Guilherme Belido Escreve - Morte por espera
Guilherme Belido - Atualizado em 17/06/2017 21:47
Dr. Herbert
Dr. Herbert / Divulgação
Alvo de sucessivas reivindicações e esforços de profissionais da área de Cardiologia Pediátrica do Norte/Noroeste Fluminense – de Campos, em particular – uma pequena luz, ainda tímida, surge no fim do túnel como trincheira ao combate à cardiopatia congênita: a disposição da Secretaria Estadual de Saúde de buscar alternativas para amenizar o quadro, com o credenciamento de serviços de cirurgia infantil na região.
Isso porque o grande obstáculo ao tratamento da má formação estrutural do coração está na falta de um Centro Cirúrgico e UTI cardiopediátrica na rede hospitalar local, indispensáveis para que crianças possam ser operadas.
Como a maioria dos diagnósticos recomenda a intervenção cirúrgica logo após o nascimento e só um hospital no estado realiza o procedimento, a longa espera resulta num dramático número de óbitos.
Segundo dados da Secretaria de Saúde do RJ, na região existem 110 crianças na fila de espera, a maioria de Campos, sendo que as estatísticas mostram que menos de 10% conseguem fazer a cirurgia. Um quadro, portanto, rigorosamente incompatível com o potencial econômico de Campos.
Desde 2010 liderando movimentos para que seja viabilizada estrutura capaz de realizar essas intervenções, o especialista Herbet Rosa Pires Jr. traz considerações gerais sobre o procedimento, catalogado como de alta complexidade.
Formado pela Faculdade de Medicina de Campos, Herbet Pires é pós-graduado em Cirurgia Cardiovascular Pediátrica pelo Hospital da Criança de Goiânia (GO), com especialidade no Hospital de Base de São José do Rio Preto (SP) e na Clínica Perinatal da Barra – serviço Jefferson Magalhães – (RJ).
É cirurgião cardiovascular do Hospital Álvaro Alvim, com atuação também no Hospital Geral de Guarus (cirurgião geral) e na UTI neonatal/pediátrica do Hospital dos Plantadores de Cana, nos casos de cardiopatias simples.
A cardiopatia congênita é responsável por trágico índice de mortalidade infantil no interior fluminense, consequentemente exigindo reversão num quadro que, se infelizmente comum em lugares inóspitos do Brasil, mostra-se ainda mais inaceitável em regiões fora da linha da miséria, particularmente quando os números são tão avassaladores, como enfatiza Herbet.
“Muito embora (e por incrível que pareça) o maior percentual de morte infantil no Brasil seja a desidratação em decorrência de diarreia – consequência de país de terceiro mundo – há de se ter em conta que qualquer enfermidade em que apenas 10% dos pacientes tenham acesso ao tratamento, certamente merece ser vista com atenção. É o caso das cirurgias de cardiopatias congênitas, porque apenas o Instituto Nacional de Cardiologia, em Laranjeiras, Rio, realiza a intervenção. Então, temos uma fila e um tempo de espera (média de 8 meses) sobremaneira maiores que a demanda”.
O médico, único especialista em cirurgia cardiopediátrica da região, adverte que os números já tão elevados podem ser ainda mais alarmantes, posto que os dados reproduzem apenas os oficiais: “Quando se fala em 110 crianças, miramos no levantamento da Central de Vagas da Secretaria de Saúde, que informa os que efetivamente estão na fila de espera. Mas certamente esse quantitativo é bem maior. E pior: na maioria das vezes, o diagnóstico prevê intervenção imediata do recém-nascido, que não pode esperar semanas... tampouco meses. Então, é mesmo um drama”.
Saúde para todos
Cabe observar, como lembra Herbet, muito embora o sistema de Saúde não disponibilize, de forma plena, procedimentos bem mais simples, o investimento para a referida unidade de centro cirúrgico e UTI é muito baixo tendo em vista a relação custo-benefício.
“Como médico – e cidadão – não devo tomar o menos como padrão. É comum a gente ouvir que em algumas localidades do Nordeste, por exemplo, falta tudo... onde não chega sequer os procedimentos básicos, etc. Então, pergunto: devemos ter em mente estender para as regiões mais pobres a Saúde e o bem estar social dos estados mais ricos, ou “importar” para o Sudeste e Sul a injustiça social infelizmente vigente nas áreas menos favorecidas? É evidente que o mais, para o menos; e não o contrário. A saúde não pode ser nivelada por baixo. Deve ser para todos. E se hoje se nos afigura como utopia, é nosso dever trabalhar para que vire realidade”.
Pequeno investimento – De toda forma, Herbet Rosa Pires enfatiza o baixo investimento para benefício tão significativo: “Atualmente, para se montar uma UTI completa, com 10 leitos destinados a crianças com esse perfil, o investimento gira em torno de R$ 100 mil por leito, ou seja, R$ 1 milhão. Isso com todos os equipamentos e materiais. Então, é algo perfeitamente factível com nossa realidade e você tira dessa fila os pacientes aqui da região. Veja bem: estamos falando de possibilidades de salvar vidas por um custo irrelevante.”
Credenciamento
O movimento visando a UTI pós-operatória cardiopediátrica começou há cerca de 10 anos, através de ampla campanha pela imprensa, chamando atenção para o problema e apontando caminhos. Agora, contudo, a Secretaria Estadual de Saúde dá os primeiros passos para equacionar a questão, estudando a possibilidade de credenciar a cirurgia infantil, como explica Rosa Pires:
“De fato, juntamente com outros colegas, temos buscado viabilizar o projeto. Os esforços para essa finalidade envolvem vários cirurgiões cardíacos. Entretanto, tem sido fundamental o trabalho do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro no sentido de sensibilizar a Sec. Est. de Saúde na busca de soluções. E um passo importante – que, de fato, agora, está sendo considerado... digamos em vias de ser implantado – é o credenciamento de serviços de cirurgia especializada na área. Diria que é um largo passo, porque cria o recurso para atender à demanda”.
Herbet aponta que não se trata apenas da UTI, mas de toda a estrutura para o procedimento cirúrgico, como médicos, enfermagem, fisioterapeutas, etc. Ressalva, contudo, que sendo baixo o investimento para um hospital com perfil voltado para alta complexidade (como já dito), o credenciamento facilita todo o processo na medida em que a estrutura a ser montada já encontraria, de pronto, as três frentes básicas: a demanda, que é o paciente; o profissional especializado; e o recurso para cobrir as cirurgias, através do credenciamento.
Considerações
O cirurgião cardiovascular relata que segundo dados, a cada mil crianças, de 5 a 8 poderão apresentar problema de má formação e que muitos óbitos por “morte súbita” encobrem a verdadeira causa, que é a cardiopatia congênita, nos casos em que sequer chega a ser diagnosticada.
“A má formação estrutural ou funcional do coração pode ser descoberta na fase pré-natal, através do ecofetal, mas como não é coberto pelo SUS, o exame fica inacessível para grande parte da população. As intervenções mais simples já são feitas na Beneficência e Plantadores, que dispõem de UTIs neo-natais para receber o recém-nascido vindo de procedimento comum, menos complexo, – mas não uma criança operada de cardiopatia”.
Finalizando, Herbet Rosa Pires se diz esperançoso de que agora estejamos perto de reverter esse quadro que leva a tão elevado número de óbitos por falta do serviço especializado.
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