, lembra?
Eu tento respirar fundo. Expiro para expulsar a dor.
Para esvaziar o vazio do peito.
Mas a minha dor está no vácuo. No buraco.
No Buraco Branco. No Buraco Negro.
Eu quero vomitar. Mas colocar o que pra fora?
Muitos postaram pêsames, mensagens de dor, condolências.
O mundo compartilhou a indignação da sua morte e da morte de seu parceiro.
O “mito” foi o único presidenciável que não se manifestou.
Vômito.
Vou mitar. Vá mito.
Vá se propagar no vácuo onde ninguém possa ouvir suas mazelas.
Eu respiro fundo na tentativa de encontrar o presente.
De preencher o vazio. De evacuar meu vácuo.
Evacue. Vácuo.
Mas eu ainda não escuto o barulho da rua. O som das pessoas. As música entoada por uma poeta ao microfone nas escadarias da câmara.
Eu só ouço a minha agonia. A minha dor.
E ela fala:
PULA, PULA, PULA.
Pula pra onde? Eu me pergunto.
FUJA, FUJA, FUJA, FUJA.
Fugir pra onde? Eu me questiono?
Minha agonia é covarde.
Covarde e companheira. Ela virou companhia quase eterna. Indesejada e insiste na visita.
Se faz presente e constante no plexo solar cada vez mais anuviado. Cada vez mais desesperançoso.
Existe um buraco no meio dos meus seios. Entre os seios. Sei-o bem.
Me falam para respirar. Me oferecem um copo de água. Um gole de cerveja.
Eu inspiro. Prendo a respiração. E caminho rua adentro rumo a estátua de Tiradentes.
Liberdade ainda que tardia!
Quando seremos livres?
Eu respiro forte, respiro fundo. Depois de tantas horas ouvindo o clamor por sua presença começo a querer esperançar.
O ar toma conta desse buraco varrendo por um instante a agonia que me assola.
Respiração funda.
Um choro desesperado e gritos, gritos e gritos altos e cada vez mais altos.
Mulheres negras levantam seus punhos cerrados nas escadarias da Alerj. São cartazes, faixas, palavras que gritam seu nome, que clamam sua presença.
Eu me dou conta que a minha agonia é pouca demais, é pequena demais pra Maré de dor que tomou conta da avenida. E que ela se alimenta do silêncio, do meu silêncio.
Da minha calma. Da minha apatia.
Do meu luto. Você nem o seu parceiro precisam do meu luto.
Eu entendo isso. Ainda que tardiamente. Já escureceu. Eu ainda estou de estômago vazio. De peito vazio. De corpo preenchido pela agonia silenciosa.
Mas eu começo a gritar.
E a cada grito por sua presença, uma calma.
A minha agonia se acalma no grito.
Descoberto isso. Eu grito alto, e mais alto, e mais alto. Pelo seu nome, pelo nome de seu companheiro. Pelas mulheres negras. Pelas mães cujos filhos estão mortos. Eu grito para preencher o vazio do luto de luta.
A agonia continua feito visita indesejada. Mas agora, ela vai ter que conviver com a luta diária por sua presença.
Marielle, Anderson, PRESENTE!

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    Mariana Luiza

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