De encontro ao meu vermelho
29/01/2018 15:03 - Atualizado em 29/01/2018 15:14
mariana
Hoje, faz dois meses, que pisei em solo cabo-verdiano. Lembro que antes da viagem, uma amiga repetiu por inúmeras vezes que sua ida à ilha de Santigo fora uma experiência aa transformadora. Eu, que naquele momento mudava de corpo, de ânsias e perenidades, não me interessei em perguntar quão e nem como aquela viagem fora de fato importante para Aline. Confesso até que dei de ombros às suas palavras e intenções em me preparar para o encontro. É que eu vinha de muitos desencontros comigo e com outros. Estava incapaz de ouvir algo além das minhas próprias e pulsantes agonias e palavras de confluência não me alcançavam. O ansioso ocupava um vazio conscientemente necessário que eu, inconscientemente, teimava em preencher. E assim, preenchendo espaços na agenda decidi ir à Cabo Verde em cima da hora sem visto, sem câmbio, sem planos.
Meu filme seria exibido no festival de cinema da Praia, o Cine Plateau. E munida da minha ignorância completa sobre as ilhas parti em busca de Cesária Évora.
Desembarquei no aeroporto Nelson Mandela. Era 4 horas da madrugada. O sol ainda não dava sinal. Na imigração, a policial do aeroporto me encaminhou para a fila dos cabo-verdianos e quando cheguei ao guichê, nos demos conta que embora eu parecesse dali, era apenas uma parecença física. Eu ainda não pertencia aquele lugar.
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Peguei um taxi para o hotel, o dia já tinha amanhecido. A primeira coisa que vi quando saí do aeroporto, foi o adesivo de uma van que andava acelerada a nossa frente. "Deus é maior" estampado em letras grossas e pretas. O carro seguiu por uma estrada rodeada de montanhas rochosas da cor de tijolos de concreto. No meio às rochas e à terra seca, casas e pequenos edifícios da mesma cor de cimento passavam desapercebidos na paisagem. Seguimos pela estrada. No camuflado das construções, um prédio imponente que ocupava uma vasta área de planície, chamou minha atenção. Primeiro por seu tamanho desproporcional à paisagem e às edificações ao redor, também por suas paredes brancas diferente da grande maioria, mas principalmente por sua logomarca estampada na laje superior do edifício. Uma pomba branca dentro de um coração vermelho. A igreja universal se fazia presente em Praia. E pela segunda vez, num mesmo dia, eu tive medo do tamanho de deus. A van sumiu pela estrada enquanto o táxi virou para a esquerda. Logo avistei o mar, de um azul de tantos tons capazes de confundir a escala Pantone.
E eu, já seduzida pelo azul em movimento, me esqueci de deus e da universal. Mal cheguei no hotel e pouco tempo tive para descansar. Logo cedo, uma mesa com realizadores de outros países discutia o audiovisual em Cabo Verde e uma senhora simpática chamada Osvaldina telefonou ao meu quarto me convidando para acompanhar os debates. No almoço, comi atum fresco com banana frita, arroz e feijão carioquinha. A banana derretia na boca quando eu lembrei de minha avó, fritando a fruta na beira do fogão, virando bananas cortadas ao meio, numa frigideira cheia de gordura. E eu, ao lado dela, metendo o dedo num prato fundo com uma mistura de açúcar e canela. As minhas parecenças com a Ilha e com aquele povo não era somente física e eu começava a me dar conta disso.
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À tarde, senti o mar na praia de Kebra Canela. No meu primeiro mergulho, um cardume com dezenas de pequenos peixes, todos transparentes, ia e vinha na minha direção junto ao movimento do mar. Um dos peixes se destacava do resto do grupo. Era grande. Tinha o tamanho do meu dedo médio. Eu pude ver por dentro dele, por sua pele translúcida, um fio vermelho que lhe corria da cabeça a ao início do rabo. Fiquei atraída pelo vermelho de dentro, e ele talvez curioso sem ver o meu vermelho, me seguiu enquanto eu dava umas braçadas mar adentro. Não demorou muito para eu me cansar do pouco exercício. Olhei para meus pés debaixo d’água e lá estava o peixe transparente a quase encostar na minha perna.
Meu corpo, se acostumando à nova vida, estava no limite da rebentação. E o peixe de pele translúcida e fio vermelho me acompanhava no perigoso quebrar das ondas. Ele corria um perigo medido, consciente do seu limite, sabedor do recuar. Ao contrário de mim, que afoita com a novidade e liberdade recente, me deixava tomar caldos distraída pelo vermelho debaixo daquela pele que se confundia com as águas.
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Dias depois, fui ao Tarrafal, uma praia na outra ponta da ilha de Santiago. Nadava num mar de surfistas com ondas revoltas e turistas calmos. Estava concentrada nas violentas ondas quando senti pequenas mordidas próximas ao meu umbigo. Era um novo peixe, bem menor do que o translúcido, com uma boca, sempre aberta, desproporcional ao resto do corpo. O peixe tinha a cor do mar num tom que não se deixava camuflar, nem se perder. Ele era um destaque brilhante no topo da sequência de ondas que quebravam sem parar. Eu não vi o seu vermelho. Ele tampouco, embora me desse pequenas mordidas talvez certo de provocar-me uma rubro ferida. Eu sangrava. Mas ele não via. Não era sangue de se ver. E o meu vermelho continuou camuflado pelos próximos dias que passei rodeada de azul, embora de alguma forma inexplicável eu já o desejava misturado às águas de Tarrafal e Kebra Canela.
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Os dias correram com muitas novidades. Rodeada de azul pelo céu e pelas águas vi chegar a areia do Saara que embranqueceu a paisagem e deixou Cabo Verde com a estranha sensação visual de um típico nublado e abafado dia de verão carioca. A diferença é que os ventos continuavam a cruzar a ilha em todas as direções trazendo o frescor contrário ao que eu conhecia daquela estética branca do céu.Viajamos, eu e Iyalê, uma amiga recifense, pelo interior da ilha. As construções cinzentas camufladas na árida paisagem acompanhavam nosso percurso. A falta de água afastava o verde dos arbustos, emagrecia os galhos das árvores que se contorciam e reclinavam moldadas pelo vento. A seca acinzentava as magras folhas da babosa que se espalhavam por todo o canto da ilha. Onde quer que eu andasse me deparava com plantações da suculenta. Nos canteiros, nas frestas entre o asfalto e a calçada, nos jardins das casas, lá estavam elas. Não verdes, não gordas, nem cheias de seiva. Magras, mas populosas, elas resistiam ao árido, reinando no horizonte.
Na volta para o hotel, a repetida paisagem de montanhas cor de pedra, casas camufladas, babosas magras e cinzentas debaixo de um céu todo branco, me lembravam a todo instante que a cor da ilha estava nas pessoas.
mariana
No corpo de vestes coloridas, no varal denunciante que no meio do cinza e da seca existem vida e alegria.
Numa noite em Praia, saímos com um grupo do festival para ouvir a música do arquipélago. Dancei o funaná até doerem as batatas das pernas enquanto duas senhoras comiam um prato de búzios. Elas flertavam comigo enquanto eu dançava. Devolvi o olhar com um sorriso e uma delas me ofereceu uma colherada da iguaria. Era uma senhora bem gorda, nos seus quase cinquenta anos. Usava um vestido vermelho colado no corpo que lhe ressaltava as mamas grandes e o excesso de peso. O vestido estampava uma caricatura do rosto de Marilyn Monroe, que quando ela se debruçava sobre o prato, rapidamente se transformava na fisionomia de Karl Marx. E entre uma colherada e outra, Marylin e Marx ouviam o funaná e me viam dançar.A mulher me ofereceu, pela segunda vez, um pouco de búzios e para me convencer da prova disse: Coma! Búzios dá tesão!
Eu me aproximei e ela já foi metendo a colher com búzios apimentados na minha boca. Era a mesma colher que ela comia. E sem cerimônias, compartilhamos as salivas, o molho, os búzios e o tesão da ilha de Santiago. Eu já pertencia aquele lugar por todos os meus seis sentidos. Encantada com as cores nas pessoas e nos varais, com a música das ilhas, com o sabor fresco do atum e da banana, com o compartilhar das colheres e dos abraços e com o cheiro de mar misturado ao das pessoas. O sexto sentido, o do gozo, eu tive quando comi búzios na comunhão do capital de Marx, Marilyn e o funaná. Mas apesar do encontro consumado, eu ainda pensava que o meu fascínio por Cabo Verde não passava de uma paixão efêmera. Não sabia, mas meu vermelho estava prestes a transparecer para fazer de mim, mais uma dos milhões de cabo-verdianos que vagam por terras em continentes a sentir saudades das ilhas.
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Numa visita à Cidade Velha experimentei o estranho sentimento de um vazio e preenchimento num mesmo tempo e espaço. Primeiro, a consciência de estar num lugar cuja história é tão dolorosamente conectada à minha própria história. Depois, o deslumbramento de ali, naquele mesmo lugar, me maravilhar com um mergulho num pequeno saco de mar escondido entre as falésias do litoral. Foi difícil acharmos o lugar exato em que Jorge, um novo amigo que fiz na Ilha, costumava nadar na sua adolescência há mais de 20 anos. Procuramos por alguns minutos dirigindo ao norte da Cidade Velha. Quando quase desistíamos, Jorge encontrou tal pedaço de mar. E eu, encontrei um búzio morto nas rochas enquanto descíamos as falésias para o mergulho. Nadamos num mar azul royal junto a cardumes de peixes grandes que não ousaram se aproximar.
Eu mergulhava o mais profundo que conseguia e abria os olhos na tentativa do meu vermelho se misturar aquele azul e me fazer pertencer aquele lugar, que segundo historiadores nunca fora habitado por pessoas até a chegada dos portugueses em meados do século XV.
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É estranho pensar que a vida humana originária da ilha chegou pelo mar, por embarcações transeuntes, com ideal de não pertencimento. Estranho pensar que centenas de âncoras destas embarcações estão hoje presas no fundo do mar atraindo mergulhadores à procura de objetos transitórios entranhados nas rochas. Mas ainda assim eu mergulhava profundo. Na tentativa rasa de enraizar numa ilha sem raízes.
Almoçamos um filé de atum fresco, cozido na brasa. Eu o vi ainda inteiro, chegando nos braços do pescador que saía de um pequeno barco atracado às pedras. O peixe estava fechado e brilhante, sem revelar o seu vermelho. Esperamos bons minutos pelo almoço, e enquanto aguardávamos, ouvi histórias sobre a cidade mais antiga fundada pelos colonizadores portugueses. Histórias de escravidão. De números inimagináveis, de difícil visualização. De 20 milhões de homens e mulheres comercializados no Pelourinho localizado há uns trinta metros do restaurante em que aguardávamos o almoço. Histórias que expuseram o meu vermelho. Fazendo-me jorrar de dor e tristeza. Fazendo-me conectar e, finalmente, pertencer aquele lugar, não no gozo, nem no prazer. Não pelas cores, nem pela música. Não pela língua, nem pelo tato. Mas na dor. A dor é também uma forma de pertencimento. Talvez a mais potente delas.
Me pus a pensar no desencontro do tempo. Nos tubarões, nas passarinhas, atuns e moréias que reinavam em absoluto antes da chegada de Colombo, Cabral e Vasco da Gama e que hoje, tentam sobreviver à pesca predatória dos pesqueiros japoneses e europeus.
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Me pus a pensar nas mulheres, que carregavam sobre as cabeças bacias com peixes trazidos por seus homens. E que na escassez do atum, enchem as bacias de areia da praia, para vendê-las a indústria imobiliária que constrói um cassino-hotel num litoral privado em frente ao farol. Mulheres que carregam pedras, no lugar de peixes. Me pus a pensar numa das histórias que ouvi sobre a ilha do Fogo, onde há milhões de anos, houve uma tsunami depois da queda da parede de um vulcão. Ondas com mais de 20 metros se formaram levando lavas e rochas para a Ilha de Santiago. Há poucos anos, um geólogo cabo-verdiano comprovou com um exame de carbono, que as rochas que formavam algumas praias de Santiago não pertenciam àquela ilha.Mais uma vez, o mar levava e trazia à Cidade Velha aquilo que não lhe era nativo. Nossa Senhora da Penha da França, Socorro, Voadora, Secours e Nove de Março. Cinco navios negreiros transportaram africanos capturados no continente, que partindo de Cabo Verde chegaram ao norte do Brasil. Enquanto fazia o mesmo trajeto numa rota aérea, eu pensava, sobrevoando o azul, que talvez, alguns de nós, do lado de cá, traga no seu vermelho, um pouco do vermelho da ilha de Santiago Uma quantidade inexpressível comparada aos cinco milhões de negros que abarcaram terras do Pau Brasil. Números e dados imprecisos de pessoas cuja história e origem foi cruelmente apagada pela colonização portuguesa.
De volta ao Rio de Janeiro, na terra em que chamo de casa mas não sinto pertencer, mergulhei no mar de Copacabana. Não havia cardumes, nem peixes translúcidos. Não vi o vermelho de ninguém. Também não vi o meu próprio. O dia estava nublado, a praia estava vazia. E sentada na areia de frente ao mar me pus, novamente, a pensar na vontade inexplicável de me encontrar justamente numa terra de tantos desencontros. Num lugar da passagem dos ventos e das pessoas.
“Há mais cabo-verdianos fora das ilhas do que os que vivem no arquipélago.” Me disse Samira, cineasta que conheci durante o festival.Cabo Verde é um arquipélago de encruzilhadas.
Há correntes marítimas por todos os cantos. Ventos e águas que trazem lavas, rochas, embarcações, âncoras, areias do Saara, pessoas e atuns. Ventos e águas que levam bens, posses, pertences, pessoas, minerais, fortuna, capital e acervos, mas são incapazes de levar a pungente a saudade que sinto daquele lugar, e que agora trago no meu vermelho.

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    Mariana Luiza

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