Homem do Saco
21/02/2017 18:15 - Atualizado em 18/12/2017 22:27
Minha avó morou na casa dos meus pais desde que eu nasci. Era ela quem cuidava de mim e do meu irmão enquanto os dois trabalhavam. Quase todas as minhas memórias de cheiros e sabores têm o dedo da dela. O cheiro do alho socado torrando na panela para fazer o arroz. O bolo de laranja que perfumava toda a casa. Dona Diva cozinhava brilhantemente. Fazia uma carne moída com batata que ninguém faz igual. Uma receita simples, sem segredos ou temperos extravagantes. Um tradicional refogado de carne moída com batatas cortadas bem pequeninas de sabor, textura e formato diferente de todas as carnes moídas com batata que já provei na vida.
Ninguém que eu conheço sabe cortas as batatas em formas triangulares tão perfeitas e proporcionais ao moído das carnes como a minha avó Diva. Acho que esse era um dos segredos. O outro era a maneira com que ela comprava  carne moída. Escolhia cuidadosamente a peça de patinho e pedia ao açougueiro que moesse com todo carinho. A carne era para um bebê. Passou a vida comprando carne moída desta maneira. E os bebês para qual ela cozinhava já tinha mais de 20 anos, cada.
Dona Diva tinha um caderno de culinária onde anotava as receitas do manjar de côco e pavê de biscoito champanhe que ela sempre fazia pro natal. Eu adorava folheá-lo, muito mais interessada na sua grafia, que era linda, e nas figuras que ela recortava das revistas para ilustrar as anotações, do que nas próprias receitas.
Cresci gostando de escrever e sem saber cozinhar.
Nas manhãs, de segunda a sexta, minha avó repetia a rotina de preparar o arroz fresquinho. Eu contava as horas, e sentava na mesa da cozinha fingindo fazer companhia, quando o que me interessava mesmo era comer o arroz torrado. Antes de colocar a água fervendo, ela passava uns bons minutos torrando o cereal numa panela cheia de alho amassado. E eu, ansiosa, esperava na beira do fogão, mendigando uma colherzinha de chá que fosse daquele arroz antes da água. Minha avó era uma senhora bem mesquinha. Dessas que esconde moedas e nega colher de chá de arroz pros netos. Muitas vezes, eu precisava roubar escondido quando quisesse alguma quantidade satisfatória. E para evitar que eu comesse demais, ela sempre contava uma história de uma vizinha que por comer muito arroz cru, teve os ouvidos e orifícios do nariz tomados por chumaços de brotos de arroz que germinavam no estômago e saiam pelos buracos do rosto. Outra vez contou algo semelhante sobre um ramo de feijão que nasceu no umbigo da neta de uma colega. Eu não ligava muito e continuava a praticar minhas artimanhas para roubar um pouco do arroz torrado. Minha vontade era maior do que o medo. Mas tinha uma outra história, contada por minha avó e também relacionada com comida, que me assombrou por muito tempo. 
Fui uma criança que nunca comeu cachorro quente. Provei já adulta, mas até hoje tenho ressalvas.
Para evitar que eu e meu irmão brigássemos, a gente brigava de se espancar, dona Diva nos ameaçava dizendo conhecer o homem do saco. A briga começava e lá ia ela em direção ao telefone, dizendo que ia ligar para o tal colega. O homem do saco perambulava pela cidade catando crianças desobedientes para fazer salsicha.
Conclusão: Desistir de brigar? Nunca.
Eu e meu irmão sabíamos que a avó não teria coragem de ver seus netos transformados em em salsichas... mas daí a comer coleguinhas nas festinhas de aniversário... Nem pensar.
Lembro que nas festas de aniversário dos amiguinhos de colégio, quando os pais serviam cachorro quente, eu ficava horrorizada com tamanho descaso e falta de amor com às crianças desconhecidas. "O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes...

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    Sobre o autor

    Mariana Luiza

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