Nossas músicas
- Atualizado em 30/11/2017 08:27
quando ainda era assim
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Nossas músicas
Cãndida Albernaz
Está ouvindo a música?
“... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem. Hoje, eu já cansei de pra você, não ser ninguém...” Há quantos anos não a escutava? Lembra-me um dos verões que passamos juntos. Que ano era aquele? Você também não sabe, não é? Tanto tempo... A gente conseguia rir de tudo. Era isso mesmo, naquela época não tínhamos motivo para não aproveitar.
“... Nunca mais vou fazer o que meu coração pedir. Nunca mais vou ouvir o que meu coração mandar...” Essa música me recorda cada coisa... o Antenor atrás da Vilminha e ela nem ligando para ele. O sujeito tomava um porre atrás do outro! E todos nós achando engraçado o sofrimento dele. Ninguém conseguia levar aquilo a sério. Dizia que sem ela ia acabar se matando. Vivia nos extremos, o Antenor. Até que uma noite você chegou com uma amiga e ele com o dia quase amanhecendo, veio falar que agora sim, conhecia o que era amar. O que sentira no passado pela Vilminha fora um engano. - Amor à primeira vista, meu irmão. Isso é que é amor real.
E olhávamos para ele, ríamos da cara de bobo que fazia e continuávamos rindo imaginando o quanto sua amiga ia penar com esse amor de perseguição que ele entornaria com vontade em cima dela.
Estou vendo nos seus olhos que está rindo também. Gosto quando a vejo mais animada. Não está com frio? Se preferir, podemos entrar. Mas acho que você também quer ficar mais um pouco. A noite está bonita e amanhã fará sol. Céu estrelado. Será que nossa estrela ainda está lá? Todo jovem de nossa época tinha uma.
Ouve essa que está tocando agora? Alguém que viveu nossa juventude relembra. Assim como nós.
“... Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora da partida...” linda, não é mesmo? Lembro-me de ouvir você cantando algumas vezes. Voz rouca e suave. Nunca falei, mas quando a ouvia sentia um desejo enorme de você. É isso mesmo. Sua voz cantando me deixava louco. Rindo de novo? Acho que fazia de propósito. Sabia que mexia comigo. Às vezes, tínhamos brigado e daqui a pouco você passava por mim interpretando alguma música. Baixinho. Mal me aguentava de vontade de fazer as pazes. Fale a verdade. Quantas vezes usou isso para me seduzir?
Ei! Que olhar triste é esse agora? Só porque não pode mais cantar? E daí? Também já não posso fazer tanta coisa... E você sempre me atraiu. Corpo, olhos, boca, voz. Sabe disso, não sabe?
Ouve “... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...”
Você se entusiasmava quando me vendo remando. Eu era um bocado forte. Sei do que você mais sentia atração em mim: o peito!, que era largo, musculoso, costumava passar os dedos nele e quando me abraçava, apertava seu rosto ali. Gostava de remar por nosso clube. Depois a vida, o trabalho, fez com que eu parasse.
Sabe quem vi no outro dia? Romualdo. Lembra-se dele? Está velho, encurvado. Acho que pensou o mesmo de mim. Mas não estou tão velho assim. Claro que ando evitando os espelhos. Essa porcaria não mostra como me sinto. E aquele que vejo ali refletido não tem nada a ver comigo. É apenas a casca. Fala para mim: sou bonitão apesar da idade, e esse cabelo branco dá charme, não acha? Você dizia isso quando eles começaram a aparecer. Falava que me deixava ainda mais interessante e que ia precisar vigiar em dobro, porque mulher adora homem começando a ficar grisalho.
Está esfriando, melhor entrarmos. A música também parou. Acho que quem ouvia resolveu dormir.
Deixe ajeitar a manta em seus joelhos. Pronto. Essa cadeira que comprei é melhor do que a antiga. Mais leve para empurrar.
Sabe qual a parte que mais gosto do dia? Quando tiro você daí, a hora de deitá-la na cama. Coloco-a no meu colo e sinto seu corpo. Vejo o rosto tão próximo do meu e sinto saudades. Uma saudade boa.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".